O GRANDE
DESCONHECIDO
O PURGATÓRIO, MISTÉRIO DE MISERICÓRDIA
(Continuação...)
Capítulo XXI
Alívio às Santas Almas pelas Orações - As Orações do Irmão Corrado d'Offida - O Anzol de Ouro e o Fio de Prata
Depois do Santo Sacrifício da Missa, temos uma multidão de meios secundários, mas muito eficazes, para aliviar as santas almas, se os empregarmos com espírito, fé e fervor. Em primeiro lugar, a oração - a oração em todas as suas formas. Os Anais da Ordem Seráfica falam com admiração do Irmão Corrado d'Offida, um dos primeiros companheiros de São Francisco. Distinguia-se por um espírito de oração e de caridade, que contribuía muito para a edificação dos seus irmãos. Entre estes, havia um jovem monge cuja conduta relaxada e desordenada perturbava a santa comunidade; mas, graças às orações e às caridosas exortações de Corrado, corrigiu-se inteiramente e tornou-se um modelo de regularidade. Pouco depois desta feliz conversão, faleceu e os seus irmãos deram-lhe os sufrágios ordinários.
Passados alguns dias, quando o Irmão Corrado estava em oração diante do altar, ouviu uma voz que pedia o auxílio de suas orações. 'Quem és tu?' - disse o servo de Deus. 'Sou a alma do jovem religioso que reanimaste ao fervor' - respondeu a voz. 'Mas não morreste uma morte santa? Continuas a precisar ainda de orações?'. 'Sim, morri uma boa morte e estou salvo, mas por causa dos meus pecados anteriores, que não tive tempo de expiar, sofro o mais terrível castigo, e peço-lhe que não me recuse o auxílio das suas orações'. Imediatamente o Irmão Corrado prostrou-se diante do sacrário e rezou um Pater, seguido de um Requiem aeternam. 'Ó meu bom Padre' - exclamou a aparição - 'que refrigério me traz a tua oração! Oh, como ela me alivia! Peço-vos que continueis a rezar'. Corrado repetiu devotamente as mesmas orações. 'Pai amado' - repetiu de novo a alma - 'ainda mais, ainda mais! Sinto um alívio tão grande quando rezas!' O caridoso religioso continuou as suas orações com renovado fervor e repetiu o Pai Nosso por cem vezes. Então, com acentos de indizível alegria, a alma falecida lhe disse: 'Agradeço-te, meu bom padre, em nome de Deus, porque agora estou libertado e prestes a entrar no Reino dos Céus'.
Vemos, por este exemplo, como são eficazes as menores orações e as mais curtas súplicas para aliviar os sofrimentos das pobres almas. Li - diz o Padre Rossignoli - que um santo bispo, arrebatado em êxtase, viu uma criança que, com um anzol de ouro e um fio de prata, tirou do fundo de um poço uma mulher que nele se tinha afogado. Depois da sua oração, e quando se dirigia para a igreja, viu a mesma criança a rezar junto a uma campa no cemitério. O que estás a fazer aí, meu amiguinho? Estou a rezar o Pai-Nosso e a Ave-Maria' - respondeu a criança - 'pela alma da minha mãe, cujo corpo está aqui enterrado'. O prelado compreendeu imediatamente que Deus lhe queria mostrar a eficácia da oração mais simples; sabia que a alma daquela mulher tinha sido libertada, que o anzol era o Pater e que a Ave era o fio de prata daquela linha mística'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXII
Alívio às Santas Almas pelas Orações - O Santo Rosário - Padre Nieremberg e o Terço Perdido - Madre Francisca do Santíssimo Sacramento e o Santo Rosário
Sabemos que o Santo Rosário ocupa o primeiro lugar entre todas as orações que a Igreja recomenda aos fiéis. Esta excelente oração, fonte de tantas graças para os vivos, é também singularmente eficaz para aliviar os defuntos. Temos uma prova comovente disso na vida do Padre Nieremberg, que já mencionamos em outro lugar. Este caridoso servo de Deus impunha a si mesmo frequentes mortificações, acompanhadas de devoções e orações para o alívio das pobres almas sofredoras. Não deixava de rezar o terço todos os dias em intenção delas e de lhes obter todas as indulgências ao seu alcance, oferta que recomendou aos fiéis numa obra especial que publicou sobre o assunto. O terço que usava era ornamentado com medalhas piedosas e enriquecido com numerosas indulgências. Um dia perdeu este terço e ficou inconsolável; não que este santo religioso, cujo coração não estava preso a nada na terra, tivesse qualquer apego material a essas contas, mas porque se viu privado do meio de obter o alívio que costumava dar às pobres almas. Procurou por toda a parte, tentou lembrar-se de onde poderia ter colocado o seu precioso tesouro: tudo foi inútil e, quando chegou a noite, viu-se obrigado a substituir o seu terço indulgenciado por orações comuns.
Enquanto estava assim ocupado e sozinho na sua cela, ouviu um ruído no teto semelhante ao passar de suas contas e que lhe era bem conhecido; levantando os olhos, viu na realidade o seu terço, segurado por mãos invisíveis, descer em direção a ele e cair aos seus pés. Não duvidou que as mãos invisíveis eram as das almas que foram aliviadas por este meio. Podemos imaginar com que renovado fervor recitava as suas habituais cinco dezenas e quanto este fato extraordinário o encorajava a perseverar numa prática que era tão visivelmente aprovada pelo Céu.
A Venerável Madre Francisca do Santíssimo Sacramento teve desde a sua infância a maior devoção para com as almas sofredoras e nela perseverou enquanto viveu (Sa Vie par le R. Joachim; Vid. Rossignoli, Merv., 26). Ela era toda coração e toda devoção para com aquelas pobres e santas almas. Para as ajudar, rezava diariamente o seu terço, a que costumava chamar o seu esmoler, e terminava cada dezena com o requiescant in pace. Nos dias de festa, quando tinha um maior tempo livre, acrescentava o Ofício dos Mortos. À oração juntava as penitências. A maior parte do ano jejuava a pão e água e nas vigílias praticava outras austeridades. Teve de suportar muitos trabalhos e fadigas, dores e perseguições. Todos estes trabalhos foram transformados em sufrágios para as santas almas, a quem Madre Francisca oferecia tudo a Deus para o alívio delas.
Não contente com o fato de os ajudar ela própria, na medida das suas possibilidades empenhava os outros a fazer o mesmo. Se acorriam sacerdotes ao convento, pedia missas para as almas; se eram leigos, aconselhava-os a distribuir abundantes esmolas pelos fieis defuntos. Em recompensa da sua caridade, Deus permitia frequentemente que as almas a visitassem, quer para pedir os seus sufrágios, quer para lhe agradecer. Testemunhas afirmam que, por várias vezes, certas almas a esperavam visivelmente à porta, quando ela se dirigia para o Ofício das Matinas, para se recomendarem às suas orações. Outras vezes, entravam em sua cela para lhes apresentar o seu pedido e rodeavam a sua cama, esperando que ela acordasse. Estas aparições, a que estava habituada, não lhe causavam qualquer receio e, para que não se julgasse refém de algum sonho ou vítima do demônio, diziam-lhe, ao entrar: 'Salve, serva de Deus, esposa do Senhor! Que Jesus Cristo esteja sempre contigo!' Em seguida, testemunhavam a sua veneração por uma grande cruz e pelas relíquias dos santos que a sua benfeitora guardava em sua cela. Se a encontravam a rezar o terço, acrescentam as mesmas testemunhas, tomavam-lhe as mãos e beijavam-nas carinhosamente, como fruto e instrumento da sua libertação.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog
Capítulo XXIII
Alívio às Santas Almas pelo Jejum, Penitências e Mortificações - Um Copo de Água - O Lamento de uma Religiosa a Santa Margarida Maria
Depois da oração, vem o jejum, isto é, não só o jejum propriamente dito, que consiste na abstenção de alimentos, mas também de todas as obras penitenciais, quaisquer que sejam elas. É preciso notar aqui que não se trata apenas das grandes austeridades praticadas pelos santos, mas de todas as tribulações, de todas as contradições desta vida, como também das menores mortificações, dos menores sacrifícios que nos impomos ou aceitamos por amor de Deus e que oferecemos à sua Divina Misericórdia para alívio das almas santas.
Um copo de água, que recusamos quando temos sede, é uma coisa insignificante e, se considerarmos esse ato em si mesmo, dificilmente veremos a eficácia que ele possa ter para aliviar os sofrimentos do Purgatório. Mas a bondade divina é tal que se digna aceitar esse sacrifício como sendo de grande valor. 'Se me permitem' - diz o Abade Louvet, falando sobre este assunto - 'contarei um exemplo que se deu quase sob minha própria experiência pessoal. Uma de minhas parentes era religiosa em uma comunidade que ela edificava, não por aquele heroísmo de virtude que brilhava nos santos, mas por uma virtude comum e uma grande regularidade de vida. Aconteceu que ela perdeu uma amiga que tinha conhecido no mundo e, desde que soube da sua morte, assumiu o dever de recomendar a sua alma a Deus.
Uma noite, estando com muita sede, o seu primeiro impulso foi refrescar-se com um copo de água, o que lhe era permitido pelo regulamento; mas, lembrando-se da sua falecida amiga e, em benefício da sua alma, recusou a si própria esta pequena gratificação. Em vez de beber o copo de água que tinha na mão, deitou-o fora, pedindo a Deus que tivesse piedade da pessoa falecida. Esta boa irmã lembra-nos o rei Davi que, encontrando-se com o seu exército num lugar sem água e oprimido pela sede, recusou-se a beber a água refrescante que lhe traziam das cisternas de Belém. Em vez de a levar aos seus lábios ressequidos, derramou-a como libação ao Senhor e a Sagrada Escritura cita este ato do santo Rei como um dos mais agradáveis a Deus. Ora, esta ligeira mortificação que a nossa santa religiosa impôs a si própria, negando a si mesma este gole de água, foi tão agradável a Deus, que Ele permitiu que a alma da falecida se manifestasse por uma aparição. Na noite seguinte, apareceu à Irmã, agradecendo-lhe vivamente o alívio recebido. Aquelas poucas gotas de água que, em espírito de mortificação, ela havia negado a si mesma, transformaram-se em fonte refrescante capaz de amenizar para ela o calor do fogo do Purgatório.
Queremos observar que o que aqui dizemos não se limita aos atos de mortificação supererrogatória [além do obrigatório], mas também das mortificações obrigatórias; ou seja, de tudo que temos de padecer no cumprimento dos nossos deveres, e de todas as boas obras a que nos obrigam os nossos deveres de cristãos ou os deveres do nosso estado particular de vida. Assim, todo o cristão é obrigado, em virtude da lei de Deus, a abster-se de palavras imprudentes, de calúnias e de murmurações; assim, todo o religioso deve observar o silêncio, a caridade e a obediência, tal como prescrito na Regra. Ora, estas observâncias, embora obrigatórias, quando praticadas no verdadeiro espírito de um cristão, com o objetivo de agradar a Deus, em união com os trabalhos e sofrimentos de Jesus Cristo, podem tornar-se sufrágios e servir para aliviar as santas almas.
Naquela famosa aparição em que a bem aventurada Margarida Maria viu a falecida religiosa sofrendo intensamente pela sua tibieza, a pobre alma, depois de ter relatado em pormenores os tormentos que padecia, concluiu a sua fala com estas palavras 'Ai de mim! Uma hora de recolhimento em silêncio curaria a minha boca ressequida; outra passada na prática da caridade curaria a minha língua; outra passada sem murmurar nem desaprovar as ações da Superiora curaria o meu coração torturado'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog
Capítulo XXIV
Alívio às Santas Almas pela Sagrada Comunhão - Santa Madalena de Pazzi e suas 107 Comunhões - Comunhão Geral pelas Almas dos Falecidos - A Conversão do Pecador e o Aviso do Mendigo
Se as boas obras ordinárias proporcionam tanto alívio às almas, quais não seriam os efeitos da obra mais santa que um cristão pode realizar, ou seja, a Sagrada Comunhão? Quando Santa Madalena de Pazzi viu o seu irmão nos sofrimentos do Purgatório, tocada de compaixão, derreteu-se em lágrimas e exclamou com voz lamentável: 'Ó alma aflita, como são terríveis as tuas dores! Por que não são compreendidas por aqueles que não têm coragem de carregar sua cruz aqui embaixo? Quando ainda estavas neste mundo, meu caro irmão, não me ouvias, e agora desejas ardentemente que eu te ouça. Pobre vítima, que queres de mim?' Ouviu-se então se contar até o número cento e sete e, depois, ela o ouviu exclamar em voz alta que esse era o número de comunhões que ele a pedia em tom de súplica. 'Sim' - ela respondeu - 'posso facilmente fazer o que me pedes, mas infelizmente quanto tempo levarei para pagar essa dívida! Se Deus me permitisse, eu iria de bom grado para onde tu estás, para te libertar e para impedir que outros descessem até lá'. A santa, sem omitir as suas orações e outros sufrágios, fez com o maior fervor todas as comunhões que o seu irmão a chamara a fazer para a sua libertação.
Trata-se de um piedoso costume estabelecido nas igrejas da Companhia de Jesus - nos conta Padre Rossignoli - oferecer todos os meses uma comunhão geral em benefício das almas do Purgatório e Deus dignou-se mostrar por um prodígio como esta prática lhe é agradável. No ano de 1615, quando os Padres de Roma celebraram esta comunhão mensal na igreja de Nossa Senhora do Trastevere, estava presente uma multidão de pessoas. Entre os cristãos fervorosos, encontrava-se um grande pecador que, embora participasse nas cerimônias piedosas da religião, levava há muito tempo uma vida muito ruinosa. Este homem, antes de entrar na igreja, viu sair e avançar em sua direção um homem de aspecto humilde, que lhe pediu uma esmola por amor de Deus. Este, a princípio, recusou mas o pobre homem, como é costume com os mendigos, persistiu, pedindo uma segunda e uma terceira vez, num tom de súplica muito lamentável. Finalmente, cedendo a uma boa inspiração, o nosso pecador chamou o mendigo e deu-lhe uma moeda.
Então o pobre homem mudou as suas súplicas para uma outra linguagem. 'Guarde o seu dinheiro' - disse ele - 'não tenho necessidade da sua liberalidade; mas o senhor mesmo precisa muito de mudar de vida. Saiba que foi para lhe fazer esta salutar advertência que eu vim do Monte Gargano para a cerimônia que hoje devia ter lugar nesta igreja. Há vinte anos que levas esta vida deplorável, provocando a ira de Deus em vez de a apaziguar com uma confissão sincera. Apressa-te a fazer penitência se quiseres escapar ao golpe da Justiça Divina que está prestes a cair sobre a tua cabeça'.
O pecador ficou impressionado com estas palavras; um medo secreto apoderou-se dele ao ouvir ser revelados os segredos da consciência, que julgava serem conhecidos apenas por Deus. A sua comoção aumentou ainda mais quando viu o pobre homem desaparecer como fumo diante dos seus olhos. Abrindo o seu coração à graça, entrou na igreja, pôs-se de joelhos e derramou uma torrente de lágrimas. Depois, sinceramente arrependido, procurou um confessor, confessou os seus muitos pecados e pediu perdão. Depois da confissão, contou ao sacerdote o que lhe tinha acontecido, pedindo-lhe que o desse a conhecer, para que a devoção para com as almas santas aumentasse, pois não tinha dúvidas de que tinha sido uma alma acabada de libertar do Purgatório que lhe tinha obtido a graça da conversão.
Poder-se-ia perguntar quem teria sido o misterioso mendigo que apareceu a este pecador para o converter? Alguns acreditavam que não seria outro senão Miguel Arcanjo, porque ele disse que vinha do Monte Gargano. Sabemos que este monte é celebrado em toda a Itália por uma aparição de São Miguel, em cuja honra foi erigido um magnífico santuário. Seja como for, a conversão deste pecador por um tal milagre, e no mesmo momento em que se rezava e se comungava em intenção dos fieis defuntos, mostra claramente a excelência desta devoção e como a mesma deve ser agradável aos olhos de Deus. Concluamos, pois, com as palavras de São Bernardo: 'Que a caridade vos leve a comungar pelos falecidos, pois nada há de mais eficaz para o eterno repouso das suas almas'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXVI) https://www.sendarium.com/search?q=O+DOGMA+DO+PURGAT%C3%93RIO+%28LXVI%29
Capítulo XXV
Alívio às Santas Almas pela Via Sacra - Venerável Maria d'Antigna e essa Santa Devoção
Depois da Sagrada Comunhão, falemos da Via Sacra. Este santo exercício pode ser considerado em si mesmo, bem como nas indulgências com que é enriquecido. Em si mesmo, é um modo solene e muito excelente de meditar a Paixão do nosso Salvador e, por conseguinte, o exercício mais salutar da nossa santa religião.
No seu sentido literal, a Via Sacra é a distância percorrida pelo Homem-Deus, carregando o peso da sua Cruz, desde o palácio de Pilatos, onde foi condenado à morte, até ao cume do Calvário, onde foi crucificado. Depois da morte do seu Divino Filho, a Virgem Santíssima, sozinha ou em companhia das santas mulheres, visitou frequentemente aquele caminho doloroso. Seguindo o seu exemplo, os fiéis da Palestina e, no decurso dos tempos, numerosos peregrinos de países mais distantes, foram também visitar esses lugares santos, banhados com o suor e o sangue de Jesus Cristo; e a Igreja, para encorajar a piedade deles, abriu-lhes os seus tesouros de bênçãos espirituais. Mas como nem todos podem ir à Terra Santa, a Santa Sé permite que se ergam nas igrejas e capelas de países distantes cruzes, quadros ou baixos-relevos, representando as cenas comoventes que se passaram no verdadeiro caminho do Calvário em Jerusalém.
Ao permitir a inserção destas santas Estações, os Romanos Pontífices, que compreenderam toda a excelência e toda a eficácia desta devoção, dignaram-se também a enriquecê-la com todas as indulgências que haviam concedido aos que participavam de uma visita presencial à Terra Santa. E assim, de acordo com diferentes Circulares (Breves) e Constituições dos Soberanos Pontífices Inocêncio XI, Inocêncio XII, Bento XIII, Clemente XII e Bento XIV, aqueles que fazem a Via Sacra, com as devidas disposições, são contemplados com todas as indulgências concedidas aos fiéis que visitam pessoalmente os Lugares Santos de Jerusalém, sendo estas indulgências aplicáveis também aos falecidos.
Ora, como é certo que numerosas indulgências, plenárias ou parciais, foram concedidas a quem visitava os Lugares Santos de Jerusalém, como se pode ver na Bula Terrae Sanctae, podemos dizer então, no que diz respeito às indulgências que, de todas as práticas de piedade, a Via Sacra é a mais rica. Assim, esta devoção, tanto pela excelência do seu objeto como pelas indulgências a ela associadas, constitui um sufrágio do maior valor para as Santas Almas.
Encontramos um incidente relacionado com este tema na Vida da Venerável Maria d'Antigna (Louvet, Le Purgatoire, p. 332). Durante muito tempo, ela teve o piedoso costume de fazer todos os dias a Via Sacra para alívio das almas dos falecidos; mas depois, por motivos mais aparentes do que concretos, passou a fazê-la raramente e, por fim, omitiu-a completamente. Nosso Senhor, que tinha grandes desígnios em relação a esta piedosa virgem e que desejava fazer dela uma vítima de amor para a consolação das pobres almas do Purgatório, quis dar-lhe uma lição que nos serve de instrução a todos. Uma religiosa do mesmo convento, falecida então há pouco tempo, apareceu-lhe, queixando-se com tristeza: 'Minha querida Irmã' - disse ela - 'porque já não fazes a Via Sacra pelas almas do Purgatório? Antigamente, costumavas aliviar-nos todos os dias com esse santo exercício; por que nos privas agora dessa assistência?'
Enquanto a alma ainda falava, o próprio Nosso Senhor apareceu à sua serva e repreendeu-a pela sua negligência. 'Sabe, minha filha' - acrescentou - 'que a Via Sacra é muito proveitosa para as almas do Purgatório e constitui um sufrágio do maior valor. Por isso, permiti que esta alma, para seu bem e para o bem dos outros, vos implorasse isto. Sabei também que foi por causa da vossa dedicação expressa na prática desta devoção que fostes favorecida pela comunicação frequente com os mortos. É também por esta razão que essas almas agradecidas não cessam de rezar por vós e de defender a vossa causa no tribunal da minha Justiça. Dá a conhecer este tesouro às tuas irmãs e diz-lhes que dele tirem abundantemente frutos para si e para as almas dos falecidos'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXVI
Alívio às Santas Almas pelas Indulgências - Bem Aventurada Maria de Quito e a Mesa Coberta de Pedras Preciosas
Passemos agora às indulgências aplicáveis aos defuntos. Aqui a Misericórdia Divina revela-se com extrema prodigalidade. Sabemos que uma indulgência é a remissão da pena temporal devida ao pecado, concedida pelo 'Poder das Chaves' [Potestas Clavium, poder conferido por Cristo diretamente a São Pedro e à Igreja Católica (Mt 16,19)], independente do sacramento da Penitência.
Em virtude do Poder das Chaves que recebeu de Jesus Cristo, a Igreja pode libertar os fieis de todos os obstáculos à sua entrada na glória. Ela exerce este poder no sacramento da Penitência, onde os absolve dos seus pecados; exerce-o também fora do sacramento, pela remissão da dívida da pena temporal que permanece depois da absolvição; este segundo caso constitui as chamadas indulgências. A remissão das penas temporais pelas indulgências é concedida aos fiéis apenas nesta vida; mas a Igreja pode autorizar os seus filhos, enquanto vivos, a transferir, para os seus amigos defuntos, a remissão concedida a si mesmos; esta é a indulgência aplicável às almas do Purgatório.
Aplicar uma indulgência aos mortos é oferecê-la a Deus em nome da sua Santa Igreja, para que Ele se digne empregá-la em benefício das almas sofredoras. As satisfações assim oferecidas à Justiça Divina em nome de Jesus Cristo são sempre aceitas e Deus aplica-as ou a uma alma em particular ou a certas almas que Ele próprio quer beneficiar, ou a todas em geral. As indulgências são plenárias ou parciais. A indulgência plenária é, para quem a obtém, a remissão de toda a pena temporal que permanece aos olhos de Deus. Suponhamos que, para nos absolvermos desta dívida, seríamos obrigados a cumprir cem anos de penitência canônica na terra ou a sofrer por um tempo ainda mais longo no Purgatório; pela virtude de uma indulgência plenária devidamente obtida, toda esta punição é remida e a alma já não retém aos olhos de Deus qualquer sombra de pecado, que a impeça de ver a sua divina face.
A indulgência parcial consiste na remissão de um certo número de dias ou anos. Estes dias e anos não representam de modo algum dias e anos de sofrimento no Purgatório; devem ser entendidos como dias e anos de penitência pública canônica, consistindo principalmente em jejuns, tais como eram antigamente impostos aos pecadores, segundo a antiga disciplina da Igreja. Assim, uma indulgência de quarenta dias ou sete anos é uma remissão tal como foi devida a Deus por quarenta dias ou sete anos de penitência canônica. Que proporção existe entre esses dias de penitência e a duração dos sofrimentos do Purgatório? Este é um segredo que não Deus não nos quis revelar.
As indulgências constituem, na Igreja, um verdadeiro tesouro espiritual aberto a todos os fiéis; todos podem tirar proveito delas, para pagar as suas dívidas e as dos outros. Foi para enfatizar estas graças, que Deus fez questão de as mostrar um dia à Bem Aventurada Maria de Quito. Um dia, arrebatada em êxtase, ela viu, no meio de um grande espaço aberto, uma imensa mesa repleta de montes de prata, ouro, rubis, pérolas e diamantes e, ao mesmo tempo, ouviu uma voz que lhe dizia: 'Estas riquezas são propriedade pública; cada um pode aproximar-se e tirar o que quiser' e Deus lhe fez saber que isto era o símbolo das indulgências (Rossignoli, Merveilles, 29). Podemos dizer, como o piedoso autor das Merveilles, como somos culpados se, diante de tal abundância, permanecermos pobres e indigentes e negligenciarmos a assistência aos outros. Infelizmente, as almas do purgatório estão em extrema necessidade, suplicam-nos em lágrimas no meio dos seus tormentos; nós temos os meios de pagar as suas dívidas com indulgências e, mesmo assim, não nos esforçamos por o fazer.
Será que o acesso a esse tesouro exige de nossa parte esforços penosos, como jejuns, retiros ou privações insuportáveis para a natureza? Não vemos como os homens, por amor aos bens e riquezas, para conservar uma obra de arte, para salvar uma parte da sua fortuna ou um bem precioso, se expõem às chamas de um incêndio? Não deveríamos então fazer pelo menos o mesmo para salvar das chamas expiatórias as almas resgatadas pelo Sangue de Jesus Cristo? Mas a bondade divina não nos pede nada de tão penoso; exige apenas obras ordinárias e fáceis como um terço, uma comunhão, uma visita ao Santíssimo Sacramento, uma esmola ou o ensino dos fundamentos do Catecismo às crianças abandonadas. E nós descuidamo-nos de adquirir os tesouros mais preciosos por meios tão fáceis e não temos nem tempo e nem vontade de os aplicar aos nossos pobres parentes falecidos que padecem nas chamas do Purgatório.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXVIII)
Capítulo XXVII
Alívio às Santas Almas pelas Indulgências - As Indulgências Plenárias de Madre Francisca de Pamplona - Santa Madalena e Santa Teresa e as Religiosas que Passaram Algumas Horas no Purgatório
A Venerável Madre Francisca do Santíssimo Sacramento, de cuja caridade para com as almas santas já falamos, era também muito zelosa em aliviá-las com indulgências. Um dia, Deus mostrou-lhe as almas de três prelados que tinham ocupado anteriormente a Sé de Pamplona e que ainda padeciam os sofrimentos do Purgatório. A serva de Deus compreendeu que devia empregar todos os meios para conseguir a pronta libertação deles. Como a Santa Sé tinha então concedido à Espanha as Bulas da Cruzada, que permitiam obter a indulgência plenária sob certas condições, ela acreditava que o melhor meio de ajudar aquelas pobres almas seria conseguir para cada uma delas a vantagem desta indulgência plenária.
Dirigiu-se então ao seu bispo, Cristóvão de Ribera, informando-o de que três dos seus antecessores ainda se encontravam no Purgatório e instando-o a obter para ela três indulgências das Bulas da Cruzada. Ela cumpriu todas as condições exigidas e aplicou uma indulgência plenária a cada um dos três bispos. Na noite seguinte, todos eles apareceram à Madre Francisca, libertados de todos os seus sofrimentos. Agradeceram-lhe e pediram-lhe que agradecesse também ao Bispo Ribera pelas indulgências que lhes tinham aberto o Céu (Vie de Franqoise du Sacrem., Merv., 26).
O Padre Cepari relata o seguinte na sua obra 'Vida de Santa Madalena de Pazzi'. Morreu uma religiosa professa que, durante a sua última doença, tinha sido cuidada com muita ternura por Santa Madalena e, como era costume expor o corpo na igreja, Madalena sentiu-se inspirada a ir vê-lo mais uma vez. Dirigiu-se, pois, à grade da sala do coro de onde o podia ver; mas, mal o fez, foi arrebatada em êxtase e viu a alma da irmã defunta a voar para o Céu. Transportada de alegria, ouviu-se dizer: 'Adeus, querida irmã; adeus, alma bendita! Como uma pomba pura, voas para o teu lar celestial e nos deixa nesta morada de miséria. Oh, como és bela e gloriosa! Quem pode descrever a glória com que Deus coroou as tuas virtudes?' Quão pouco tempo passaste no Purgatório! O teu corpo ainda não foi levado ao túmulo e eis que a tua alma já foi recebida nas mansões celestes. Conheceis agora a verdade daquelas palavras que vos dirigi ultimamente: 'Que todos os sofrimentos desta vida nada são em comparação com a recompensa que Deus reservou para os seus amigos'. Nesta mesma visão, Nosso Senhor revelou a ela que esta alma piedosa tinha passado apenas quinze horas no Purgatório, porque tinha sofrido muito durante a vida e porque tinha tivera o cuidado de ganhar muitas indulgências concedidas pela Igreja aos seus filhos, em virtude dos méritos de Jesus Cristo.
Santa Teresa, nas suas obras, fala de uma religiosa que dedicava o maior apreço pela mais singela indulgência concedida pela Igreja, e esforçava-se por obter todas as que estavam ao seu alcance. De resto, levava uma vida bastante rotineira e sem grandes obras de virtude. Quando faleceu, a santa, não com grande surpresa, viu a sua alma subir ao Céu quase que imediatamente após a sua morte, de modo que não teve, por assim dizer, a experiência do Purgatório. Quando Santa Teresa manifestou o seu espanto por tal fato, Nosso Senhor fez saber a ela o grande cuidado que a religiosa tivera em obter todas as indulgências possíveis durante a vida. 'Foi por esse meio' - acrescentou - 'que ela saldou quase toda a sua dívida, que era bastante considerável, antes da sua morte e, assim, compareceu com grande pureza perante o tribunal de Deus'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXVIII
Alívio às Santas Almas pelas Indulgências - Orações e Jaculatórias
Há certas indulgências que são fáceis de obter e que se aplicam também aos mortos. Esperamos ajudar ao leitor indicando as principais [a obra original é de 1888; acessar aqui o atual Manual de Indulgências da Igreja Católica]:
(i) Oração 'Eis-me aqui, ó bom e dulcíssimo Jesus' - indulgência plenária para quem, depois de se ter confessado e comungado, recitar esta oração diante de uma imagem de Cristo crucificado, acrescentando alguma outra oração em intenção do Soberano Pontífice [e da Igreja].
(ii) Santo Rosário - muitas e grandes indulgências estão associadas à recitação do Santo Rosário, se fizermos uso de contas indulgenciadas pelo nosso Santo Padre, o Papa, ou por um sacerdote que tenha recebido tais faculdades.
(iii) A Via Sacra - como já dissemos, à Via Sacra estão associadas várias indulgências plenárias e um grande número de indulgências parciais. Estas indulgências não exigem a confissão e a comunhão; basta estar em estado de graça e ter uma dor sincera de todos os nossos pecados.
Quanto ao exercício propriamente dito da Via-Sacra, não se requer senão duas condições: (i) visitar as quatorze estações, passando de uma para outra, tanto quanto as circunstâncias o permitam; (ii) meditar ao mesmo tempo na Paixão de Jesus Cristo; as pessoas que não souberem fazer uma meditação conexa com a Via sacra podem contentar-se em pensar afetuosamente em alguma circunstância da Paixão que esteja de acordo com a sua capacidade; exortamo-las, contudo, impor como uma obrigação recitar sempre um Pai Nosso e uma Ave Maria em cada estação, e a fazer um ato de contrição pelos seus pecados.
(iv) Atos de Fé, Esperança e Caridade - Indulgência de sete anos e sete quarentenas de cada vez que forem recitados.
(v) Ladainha da Santíssima Virgem - trezentos dias de indulgência por vez.
(vi) Sinal da Cruz - cinquenta dias cada vez; mediante uso de água benta, indulgência de cem dias.
(vii) Jaculatórias como 'Meu Jesus, misericórdia!' - cem dias cada vez; 'Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao Vosso' - Trezentos dias, uma vez ao dia; 'Doce Coração de Maria, sede a minha salvação' - trezentos dias por vez'.
(viii) Oração 'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo; para sempre seja louvado! Amém. - cinquenta dias cada vez que duas pessoas se saúdam com estas palavras.
(ix) Oração do Ângelus - indulgência de cem dias cada vez que for recitado, seja de manhã, ao meio-dia ou à noite, ao som de um sino, de joelhos e com o coração contrito.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXIX
Alívio às Santas Almas pelas Esmolas - O Caso do Abade Raban-Maur e do Procurador Edelard do Mosteiro de Fulda
Resta-nos falar de um último e muito poderoso meio de aliviar as pobres almas do Purgatório: a esmola. O Doutor Angélico, São Tomás, dá preferência à esmola antes do jejum e da oração, quando se trata de expiar faltas passadas. 'A esmola' - diz ele - 'possui mais completamente a virtude da satisfação do que a oração, e a oração mais completamente do que o jejum'. É por isso que os grandes servos de Deus e os grandes santos a escolheram como principal meio de assistência aos mortos. Entre eles, podemos citar como um dos mais notáveis o santo abade Raban-Maur, primeiro abade de Fulda, no século X, e depois arcebispo de Mayence.
O Padre Trithemius, conhecido escritor da Ordem de São Bento, fez distribuir abundantes esmolas pelos mortos. Ele tinha estabelecido a regra de que, quando um religioso morresse, a sua porção de comida deveria ser distribuída entre os pobres durante trinta dias, para que a alma do falecido fosse aliviada pelas esmolas. No ano de 830, o mosteiro de Fulda foi atacado por uma doença contagiosa que levou a falecer um grande número de religiosos. Raban-Maur, cheio de zelo e de caridade pelas suas almas, chamou Edelard, o Procurador do mosteiro, e recordou-lhe a regra estabelecida sobre as esmolas para os defuntos. 'Cuida muito bem' - disse ele - 'que as nossas prescrições sejam fielmente observadas, e que os pobres sejam alimentados durante um mês inteiro com a comida que seria destinada aos irmãos que perdemos'.
Edelard falhou tanto na obediência como na caridade. Sob o pretexto de que tal liberalidade era extravagante e que deveria economizar os recursos do mosteiro mas, na realidade, porque estava influenciado por uma avareza secreta, negligenciou a distribuição dos alimentos ou o fez de uma forma muito aquém da ordem que tinha recebido. Deus não deixou impune esta desobediência.
Passado um mês, certa noite, depois de a comunidade ter-se recolhido, Edelard atravessava a sala da congregação com uma lâmpada na mão, quando, tomado de absoluto estupor, encontrou ali reunidos um grande número de religiosos, numa hora em que a sala deveria estar totalmente vazia. O seu espanto transformou-se em medo quando, olhando-os atentamente, reconheceu neles os religiosos recentemente falecidos. O terror apoderou-se de tal modo dele que um arrepio gelado congelou as suas veias fazendo dele como que uma estátua sem vida pregada no chão.
Então, um dos religiosos falecidos dirigiu-lhe terríveis censuras: 'Criatura infeliz, por que não distribuíste as esmolas que estavam destinadas a aliviar as almas dos teus irmãos falecidos? Por que nos privaste dessa assistência em meio aos tormentos do Purgatório? Recebe, a partir deste momento, o castigo pela tua avareza; um castigo mais terrível está reservado para ti quando, depois de três dias, compareceres diante do teu Deus'.
Diante de tais palavras, Edelard caiu como se tivesse sido fulminado por um raio e assim permaneceu imóvel até depois da meia-noite, hora em que a comunidade dirigiu-se para o coro. Aí encontraram-no semimorto, no mesmo estado em que se encontrava Heliodoro, depois de ter sido açoitado pelos anjos no templo de Jerusalém (cf 2Mc 3). Foi levado para a enfermaria, onde lhe foram dispensados todos os cuidados possíveis, de modo que conseguiu recuperar a consciência. Logo que pôde falar, na presença do abade e de todos os seus irmãos, relatou com lágrimas o terrível acontecimento que o seu triste estado testemunhava com tanta evidência. Depois, acrescentando que deveria morrer dentro de três dias, pediu os últimos sacramentos com todos os sinais de um humilde arrependimento. Recebeu-os com sentimentos de piedade e, três dias depois, realmente expirou, assistido pelas orações dos seus irmãos.
Imediatamente entoou-se a missa de defuntos e distribuiu-se aos pobres a sua parte da comida, em benefício da sua alma. Entretanto, o seu castigo ainda não havia terminado. Edelard apareceu diante o abade Raban, pálido e desfigurado. Tocado de compaixão, Raban perguntou-lhe o que podia fazer por ele. 'Ah!' - respondeu a infeliz alma - 'apesar das orações da nossa santa comunidade, não posso obter a graça da minha libertação até que todos os meus irmãos, a quem a minha avareza defraudou dos sufrágios que lhes eram devidos, tenham sido libertados. O que foi dado aos pobres em meu nome não serviu de nada para mim, mas somente a eles, e isto por ordem da Justiça Divina. Peço-vos, pois, ó Pai venerado e misericordioso, que redobreis as vossas esmolas. Espero que, por estes meios poderosos, a clemência divina se digne livrar-nos a todos, primeiro aos meus irmãos e depois a mim, que sou o menos merecedor de tal misericórdia'. Raban-Maur aumentou então as esmolas e, mal tinha passado um mês, Edelard apareceu-lhe de novo, mas agora vestido de branco, rodeado de raios de luz e com o rosto radiante de alegria. Agradeceu, da maneira mais comovente, ao seu abade e a todos os membros do mosteiro a caridade que lhe tinham feito (Vie de Raban-Maur, Rossignoli, Merv., 2).
Que instrução não contém esta bela história! Em primeiro lugar, a virtude da esmola para os mortos brilha de maneira muito marcante. Depois, vemos como Deus castiga, mesmo nesta vida, aqueles que, por avareza, temem não privar os mortos dos seus sufrágios. Não me refiro aqui aos herdeiros que se tornam culpáveis, negligenciando as doações que lhes cabem por testamento dos parentes falecidos, negligência que constitui uma injustiça sacrílega; mas àqueles filhos ou parentes que, por miseráveis motivos de interesse, mandam celebrar o menor número possível de missas, são parcimoniosos na distribuição de esmolas, não tendo piedade das almas dos parentes falecidos e que as deixam definhar nos terríveis tormentos do Purgatório. Trata-se da mais negra ingratidão, uma dureza de coração inteiramente oposta à caridade cristã, e que encontrará o seu castigo talvez ainda neste mundo.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXX
Alívio às Santas Almas pelas Esmolas - Os Limites da Misericórdia Cristã - São Francisco de Sales e a Viúva de Pádua
A esmola cristã, essa misericórdia que Jesus Cristo tanto recomenda no Evangelho, compreende não só a assistência corporal prestada aos necessitados, mas também todo o bem que fazemos ao nosso próximo, trabalhando pela sua salvação, suportando os seus defeitos e perdoando as suas ofensas. Todas estas obras de caridade podem ser oferecidas a Deus pelos defuntos e contêm uma grande virtude satisfatória. São Francisco de Sales conta que em Pádua, onde fez parte dos seus estudos, existia um costume detestável. Os jovens divertiam-se a correr pelas ruas à noite, armados de arcabuzes, e gritavam a todos os que encontravam: 'Quem vem por aí?'
As pessoas eram obrigadas a responder, pois era costume então disparar sobre aqueles que não respondiam e, assim, muitas pessoas foram feridas ou mortas. Aconteceu certa noite que, por não ter respondido à pergunta, um estudante foi atingido na cabeça por uma bala e ficou mortalmente ferido. O autor deste ato, em pânico, fugiu e refugiou-se na casa de uma boa viúva que conhecia e cujo filho era seu colega de curso. Confessou-lhe com lágrimas que acabara de matar um desconhecido e suplicou-lhe que lhe desse asilo em sua casa. Tocada de compaixão, e não suspeitando que tinha diante de si o assassino do seu filho, a senhora escondeu o fugitivo num lugar seguro, onde os oficiais de justiça não o poderiam descobrir.
Ainda não havia passado meia hora quando se ouviu um ruído tumultuoso à porta; um cadáver foi trazido para dentro e colocado diante dos olhos da viúva. Infelizmente, era o seu filho que tinha sido morto e cujo assassino estava agora escondido em sua casa. A pobre mãe rompeu em gritos de partir o coração e, entrando no esconderijo do assassino, gritou: 'Homem miserável' - disse ela - 'o que meu filho te fez para que o tenhas assassinado assim tão cruelmente?'
O culpado do crime, ao saber que tinha matado o seu amigo, chorou em voz alta, arrancando os cabelos e torcendo as mãos em desespero. Depois, lançando-se de joelhos, pediu perdão à sua protetora e suplicou-lhe que o entregasse ao magistrado, para que pudesse expiar tão horrível crime. A mãe desconsolada lembrou-se nesse momento que era cristã e que o exemplo de Jesus Cristo em rezar pelos seus carrascos a estimulava a uma ação heroica. Respondeu-lhe que, se ele pedisse perdão a Deus e emendasse a sua vida, ela deixá-lo-ia ir e suspenderia todos os procedimentos legais contra ele.
Este perdão foi de tal agrado a Deus, que Ele quis dar à generosa mãe uma prova notável disso. Permitiu que a alma do seu filho lhe aparecesse, resplandecente de glória, dizendo que ele estava prestes a gozar da bem-aventurança eterna. 'Deus teve misericórdia de mim, querida mãe' - disse a alma bendita - 'porque tiveste misericórdia do meu assassino. Em consideração ao perdão que concedestes, fui libertado do Purgatório onde, sem a assistência que me proporcionastes, teria de passar por longos anos de intenso sofrimento'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXXI
Alívio às Santas Almas pelo Ato Heroico da Caridade - A Caridade para com os Falecidos pelo Padre Munford - O Ato Heroico da Caridade de Santa Gertrudes
Até agora, falamos dos diferentes tipos de boas obras que podemos oferecer a Deus como sufrágios pelos mortos. Resta-nos dar a conhecer um ato que engloba todas as obras e meios, pelo qual podemos ajudar mais eficazmente as pobres almas; é o voto heroico ou, como outros lhe chamam, o ato heroico de caridade para com as almas do Purgatório.
Este ato consiste em ceder-lhes todas as nossas obras de satisfação, isto é, o valor satisfatório de todas as obras da nossa vida e de todos os sufrágios que nos serão dados depois da nossa morte, sem reservar nada para saldar as nossas próprias dívidas. Depositamo-los nas mãos da Santíssima Virgem, para que ela os distribua, segundo a sua vontade, às almas que deseja livrar do Purgatório.
É uma doação absoluta em favor das almas de tudo o que podemos lhes dar; oferecemos a Deus em seu favor todo o bem que fazemos, de qualquer espécie que seja, seja em pensamentos, palavras ou obras, tudo o que sofremos meritoriamente durante esta vida, sem excetuar nada do que podemos lhes dar razoavelmente e acrescentando mesmo aqueles sufrágios que podemos receber para nós mesmos após a morte. Compreenda-se bem que o objeto desta santa doação é o valor satisfatório das nossas obras e de modo algum o mérito que tem um grau de glória correspondente no Céu; porque o mérito é estritamente pessoal e não pode ser transferido para outro.
Eis a fórmula deste Ato Heroico: 'Ó Santíssima e Adorável Trindade, desejando cooperar na libertação das almas do Purgatório, e para testemunhar a minha devoção à Santíssima Virgem Maria, eu cedo e renuncio em favor dessas santas almas toda a parte satisfatória das minhas obras, e todos os sufrágios que me possam ser dados depois da minha morte, entregando-os inteiramente nas mãos da Santíssima Virgem, para que ela os aplique segundo a sua boa vontade às almas dos fiéis defuntos que ela deseja libertar dos seus sofrimentos. Dignai-vos, ó meu Deus, aceitar e abençoar esta oferenda que Vos faço neste momento. Amém'.
Os Soberanos Pontífices, Bento XIII, Pio VI e Pio IX, aprovaram este ato heroico e enriqueceram-no com indulgências e privilégios, dos quais os principais são os seguintes:
(i) aos sacerdotes que realizarem este ato, o indulto de um altar privilegiado todos os dias do ano;
(ii) os simples fiéis podem obter uma indulgência plenária, aplicável apenas às almas do Purgatório, cada vez que comungarem, desde que em visita a uma igreja ou oratório público e aí rezem por intenção do sumo pontífice;
(iii) podem aplicar às almas santas todas as indulgências que não se apliquem de outro modo em virtude de concessão, e que tenham sido concedidas até ao presente ou que venham a ser concedidas no futuro (Pio IX, 30 de setembro de 1852).
'Aconselho todos os verdadeiros cristãos' - diz o Padre Munford na sua obra 'Caridade para com os Falecidos' - a cederem com santo desinteresse aos fiéis defuntos todo o fruto das suas boas obras que estão a nossa disposição. Não creio que possam fazer melhor uso deles, pois os tornam mais meritórios e mais eficazes, tanto para obter a graça de Deus como para expiar os seus próprios pecados e encurtar o próprio tempo do seu Purgatório, ou mesmo para adquirir uma isenção de passagem pelo mesmo'.
Estas palavras exprimem as preciosas vantagens do Ato Heroico e, para dissipar todo o receio posterior que possa surgir no espírito, acrescentamos três observações:
1. Este ato nos dá a perfeita liberdade para rezar pelas almas pelas quais estamos mais interessados; a aplicação destas orações está sujeita à disposição da adorável vontade de Deus, que é sempre infinitamente perfeita e infinitamente amorosa.
2. Não obriga sob pena de pecado mortal e pode ser revogada em qualquer altura. Pode ser feito sem usar nenhuma fórmula particular; basta ter a intenção e fazê-lo de coração. No entanto, é útil recitar a fórmula de oferecimento de vez em quando, para estimular o nosso zelo pelo alívio das santas almas por meio da oração, da penitência e das boas obras.
3. O Ato Heroico não nos sujeita às terríveis consequências de termos de passar nós próprios por um longo Purgatório; pelo contrário, permite-nos confiar com mais segurança na misericórdia de Deus a nosso respeito, como nos mostra o exemplo de Santa Gertrudes.
O Venerável Denis, o Cartuxo, conta que a Virgem Santa Gertrudes tinha feito uma doação completa de todas as suas obras de satisfação em favor dos fiéis defuntos, sem reservar nada para saldar as dívidas que ela mesma poderia ter contraído diante de Deus. Estando à beira da morte e, como todos os santos, considerando com muita tristeza o grande número dos seus pecados, por um lado e, por outro, lembrando-se de que havia empregado todas as suas obras de satisfação para a expiação dos pecados dos outros, afligiu-se, para que, tendo dado tudo aos outros e não reservado nada para si, sua alma, ao partir deste mundo, não fosse condenada a horríveis sofrimentos.
Em meio aos seus receios, Nosso Senhor apareceu-lhe e a consolou, dizendo: 'Tranquiliza-te, minha filha, a tua caridade para com os defuntos não te prejudicará. Saiba que a generosa doação que fizeste de todas as tuas obras às santas almas me foi singularmente agradável e, para te dar uma prova disso, declaro-te que todas as dores que terias de suportar na outra vida estão agora remidas; além disso, em recompensa da tua generosa caridade, aumentarei de tal forma o valor dos méritos das tuas obras que te darei um grande aumento de glória no Céu'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXIII)
Capítulo XXXII
Alívio às Santas Almas - Orações por Todos os Fieis Defuntos - Santo Andre Avellino e sua Percepção pelo Destino Eterno das Almas - Exortação de São Francisco de Sales
Vimos os recursos e os numerosos meios que a Misericórdia Divina colocou nas nossas mãos para aliviar as almas do Purgatório; mas que almas estão nessas chamas expiatórias e a que almas devemos dar a nossa ajuda? Por quais almas devemos rezar e oferecer os nossos sufrágios a Deus? A estas perguntas devemos responder que devemos rezar pelas almas de todos os fiéis defuntos - omnium fidelium defunctorum - de acordo com a expressão própria da Igreja. Embora a piedade filial nos imponha deveres especiais em relação aos nossos pais e parentes, a caridade cristã nos manda rezar pelos fiéis defuntos em geral, porque todos eles são nossos irmãos em Jesus Cristo, todos são nossos próximos, a quem devemos amar como a nós mesmos.
Por estas palavras, fiéis defuntos, a Igreja entende todos os que estão efetivamente no Purgatório, isto é, aqueles que não estão no inferno, mas que ainda não são dignos de serem admitidos na glória do Paraíso. Mas quem são essas almas? Podemos conhecê-las? Deus reservou esse conhecimento para si mesmo e, a não ser que Ele queira nos mostrar, devemos permanecer em total ignorância sobre o estado das almas na outra vida. Desta forma, Deus raramente dá a conhecer que uma dada alma está no Purgatório ou na glória do Céu e, mais raramente ainda, revela a condenação de uma alma. Nesta incerteza, devemos rezar em geral como faz a Igreja, por todos os defuntos, sem prejuízo das almas que queremos ajudar em particular.
Podemos evidentemente limitar a nossa intenção àqueles que, de entre os mortos, ainda precisam da nossa ajuda, se Deus nos conceder o privilégio que concedeu, por exemplo, a Santo André Avellino, de conhecer a condição das almas na outra vida. Quando este santo religioso da Ordem dos Teatinos, segundo o seu piedoso costume, rezava com angélico fervor pelos defuntos, acontecia-lhe por vezes sentir dentro de si uma espécie de resistência, um sentimento de invencível repulsa; outras vezes, pelo contrário, era uma sensação de grande consolação e particular atração. Logo compreendeu o significado dessas diferentes impressões: a primeira significava que sua oração era inútil, pois a alma que desejava socorrer era indigna de misericórdia e estava condenada ao fogo eterno; a outra, no entanto, indicava que sua oração era eficaz para o alívio da alma no Purgatório. O mesmo acontecia quando desejava oferecer o Santo Sacrifício por um defunto. Sentia-se, ao sair da sacristia, como que retido por uma mão invisível e compreendia que aquela alma estava no inferno; mas, quando se encontrava inebriado de alegria, de luz e de devoção, tinha a certeza de estar contribuindo para a libertação de uma alma. Este santo caridoso rezava, pois, com o maior fervor pelos defuntos que sabia estarem a sofrer, e não cessava de aplicar os seus sufrágios enquanto as almas não lhe viessem agradecer, dando-lhe a certeza da sua libertação.
Quanto a nós, que não temos estas luzes sobrenaturais, devemos rezar por todos os defuntos, mesmo pelos maiores pecadores e pelo cristão mais virtuoso. Santo Agostinho conhecia a grande virtude de sua mãe, Santa Mônica; no entanto, não contente em oferecer a Deus os seus próprios sufrágios por ela, pedia aos seus leitores que não deixassem de recomendar a sua alma à Misericórdia Divina. Quanto aos grandes pecadores, que morrem sem se reconciliarem exteriormente com Deus, não podemos excluí-los dos nossos sufrágios, porque não temos a certeza da sua impenitência interior. A fé nos ensina que todos os homens que morrem em estado de pecado mortal incorrem na condenação eterna; mas quem são aqueles que na realidade morrem nesse estado? Só Deus, que reserva para si o julgamento dos vivos e dos mortos, sabe disso. Quanto a nós, só podemos tirar uma conclusão conjectural das circunstâncias exteriores, e mesmo disso devemos abster-nos. Mas é preciso confessar que há tudo a temer para aqueles que morrem despreparados para a morte, e toda a esperança parece desaparecer para aqueles que se recusam a receber os sacramentos.
Estes últimos deixam esta vida com sinais exteriores de condenação. No entanto, devemos deixar o julgamento para Deus, de acordo com as palavras, Dei judicium est - A Deus pertence o julgamento (Dt, 1,17). Há mais a esperar para aqueles que não são positivamente hostis à religião, que são benevolentes para com os pobres, que conservam alguma prática de piedade cristã ou que pelo menos aprovam e favorecem a piedade; há mais, digo ainda, a esperar para tais pessoas quando acontece que elas morrem subitamente, sem terem tido tempo de receber os últimos sacramentos da Igreja.
São Francisco de Sales não quer que desesperemos da conversão dos pecadores até ao seu último suspiro e, mesmo depois da sua morte, proíbe-nos de julgar mal aqueles que levaram uma vida má. Com exceção dos pecadores, cuja reprovação é claramente manifestada pelas Sagradas Escrituras, não podemos, diz ele, concluir que uma pessoa está condenada, mas devemos respeitar os desígnios de Deus. A sua principal razão é que, como a primeira graça é gratuita, assim também é a última, que é a perseverança final ou uma boa morte. É por isso que devemos ter esperança na salvação dos fieis defuntos, por mais triste que tenha sido a sua morte, porque as nossas conjecturas baseiam-se apenas em constatações exteriores que podem ser, portanto, completamente equivocadas.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXIV) https://www.sendarium.com/search?q=O+DOGMA+DO+PURGAT%C3%93RIO+%28LXXIV%29
Capítulo XXXIII
Alívio às Santas Almas - A Sorte Eterna dos Falecidos de Morte Súbita - O Padre Ravignan e o General Exelmans - O Cura D'Ars e a Viúva Enlutada - Irmã Catarina de Santo Agostinho e a Mulher dos Escândalos
O Padre Ravignan, ilustre e santo pregador da Companhia de Jesus, também possuía uma grande esperança no bem estar dos pecadores levados por uma morte súbita, quando não manifestavam ódio no coração pelas coisas de Deus. Ele vivia para falar do momento supremo e parecia convencido que muitos pecadores se convertem nos seus últimos momentos, e se reconciliam com Deus, ainda que não possam manifestar qualquer sinal disso exteriormente. Em certas mortes, há mistérios de misericórdia onde o olhar do homem não vê senão golpes de justiça. Como um último lampejo de luz, Deus revela-se por vezes às almas cuja maior desgraça foi ignorá-lo e o último suspiro delas, compreendido por Aquele que sonda os corações, pode ser um gemido de perdão, ou seja, um ato de contrição perfeita.
O general Exelmans, parente deste bom padre, foi subitamente levado ao túmulo por um acidente e, infelizmente, não tinha sido muito fiel na prática da sua religião. Tinha prometido que um dia se confessaria, mas não tinha tido oportunidade de o fazer. O Padre Ravignan, que há muito tempo rezava e pedia orações por ele, ficou consternado quando soube de tal morte. No mesmo dia, uma pessoa habituada a receber comunicações sobrenaturais julgou ouvir uma voz interior que lhe dizia: 'Quem pode medir a extensão da misericórdia de Deus? Quem conhece a profundidade do oceano ou a quantidade de água que ele contém? Muito será perdoado àqueles que pecaram por ignorância'.
O biógrafo de quem tomamos emprestado este episódio, o Padre de Ponlevoy, prossegue: 'Cristãos, colocados sob a lei da Esperança, não menos do que sob a lei da Fé e da Caridade, devemos elevar-nos continuamente do fundo dos nossos sofrimentos ao pensamento da bondade infinita de Deus. Não há limite para a graça de Deus aqui em baixo; enquanto restar uma centelha de vida, não há nada que ela não possa efetuar na alma. Por isso, devemos sempre esperar e pedir a Deus com humilde persistência. Não sabemos até que ponto podemos ser ouvidos. Grandes santos e doutores têm-se esforçado muito para exaltar a poderosa eficácia da oração em favor dos entes queridos que partiram, por mais infeliz que tenha sido o seu fim. Conheceremos um dia as maravilhas indescritíveis da misericórdia divina. Nunca devemos deixar de a implorar com a maior confiança'.
Segue-se um incidente que os nossos leitores podem ter visto no Petit Messager du Coeur de Marie, de novembro de 1880. Um religioso, que pregava uma missão às senhoras de Nancy, tinha-lhes recordado, em uma conferência, que nunca se deve desesperar da salvação de uma alma e que, por vezes, as ações de menor importância aos olhos do homem são recompensadas por Deus na hora da morte. Quando ele estava prestes a sair da igreja, uma senhora vestida de luto aproximou-se dele e disse: 'Padre, o senhor acaba de nos recomendar confiança e esperança; o que acaba de me acontecer justifica plenamente as suas palavras. Eu tinha um marido que era muito amável e afetuoso e que, apesar de levar uma vida irrepreensível, negligenciava completamente a prática da sua religião. As minhas orações e exortações ficaram sem efeito. Durante o mês de maio que precedeu a sua morte, tinha erguido no meu quarto, como era meu hábito, um pequeno altar à Virgem Maria e decorei-o com flores, que renovava de tempos a tempos. O meu marido passava o domingo no campo e, de cada vez que regressava, trazia-me algumas flores que ele próprio tinha colhido e com as quais eu enfeitava o meu oratório. Será que ele reparou nisso? Será que o fez para me agaradr ou foi por um sentimento de piedade para com a Virgem? Não sei, mas nunca deixou de me trazer as flores'.
'No início do mês seguinte, morreu subitamente, sem ter tido tempo para receber os sacramentos e bênçãos finais. Fiquei inconsolável, sobretudo porque vi desaparecerem todas as minhas esperanças de que ele se voltasse para Deus. Em consequência da minha dor, a minha saúde ficou completamente abalada, e a minha família instou-me a fazer uma viagem pelo Sul. Como tinha de passar por Lyon, desejava ver o Cura d'Ars. Escrevi-lhe, portanto, pedindo-lhe uma audiência e recomendando-lhe as orações do meu marido, que tinha morrido subitamente. Não lhe dei mais pormenores'.
'Chegando a Ars, mal entrei no quarto do venerável cura e este, para meu grande espanto, dirigiu-se a mim com estas palavras: "Senhora, está desconsolada; mas esqueceu-se dos ramos de flores que lhe eram trazidos todos os domingos do mês de maio?" É impossível exprimir o meu espanto ao ouvir o Pe. Vianney recordar-me uma circunstância de que eu não tinha falado a ninguém e que ele só podia saber por revelação. E continuou: 'Deus teve piedade daquele que honrou a sua Santa Mãe. No momento da sua morte, o vosso marido arrependeu-se; a sua alma está no Purgatório e as nossas orações e boas obras obterão a sua libertação'.
Lemos na Vida de uma santa religiosa, Irmã Catarina de Santo Agostinho (Santo Afonso, Paráfrase da Salve Regina), que no lugar onde ela vivia havia uma mulher chamada Maria, que na sua juventude se tinha entregado a uma vida muito desordenada e como a idade não lhe trouxera nenhuma emenda, tornando-a, pelo contrário, ainda mais obstinada no vício, os habitantes locais, não tolerando mais os escândalos que ela dava, expulsaram-na da cidade. Não encontrou outro asilo senão uma gruta na floresta onde, após alguns meses, morreu sem a assistência dos sacramentos. O seu corpo foi enterrado num campo, como se fosse algo contagioso. A Irmã Catarina, que tinha o piedoso costume de recomendar a Deus as almas de todos aqueles de cuja morte ouvia falar, não pensou em rezar por esta em particular, julgando, como todos os demais, que ela estaria provavelmente condenada.
Quatro meses depois, a serva de Deus ouviu uma voz que lhe dizia: 'Irmã Catarina, como sou infeliz! Tu recomendas a Deus as almas de todos; eu sou a única de quem não tens piedade!' 'Quem és tu, então?' - respondeu a irmã. 'Sou a pobre Maria, que morreu sozinha na gruta'. 'Como? Maria, estás salva?' 'Sim, pela intercessão da Divina Misericórdia, estou salva. À beira da morte, aterrorizada pela lembrança dos meus muitos pecados e vendo-me abandonada por todos, invoquei a Santíssima Virgem. Na sua terna bondade, ela me ouviu e me concedeu a graça de uma contrição perfeita, com o desejo de me confessar, se isso me fosse possível. Recuperei, assim, a graça de Deus e fui resgatada do inferno. Mas fui obrigada a ir para o Purgatório, onde sofro terrivelmente. O meu tempo será encurtado e em breve poderei ser libertada, se me forem oferecidas algumas missas. Manda celebrá-las por mim, querida irmã, e lembrar-me-ei sempre de ti diante de Jesus e de Maria'. A Irmã Catarina apressou-se a satisfazer este pedido e, passados alguns dias, a alma apareceu de novo, brilhante como uma estrela, agradecendo a sua caridade.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXXIV
Razões para Assistência às Santas Almas - A Nossa Falta de Reflexão e Zelo - Exortações de Santos sobre a Excelência dessa Obra de Caridade
Acabamos de passar em revista os meios e recursos que a Misericórdia Divina colocou em nossas mãos para o alívio de nossos irmãos no Purgatório. Esses meios são poderosos e os recursos são muitos; mas será que os utilizamos abundantemente? Tendo em nosso poder o auxílio às pobres almas, temos zelo suficiente para o fazer? Somos tão ricos em caridade como Deus é rico em misericórdia? Quantos cristãos, infelizmente, pouco ou nada fazem em intenção dos defuntos! E os que não se esquecem deles, os que têm suficiente caridade para os ajudar com os seus sufrágios, quantas vezes não lhes falta zelo e fervor! Comparai os cuidados que dispensamos aos doentes com a assistência que damos às almas penadas. Quando um pai ou uma mãe são acometidos de alguma doença, quando um filho ou uma pessoa que nos é querida é vítima de sofrimento, que cuidado, que solicitude e quanta devoção da nossa parte! Mas as almas santas, que não nos são menos queridas, definham sob o peso, não de uma doença dolorosa, mas de tormentos expiatórios mil vezes mais cruéis. Somos igualmente fervorosos, solícitos e disponíveis para as aliviar? 'Não' - diz São Francisco de Sales - 'não nos lembramos suficientemente dos nossos amigos queridos que partiram. A sua lembrança parece perecer com o som dos sinos fúnebres e esquecemos que a amizade que encontra um fim, mesmo na morte nunca foi uma amizade genuína'.
De onde vem esse triste e culposo esquecimento? A sua causa principal é a falta de reflexão. Quia nullus est qui recogitat corde - Porque não há quem considere no coração (Jr 12,2). Perdemos de vista os grandes motivos que nos impelem ao exercício dessa caridade para com os falecidos. É, portanto, para estimular o nosso zelo que vamos recordar esses motivos e colocá-los sob a luz mais forte possível.
Podemos dizer que todos esses motivos se resumem nas seguintes palavras do Espírito Santo: 'É um pensamento santo e salutar orar pelos mortos, para que sejam libertados de seus pecados, isto é, da punição temporal devida aos seus pecados (2Mc 12,46). Em primeiro lugar, é uma obra santa e excelente em si mesma, além de agradável e meritória aos olhos de Deus. Por conseguinte, é uma obra salutar, extremamente proveitosa para a nossa própria salvação, para o nosso bem-estar neste mundo e no outro.
'Uma das obras mais santas, um dos melhores exercícios de piedade que podemos praticar neste mundo' - nos diz Santo Agostinho - 'é oferecer sacrifícios, esmolas e orações pelos mortos' (Homilia 16). 'O alívio que obtemos para os defuntos' - diz São Jerônimo - 'obtém para nós uma misericórdia equivalente'. Considerada em si mesma, a oração pelos mortos é uma obra de Fé, de Caridade e, muitas vezes, até de Justiça.
Por primeiro, quem são de fato as pessoas a quem devemos tratar de assistir? Quem são essas almas santas, predestinadas, tão queridas de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo, tão queridas da sua Mãe, que a Igreja recomenda incessantemente à nossa caridade? Almas que nos são também tão queridas, pois estiveram, talvez, intimamente unidas a nós nesta terra, e que nos suplicam com estas palavras comoventes: 'Tende piedade de mim, tende piedade de mim, ao menos vós, meus amigos' (Jó 19,21). Em segundo lugar, em que necessidades elas se encontram? Infelizmente, sendo muito grandes as suas necessidades, as almas que assim sofrem têm direito à nossa ajuda na proporção da sua total incapacidade de fazer algo por si próprias. Em terceiro lugar, que bem podemos proporcionar a estas almas? O bem maior, pois podemos ajudá-las a conquistar a posse da bem-aventurança eterna.
'Assistir as almas do Purgatório' - diz São Francisco de Sales - 'é praticar a mais excelente das obras de misericórdia, ou melhor, é praticar de maneira mais sublime todas as obras de misericórdia juntas: é visitar os doentes; é dar de beber aos que têm sede da visão de Deus; é alimentar os famintos, resgatar os prisioneiros, vestir os nus, proporcionar aos pobres exilados a hospitalidade da Jerusalém Celeste; é consolar os aflitos, é instruir os ignorantes - em suma, é praticar todas as obras de misericórdia numa única obra'. Esta doutrina concorda muito bem com a de São Tomás, que diz em sua Summa: 'Sufrágios para os mortos são mais agradáveis a Deus do que sufrágios para os vivos; porque os primeiros estão em necessidade mais urgente deles e porque não são capazes de ajudar a si mesmos, como o podem os vivos' (Suplemento, Q. 71, art. 5).
Nosso Senhor considera toda a obra de misericórdia exercida para com o nosso próximo como feita para Ele próprio. 'É a Mim que o fizestes' - Mi hi fecistis. Isto é especialmente verdade para a misericórdia praticada em intenção às pobres almas sofredoras. Foi revelado a Santa Brígida que aquele que, com os seus sufrágios, tira uma alma do Purgatório, tem o mesmo mérito como se tirasse o próprio Jesus Cristo do cativeiro.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXXV
Razões para o Socorro às Santas Almas - A Controvérsia entre o Irmão Bento e o Irmão Bertrand
Quando exaltamos tanto os méritos da oração pelos falecidos, não concluímos de forma alguma que outras boas obras devam ser omitidas, pois todas as outras boas obras devem ser exercidas de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias. A única intenção que tínhamos em vista era dar uma ideia correta da misericórdia para com os falecidos e inspirar nos outros o desejo de a praticarem. Além disso, as obras espirituais de misericórdia, que têm por objetivo a salvação das almas, são todas de igual excelência, e é apenas em certos aspectos que podemos colocar a assistência aos mortos acima do zelo pela conversão dos pecadores.
Nas Crônicas dos Frades Pregadores (cf Rossign., Merv. I), conta-se que surgiu uma controvérsia bastante intensa entre dois religiosos dessa Ordem, o Irmão Bento e o Irmão Bertrand, a propósito dos sufrágios pelos defuntos. O motivo foi o seguinte: O Irmão Bertrand celebrava frequentemente a Santa Missa pelos pecadores e rezava continuamente pela sua conversão, impondo a si mesmo as mais severas penitências; mas raramente era visto a rezar a missa de exéquias pelos defuntos.
O Irmão Bento, que tinha grande devoção pelas almas do Purgatório, tendo notado esta conduta, perguntou-lhe porque agia assim. 'Por que' - respondeu ele - 'as almas do Purgatório estão seguras da sua salvação, enquanto os pecadores estão continuamente expostos ao perigo de cair no inferno. Que condição mais deplorável do que a de uma alma em estado de pecado mortal? Ela está em inimizade com Deus, presa nas correntes do demônio, suspensa sobre o abismo do inferno pelo frágil fio da vida, que pode romper-se a qualquer momento. O pecador caminha no caminho da perdição; se continuar a avançar, cairá no abismo eterno. Devemos, portanto, ir em seu auxílio e preservá-lo desta que é a maior das desgraças, trabalhando pela sua conversão. Aliás, não foi para salvar os pecadores que o Filho de Deus veio à terra e morreu numa cruz? São Dênis assegura-nos também que a mais divina de todas as coisas divinas é trabalhar com Deus para a salvação das almas. No que diz respeito às almas do Purgatório, elas estão seguras, a sua salvação eterna está assegurada. Sofrem, são vítimas de grandes tormentos, mas não têm nada a temer do inferno, e os seus sofrimentos terão um fim. As dívidas que contraíram diminuem todos os dias e em breve gozarão da luz eterna; enquanto os pecadores são continuamente ameaçados com a condenação, a mais terrível desgraça que pode acontecer a uma das criaturas de Deus'.
'Tudo o que disseste é verdade' - respondeu o Irmão Bento - 'mas há uma outra consideração a fazer. Os pecadores são escravos de Satanás, por sua própria vontade. Seu jugo é de sua própria escolha, eles poderiam quebrar suas correntes se quisessem; enquanto as pobres almas no Purgatório podem apenas suspirar e implorar a assistência dos vivos. A eles é impossível romper os grilhões que as prendem às chamas torturantes. Suponhamos que encontrásseis dois mendigos, um doente, aleijado e desamparado, absolutamente incapaz de ganhar o seu sustento; o outro, ao contrário, embora em grande aflição, jovem e vigoroso; qual dos dois mereceria a maior parte da vossa esmola?' 'Certamente o que não podia trabalhar' - respondeu o Irmão Bertrand.
'Pois bem, meu caro padre - continuou o Irmão Bento - 'é exatamente o que se passa com os pecadores e as almas santas. Elas não mais podem ajudar a si próprias. O tempo da oração, da confissão e das boas obras já passou para elas; só nós podemos aliviá-las. É verdade que mereceram estes sofrimentos como castigo pelos seus pecados, mas agora lamentam e detestam esses pecados. Eles estão na graça e amizade de Deus; enquanto os pecadores são agora os seus inimigos. É certo que devemos rezar pela sua conversão, mas sem prejuízo do que devemos às almas sofredoras, tão caras ao coração de Jesus. Tenhamos compaixão dos pecadores, mas não nos esqueçamos de que eles têm todos os meios de salvação à sua disposição; devem romper os laços do pecado e fugir do perigo de condenação que os ameaça. Não parece evidente que as almas sofredoras têm mais necessidade e merecem uma parte maior da nossa caridade?'
Apesar da força desses argumentos, o Irmão Bertrand persistiu em sua opinião inicial. Então, na noite seguinte, ele vivenciou a aparição de uma alma do Purgatório, que o fez experimentar, por um curto espaço de tempo, a dor que ela mesma suportava. Esse sofrimento era tão atroz que parecia impossível suportá-lo. Então, como diz Isaías, a tortura deu-lhe o entendimento: vexatio intellectum dabit (Is 28,19) e convenceu-se de que devia fazer mais pelas almas sofredoras. Na manhã seguinte, cheio de compaixão, subiu os degraus do altar, vestido de preto, e ofereceu o Santo Sacrifício pelas almas dos falecidos.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXVII)
Capítulo XXXVI
Razões para o Socorro às Santas Almas - Socorro às Almas dos Nossos Parentes Falecidos - Cimon de Atenas e o seu Pai na Prisão - São João de Deus e o Socorro aos Doentes de um Incêndio
Se somos obrigados a socorrer as santas almas pela extrema necessidade em que se encontram, quanto maior não se torna este motivo quando nos lembramos de que estas almas estão unidas a nós pelos laços mais sagrados, os laços de sangue, pelo Sangue de Jesus Cristo, e pelos laços da carne e do sangue humanos, de onde fomos gerados segundo a carne?
Sim, há no Purgatório almas unidas a nós pelos mais íntimos laços de família. Pode ser um pai ou uma mãe que, padecendo aqueles horríveis tormentos, estendem os braços em súplica para mim. O que não faríamos pelo nosso pai ou pela nossa mãe, se soubéssemos que estão a penar em algum calabouço tremendo? Um antigo ateniense, o célebre Cimon, teve o desgosto de ver o seu pai preso por credores sem coração, que ele não podia satisfazer. O pior é que não conseguiu reunir uma soma suficiente para efetuar o resgate do seu pai e o seu velho pai morreu na prisão. Cimon apressou-se a ir à prisão e pediu que lhe dessem, pelo menos, o corpo do seu pai para que o pudesse enterrar. Isso também lhe foi recusado, sob o pretexto de que, não tendo com que pagar as suas dívidas, não podia tê-lo libertado. 'Permitam-me primeiro enterrar meu pai' - gritou Cimon - ''e depois voltarei e tomarei o seu lugar na prisão'.
Admiramos este ato de piedade filial, mas não temos também o dever de o imitar? Não temos também, porventura, um pai ou uma mãe no Purgatório? Não somos obrigados a libertá-los à custa dos maiores sacrifícios? Mais afortunados do que Cimon, temos com que pagar as suas dívidas; não precisamos de tomar o seu lugar; pelo contrário, libertá-los é lutar pelo nosso próprio resgate.
Admiremos também a caridade de São João de Deus, que enfrentou a fúria das chamas para salvar os pobres doentes durante uma conflagração. Este grande servo de Deus morreu em Granada, no ano de 1550, ajoelhado diante de uma imagem de Jesus Crucificado, que ele abraçou e continuou a manter apertada nos seus braços, mesmo depois de ter entregado a sua alma a Deus. Filho de pais muito pobres e obrigado a sustentar-se com o pastoreio de rebanhos, era rico em fé e confiança em Deus. Tinha grande prazer na oração e na escuta da Palavra de Deus; este foi o fundamento da grande santidade que depois alcançou.
Um sermão do Venerável Padre João d'Ávila, Apóstolo da Andaluzia, impressionou-o de tal modo que resolveu consagrar toda a sua vida ao serviço dos pobres doentes. Sem outro recurso que não fosse a caridade e a confiança em Deus, conseguiu comprar uma casa, na qual reuniu todos os doentes pobres e abandonados, para lhes dar alimento para a alma e para o corpo. Este asilo depressa se transformou no Hospital Real de Granada, um estabelecimento imenso, cheio de uma multidão de idosos e doentes. Um dia, tendo deflagrado um incêndio no hospital, muitos dos doentes correram o risco de morrer de uma morte horrível. Estavam rodeados de chamas por todos os lados, de tal modo que era impossível alguém tentar salvá-los. Proferiam os gritos mais angustiantes, chamando o Céu e a Terra em seu auxílio.
João, diante disso, inflama-se de caridade, precipita-se no fogo, luta através das chamas e do fumo até chegar aos leitos dos doentes; depois, erguendo-os sobre os ombros, carrega essas infelizes criaturas, uma após outra, para um lugar seguro. Obrigado a atravessar essa imensa fornalha, trabalhando no calor do fogo durante meia hora inteira, o santo não sofreu o menor ferimento; as chamas respeitaram sua pessoa, suas roupas e até mesmo o menor fio de cabelo de sua cabeça. Deus proveu tal milagre mostrando quanto era agradável a Ele a caridade do seu servo. E aqueles que salvam, não o corpo, mas as almas das chamas do Purgatório, a sua obra é menos agradável a Deus? As necessidades, os gritos e os gemidos dessas almas são menos tocantes para um coração de fé? Será mais difícil socorrê-las? Será necessário lançarmos por entre as chamas para as salvar?
Certamente, temos todas as facilidades ao nosso alcance para socorrê-las e Deus não exige para isso grandes esforços de nossa parte. No entanto, a caridade das almas fervorosas leva-as, por vezes, a fazer os sacrifícios mais heróicos e até mesmo a compartilhar os tormentos dos seus irmãos do Purgatório.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
O DOGMA DO PURGATÓRIO (LXXVIII)
Capítulo XXXVII
Razões para o Socorro às Santas Almas - Obras de Satisfação em Favor das Almas do Purgatório pela Serva de Deus Maria Villani - A Marca do Purgatório na Testa dessa Serva de Deus
Já vimos como Santa Catarina de Ricci e vários outros levaram o seu heroísmo ao ponto de sofrerem em lugar das almas do Purgatório. Acrescentemos mais alguns exemplos desta admirável caridade. A serva de Deus Maria Villani, da Ordem de São Domingos, cuja vida foi escrita pelo Padre Marchi (cf Rossignoli, Merv., 41), aplicava-se dia e noite à prática de obras de satisfação em favor dos defuntos.
Um dia - era a Vigília da Epifania - permaneceu muito tempo em oração, suplicando a Deus que aliviasse os sofrimentos das almas do Purgatório em consideração aos próprios sofrimentos de Jesus Cristo, oferecendo nesta intenção as dores da flagelação do nosso Salvador, da sua coroa de espinhos, das suas amarras, dos pregos, do peso da cruz - numa palavra, todas as suas dores amargas e todos os instrumentos da sua Paixão. Na noite seguinte, Deus teve o prazer de manifestar o quanto esta santa prática lhe havia sido agradável. Durante a sua oração, em êxtase, viu uma longa procissão de pessoas vestidas de branco e radiantes de luz. Levavam os emblemas da Paixão e entravam na glória do Paraíso. A serva de Deus compreendeu que eram as almas libertadas pelas suas fervorosas orações e pelos méritos da Paixão de Jesus Cristo.
Em outra ocasião, na festa dos Fieis Defuntos, recebera a intimação de trabalhar na elaboração de um manuscrito e que passasse o dia a escrevê-lo. Tal tarefa, imposta pela obediência, foi uma provação para a sua piedade: sentiu alguma relutância em obedecer, porque queria dedicar todo esse dia à oração, à penitência e a exercícios piedosos para o alívio das almas sofredoras. Esqueceu-se por um momento de que a obediência devia prevalecer sobre tudo o mais, conforme está escrito: Melior est enim oboedientia quam victimae - A obediência é melhor que o sacrifício (1Sm 15,22). Vendo a sua grande caridade para com as santas almas, Deus concedeu-lhe aparecer, para a instruir e consolar. 'Obedece, minha filha' - disse a ela - 'faz o trabalho que te é imposto pela obediência e o oferece pelas almas: cada linha que escreveres hoje, em espírito de obediência e de caridade, conseguirá a libertação de uma alma'. Compreender-se-á facilmente que ela trabalhou então com a maior diligência e escreveu o maior número possível dessas linhas, por ser algo tão agradável a Deus.
A sua caridade para com as santas almas não se limitava à oração e ao jejum; desejava suportar uma parte dos seus sofrimentos. Um dia, enquanto rezava com essa intenção, foi arrebatada em espírito e conduzida ao Purgatório. Lá, em meio a uma multidão de almas sofredoras, viu uma terrivelmete mais atormentada do que as outras, e que lhe despertou a mais terna compaixão. 'Por que' - perguntou ela - 'tens de sofrer tão excruciante tortura? Não recebes nenhum alívio?' 'Tenho estado' - respondeu a alma - 'há muito tempo neste lugar, suportando os mais espantosos tormentos, como castigo pela minha antiga vaidade e escandalosa extravagância. Até agora não recebi o menor alívio, porque Deus permitiu que eu fosse esquecida por meus pais, meus filhos, meus parentes e amigos: eles não fazem uma única oração por mim. Quando estava na terra, ocupada exclusivamente com a minha aparência e frivolidades mundanas, com festas e com prazeres, raramente me dedicava à lembrança de Deus e dos meus deveres cristãos. O meu único desejo efetivo era promover os interesses mundanos da minha família. Como vês, sou bem castigada, pois me encontro completamente esquecida por todos'.
Estas palavras causaram uma dolorosa impressão em Maria Villani. Suplicou a esta alma que lhe permitisse sentir alguma coisa do que ela sofria; e, no mesmo instante, pareceu-lhe que um dedo de fogo lhe tocava a testa, e a dor que sentiu foi tão aguda que fez cessar completamente o seu êxtase. A marca ficou tão profundamente impressa na sua testa que, mesmo dois meses depois, ainda era visível e causava-lhe um sofrimento intolerável. A serva de Deus ofereceu este fato, juntamente com orações e outras boas obras, pela alma a que acabamos de nos referir. Esta alma apareceu a Maria ao fim de dois meses e disse que, tendo sido libertada pela sua intercessão, estava prestes a entrar no Céu. E, neste mesmo instante, a cicatriz da sua testa desapareceu.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXXVIII
Razões para o Socorro às Santas Almas - Heróis e Vítimas da Caridade - Os Exemplos dos Padres Laynez e Fabricius - Padre Nieremberg, Vítima da Caridade pelas Almas do Purgatório
'Aquele que esquece seu amigo, depois que a morte o tirou de sua vista, nunca lhe teve uma amizade verdadeira'. Estas palavras o Padre Laynez, Segundo Geral da Companhia de Jesus, repetia continuamente aos filhos de Santo Inácio. Ele desejava que os interesses das almas lhes fossem tão caros depois da morte como o foram durante a vida. Unindo o exemplo ao preceito, Laynez aplicou às almas do Purgatório uma grande parte das suas orações, sacrifícios e a satisfação que mereceu diante de Deus pelos seus trabalhos para a conversão dos pecadores. Os Padres da Companhia, fiéis às suas lições de caridade, manifestaram sempre um zelo particular por esta devoção, como se pode ver no livro intitulado 'Heróis e Vítimas da Caridade' na Companhia de Jesus, do qual transcrevo a seguinte página.
'Em Munster, na Vestfália, em meados do século XVII, surgiu uma epidemia que todos os dias fazia inúmeras vítimas. O medo paralisou a caridade da maior parte dos habitantes, e poucos foram os que se dedicaram a socorrer as infelizes criaturas atingidas pela peste. Foi então que o Padre Fabricius, animado pelo espírito de Laynez e Loyola, lançou-se na arena do sacrifício. Pondo de lado toda a precaução pessoal, empregou todo o seu tempo em visitar os doentes, em procurar remédios para eles e em dispô-los para uma morte cristã. Ouvia as suas confissões, administrava os últimos sacramentos, enterrava-os com as suas próprias mãos e, finalmente, celebrava o Santo Sacrifício para o repouso das suas almas.
De fato, durante toda a sua vida, este servo de Deus teve a maior devoção para com as almas santas. Entre todos os seus exercícios de piedade, o que lhe era mais caro, e que ele sempre recomendou vivamente, era o de oferecer o Santo Sacrifício da Missa pelos defuntos, sempre que as Rubricas o permitissem. Como resultado deste conselho, todos os Padres de Munster resolveram consagrar um dia de cada mês aos fiéis defuntos; cobriram a sua igreja de luto e rezavam com toda a solenidade pelos fieis defuntos. Deus dignou-se, como faz muitas vezes, recompensar o Padre Fabricius e encorajou o seu zelo com várias aparições das almas sofredoras. Umas pediam-lhe que apressasse a sua libertação, outras agradeciam-lhe o alívio que lhes tinha proporcionado; outras ainda anunciavam-lhe o momento feliz da sua libertação.
O seu maior ato de caridade foi aquele que realizou no momento da sua morte. Com uma generosidade verdadeiramente admirável, sacrificou todos os sufrágios, orações, missas, indulgências e mortificações que a sua sociedade religiosa aplicava aos seus membros falecidos. Pediu a Deus que os privasse deles para o alívio das almas sofredoras que mais agradassem a sua Divina Majestade'.
Já falamos anteriormente do Padre Nieremberg, célebre tanto pelas obras de piedade que publicou como pelas eminentes virtudes que praticou. A sua devoção pelas almas santas, não contente com sacrifícios e orações frequentes, levava-o a sofrer por elas com uma generosidade que muitas vezes chegava ao heroísmo. Entre os seus penitentes, na corte de Madri, havia uma senhora de classe que, sob a sua sábia direção, tinha atingido um alto grau de virtude no meio do mundo, mas era atormentada por um medo excessivo da morte, tendo em vista o Purgatório que a esperava. Adoeceu perigosamente e os seus temores aumentaram de tal modo que quase perdeu os sentimentos cristãos. O seu santo confessor empregou todos os meios que o seu zelo podia sugerir, mas em vão; não conseguiu restituir-lhe a tranquilidade, nem conseguia convencê-la a receber os últimos sacramentos.
Para coroar este infortúnio, perdeu subitamente a consciência e ficou reduzida a uma letargia completa.. O padre, justamente alarmado com o perigo desta alma, retirou-se para uma capela perto do quarto da moribunda. Ali ofereceu o Santo Sacrifício com o maior fervor para obter para a doente tempo suficiente para que recebesse os sacramentos da Igreja. Ao mesmo tempo, movido por uma caridade verdadeiramente heróica, ofereceu-se como vítima à Justiça Divina, para sofrer nesta vida todos os sofrimentos reservados àquela pobre alma na outra.
A sua oração foi ouvida. Mal terminou a missa, a doente recobrou a consciência e constatou-se que estava completamente mudada. Estava tão bem disposta que pediu os últimos sacramentos, os quais recebeu com pungente fervor. Depois, ouvindo do seu confessor que não tinha nada a temer do Purgatório, expirou perfeitamente serena e com um sorriso nos lábios.
A partir dessa hora, o Padre Nieremberg foi submetodo a todo tipo de sofrimento, tanto do corpo como da alma. Os dezesseis anos restantes da sua vida foram um longo martírio e um rigoroso purgatório. Nenhum remédio humano podia aliviá-lo e seu único consolo estava na lembrança da sagrada causa pela qual ele os suportou. Finalmente, a morte veio pôr fim aos seus terríveis sofrimentos e, ao mesmo tempo, podemos razoavelmente acreditar, abrir-lhe as portas do Paraíso, pois está escrito: 'bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia'.
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XXXIX
Razões e Exemplos para a Devoção às Santas Almas - São Pedro Damião e o seu Pai - O Exemplo da Jovem Anamita - O Velho Porteiro de um Seminário e a Propagação da Fé
Os exemplos de uma generosa caridade para com os defuntos não são raros, e é sempre útil recordá-los. Não podemos deixar de mencionar o belo e comovente exemplo de São Pedro Damião, bispo de Óstia, cardeal e doutor da Igreja, um exemplo que nunca se cansa de repetir. Ainda jovem, Pedro teve a infelicidade de perder a sua mãe e, pouco depois, o seu pai casou-se de novo, ficando ele entregue aos cuidados de uma madrasta. Apesar de ter demonstrado todo o afeto possível por ela, esta mulher era incapaz de retribuir o amor deste querido filho; tratou-o com uma severidade bárbara e, para se livrar dele, mandou-o para junto do irmão mais velho, que o empregou a tratar dos porcos.
O pai, que deveria tê-lo protegido, abandonou-o à sua infeliz sorte. Mas o menino ergueu os olhos para o Céu, onde viu outro Pai, em quem depositava toda a sua confiança. Aceitou tudo o que acontecia como vindo das suas mãos divinas, e resignou-se às dificuldades da sua situação. 'Deus' - disse ele - 'tem os seus desígnios em tudo o que faz, e são desígnios de misericórdia; temos apenas que nos abandonar em suas mãos e Ele dirigirá todas as coisas para o nosso bem'. Pedro não se deixou enganar; foi nesta dolorosa provação que o futuro Cardeal da Igreja, aquele que iria surpreender a sua época pela extensão da sua erudição e que edificaria o mundo com o brilho das suas virtudes, lançou as bases da sua futura santidade. Mal coberto de trapos, o seu biógrafo conta-nos que nem sempre tinha o suficiente nem para aplacar a sua fome, mas rezava confiante a Deus e aceitava tudo isso.
Entretanto, aconteceu que o seu pai morreu. O jovem santo esqueceu a dureza com que tinha sido tratado e, como um bom filho, rezava continuamente pelo descanso da alma do pai. Um dia, encontrou na estrada uma peça de ouro, que a Providência parecia ter colocado ali para ele. Era uma grande fortuna para o pobre menino. Mas, em vez de a usar para aliviar a sua própria miséria, o seu primeiro pensamento foi levá-la a um sacerdote e pedir-lhe que celebrasse o Santo Sacrifício da Missa pela alma do seu falecido pai. A Santa Igreja considera este sinal de devoção filial tão tocante que o inseriu por inteiro no Ofício da festa deste santo.
'Permitam-me' - dizia o missionário Padre Louvet - 'acrescentar mais um fato da minha experiência pessoal. Quando eu pregava a fé em Cochinchina, uma pobre menina anamita, que acabava de ser batizada, perdeu a mãe. Aos quatorze anos, viu-se obrigada a prover ao seu sustento e ao dos seus dois irmãos mais novos com os seus parcos rendimentos, que mal chegavam a sete cêntimos [do franco] por dia. Qual não foi a minha surpresa quando, no fim da semana, a vi trazer-me o ganho de dois dias, para que eu rezasse uma missa pelo repouso da alma da sua querida mãe. Aquelas pobres pequeninas tinham jejuado durante uma parte da semana para conseguir este humilde sufrágio para a sua falecida mãe. Ó santa esmola dos pobres e dos órfãos! Se o meu próprio coração foi tão profundamente tocado por ela, quanto mais o coração do nosso Pai Celestial, e que bênçãos ela terá trazido para aquela mãe e para os seus filhos!
Eis aí a generosidade dos pobres! Que exemplo e reprovação para tantos ricos, extravagantes no luxo e nos prazeres, mas avarentos quando se trata de dar uma esmola para mandar celebrar missas pelos seus parentes defuntos. Embora, antes de todas as outras intenções, incluindo a de se dedicar uma parte das esmolas para mandar celebrar missas pelas suas próprias almas ou pelas almas dos seus parentes e amigos, é conveniente empregar uma parte para o alívio dos pobres, ou para outras boas obras, como em benefício das escolas católicas, serviços de pregação da sã doutrina e outros fins, segundo as circunstâncias. Esta é uma santa liberalidade, conforme ao espírito da Igreja, e muito proveitosa para as almas do Purgatório'.
O Abade Louvet, de cuja obra destacamos o texto acima, relata um outro evento que serve para ser mencionado aqui. Trata-se de um homem de condição humilde que fez um sacrifício generoso em favor da Propagação da Fé, mas em circunstâncias que tornaram esse ato particularmente valioso para as necessidades futuras de sua alma no Purgatório. Um pobre porteiro de um seminário, durante a sua longa vida, tinha juntado, centavo a centavo, a soma de oitocentos francos. Não tendo família, destinou essa soma à celebração de missas após a sua morte.
Mas o que é que a caridade não pode fazer, quando faz inflamar um coração com o seu fogo sagrado? Um jovem padre estava prestes a deixar o seminário para partir para as missões estrangeiras. O velho sentiu-se inspirado a entregar-lhe o seu pequeno tesouro para a bela obra da Propagação da Fé. Deu o dinheiro ao missionário e disse a ele: 'Caro senhor, peço-lhe que aceite esta pequena esmola para o ajudar na obra da difusão do Evangelho. Guardei-a para mandar rezar missas depois da minha morte, mas prefiro ficar um pouco mais no Purgatório para que o nome do bom Deus seja glorificado'. O jovem padre comoveu-se até às lágrimas. Não quis aceitar a oferta demasiado generosa do pobre homem, mas este insistiu com tanta veemência que não teve coragem de o recusar.
Poucos meses depois, o bom velho morreu. Nenhuma aparição revelou o seu destino no outro mundo. Mas será que ele está necessitado? Não sabemos que o Coração de Jesus não pode deixar-se ultrapassar em generosidade? Não compreendemos que um homem que foi suficientemente generoso para se entregar às chamas do Purgatório, a fim de que Jesus Cristo fosse dado a conhecer às nações infiéis, não terá certamente encontrado abundante misericórdia perante o Soberano Juiz?
Tradução da obra: 'Le Dogme du Purgatoire illustré par des Faits et des Révélations Particulières', do teólogo francês François-Xavier Schouppe, sj (1823-1904), 342 p., tradução pelo autor do blog.
Capítulo XL
Razões e Exemplos para a Devoção às Santas Almas - Obrigação de Caridade e de Justiça - O Roubo aos Falecidos - A Propriedade Devastada - O Velho Soldado e o seu Legado Piedoso Não Cumprido
Acabamos de considerar a devoção às almas do Purgatório como uma obra de caridade. A oração pelos mortos, dissemos, é uma obra santa, porque é um exercício muito salutar da mais excelente das virtudes, a caridade. Esta caridade para com os defuntos não é apenas facultativa e de conselho, mas é também de preceito, não menos do que dar esmolas aos pobres. Como existe uma obrigação geral de caridade para dar esmolas, com quanto maior razão não somos obrigados pela lei geral da caridade a ajudar os nossos irmãos sofredores no Purgatório?
Esta obrigação de caridade está muitas vezes associada a uma obrigação de justiça rigorosa. Quando um moribundo, quer por palavra, quer por testamento escrito, exprime os seus últimos desejos no que diz respeito às obras de piedade; quando encarrega os seus herdeiros de mandar celebrar um certo número de missas, de distribuir uma certa soma em esmolas, para qualquer boa obra que seja, os herdeiros são obrigados, em estrita justiça, a partir do momento em que entram na posse da propriedade, a cumprir sem demora os últimos desejos do falecido.
Este dever de justiça é tanto mais sagrado quanto estes legados piedosos não passam frequentemente de restituições disfarçadas. Ora, o que nos ensina a experiência cotidiana? Será que as pessoas se apressam com religiosa exatidão a cumprir essas piedosas obrigações que dizem respeito à alma do defunto? Infelizmente, muito pelo contrário. Uma família que se apodera de uma fortuna considerável distribui ao seu pobre parente defunto os poucos sufrágios que ele reservou para seu próprio benefício espiritual; e se as sutilezas da lei civil os favorecem, os membros dessa família não se envergonham, sob o pretexto de alguma informalidade, de anular fraudulentamente o testamento para se livrarem da obrigação de fazer esses legados piedosos. Não é em vão que o autor da Imitação de Cristo nos aconselha a satisfazer os nossos pecados durante a nossa vida e a não depender demasiado dos nossos herdeiros, que muitas vezes negligenciam a execução das piedosas doações feitas por nós para o alívio das nossas pobres almas.
Para estas famílias - todo cuidado é pouco! É uma injustiça sacrílega combinada com uma crueldade atroz. Roubar a um pobre, diz o IV Concílio de Cartago, é como tornar-se o seu assassino (Egentium Necatores). Que diremos, pois, daqueles que roubam os mortos, que os privam injustamente dos seus sufrágios e os deixam sem assistência nos terríveis tormentos do Purgatório? Além disso, aqueles que se tornam culpados desse roubo infame são frequentemente punidos mais severamente por Deus, mesmo nesta vida. Às vezes, ficamos espantados ao ver uma fortuna considerável derreter-se, por assim dizer, nas mãos de certos herdeiros; uma espécie de maldição parece pairar sobre certas heranças. No dia do Juízo Final, quando o que agora está oculto se manifestar, veremos que a causa dessa ruína terá sido frequentemente a avareza e a injustiça dos herdeiros, que negligenciaram as obrigações impostas a eles em relação aos legados piedosos relativos à herança.
Aconteceu em Milão, diz o Padre Rossignoli, que uma magnífica propriedade, situada a pouca distância da cidade, foi completamente devastada pelo granizo, enquanto os campos vizinhos permaneceram ilesos. Este fenómeno atraiu a atenção e o espanto; fazia lembrar as pragas do Egito. O granizo devastou os campos dos egípcios e respeitou a terra de Gessen, habitada pelos filhos de Israel. Este foi considerado como um flagelo semelhante. O granizo misterioso não podia ter-se confinado exclusivamente aos limites de uma propriedade sem obedecer a uma causa inteligente. As pessoas não sabiam como explicar este fenômeno, quando a aparição de uma alma do Purgatório revelou que se tratava de um castigo infligido aos filhos ingratos e culpados, que tinham negligenciado a execução da última vontade do seu falecido pai relativamente a certas obras de piedade.
Sabemos que em todos os países e em todos os lugares, fala-se de casas assombradas, tornadas inabitáveis, com grande prejuízo para seus proprietários. Ora, se tentarmos descobrir a causa disso, geralmente descobriremos que uma alma esquecida por seus parentes volta para reclamar os sufrágios que lhe são devidos. Quer seja atribuído à credulidade, à excitação da imaginação, à alucinação, ou mesmo ao engano, permanecerá sempre um fato bem provado para ensinar aos herdeiros insensíveis como Deus castiga tal conduta injusta e sacrílega, mesmo nesta vida.
O seguinte evento, que foi relatado por Tomás de Cantimpre (Rossign., Merv., 15), demonstra claramente quão culpáveis são, aos olhos de Deus, os herdeiros que defraudam os mortos. Durante as guerras de Carlos Magno, um valente soldado tinha servido nos mais importantes e honrosos cargos. A sua vida era a de um verdadeiro cristão. Contente com o seu soldo, abstinha-se de qualquer ato de violência e o tumulto do campo nunca o impediu de cumprir os seus deveres essenciais, embora em assuntos de menor importância tivesse sido culpado de muitas pequenas faltas comuns aos homens da sua profissão. Tendo atingido uma idade muito avançada, adoeceu; e vendo que a sua última hora tinha chegado, chamou à sua cabeceira um sobrinho órfão, de quem tinha sido pai, e expressou-lhe os seus desejos de morte.
'Meu filho' - disse ele - 'sabes que não tenho riquezas para te legar; só tenho as minhas armas e o meu cavalo. As minhas armas são para ti. Quanto ao meu cavalo, vende-o quando eu tiver entregue a minha alma a Deus, e reparte o dinheiro entre os padres e os pobres, para que os primeiros ofereçam o Santo Sacrifício por mim, e os outros me ajudem com as suas orações'. O sobrinho chorou e prometeu executar sem demora os últimos desejos do seu tio e benfeitor moribundo. O velho soldado morreu pouco depois, o sobrinho tomou posse das armas e levou o cavalo. Era um animal muito bonito e valioso. Em vez de o vender imediatamente, como tinha prometido ao seu falecido tio, começou por usá-lo em pequenas viagens e, como estava muito satisfeito com ele, não quis desfazer-se dele tão cedo. Adiou com o duplo pretexto de que não havia nada que obrigasse ao cumprimento imediato da sua promessa e que aguardaria uma ocasião favorável para obter um preço elevado por ele. Assim, adiando de dia para dia, de semana para semana e de mês para mês, acabou por abafar a voz da consciência e esqueceu a obrigação sagrada que havia assumido para com a alma do seu benfeitor.
Seis meses se passaram, quando, certa manhã, o falecido apareceu-lhe dirigindo-se a ele em termos de severa reprovação. 'Homem infeliz' - disse ele - 'esqueceste a alma do teu tio; violaste a promessa sagrada que fizeste no meu leito de morte. Onde estão as missas que deverias ter mandado rezar? Onde estão as esmolas que deveríeis ter distribuído aos pobres para o repouso da minha alma? Por causa da vossa negligência culpada, sofri tormentos inauditos no Purgatório. Finalmente, Deus teve piedade de mim; hoje vou gozar a companhia dos bem-aventurados no Céu. Mas tu, por um justo julgamento de Deus, morrerás dentro de poucos dias e serás submetido às mesmas torturas que me restariam suportar se Deus não tivesse tido misericórdia de mim. Sofrerás durante o mesmo tempo que eu deveria ter sofrido, depois do qual começarás então a expiação das tuas próprias faltas'.
Alguns dias depois, o sobrinho adoeceu gravemente. Chamou imediatamente um sacerdote, relatou-lhe a visão e confessou os seus pecados, chorando amargamente. 'Vou morrer em breve' - disse ele - 'e aceito a morte das mãos de Deus como um castigo que muito mereci'. Ele expirou em sentimentos de humilde arrependimento. Essa foi apenas a menor parte dos sofrimentos que lhe foram anunciados como punição por sua injustiça; trememos de horror ao pensar na parte restante que ele estava prestes a cumprir na outra vida.