O GRANDE
DESCONHECIDO
Segunda Parte –
O PURGATÓRIO, MISTÉRIO DE MISERICÓRDIA
Capítulo I
Temor e Confiança - A Misericórdia de Deus - Santa Lidwina e o Sacerdote Pouco Confiante - A Boa Vontade - São Claúdio de la Colombière e seu Testemunho Espiritual
Acabamos de considerar os rigores da Justiça Divina na outra vida; eles são tremendos e é impossível pensar neles sem um grande temor. A esse fogo aceso pela justiça divina e a essas dores excruciantes, comparadas com as quais todas as penitências dos santos e todos os sofrimentos dos mártires juntos não são nada, quem ousaria pensar e refletir sobre elas e não estremecer de muito medo?
Este temor é salutar e conforme ao espírito de Jesus Cristo. Nosso Divino Mestre deseja que tenhamos medo e que tenhamos medo não só do Inferno, mas também do Purgatório, que é uma espécie de inferno mitigado. É para nos inspirar este santo temor que Ele nos mostra as masmorras do Supremo Juiz, de onde não sairemos até que tenhamos pago o último centavo (Mt 5, 26). Podemos dizer do fogo do Purgatório o que se diz do fogo do Inferno: 'Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma, mas temei aquele que pode lançar no inferno tanto a alma como o corpo' (Mt 10,28).
No entanto, não é intenção de Nosso Senhor que tenhamos um medo excessivo e estéril, um medo que nos tortura e desencoraja, um medo sombrio e sem confiança. Não; Ele deseja que nosso medo seja temperado com uma grande confiança em sua misericórdia; Ele deseja que tenhamos medo do mal para preveni-lo e evitá-lo; Ele deseja que o pensamento dessas chamas vingadoras nos estimule ao fervor ao seu serviço, e nos leve a expiar nossas faltas neste mundo e não no outro. 'Melhor é purgar nossos pecados e eliminar os nossos vícios agora' - diz o autor da Imitação - 'do que mantê-los para purificação futura' (Im 1, 24.2). Além disso, se apesar de nossos esforços para viver bem e de satisfazer nossos pecados neste mundo, temos temores bem fundamentados de que teremos que passar por um purgatório, devemos olhar para essa contingência com confiança ilimitada em Deus, que nunca deixa de consolar aqueles a quem Ele purifica pelos sofrimentos.
Assim, no sentido de dar ao nosso medo esse caráter prático, esse contrapeso de confiança, depois de ter contemplado o Purgatório com todo o rigor de suas dores, devemos considerá-lo sob outro aspecto e de um ponto de vista diferente – o da Misericórdia de Deus, que brilha nele com não menos magnitude que a sua Justiça. Se Deus reserva castigos terríveis na outra vida para as menores faltas, Ele não os inflige sem, ao mesmo tempo, temperá-los com clemência; e nada mostra melhor a admirável harmonia da perfeição divina do que o Purgatório, porque ali se exerce a mais severa Justiça, juntamente com a mais inefável Misericórdia. Se Nosso Senhor castiga as almas que lhe são queridas, é de acordo com o seu amor, segundo as palavras: 'A quem amo, repreendo e castigo' (Ap 3,19). Com uma mão, Ele golpeia e, com a outra, Ele cura. Ele oferece misericórdia e redenção em abundância: quoniam apud Dominum misericordia, et copiosa apud eum redemptio (Sl 129). Esta infinita Misericórdia de nosso Pai Celestial deve ser o firme fundamento de nossa confiança e, a exemplo dos santos, devemos mantê-lo sempre diante dos nossos olhos. Os santos nunca a perderam de vista; e foi por isso que o temor do Purgatório nunca os privou de sua paz e alegria do Espírito Santo.
Santa Lidwina, que tão bem conhecia a terrível severidade do sofrimento expiratório, estava animada por esse espírito de confiança e se esforçou sempre para o inspirar também aos outros. Certa vez, recebeu a visita de um padre piedoso. Enquanto ele estava sentado ao lado dela, junto com outras pessoas virtuosas, a conversa girava em torno dos sofrimentos da outra vida. Vendo nas mãos de uma mulher um vaso cheio de grãos de mostarda, o padre aproveitou para comentar que tremia ao pensar no fogo do Purgatório. 'No entanto' - acrescentou - 'eu ficaria satisfeito em ir lá por tantos anos quantos grãos de semente houver neste vaso; então, pelo menos, eu poderia ter certeza da minha salvação'. 'O que você está dizendo padre - respondeu a santa - 'por que tão pouca confiança na Misericórdia de Deus? Ah se o senhor tivesse um melhor conhecimento do Purgatório e dos terríveis tormentos que ali são suportados!' 'Seja o Purgatório o que for' - respondeu ele - 'eu mantenho o que falei'. Algum tempo depois, este sacerdote faleceu e quando as mesmas pessoas que estiveram presentes durante a conversa dele com Santa Lidwina, questionaram a santa sobre a sua condição no outro mundo, ela respondeu: 'O falecido está bem por causa de sua vida virtuosa, mas teria sido melhor para ele se ele tivesse mais confiança na Paixão de Jesus Cristo e se tivesse tido uma visão mais branda sobre os assuntos do Purgatório'.
Em que consistia essa falta de confiança que mereceu a desaprovação da santa? Na opinião deste bom sacerdote de que é quase impossível ser salvo e que só entraremos no Céu depois de ter sofrido incontáveis anos de tortura. Essa ideia é completamente equivocada e contrária à confiança cristã. Nosso Salvador veio trazer paz aos homens de boa vontade, e nos impor, como condição de nossa salvação, um jugo que é suave e um fardo que não é pesado. Assim, faça valer sempre a sua boa vontade e você encontrará a paz interior e todas as dificuldades e contrariedades irão desaparecer. Boa vontade! Isso é tudo. Seja uma pessoa de boa vontade, submeta-se à Vontade de Deus e anteponha a sua Santa Lei acima de tudo, servindo ao Senhor com todo o seu coração e Ele lhe dará uma assistência tão poderosa que você entrará no Paraíso com uma facilidade surpreendente. Eu nunca poderia acreditar - você seria levado a pensar - que era tão fácil entrar no céu! Mais uma vez, repito, para realizar em nós esta maravilha de Misericórdia, Deus pede de nossa parte apenas um coração reto e uma boa vontade.
A boa vontade consiste, propriamente falando, em submeter e conformar a nossa vontade à de Deus, que é o fundamento de toda boa vontade; e esta boa vontade atinge a sua perfeição máxima quando abraçamos a Vontade Divina como o bem soberano, mesmo quando ela nos impõe os maiores sacrifícios e os mais agudos sofrimentos. Ó estado admirável! A alma assim disposta parece perder a sensação de dor e isso porque a alma está animada com o espírito de amor; e, como diz Santo Agostinho, quando amamos não sofremos, ou, se sofremos, amamos o sofrimento - In eo quod amatur, aut non laboratur, aut ipse labor amatur.
São Cláudio de la Colombiere, da Companhia de Jesus, possuía este coração amoroso e esta vontade perfeita, e no seu Retiro Espiritual, exprime assim os seus sentimentos: 'Não devemos deixar de expiar as desordens passadas da nossa vida pela penitência; mas isso deve ser feito sem ansiedade, porque o pior que pode nos acontecer, quando nossa vontade é boa e somos submissos e obedientes, é que tenhamos que passar por muito tempo ao Purgatório, o que se pode dizer com razão não ser isso um grande mal. Eu não temo o Purgatório. Do Inferno nem falarei, pois seria ofender a Misericórdia de Deus por possuir o menor medo do Inferno, embora o tenha merecido mais do que todos os demônios juntos. Mas o Purgatório eu não temo. Gostaria de não o ter merecido, pois não o poderia viver sem ter desagradado a Deus; mas, como o teria merecido, devo aceitar e satisfazer a Justiça divina da maneira mais rigorosa que se possa imaginar, e isso até o Dia do Juízo. Eu sei que os tormentos ali suportados são terríveis, mas sei que eles honram a Deus e não podem prover mais dano às almas; que lá estaremos certos de nunca mais nos opor à Vontade de Deus; que nunca mais nos ressentiremos do rigor de seus juízos, que iremos amar a gravidade da sua justiça e esperaremos com paciência até que toda ela seja apaziguada. Por isso, dou de todo o coração as minhas satisfações às almas do Purgatório, e a elas todos os sufrágios que serão oferecidos por mim depois de minha morte, para que Deus seja glorificado no Paraíso pelas almas que mereceram ser elevadas a um grau mais alto de glória do que eu'.
Eis o que faz esse extravasamento da Caridade e onde o amor de Deus e ao próximo nos leva quando se apodera do nosso coração: transforma e transfigura o sofrimento de tal forma que toda amargura se molda em doçura: 'quando chegares a tal ponto que a tribulação te seja doce e amável por amor de Cristo' (Imit 2,12.11). Tenhamos, pois, grande amor a Deus, uma grande caridade e pouco temor do Purgatório. O Espírito Santo nos acalenta no fundo do nosso coração de que, como filhos de Deus, não precisamos temer os castigos de um Pai.
Capítulo II
Confiança em Deus - A Misericórdia de Deus para com as Almas - Deus Consola as Almas segundo Santa Catarina de Gênova - Santa Madalena de Pazzi com a Alma do seu Irmão
É bem verdade que nem todos conseguem alcançar um elevado grau de caridade, mas não há quem não possa confiar na Divina Misericórdia. Esta misericórdia é infinita, dá paz a todas as almas que a mantêm constantemente diante dos olhos e nela confiam. Ora, a Misericórdia de Deus se exerce em relação ao Purgatório de três maneiras:
(i) em consolar as almas;
(ii) em mitigar seus sofrimentos;
(iii) dando-nos, antes da morte, mil meios de evitar o Purgatório.
Em primeiro lugar, Deus consola as almas do Purgatório; Ele mesmo as consola; e Ele também as consola por meio da Santíssima Virgem e dos santos anjos. Ele consola as almas inspirando-as com um alto grau de fé, esperança e amor divino – virtudes que produzem nelas a conformidade com a Vontade Divina, a resignação e a mais perfeita paciência. 'Deus' - diz Santa Catarina de Gênova - 'inspira a alma do Purgatório com um movimento de amor tão ardente, que bastaria aniquilá-la se ela não fosse imortal. Iluminada e inflamada por essa pura caridade, quanto mais ama a Deus, mais a alma detesta a menor mancha que o desagrada, o menor obstáculo que impede a sua união com Ele. Assim, se ela pudesse acessar um outro Purgatório, muito mais terrível do que aquele em que está condenada, a alma nele se precipitaria, impelida fortemente pela impetuosidade do amor que existe entre Deus e ela, para se livrar mais rapidamente de tudo o que ainda a separa do bem soberano'.
'Estas almas' - diz ainda a mesma santa - 'estão intimamente unidas à Vontade de Deus e tão completamente transformadas nela, que estão sempre satisfeitas com suas santas ordenanças. As almas do Purgatório não têm escolha própria; elas não podem mais querer outra coisa senão o que Deus quer. Assim recebem com perfeita submissão tudo o que Deus lhes dá; e nem o prazer, nem o contentamento e nem a dor podem fazê-las pensar em si mesmas.
Santa Madalena de Pazzi, após a morte de um de seus irmãos, tendo ido ao coro para orar por ele, viu a sua alma refém de um intenso sofrimento. Tocada de compaixão, ela se derreteu em lágrimas e gritou com voz comovente: 'Irmão, miserável e bem-aventurado! Ó alma aflita mas contente! Sujeita a dores tão intoleráveis e, ao mesmo tempo, aceitas e suportadas! Por que não são compreendidas neste mundo por aqueles que não têm a coragem de carregar as suas cruzes? Enquanto estavas neste mundo, ó meu irmão, não quisestes me ouvir e agora desejais ardentemente que eu vos ouça... Ó Deus igualmente justo e misericordioso, aliviai este irmão que o serviu desde a infância. Olhai para a sua bondade, eu lhe imploro, e volvei sobre ele a vossa grande misericórdia, ó Deus infinitamente justo!
No dia em que a santa teve aquele famoso êxtase, durante o qual percorreu as várias prisões do Purgatório, pôde ver de novo a alma do seu irmão: 'Pobre alma' - disse-lhe ela - 'como está doente e ainda assim está alegre. Você padece e se mantém feliz, porque sabe que essas tristezas o levarão um dia a uma grande e indescritível felicidade. Como serei feliz se nunca mais tivesse que padecer sofrimentos! Permanecei aqui, meu irmão, e completai a sua purificação em paz!'
Capítulo III
Consolação das Almas - Santo Estanislau de Cracóvia e a Ressurreição de Peter Miles
Este contentamento em meio ao sofrimento mais intenso não pode ser explicado senão pelas divinas consolações que o Espírito Santo infunde nas almas do Purgatório. O Espírito Divino, por meio da fé, da esperança e da caridade, dispõe estes dons à disposição dos enfermos que devem submeter-se a um tratamento muito penoso, mas cujo efeito é o de restabelecer-lhes a saúde perfeita. O doente sofre mas ama o seu sofrimento salutar. O Espírito Santo, o Consolador, dá um contentamento semelhante às almas santas.
Temos disso um exemplo singular na pessoa de Peter Miles, que foi ressuscitado dos mortos por Santo Estanislau de Cracóvia, mas que preferiu retornar ao Purgatório a viver novamente na terra. O célebre milagre desta ressurreição aconteceu em 1070. Vejamos como tal fato é relatado na Acta Sanctorum de 7 de maio. Santo Estanislau era bispo de Cracóvia quando o duque Boleslas II governava a Polônia. Ele não deixou de lembrar a este príncipe dos seus deveres, os quais violou escandalosamente diante de todo o seu povo.
Boleslas irritou-se com a santa liberdade do prelado e, para se vingar, incitou contra ele os herdeiros de um certo Peter Miles, que morrera três anos antes, depois de ter vendido um pedaço de terra à igreja de Cracóvia. Os herdeiros acusaram o santo de ter usurpado o terreno, sem o ter pago ao proprietário. Estanislau declarou que havia pago pelo terreno, mas como as testemunhas que deveriam tê-lo defendido foram subornadas ou intimidadas, ele foi denunciado como usurpador da propriedade alheia e condenado a fazer restituição. Então, vendo que nada tinha a esperar da justiça humana, elevou o seu coração a Deus e recebeu então uma inspiração repentina. Ele pediu um prazo de três dias, prometendo fazer Peter Miles comparecer pessoalmente, para que ele testemunhasse a compra legal e o pagamento do terreno.
O prazo foi concedido a ele em desprezo. O santo fez jejum e recolheu-se em profunda oração a Deus para assumir a defesa da sua causa. No terceiro dia, depois de ter celebrado a Santa Missa, saiu acompanhado pelo seu clero e de muitos fiéis, ao local onde o homem havia sido sepultado. Por suas ordens, a sepultura foi aberta; e nada continha além de ossos. Ele os tocou com o seu báculo e, em nome dAquele que é a Ressurreição e a Vida, ordenou que o morto se levantasse. De repente, os ossos se reuniram, cobriram-se de carne e, à vista do povo estupefato, viu-se o morto pegar o bispo pela mão e caminhar em direção ao tribunal. Boleslas, com a sua corte e uma imensa multidão, aguardava o resultado com a mais viva expectativa. 'Eis a testemunha - disse o santo a Boleslas - 'ele vem, príncipe, para dar testemunho diante de ti; interrogue-o pois e ele te responderá'. É impossível descrever a estupefação do duque, dos seus conselheiros e de toda a multidão. Peter Miles afirmou então que havia sido pago pelo terreno; em seguida, voltando-se para os seus herdeiros, repreendeu-os por terem acusado o piedoso prelado contra todos os direitos da justiça; e então ele os exortou a fazer penitência por um pecado tão grave.
Foi assim que a iniquidade, que se acreditava já certa de sucesso, foi confundida. Agora vem a circunstância que diz mais respeito ao nosso assunto e à qual desejamos nos referir. Desejando realizar este grande milagre para a glória de Deus, Estanislau propôs ao defunto que, se desejasse viver mais alguns anos, obteria para ele este favor de Deus. O homem respondeu que não tinha tal desejo. Ele estava no Purgatório, mas preferia voltar para lá imediatamente e suportar as suas dores do que expor-se à condenação nesta vida terrestre. Ele pediu ao santo apenas que implorasse a Deus que o tempo dos seus sofrimentos fosse reduzido, para que pudesse entrar mais cedo na morada dos eleitos. Depois disso, e acompanhado pelo bispo e uma grande multidão, Peter Miles voltou ao seu túmulo, deitou-se, e seu corpo desfez-se em ossos, retomando o estado tal como encontrado previamente. Temos motivos para acreditar que o santo obteve logo a libertação da sua alma.
O que há de mais notável neste exemplo, e que mais deveria chamar a nossa atenção, é que uma alma do Purgatório, depois de ter experimentado os tormentos mais excruciantes, preferiu aquele estado de sofrimento à vida deste mundo; e a razão que se dá para essa preferência é que, nesta vida mortal, estamos expostos ao perigo de nos perdermos e incorrermos em uma condenação eterna.
Capítulo IV
Consolação das Almas - Santa Catarina de Ricci e as Consolações pela Alma de um Príncipe
Relatemos um outro exemplo das consolações interiores e do misterioso contentamento que as almas experimentam em meio aos sofrimentos mais excruciantes: encontramo-lo na Vida de Santa Catarina de Ricci, religiosa da Ordem de São Domingos, falecida no Convento de Prato, em 2 de fevereiro de 1590. Esta serva de Deus tinha tão grande devoção pelas almas do Purgatório que sofreu no lugar delas nesta terra o que elas teriam de suportar no outro mundo. Entre outras coisas, ela libertou das chamas expiatórias a alma de um príncipe e sofreu por ele os mais terríveis tormentos por quarenta dias.
Este príncipe, cujo nome não é mencionado na história, em consideração sem dúvida a sua família, havia levado uma vida mundana, e a santa ofereceu muitas orações, jejuns e penitências para que Deus a iluminasse sobre a condição de sua alma e para que não fosse condenado. Deus se dignou ouvi-la e o infeliz príncipe, antes de sua morte, deu provas evidentes de uma conversão sincera. Morreu com bons sentimentos e assim alcançou o Purgatório. Catarina apreendeu isso por revelação divina em oração e se ofereceu para satisfazer a Justiça Divina por aquela alma.
Nosso Senhor atendeu a sua oferta de caridade e, assim, recebeu a alma do príncipe na glória, submetendo Catarina então a sofrimentos totalmente incomuns pelo período de quarenta dias. Ela foi afetada por uma doença que, de acordo com o julgamento dos médicos, não era natural e que não tinha possibilidade de cura e nem de alívio. De acordo com o depoimento de testemunhas oculares, o corpo da santa ficou coberto de bolhas cheias de um fluido aquecido e inflamado, como água fervente. Isso causou tanto calor que a sua cela parecia um forno e exposta ao fogo, de tal maneira que era impossível permanecer ali por alguns instantes sem sair para respirar. A carne da paciente estava fervendo e sua língua parecia um pedaço de metal em brasa. A intervalos, a inflamação cessava e então a carne parecia assada, para logo em seguida reaparecerem as bolhas e o mesmo calor excruciante.
No entanto, em meio a essa tortura, a santa não perdeu a serenidade de seu semblante e nem a paz de sua alma, mas, ao contrário, parecia se alegrar com os seus tormentos. Às vezes, os sofrimentos aumentavam a tal ponto que ela perdia a fala por dez ou mais minutos. Quando uma irmã religiosa lhe disse que ela parecia estar em chamas, ela respondeu simplesmente: 'Sim', sem acrescentar mais nada. Quando, em outra ocasião, manifestaram a ela que tal zelo havia ido longe demais e que não deveria pedir a Deus um sofrimento tão excessivo, ela respondeu: 'Perdoem-me, minhas queridas irmãs se eu não lhes atendo, mas é que Jesus tem tanto amor pelas almas, que tudo o que fazemos pela salvação delas lhe é infinitamente agradável; por isso suporto de bom grado qualquer dor, seja ela qual for, tanto pela conversão dos pecadores como pela libertação das almas detidas no Purgatório'. Ao final dos quarenta dias, Catarina voltou ao seu estado normal. Os parentes do príncipe perguntaram a ela onde estava a sua alma. 'Não tenham medo' - respondeu ela - a alma dele já está no gozo da glória eterna'. Assim se soube finalmente que era pela alma dele que ela tanto sofrera.
Este exemplo nos ensina muitas coisas, mas o citamos para mostrar que os maiores sofrimentos não são incompatíveis com a paz interior. Nossa santa, enquanto suportou visivelmente as penas do Purgatório, experimentou nisso uma paz admirável e um contentamento sobre-humano.
Capítulo V
Consolação das Almas - A Santíssima Virgem como Mãe das Almas do Purgatório - Padre Jerônimo Carvalho - Beato Renier de Citeaux
As almas do Purgatório recebem também grande consolação por meio da Santíssima Virgem. Ela não é a Consoladora dos Aflitos? E que aflição pode ser comparada à das pobres almas do Purgatório? Ela não é a Mãe da Misericórdia? E não é para essas santas almas sofredoras que ela deve mostrar toda a misericórdia do seu coração? Não devemos pois estranhar que, nas Revelações de Santa Brígida, a Rainha do Céu se dê o belo nome de 'Mãe das Almas do Purgatório'. 'Eu sou' - disse Nossa senhora àquela santa - 'a Mãe de todos aqueles que estão no lugar de expiação e minhas orações mitigam os castigos que lhes são infligidos por suas faltas'.
A 25 de outubro de 1604, no Colégio da Companhia de Jesus de Coimbra, o Padre Jerônimo Carvalho faleceu em odor de santidade, com a idade de cinquenta anos. Este admirável e humilde servo de Deus sentiu uma viva apreensão pelos sofrimentos do Purgatório. Nem as cruéis macerações que infligia a si mesmo várias vezes ao dia, sem contar aquelas induzidas a cada semana pela memória da Paixão, nem as seis horas que dedicava de manhã e à noite à meditação de temas sagrados, pareciam suficientes a ele para protegê-lo do castigo que ele imaginava esperar após a morte. Mas um dia a Rainha do Céu, a quem ele manifestava uma terna devoção, condescendeu em consolar o seu servo com a simples certeza de que ela era uma Mãe de Misericórdia para os seus queridos filhos no Purgatório, tanto como para os da terra. Difundindo mais tarde esta consoladora doutrina, o santo homem deixou escapar acidentalmente, no ardor de suas palavras, esta revelação: 'Ela mesma me disse isto'.
Conta-se que um grande servo de Maria, o Beato Renier de Citeaux, tremeu ao pensar em seus pecados e na terrível Justiça de Deus após a morte. Em seu temor, dirigindo-se à sua grande protetora, a quem chamava de Mãe de Misericórdia, foi arrebatado em espírito e viu a Mãe de Deus suplicando ao seu Filho em seu favor. 'Meu Filho' - dizia ela - 'cuida dele com misericórdia no Purgatório, porque ele humildemente se arrepende de seus pecados'. 'Minha Mãe' - respondeu Jesus - 'coloco a causa dele em tuas mãos', significando dizer que se fizesse segundo o desejo da sua Mãe. O Beato Renier compreendeu então, com indescritível alegria, que Maria obtivera a sua isenção do Purgatório.
Capítulo VI
Consolação das Almas - A Santíssima Virgem e o Privilégio dos Sábados - Venerável Paula de Santa Teresa - São Pedro Damião e o Relato de uma Visão Milagrosa
É em certos dias especiais que a Rainha do Céu exerce a sua misericórdia no Purgatório. Esses dias privilegiados são: primeiro todos os sábados e depois as diversas festas da Santíssima Virgem, que assim se tornam como festas no Purgatório. Vemos nas revelações dos santos que, no sábado, dia especialmente consagrado à Santíssima Virgem, a doce Mãe de Misericórdia desce às masmorras do Purgatório para visitar e consolar os seus devotos servos. Então, segundo a piedosa crença dos fiéis, ela resgata aquelas almas que, tendo usado o santo escapulário, gozam deste privilégio sabatino, e depois dá alívio e consolo a outras almas que lhe foram particularmente devotas. Testemunha disso foi a Venerável Irmã Paula de Santa Teresa, religiosa dominicana do Convento de Santa Catarina de Nápoles.
Num sábado, arrebatada em êxtase e transportada em espírito para o Purgatório, ficou algo surpreendida ao encontrá-lo transformado num Paraíso de delícias, iluminado por uma luz brilhante, em vez da escuridão que prevalecia em outras ocasiões. Enquanto ela se perguntava qual poderia ser a causa dessa mudança, ela percebeu a Rainha do Céu cercada por uma multidão de anjos, aos quais ela deu ordens para libertar aquelas almas que a honraram de maneira especial e conduzi-las ao Céu. Se isso ocorre em um sábado comum, dificilmente podemos duvidar que o mesmo ocorra nos dias de festa consagrados à Mãe de Deus. Entre todas as suas festas, a da gloriosa Assunção de Maria parece ser o principal dia de libertação.
São Pedro Damião nos diz que todos os anos, no dia da Assunção, a Santíssima Virgem resgata vários milhares de almas. Eis o relato de uma visão milagrosa que ilustra este assunto: 'É um piedoso costume' - diz ele - 'que tem o povo de Roma de visitar as igrejas, levando uma vela na mão, durante a noite anterior à Festa da Assunção de Nossa Senhora'. Ora, aconteceu que uma pessoa de posição, estando de joelhos na basílica de Santa Maria em Aracoeli, em Campidoglio, viu diante dela, prostrada em oração, outra senhora, que reconheceu como sendo a sua madrinha, falecida alguns meses antes. Surpresa, e não podendo acreditar em seus olhos, ela quis desvendar o mistério e, então, postou-se perto da porta da igreja. Assim que viu a senhora sair, pegou-a pela mão e puxou-a para o lado. 'Você não é a minha madrinha Marozi, que me segurou na pia batismal?' 'Sim, sou eu' - respondeu a aparição imediatamente. 'E como é que te encontro entre os vivos, já que estás morta há mais de um ano?' 'Até hoje estive mergulhada em um fogo terrível, por causa dos muitos pecados de vaidade que cometi em minha juventude, mas hoje, durante esta grande solenidade, a Rainha do Céu desceu ao meio das chamas do Purgatório e me livrou, juntamente com um grande número de outras almas, para que possamos entrar no Céu na festa de sua Assunção. Ela pratica esse grande ato de clemência todos os anos; e, apenas no dia de hoje, o número daqueles que ela libertou é igual à população de Roma. Vendo que a sua afilhada permanecia estupefata e parecia ainda duvidar da evidência de seu bom senso, a aparição acrescentou: 'Como prova da verdade de minhas palavras, saiba que você mesmo morrerá daqui a um ano, na festa da Assunção; se você sobreviver a esse período, acredite que isso foi uma ilusão'. São Pedro Damião conclui este relato dizendo que a jovem passou o ano praticando o exercício das boas obras, a fim de se preparar para comparecer diante de Deus. No ano seguinte, na Vigília da Assunção, ela adoeceu e morreu no próprio dia da festa, como havia sido previsto.
A festa da Assunção é, pois, o grande dia da misericórdia de Maria para com as pobres almas; ela se deleita em introduzir os seus filhos na glória do Céu, no aniversário do dia em que ela entrou pela primeira vez em seus abençoados portais. Esta crença piedosa, acrescenta o Abade Louvet, baseia-se em um grande número de revelações particulares; é por essa razão que em Roma a Igreja de Santa Maria in Montorio, que é o centro da arquiconfraria dos sufrágios pelos defuntos, é dedicada nessa intenção com o título de Assunção.
Capítulo VII
Consolação das Almas - A Intercessão dos Anjos - Venerável Paula de Santa Teresa - Pedro de Basto: Vida de Santidade e Devoção pelas Almas do Purgatório
Além das consolações que recebem da Santíssima Virgem, as almas são também assistidas e consoladas no Purgatório pelos santos anjos e, principalmente, pelos seus anjos da guarda. Os doutores da Igreja ensinam que a missão tutelar dos anjos da guarda só termina com a entrada dos protegidos no Paraíso. Se, no momento da morte, uma alma em estado de graça ainda não se tornou digna de ver a face do Altíssimo, o anjo da guarda a conduz ao lugar de expiação, e ali permanece junto dela para lhe providenciar toda a assistência e consolo em seu poder.
É uma opinião comum entre os santos doutores - diz o Padre Rossignoli - que Deus, que um dia enviará os seus anjos para reunir os eleitos, também os envia de tempos em tempos ao Purgatório, para visitar e consolar as almas sofredoras. Sem dúvida, não pode haver alívio mais precioso do que a visão dos habitantes do Céu, aquela morada abençoada para onde um dia irão para desfrutar de sua gloriosa e eterna felicidade.
As Revelações de Santa Brígida estão repletas de exemplos dessa natureza e as vidas de vários santos também fornecem um grande número deles. A Venerável Irmã Paula de Santa Teresa, de quem já falamos no capítulo anterior, tinha uma devoção extraordinária para com a Igreja Padecente, pela qual foi recompensada em vida com visões milagrosas. Um dia, enquanto fazia uma oração fervorosa nesta intenção, foi transportada em espírito para o Purgatório, onde viu um grande número de almas mergulhadas nas chamas. Perto delas, ela viu nosso Salvador, assistido pelos seus anjos que apontavam, um após o outro, várias almas que Ele desejava levar para o Céu, para onde eram levadas sob indizível alegria. Diante da visão, a serva de Deus, dirigindo-se ao seu Divino Esposo, disse: 'Ó Jesus, por que esta escolha entre uma multidão tão vasta?' 'Eu libertei' - dignou-se a responder - 'aqueles que durante a vida realizaram grandes atos de caridade e misericórdia, e que mereceram que eu cumprisse a minha promessa a respeito deles: bem-aventurados os misericordiosos, porque obterão misericórdia'.
Na vida do servo de Deus, Pedro de Basto, encontramos um exemplo que mostra como os santos anjos, mesmo enquanto velam por nós na terra, se interessam pelas almas do Purgatório. E já que mencionamos o nome do Irmão Basto, não podemos resistir ao desejo de dar a conhecer este admirável religioso aos nossos leitores; sua história é tão interessante quanto edificante.
Pedro de Basto, irmão coadjutor da Companhia de Jesus e a quem o seu biógrafo chama de Alfonso Rodríguez do Malabar, morreu em odor de santidade em Cochim, em primeiro de março de 1645. Nasceu em Portugal, da ilustre família dos Machado, unidos pelo sangue a toda a nobreza de toda a província entre o Douro e o Minho. Os duques de Pastrano e Hixar estavam entre seus parentes e o mundo lhe oferecia então uma carreira com as mais brilhantes perspectivas. Mas Deus o reservou para si mesmo e o dotou de maravilhosos dons espirituais. Ainda muito pequeno, quando levado à igreja, rezava diante do Santíssimo Sacramento com o fervor de um anjo. Ele acreditava que todo o povo via como ele, com os olhos do corpo, as legiões de espíritos celestiais em adoração perto do altar e do tabernáculo e, desde então, também o divino Salvador, oculto sob os véus eucarísticos, tornou-se por excelência o centro de todos os seus afetos e das inúmeras maravilhas que preencheram a sua longa e santa vida.
Foi aí que, mais tarde, como num sol divino, descobriu sem véus o futuro e os seus detalhes mais imprevistos. Foi a ele também que Deus mostrou os símbolos misteriosos de uma escada de ouro que unia o Céu e a terra, sustentada pelo tabernáculo, e do lírio da pureza, enraizado e se alimentando do divino trigo dos eleitos e do vinho que sozinho pode gerar virgens. Aos dezessete anos, graças à sua pureza de coração e à fortaleza cuja fonte inesgotável era o Sacramento da Eucaristia, Pedro fez em Lisboa um voto de castidade perpétua aos pés de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Ainda assim, não pensou em deixar o mundo e, alguns dias depois, embarcou para as Índias e por dois anos exerceu a profissão militar. Ao final desse período, e sob o risco de um naufrágio, indefeso à mercê das ondas por cinco dias inteiros, foi amparado e salvo pela Rainha do Céu e pela aparição do seu Divino Filho. Prometeu então dedicar-se inteiramente ao estado religioso pelo resto de sua vida. Assim que regressou a Goa, tendo então apenas dezenove anos, foi e ofereceu-se na condição de irmão leigo aos Superiores da Companhia de Jesus. Temendo que o seu nome lhe valesse algum sinal de distinção ou privilégio, adotou doravante o complemento do nome da humilde aldeia onde recebera o batismo, passando a chamar-se simplesmente Pedro de Basto.
Pouco tempo depois, durante uma das provações do seu noviciado, ocorreu este maravilhoso incidente que está registrado nos Anais da Sociedade e que é tão consolador para todos os filhos de Santo Inácio. O mestre de noviços do irmão Pedro enviou-o em peregrinação com dois jovens companheiros à ilha de Salsette, ordenando-lhes que não aceitassem a hospitalidade de nenhum dos missionários, mas que mendigassem de aldeia em aldeia o pão de cada dia e o alojamento da noite. Um dia, cansados da longa viagem, encontraram acolhida em uma família muito humilde, constituída por um ancião, uma mulher e uma criança, que os recebeu com a maior caridade e os incitou a participar de uma refeição frugal. No momento da partida, depois de lhes ter retribuído a acolhida com mil agradecimentos, quando Pedro de Basto implorou aos seus anfitriões que lhe dissessem os seus nomes, de modo a recomendá-los expressamente às graças de Deus, ouviu a mulher lhe dizer: 'Nós somos os três fundadores da Companhia de Jesus', desaparecendo todos no mesmo instante.
Toda a vida religiosa desse santo homem até a sua morte – ou seja, quase cinquenta e seis anos – não foi senão uma cadeia de prodígios e de graças extraordinárias; mas, devemos acrescentar, que ele os mereceu e os comprou, por assim dizer, ao preço da virtude, do trabalho e dos sacrifícios mais heroicos. Incumbido alternadamente de cuidar da lavandaria, da cozinha ou da porta, nos seminários de Goa, de Tuticurin, de Coulao e de Cochim, Pedro nunca procurou afastar-se dos trabalhos mais árduos, nem reservar a si um pouco de lazer, às custas dos seus diferentes ofícios, para que pudesse desfrutar sempre das alegrias da oração. Doenças severas e cuja única causa era o trabalho excessivo - dizia ele sorrindo - eram as suas distrações mais agradáveis. Além disso, abandonado, por assim dizer, à fúria do demônio, o servo de Deus quase não gozava de descanso. Os espíritos das trevas apareceram para ele sob as formas mais terríveis e, muitas vezes, o espancavam severamente, especialmente na hora em que, todas as noites como era seu costume, ele interrompia o sono para ir rezar diante do Santíssimo Sacramento.
Um dia, enquanto viajavam, seus companheiros fugiram diante o alvoroço de uma tropa de homens de aparência formidável, montados em cavalos e elefantes, que vinham ao encontro deles em fúria. Só ele permaneceu calmo e quando seus companheiros expressaram seu espanto por ele não ter manifestado o menor sinal de medo, ele respondeu: 'Se Deus não permite que os demônios exerçam a sua raiva contra nós, o que temos a temer? E se Ele lhes dá permissão, por que então eu deveria me esforçar para escapar da sua fúria? Bastou invocar a Rainha do Céu e ela apareceu imediatamente ao meu lado, pondo em fuga a tropa infernal.
Muitas vezes parecia que tudo era confusão, até no fundo da sua alma, e ele só encontrava a paz e a tranquilidade quando estava no seu refúgio habitual, ou seja, Jesus presente na Santa Eucaristia. Carregado um dia de ultrajes, que lhe causaram alguma pequena perturbação, prostrou-se ao pé do altar e pediu ao nosso Divino Salvador o dom da paciência. Então Nosso Senhor lhe apareceu coberto de chagas, um manto púrpura sobre os ombros, uma corda no pescoço, um junco nas mãos e uma coroa de espinhos na cabeça; então, dirigindo-se a Pedro, disse: 'Veja o que o verdadeiro Filho de Deus sofreu para ensinar os homens a sofrer'.
Mas não falamos no ponto que queríamos ilustrar com esta vida santa – quero dizer, a devoção de Pedro de Basto para com as almas do Purgatório, devoção encorajada e secundada pelo seu bom anjo da guarda. Apesar dos seus numerosos trabalhos, ele recitava diariamente o Santo Rosário em intenção dos falecidos. Um dia, tendo-o esquecido, retirou-se sem o ter recitado mas, mal tinha adormecido, quando foi acordado pelo seu anjo. 'Meu filho' - disse o espírito celestial - 'as almas do Purgatório estão esperando o benefício de suas esmolas diárias'. E então Pedro levantou-se instantaneamente para cumprir esse dever de piedade.
Capítulo VIII
Consolação das Almas - A Intercessão dos Anjos - Beata Emília de Vercelli - Intercessão dos Santos do Céu
Se os santos anjos são zelosos pelas almas do Purgatório em geral, é fácil compreender que tenham particular zelo pelas almas dos seus protegidos. No convento de Vercelli, onde a Beata Emilia, religiosa dominicana, era prioresa, era questão de regra nunca beber nada entre as refeições, a não ser com autorização expressa da Superiora. Tal permissão a Beata Prioresa não estava acostumada a conceder e aconselhava suas irmãs a fazer aquele pequeno sacrifício alegremente, em memória da sede ardente que nosso Salvador havia padecido por nossa salvação na Cruz; para incentivá-los a fazer esse sacrifício, ela sugeria que confiassem aquelas poucas gotas de água aos seus anjos da guarda, para que fossem preservadas até a outra vida, para com elas temperar o calor do Purgatório.
Em uma certa ocasião, uma irmã chamada Cecília Avogadra veio pedir permissão para se refrescar com um pouco de água, pois estava com sede. 'Minha filha' - disse a Prioresa - 'faça este pequeno sacrifício pelo amor de Deus e em consideração ao Purgatório'. 'Madre, este sacrifício não é pouco pois realmente estou morrendo de sede' - respondeu a boa irmã mas, embora um tanto triste, obedeceu ao conselho de sua superiora. Este duplo ato de obediência e mortificação foi precioso aos olhos de Deus e a Irmã Cecília logo recebeu a sua recompensa. Com efeito, algumas semanas depois, ela faleceu e, após três dias, apareceu resplandecente em glória à Madre Emilia. 'Ó Madre - ela disse - 'como sou grata a ti! Fui condenada a um longo Purgatório por ter me apegado demais à minha família e eis que, depois de dois dias, vi o meu anjo da guarda entrar em minha prisão, segurando na mão o copo d'água que me fizeste oferecer em sacrifício ao meu Divino Esposo; ele derramou aquela água sobre as chamas que me devoraram e que então se extinguiram imediatamente. Agora estou libertada e alço o meu voo para o Céu, onde a minha gratidão nunca te esquecerá!'.
É assim que os anjos de Deus consolam as almas do Purgatório. Pode-se perguntar aqui como os santos e bem-aventurados já coroados no Céu podem ajudá-las? Isto é certo - diz o padre Rossignoli - e tal é o ensinamento de todos os mestres em teologia, como Santo Agostinho e São Tomás, que os santos são muito poderosos a esse respeito por meio de súplica que fazemos a eles por impetração e não por satisfação. Em outras palavras, os santos do Céu podem interceder pelas almas penitentes e assim obter da Divina Misericórdia uma abreviação dos seus sofrimentos, mas não podem satisfazer por eles e nem pagar as suas dívidas para com a Justiça Divina, pois este é um privilégio reservado por Deus apenas à Igreja Militante.
Capítulo IX
Auxílio às Santas Almas - Sufrágios pelas Boas Obras - A Misericórdia de Deus - Revelações de Santa Gertrudes - O Sacrifício de Judas Macabeu
Se Deus consola as almas com tanta bondade, a sua misericórdia resplandece ainda mais claramente no poder que dá à sua Igreja de abreviar a duração dos seus sofrimentos. Desejando executar com clemência a severa sentença da sua Justiça, Ele concede alívio e mitigação da dor, mas o faz de forma indireta por meio da intervenção dos vivos. Ele nos dá todo o poder para socorrer os nossos irmãos padecentes por meio dos sufrágios, isto é, por meio da impetração e da satisfação.
A palavra sufrágio na linguagem eclesiástica é sinônimo de oração, mas quando o Concílio de Trento declara que as almas do Purgatório podem ser assistidas pelos sufrágios dos fiéis, o sentido da palavra toma um sentido mais abrangente, incluindo tudo aquilo que podemos oferecer a Deus em favor dos falecidos. Assim, podemos oferecer a Deus não apenas as nossas orações, mas todas as nossas boas obras, na medida em que se constituam impetratórias ou satisfatórias.
Para entender bem esses termos, lembremos que cada uma de nossas boas obras, realizadas em estado de graça, possui ordinariamente um triplo valor aos olhos de Deus: (i) o caráter meritório, ou seja, faz aumentar o nosso mérito e nos dá direito a um novo grau de glória no Céu; (ii) o caráter impetratório (impetrar, obter) pelo que, tal como uma oração, tem a virtude de obter alguma graça de Deus; (iii) o caráter satisfatório, que incorpora, por assim dizer, um valor intrínseco capaz de satisfazer a Justiça Divina e pagar as nossas dívidas da pena temporal perante Deus.
O mérito é inalienável e permanece sempre como propriedade da pessoa que pratica a ação. Pelo contrário, os valores impetratório e satisfatório das nossas boas obras pode beneficiar a outros, em virtude da comunhão dos santos. Isto entendido, coloquemos esta questão prática – Quais são os sufrágios pelos quais, segundo a doutrina da Igreja, podemos socorrer as almas do Purgatório? A esta pergunta respondemos: orações, esmolas, jejuns e penitências de toda espécie, indulgências e, sobretudo, o Santo Sacrifício da Missa. Por meio de todas estas obras, realizadas em estado de graça, Jesus Cristo nos permite oferecê-las à divina Majestade para alívio de nossos irmãos do purgatório e Deus as aplica a essas almas de acordo com as regras de sua justiça e misericórdia. Neste arranjo admirável, ao mesmo tempo em que protege os direitos de sua Justiça, nosso Pai Celestial multiplica os efeitos de sua Misericórdia, que é assim exercida, ao mesmo tempo, em favor da Igreja Padecente e da Igreja Militante. A assistência misericordiosa que Ele nos permite dar aos nossos irmãos sofredores é também de grande proveito para nós mesmos. É um exercício de graça não vantajoso apenas para os que partiram, mas também santo e salutar para os vivos - sancta et salubris est cogitatio pro de functis exorare.
Lemos nas Revelações de Santa Gertrudes que uma humilde religiosa de sua comunidade, tendo coroado uma vida exemplar com uma morte muito piedosa, Deus se dignou a mostrar à santa o estado da falecida na outra vida. Gertrudes viu sua alma adornada com beleza inefável e querida por Jesus, que a olhou com amor. No entanto, por causa de alguma negligência leve ainda não expiada, ela não pôde entrar no céu, mas foi obrigada a descer à morada sombria do sofrimento. Mal ela havia emergido em suas profundezas, a santa a viu reaparecer e subir ao Céu, conduzida pelos sufrágios da Igreja. Ecclesiae precibus sursum ferri (Legado Div. Pietatis, lib. 5., c. 5).
Mesmo na Antiga Lei, orações e sacrifícios eram oferecidos pelos mortos. A Sagrada Escritura relata como louvável a ação piedosa de Judas Macabeu após a sua vitória sobre Górgias, general do rei Antíoco. Os soldados cometeram uma falta ao retirar dos despojos alguns objetos oferecidos aos ídolos, o que por lei lhes eram proibidos de fazer. Então Judas, chefe do exército de Israel, ordenou orações e sacrifícios pela remissão de seus pecados e pelo repouso de suas almas. Vejamos como esse fato está relacionado nas Escrituras (2 Mc 12,39): 'Depois do sábado, Judas foi com sua companhia para levar os corpos daqueles que foram mortos e sepultá-los com seus parentes nos sepulcros de seus pais. E eles encontraram, sob as túnicas dos mortos, alguns dos donativos dos ídolos de Jamnia, que a lei proíbe aos judeus; de modo que todos viram claramente que, por essa causa, foram mortos. Então todos eles louvaram o justo julgamento do Senhor, que havia descoberto as coisas que estavam escondidas. E, pondo-se em oração, rogaram que o pecado deles fosse esquecido. O valoroso Judas exortou o povo a se abster do pecado, pois viram diante de seus olhos o que havia acontecido, por causa do pecado daqueles que foram mortos. E fazendo depois uma coleta, ele enviou doze mil dracmas de prata a Jerusalém para a oferta de um sacrifício pelos pecados dos mortos. Belo e santo modo de agir pela sua crença sobre a ressurreição! Pois, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles e por acreditar que aqueles que morrem piedosamente podem esperar uma grande graça reservada para eles. Portanto, é um pensamento santo e louvável rezar pelos mortos, para que possam ser perdoados dos seus pecados'.
Capítulo X
Auxílio às Santas Almas - Santo Agostinho e Santa Mônica - O Santo Sacrifício da Missa
Na Nova Lei temos o Santo Sacrifício da Missa, do qual os diversos sacrifícios da Lei Mosaica eram apenas pálidas referências. O Filho de Deus a instituiu, não só como digna homenagem prestada pela criatura à Divina Majestade, mas também como propiciação pelos vivos e pelos mortos; isto é, como um meio eficaz de apaziguar a Justiça de Deus, provocada pelos nossos pecados. O Santo Sacrifício da Missa foi celebrado em intenção dos falecidos desde o tempo da fundação da Igreja. 'Celebramos o aniversário do triunfo dos mártires' - escreve Tertuliano no século III - 'e, segundo a tradição de nossos pais, oferecemos o Santo Sacrifício pelos falecidos no aniversário de sua morte' (De Corona, c. 5).
'Não se pode duvidar' - escreve Santo Agostinho - 'que as orações da Igreja, o Santo Sacrifício e as esmolas distribuídas pelos defuntos aliviam essas almas santas e movem Deus a tratá-las com mais clemência do que merecem os seus pecados. É a prática universal da Igreja, uma prática que ela conserva tal como tendo recebido dos seus antepassados – isto é, dos santos Apóstolos' (Serm. 34, De Verbis Apost.).
Santa Mônica, a digna mãe de Santo Agostinho, quando estava prestes a expirar, pediu apenas uma coisa ao seu filho: que ele se lembrasse dela no altar de Deus e o santo Doutor, ao relatar essa comovente circunstância no Livro de suas Confissões, pede a todos os seus leitores que se unam a ele para recomendá-la a Deus durante o Santo Sacrifício da Missa (Liv. 9., c. 5). Desejando retornar para a África, Santa Mônica foi com Santo Agostinho até Ostia, a fim de embarcar; mas ela adoeceu e logo sentiu que seu fim estava se aproximando. 'É aqui' - disse ela ao filho - 'que você vai enterrar a sua mãe. A única coisa que peço a você é que se lembre de mim no altar do Senhor' - Ut ad altare Domini memineritis mei.
Santo Agostinho continua: 'Que me perdoem as lágrimas que então derramei, pois não se deve lamentar aquela morte que foi apenas a entrada para a verdadeira vida. No entanto, considerando com os olhos da fé as misérias de nossa natureza caída, posso derramar diante de Ti, ó Senhor, outras lágrimas além das da carne, lágrimas que fluem ao pensar no perigo a que se expõe toda alma que pecou por Adão'.
'É certo que minha mãe viveu de maneira a dar glória ao Vosso Nome, pela atividade de sua fé e pela pureza de seus costumes; ainda ouso afirmar que nenhuma palavra contrária à Tua lei jamais escapou de seus lábios? Infelizmente o que será da vida mais santa se a examinares em todos os rigores da tua justiça? Por isso, ó Deus do meu coração, deixo de lado as boas obras que minha mãe tem feito para pedir-Vos apenas o perdão dos seus pecados. Ouve-me pelas chagas daquele que morreu por nós na Cruz e que, agora sentado à tua direita, é o nosso Mediador'.
'Sei que minha mãe sempre teve misericórdia, que perdoou de coração todas as ofensas e perdoou todas as dívidas que lhe eram devidas. Cancela então as dívidas dela, se durante o curso de sua longa vida houver alguma devida a Ti. Perdoa-a, ó Senhor, perdoa-a, e não entres em juízo contra ela; pois Tuas palavras são verdadeiras; Tu prometeste misericórdia aos misericordiosos'.
'Esta misericórdia, creio, já lhe mostraste, ó meu Deus; mas aceita a homenagem da minha oração. Lembre-se que, em sua passagem para a outra vida, tua serva não desejou para seu corpo nem um funeral pomposo e nem perfumes preciosos; ela não pediu uma sepultura magnífica, nem que fosse carregada para aquele sepulcro que havia mandado construir em Tagaste, sua terra natal; mas apenas para que nos lembremos dela em teu altar, cujos mistérios ela prezava'.
'Tu sabes, Senhor, que todos os dias de sua vida ela participou daqueles Divinos Mistérios que contêm a Santa Vítima cujo sangue apagou a sentença de nossa condenação. Que ela descanse então em paz com meu pai, seu esposo, com o esposo a quem ela foi fiel durante todos os dias de sua união, e nas dores de sua viuvez com aquele de quem ela se fez humilde servo, para conquistá-lo para ti. pela sua mansidão e paciência. E Tu, ó meu Deus, inspira os teus servos, que são meus irmãos, inspira todos aqueles que leem estas linhas a se lembrarem em teu altar de Mônica, tua serva e Patrício, que era o seu esposo; que todos os que ainda vivem na falsa luz deste mundo possam se lembrar piedosamente dos meus pais, que a última oração de minha mãe moribunda seja ouvida e acatada, muito além de suas expectativas'.
Esta bela passagem de Santo Agostinho nos mostra a opinião deste grande Doutor sobre o tema dos sufrágios pelos defuntos e nos mostra claramente que o maior e mais eficaz de todos os sufrágios é o Santo Sacrifício da Missa.
Capítulo XI
Auxílio às Santas Almas - A Santa Missa - Jubileu do Papa Leão XIII e a Solene Comemoração dos Defuntos
Temos assistido com que vivo e santo entusiasmo a Igreja celebrou o Jubileu Sacerdotal do seu venerado pontífice, o Papa Leão XIII. Os fieis de todas as partes do mundo foram a Roma, pessoalmente ou de coração, para oferecer as suas homenagens e presentes aos pés do Vigário de Jesus Cristo. Toda a Igreja Militante rejubilou-se então em meio às suas longas provações.
A Igreja Triunfante no Céu participou desta alegria pela canonização e beatificação de um grande número de seus gloriosos membros. Não era apropriado, portanto, que a Igreja Padecente também participasse desse momento? Nossos queridos irmãos do Purgatório deveriam ser esquecidos? Aquelas almas tão queridas ao coração de Jesus não deveriam experimentar também os felizes efeitos daquela gloriosa solenidade?
Leão XIII entendeu que sim. Sempre guiado pelo Espírito Santo, ao atuar como Pastor Supremo, o Papa, por meio de Carta Encíclica datada de 1º de abril de 1888, decretou que, em todo o mundo cristão, deveria haver uma solene Comemoração dos Defuntos no último domingo do mês de setembro. Recordando com que amor admirável a Igreja Militante manifestou a sua alegria, e como a Igreja Triunfante se alegrou com ela, 'para coroar, em certo sentido' - diz o nosso Santo Padre - 'esta exultação geral, desejamos cumprir, como perfeitamente possível, o dever de nossa caridade apostólica, estendendo a plenitude dos infinitos tesouros espirituais àqueles filhos amados da Igreja que, tendo morrido a morte dos justos, deixaram esta vida de combate com o sinal da fé, e tornaram-se ramos da videira mística, embora não lhes seja permitido entrar ainda na paz eterna até que tenham pago o último centavo da dívida que devem à justiça infinita de Deus.
'Somos movidos a isso tanto pelos desejos piedosos dos católicos, a quem sabemos que nossa resolução será particularmente querida, quanto pela intensidade agonizante das dores sofridas pelas almas que partiram; mas somos especialmente inspirados pelo costume da Igreja, que, em meio às solenidades mais festivas do ano, não esquece a santa e salutar comemoração dos mortos para que sejam libertados de seus pecados'.
'Por esta razão, uma vez que é certo da doutrina católica que as almas detidas no Purgatório são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, e especialmente pelo augusto Sacrifício do Altar, pensamos que não podemos dar nenhuma promessa mais útil nem mais desejável de nosso amor do que multiplicando por toda parte, para mitigação de suas dores, a pura oblação do Santo Sacrifício de nosso Divino Mediador'.
'Portanto, designamos, com todas as dispensas e derrogações necessárias, o último domingo do mês de setembro próximo como dia de ampla expiação; dia em que será celebrada por nós, e também por nossos irmãos, os Patriarcas, Arcebispos, Bispos e todos os outros Prelados que exercem jurisdição em uma diocese, cada um em sua igreja patriarcal, metropolitana ou catedral, uma Missa especial pelos defuntos, com toda a solenidade possível, e segundo o rito indicado pelo missal para a Comemoração de todos os Fieis Defuntos. Aprovamos que o mesmo se faça nas igrejas paroquiais e colegiadas, tanto seculares como regulares, contanto que não seja omitido o ofício próprio da missa do dia em todos os lugares onde tal obrigação exista'.
'No que diz respeito aos fieis, exortamo-los vivamente, depois de terem recebido o Sacramento da Penitência, a alimentarem-se devotamente com o pão dos anjos em sufrágio pelas almas do Purgatório. Por nossa autoridade apostólica, aos fiéis que o fizerem, concedemos a indulgência plenária, a ser aplicada às almas defuntas, e o favor do altar privilegiado a todos aqueles que, como dissemos acima, participarem da celebrarão desta Missa'.
'Assim, as almas santas, que expiam os danos de suas faltas ainda pendentes por aquelas dores agudas, receberão alívio especial e eficaz, graças à Hóstia Salvadora que a Igreja Universal, unida à sua Cabeça visível e animada com o mesmo espírito de caridade, oferecerá a Deus, para que Ele os admita na morada da consolação, da luz e da paz eterna'.
'Deste modo, veneráveis irmãos, concedemos-vos afetuosamente no Senhor, como penhor destes dons celestiais, a bênção apostólica para vós, para todo o clero e para todas as pessoas confiadas aos vossos cuidados. Dado em Roma, sob o selo do Pescador, na solenidade da Páscoa do ano de 1888, décimo primeiro do nosso Pontificado'.
Capítulo XII
Auxílio às Santas Almas - A Santa Missa - A Libertação do Monge de Clairvaux - Beato Henrique Suso e o Purgatório
Nada, de tudo o que podemos fazer em favor das almas do Purgatório, nada há de mais precioso do que a imolação do nosso Divino Salvador sobre o altar. Além de ser a doutrina expressa da Igreja, manifestada em seus Concílios, muitos fatos milagrosos, devidamente autenticados, não deixam margem para dúvidas quanto a este ponto.
Já falamos do monge de Clairvaux que foi libertado do purgatório pelas orações de São Bernardo e sua comunidade. Este monge, cuja vida religiosa não tinha sido tão meritória, apareceu depois da sua morte para pedir a ajuda de São Bernardo. O santo abade, com todos os seus fervorosos discípulos, apressou-se em oferecer orações, jejuns e missas pelo pobre irmão falecido. Este, tendo alcançado a libertação, mostrou-se, cheio de gratidão, a um religioso mais idoso da comunidade, que rezara com especial devoção em sua intenção. Questionado sobre o sufrágio que mais lhe tinha sido proveitoso, em vez de responder diretamente, tomou o ancião pela mão e, conduzindo-o à igreja onde se celebrava a missa, disse, apontando para o altar: 'Eis o grande poder redentor que quebrou minhas correntes; eis o preço do meu resgate: é a hóstia salvadora, que tira os pecados do mundo' (L'Abbe Postel, Le Purgatoire, cap. 5; cf. Rossign., Merv., 47).
Eis aqui outro fato, relatado pelo historiador Fernando de Castela, e citado pelo padre Rossignoli. Havia em Colônia, entre os alunos das classes superiores da universidade, dois religiosos dominicanos de grande talento, um dos quais era o beato Henrique Suso. Os mesmos estudos, o mesmo tipo de vida e, sobretudo, o mesmo gosto pela santidade, fizeram-nos contrair uma íntima amizade e a repartirem mutuamente as mercês que recebiam do Céu.
Terminados os estudos, vendo que iam separar-se, para regressarem cada um ao seu convento, concordaram e prometeram-se mutuamente que o primeiro dos dois que morresse seria assistido pelo outro, durante um ano inteiro, pela celebração de duas missas por semana – uma na segunda-feira como missa de Requiem como era de costume e outra, na sexta-feira (dia da Paixão do Senhor), na medida em que as liturgias permitissem. Assim comprometidos, despediram-se com um beijo da paz e deixaram Colônia. Por vários anos, ambos continuaram a servir a Deus com fervor muito edificante. O irmão, cujo nome não é mencionado, foi o primeiro a falecer e, então, Suso recebeu a notícia com os mais perfeitos sentimentos de resignação à vontade divina. Quanto ao compromisso feito entre ambos, o tempo o fez esquecer. Rezava muito em intenção do amigo, impondo-se contínuas penitências e muitas outras boas obras, mas não pensava em oferecer as missas que havia prometido.
Certa manhã, enquanto meditava em recolhimento na capela, de repente viu aparecer diante dele a alma do amigo defunto, que, olhando para ele com ternura, o repreendeu por ter sido infiel à sua palavra, dada e aceita, à qual tinha direito legítimo de ter recebido dele com toda confiança. O bem aventurado Suso, envergonhado, desculpou-se por seu esquecimento, enumerando as orações e mortificações que havia oferecido e que ainda continuava a oferecer pelo amigo, cuja salvação lhe era tão cara quanto a sua. 'É possível, meu querido irmão' - acrescentou - 'que tantas orações e boas obras que ofereci a Deus não foram suficientes para você?' 'Ó não, querido irmão' - respondeu a alma sofredora - 'isso não é suficiente. É preciso o sangue de Jesus Cristo para extinguir as chamas que me consomem; somente o augusto Sacrifício pode me redimir destes terríveis tormentos. Rogo-te, pois, que cumpras a tua palavra, e não me recuses o que me deves por justiça'.
O Beato Suso apressou-se em responder ao apelo da alma sofredora e, para reparar a sua falta, celebrou e fez celebrar mais missas do que havia prometido. No dia seguinte, vários sacerdotes, a pedido de Suso, uniram-se a ele para oferecer o Santo Sacrifício pelo falecido e repetiram estes atos de caridade por vários dias. Depois de certo tempo, o amigo de Suso apareceu novamente para ele, mas agora em uma condição muito diferente; seu semblante estava radiante e envolvido por uma luz brilhante: 'Obrigado, meu fiel amigo' - disse ele - 'eis que pelo Sangue do meu Salvador fui liberto dos meus sofrimentos. Agora vou para o Céu contemplar Aquele que tantas vezes adoramos juntos sob o véu eucarístico'. Suso prostrou-se para agradecer ao Deus de toda misericórdia e compreendeu, mais do que nunca, o valor imponderável do Santíssimo Sacrifício do Altar (Rossignoli, Merv., 34; Fernando de Castela).
Capítulo XIII
Auxílio às Santas Almas - A Santa Missa - Santa Isabel e a Rainha Constança - São Nicolau de Tolentino e o pedido do amigo Pellegrino
Lemos na Vida de Santa Isabel de Portugal [8 de julho] que, após a morte de sua filha Constança, ela ficou sabendo do lamentável estado da falecida no Purgatório e do preço que Deus exigiu pelo seu resgate. A jovem rainha, recém-casada com o rei de Castela, havia sido arrebatada por uma morte súbita do afeto da sua família e dos seus súditos. Isabel, assim que recebera a triste notícia, havia partido com o rei, seu esposo, para a cidade de Santarém, quando um eremita, saindo do seu isolamento, correu atrás do cortejo real, gritando que queria falar com a rainha. Os guardas o repeliram, mas a santa, vendo a persistência de suas intenções, deu ordem para que aquele servo de Deus fosse trazido à sua presença.
O homem relatou então que, enquanto estava rezando em seu convento, apareceu-lhe a Rainha Constança implorando que ele desse a conhecer urgentemente à sua mãe que ela estava padecendo nas profundezas do Purgatório, onde havia sido condenada a longos e terríveis sofrimentos, mas que seria libertada se, durante o período de um ano, o Santo Sacrifício da Missa fosse celebrado por ela todos os dias. Os cortesãos presentes ridicularizaram o eremita, tratando-o como um visionário, um impostor e um tolo. Isabel, dirigindo-se ao rei, perguntou o que ele achava de tudo: 'Eu acredito e seria sábio fazer o que lhe foi revelado de uma maneira tão extraordinária. E, afinal, mandar celebrar missas pelos nossos parentes falecidos nada mais é do que um dever paterno e cristão'. Um santo padre chamado Ferdinand Mendez foi nomeado para rezar as missas.
Ao final de um ano, Constança apareceu a Santa Isabel, vestida com um manto branco brilhante. 'Hoje, querida mãe' - disse ela - 'fui libertada das dores do Purgatório e estou prestes a entrar no Céu'. Cheia de consolo e alegria, a santa dirigiu-se à igreja para agradecer a Deus. Lá encontrou o padre Mendez que assegurou a ela que, que no dia anterior, havia terminado a celebração das trezentas e sessenta e cinco missas que lhe haviam sido confiadas. A Rainha então entendeu que Deus havia cumprido a promessa que Ele havia feito ao piedoso eremita e testemunhou a sua gratidão distribuindo abundantes esmolas aos pobres.
'Vós nos livrastes dos que nos afligem, e e envergonhastes os que nos odeiam' (Salmo 43). Tais foram as palavras dirigidas ao ilustre São Nicolau de Tolentino pelas almas pelas quais ofereceu o Santo Sacrifício da Missa. Uma das maiores virtudes desse admirável servo de Deus, diz o Padre Rossignoli, foi a sua caridade e sua devoção à Igreja Padecente (Merv., 21; Vie de Saint Nic. de Tolentino, 10 set.). Por ela, jejuava frequentemente a pão e água, infligia disciplinas cruéis a si mesmo e usava em torno da cintura uma pesada corrente de ferro. Quando estava para receber a dignidade do sacerdócio, hesitou muito antes de receber as ordens sagradas, mas assim o fez, com o pensamento de que, celebrando diariamente o Santo Sacrifício, poderia ajudar com muito mais eficácia as almas sofredoras do Purgatório. Por outro lado, as almas que ele socorreu com tantos sufrágios apareceram-lhe várias vezes para lhe agradecer ou para se recomendar à sua caridade.
Ele vivia perto de Pisa, inteiramente ocupado com os seus exercícios espirituais, quando em um sábado à noite viu em sonho uma alma em sofrimento, que lhe rogava que celebrasse a Santa Missa na manhã seguinte por ela e por várias outras almas que sofriam terrivelmente em Purgatório. O santo reconheceu a voz, mas não conseguia lembrar-se claramente da pessoa que falava com ele. 'Eu sou' - disse a aparição - 'o seu amigo falecido Pellegrino d'Osimo. Pela Divina Misericórdia, escapei do castigo eterno pelo meu arrependimento, mas não do castigo temporal devido aos meus pecados. Venho em nome de muitas almas infelizes como eu para pedir-vos que amanhã celebreis a Santa Missa por nós e, por meio dela, esperamos a nossa libertação ou pelo menos receber um grande alívio'. O santo respondeu, com a sua habitual amabilidade: 'Que Nosso Senhor se digne aliviar-te pelos méritos do seu precioso Sangue! Mas esta missa pelos mortos não posso rezar amanhã, pois devo cantar a Missa conventual em coro'. 'Ah! pelo menos venha comigo' - respondeu a aparição, entre gemidos e lágrimas - 'Eu te imploro, pelo amor de Deus, que venha e veja nossos sofrimentos e se é possível recusar as nossas súplicas e nos deixar sofrer tão severas agonias.
Pareceu ao santo então ter sido transportado ao Purgatório. Ele viu como que uma vasta planície, onde uma imensa multidão de almas, de todas as idades e condições, padeciam de torturas de todo tipo e terríveis de se ver. Por gestos e palavras, as almas imploravam por auxílio: 'Eis' - disse Pellegrino- 'o estado de sofrimento daqueles que me enviaram a você. Visto que sois agradável aos olhos de Deus, temos confiança de que Ele nada recusará à oblação do Sacrifício por vós oferecido e que a sua Divina Misericórdia nos livrará'. Diante dessa terrível visão, o santo não pôde conter as lágrimas. Imediatamente pôs-se em oração para consolá-los dos tormentos e, na manhã seguinte, dirigiu-se ao prior, relatando-lhe a visão que tivera e o pedido de Pellegrino sobre a missa daquele dia. O Padre Prior, partilhando a sua emoção, dispensou-o de pronto de rezar a missa conventual, no dia e no resto da semana, para poder assim oferecer o Santo Sacrifício pelos falecidos e dedicar-se inteiramente ao alívio das almas sofredoras. Agradecido por tal permissão, Nicolau dirigiu-se à igreja e celebrou a Santa Missa com extraordinário fervor. Durante toda a semana continuou a celebrar o Santo Sacrifício pela mesma intenção, além de oferecer orações diurnas e noturnas pelas almas, além de outras penitências e todo tipo de boas obras.
No final da semana, Pellegrino apareceu novamente diante dele, mas agora não mais em estado de sofrimento, mas revestido com uma roupa branca e o esplendor de uma luz celestial, que envolvia também um grande número de outras almas. Todos o agradeceram, chamando-o de libertador; então subindo em direção ao Céu, eles entoaram estas palavras do salmista: Salvasti nos de affligentibus nos, et odientes nos confudisti - 'Vós nos livrastes dos que nos afligem, e e envergonhastes os que nos odeiam' (Salmo 43), sendo que os inimigos aqui mencionados constituem os pecados e os demônios, os seus instigadores.
Capítulo XIV
Auxílio às Santas Almas - A Santa Missa - Padre Gerard e as Três Conversões - As Trintas Missas de São Gregório
Vamos agora considerar os efeitos sobrenaturais da Missa de uma outra forma, mas que provam não menos claramente a eficácia do Santo Sacrifício quando oferecido pelos defuntos. Nós os encontramos nas Memórias do Padre Gerard, um jesuíta inglês e confessor da fé durante as perseguições religiosas na Inglaterra no século XVI.
Depois de relatar como recebeu a abjuração de um cavalheiro protestante, casado com uma de suas primas, padre Gerard acrescenta: 'Esta conversão levou a outra nas circunstâncias mais extraordinárias. Meu novo convertido foi ver um de seus amigos que estava gravemente doente. Este era um homem justo, detido na heresia mais por ilusão do que por qualquer outro motivo. O visitante exortou-o com urgência a se converter e a pensar em sua alma; e obteve dele a promessa de que faria a sua confissão. Neste sentido, instruiu-o em tudo e o ensinou a se preparar na contrição dos seus pecados, enquanto foi procurar um padre. Mas ele teve grande dificuldade em encontrar um, e nesse ínterim o doente morreu. Quando estava prestes a expirar, o pobre moribundo perguntava frequentemente se o amigo ainda não havia voltado com o 'médico' que ele havia prometido trazer; era assim que ele chamava o padre católico.
O que se seguiu mostrou que Deus aceitou a boa fé do falecido. Nas noites seguintes à sua morte, sua esposa, protestante, viu uma luz movendo-se em seu quarto e até passando através das cortinas de sua cama. Com medo, ela chamou uma de suas criadas para dormir com ela no quarto, mas esta não via nada, embora a luz continuasse visível aos olhos de sua senhora. A pobre senhora mandou chamar então o amigo cujo regresso o marido tanto esperara, contou-lhe o sucedido e perguntou o que devia ser feito. Este amigo, antes de dar uma resposta, consultou um padre católico. O padre lhe disse que a luz era, para a esposa do falecido, um sinal sobrenatural pelo qual Deus a convidava a retornar à Verdadeira Fé. A senhora ficou profundamente impressionada com essas palavras e abriu então o seu coração à graça e, por sua vez, foi convertida.
Uma vez convertida, mandou celebrar a missa em seu quarto por algum tempo, mas a luz sempre voltava. O padre, considerando essas circunstâncias diante de Deus, refletiu que o falecido, embora salvo por seu arrependimento acompanhado pelo desejo de confissão, estava no purgatório e, portanto, precisava de orações. Aconselhou à sua senhora que mandasse rezar missa pela alma dele durante trinta dias, segundo um antigo costume dos católicos ingleses. A boa viúva seguiu este conselho e, no trigésimo dia, em vez de uma luz, viu três, sendo que duas delas pareciam apoiar a terceira. As três luzes pairaram sobre a sua cama, depois elevaram-se até o teto e desapareceram, para nunca mais voltar. Essas três luzes parecem ter significado as três conversões e a eficácia do Santo Sacrifício da Missa para abrir o Céu às almas que partiram'.
As trinta missas que eram rezadas por trinta dias consecutivos não é um costume apenas inglês, como é chamado pelo padre Gerard, mas também é amplamente difundido na Itália e em outros países cristãos. Essas missas são chamadas as Trinta Missas de São Gregório, porque o piedoso costume parece remontar a este grande papa. Assim é relatado em seus Diálogos (Livro 4, cap. 40): Um religioso, chamado Justus, havia recebido e guardado para si três moedas de ouro. Esta foi uma falta grave contra seu voto de pobreza. Ele foi descoberto e excomungado. Esta pena salutar o fez entrar em si mesmo e, algum tempo depois, morreu com verdadeiros sentimentos de arrependimento. No entanto, São Gregório, para inspirar aos irmãos um vivo horror ao pecado da avareza em um religioso, não retirou a sentença de excomunhão. Justus foi enterrado separado dos outros monges e as três moedas foram jogadas na sepultura, enquanto os religiosos repetiam todos juntos as palavras de São Pedro a Simão, o Mago: Pecunia tua tecum sit in perditionem – Pereça contigo o teu dinheiro! (At 8,20).
Algum tempo depois, o santo Abade, julgando que o escândalo estava suficientemente reparado e movido de compaixão pela alma de Justus, chamou o sacristão [monge responsável pelos serviços religiosos do mosteiro] e disse-lhe com tristeza: 'Desde o momento de sua morte, nosso irmão é torturado pelas chamas do Purgatório; devemos por meio da caridade fazer um esforço para libertá-lo. Vá, então, e cuide para que, de agora em diante, o Santo Sacrifício seja oferecido em sua intenção por trinta dias; não deixe passar uma manhã sem que a Vítima da Salvação seja oferecida para a sua libertação'. O sacristão obedeceu prontamente. As trinta missas foram celebradas ao longo de trinta dias consecutivos. Quando chegou o trigésimo dia e terminou a trigésima missa, o defunto apareceu a um irmão chamado Copiosus, dizendo: 'Bendito seja Deus, meu querido irmão, hoje fui libertado e admitido na sociedade dos santos'. Desde então estabeleceu-se este piedoso costume de celebrar trinta missas em intenção das almas dos defuntos.
Capítulo XV
Auxílio às Santas Almas - A Santa Missa - A Aparição de Eugenie Van de Kerchove - O Camponês e o Príncipe Polonês
Nada é mais conforme ao espírito cristão do que oferecer o Santo Sacrifício para o alívio das almas que partiram, e seria uma grande desgraça se o zelo dos fieis esfriasse a esse respeito. Deus parece multiplicar prodígios para nos impedir de cair em tão fatal relaxamento. O seguinte incidente é atestado por um digno padre da diocese de Bruges, que o recebeu de sua fonte primitiva, e cujo testemunho carrega toda a certeza de uma testemunha ocular sobre o fato. Em 13 de outubro de 1849, morreu com a idade de cinquenta e dois anos, na freguesia de Ardoye, na Flandres, uma mulher chamada Eugenie Van de Kerchove, cujo marido, John Wybo, era agricultor. Ela era uma mulher piedosa e caridosa, dando esmolas com uma generosidade proporcional aos seus meios.
Ela teve, até o fim de sua vida, uma grande devoção à Santíssima Virgem e, em sua honra, fazia abstinência nas sextas-feiras e nos sábados de cada semana. Embora sua conduta não fosse isenta de certas falhas domésticas, ela levou uma vida exemplar e edificante. Uma criada chamada Barbara Vennecke, de vinte e oito anos, uma jovem virtuosa e dedicada, e que havia ajudado sua patroa nos momentos finais de doença, continuou a servir a John Wybo, o viúvo de Eugenie.
Cerca de três semanas após a sua morte, a falecida apareceu à sua serva em circunstâncias que vamos relatar. Foi no meio da noite; Bárbara dormia profundamente, quando ouviu distintamente ser chamada três vezes pelo seu nome. Ela acordou sobressaltada e viu diante de si a sua patroa, sentada ao lado de sua cama, vestida em roupas de serviço, compostas por saia e jaqueta curta. Diante da visão, por estranho que pareça, Bárbara não se assustou nem um pouco e conservou a sua presença de espírito. A aparição falou com ela: 'Bárbara' - disse, simplesmente pronunciando seu nome. 'O que você deseja, Eugenie?' - respondeu a serva. 'Pegue o pequeno ancinho que muitas vezes lhe disse para colocar em seu lugar; remexa o monte de areia no quartinho; você sabe ao qual me refiro. Lá você encontrará uma certa quantia em dinheiro; use-a para rezar missas em minha intenção, dois francos para cada uma, pois ainda estou sofrendo'. 'Farei isso, Eugenie' - respondeu Bárbara, e no mesmo instante a aparição desapareceu. A serva, ainda bastante serena, adormeceu novamente e repousou tranquilamente até de manhã.
Ao acordar, Bárbara acreditou ter sido tudo um sonho, mas estava profundamente impressionada, pois tinha a impressão de ter ficado desperta e ter visto a sua velha patroa de forma tão distinta e tão cheia de vida, e da qual recebera instruções tão precisas, que não pôde deixar de pensar: 'Não é assim que sonhamos; vi a minha senhora pessoalmente; ela se apresentou diante dos meus olhos e falou comigo. Isto não é um sonho, mas uma realidade'. A seguir, ela pegou o ancinho conforme lhe fôra indicado, remexeu na areia e ali encontrou uma bolsa contendo a quantia de quinhentos francos.
Diante de circunstâncias tão estranhas e extraordinárias, a jovem julgou ser seu dever consultar o pastor e foi relatar-lhe tudo o que havia acontecido. O venerável Abade R., então pároco de Ardoye, respondeu que as missas pedidas pela falecida deviam ser celebradas mas, considerando a quantia em dinheiro, era necessário o consentimento prévio do marido. Este último consentiu de bom grado que o dinheiro fosse empregado para tão santo propósito, e as missas foram celebradas, sendo aplicados dois francos por cada missa. Chamamos a atenção para a circunstância da taxa, porque correspondia ao piedoso costume da falecida. A taxa para uma missa fixada pela tarifa diocesana à época era de cerca de um franco e meio, mas a esposa de Wybo, por consideração pessoal e ao clero, obrigado naquele momento de escassez a socorrer um grande número de pobres, concedia dois francos para cada missa que costumava celebrar.
Dois meses após a primeira aparição, Bárbara foi novamente acordada durante a noite. Desta vez, seu quarto foi iluminado por uma luz brilhante, e sua senhora revelou-se tão bela quanto nos seus dias de juventude, vestida com um manto de deslumbrante brancura, olhando-a com um sorriso amável. 'Bárbara' - disse com uma voz clara e audível - 'eu te agradeço; estou libertada'. Dizendo essas palavras, ela desapareceu e o quarto tornou-se escuro como antes. A serva, maravilhada com o que tinha visto, foi tomada de grande alegria. Essa aparição causou a impressão mais viva em sua mente, e ela preserva até hoje a lembrança mais consoladora de tudo. É dela que temos esses detalhes tão específicos, por especial concessão do venerável abade R., então pároco em Ardoye quando esses fatos ocorreram.
O célebre Padre Lacordaire, no início das conferências sobre a imortalidade da alma, que ministrou alguns anos antes de sua morte aos alunos de Soreze, relatou-lhes o seguinte incidente: o príncipe polonês de X., infiel e materialista declarado, acabara de compor uma obra contra a imortalidade da alma. Ele estava a ponto de enviá-la à imprensa quando certo dia, passeando pelos seus parques, encontrou uma mulher que, em prantos, prostrou-se aos seus pés e tomada de profunda dor lhe disse: 'Meu bom príncipe, meu marido acaba de falecer. Neste momento, a sua alma talvez esteja sofrendo no Purgatório. Estou em estado de tal pobreza que não tenho nem mesmo a pequena quantia necessária para celebrar uma missa pelos defuntos. Por sua bondade, intervenha em meu auxílio em favor da alma do meu pobre marido'.
Embora o príncipe estivesse convencido da falsa credulidade daquela mulher, não teve coragem de recusar o seu pedido, dando-lhe então uma moeda de ouro. A pobre mulher correu em direção à igreja e fez a oferta ao sacerdote para oferecer algumas missas pelo repouso da alma do seu marido. Cinco dias depois, ao entardecer, o príncipe, no isolamento de seu escritório, estava lendo o manuscrito e retocando alguns detalhes do texto de sua autoria quando, erguendo os olhos, viu, diante de si, um homem vestido com trajes de camponês. 'Príncipe' - disse o visitante desconhecido - 'venho agradecer-lhe, pois sou o marido daquela pobre mulher que outro dia lhe implorou para lhe dar uma esmola, com a qual pudesse oferecer o Santo Sacrifício da Missa em intenção da minha alma. A tua caridade agradou a Deus: foi Ele quem me permitiu vir agradecer-te pessoalmente'. Ditas essas palavras, o camponês desapareceu como uma sombra. A emoção do príncipe foi indescritível e, de pronto, lançou os seus escritos às chamas, e se rendeu tão inteiramente à convicção da verdade que sua conversão foi imediata e completa, nela perseverando até a sua morte.
Capítulo XVI
Auxílio às Santas Almas - Liturgia da Igreja para o Dia de Finados - Santo Odilo e o Decreto de Cluny
A Santa Igreja possui uma liturgia especial para os defuntos: é composta de vésperas, matinas, laudes e da comumente chamada 'missa de requiem'. Esta liturgia, tão comovente quanto sublime por meio do luto e das lágrimas, desvela aos olhos dos fieis a luz consoladora da eternidade. Esta liturgia é proferida nos funerais dos seus filhos e, particularmente, no dia solene da comemoração dos mortos. A Santa Missa aqui ocupa o primeiro lugar; é como o centro divino ao redor do qual todas as outras orações e cerimônias se agrupam. No dia seguinte ao Dia de Todos os Santos, na grande solenidade de Finados, todos os sacerdotes devem oferecer o Santo Sacrifício pelos mortos; dia em que os fieis têm o dever de assistir, e até oferecer a Sagrada Comunhão, orações e esmolas, para alívio do sofrimento dos seus irmãos no Purgatório.
Esta festa em memória dos falecidos não é de origem muito antiga. Desde o início, a Igreja sempre rezou pelos seus filhos defuntos: cantou salmos, recitou orações, ofereceu a Santa Missa pelo repouso de suas almas. No entanto, não se tinha uma missa especial para recomendar a Deus as almas dos mortos em geral. Foi somente no século X que a Igreja, sempre guiada pelo Espírito Santo, instituiu o dia solene de comemoração de todos os defuntos, para encorajar os fieis a cumprir o grande dever de oração pelos defuntos, conforme prescrito pela caridade cristã. O berço desta comovente solenidade teve lugar na Abadia de Cluny. Santo Odilo, então abade da mesma no final do século X, edificou toda a França com sua caridade para com o próximo. Estendendo sua compaixão até os mortos, ele não deixava de rezar também pelas almas do Purgatório. Foi esta terna caridade que o inspirou a estabelecer no seu mosteiro, como também nos seus arredores, a festa da comemoração de todas as almas defuntas. Acreditamos, como nos diz o historiador Berault, que ele havia recebido uma revelação nesse sentido, pois Deus lhe manifestara de maneira milagrosa como agradava aos Céus a devoção do seu servo.
Eis como isso é relatado pelos seus biógrafos. Enquanto o santo abade dirigia o seu mosteiro na França, um piedoso eremita vivia em uma pequena ilha na costa da Sicília. Certo dia, um peregrino francês foi lançado na costa desta pequena ilha por uma tempestade. O eremita, a quem foi dado conhecer, perguntou-lhe se conhecia o abade Odilo. 'Certamente' - respondeu o peregrino - 'eu o conheço e tenho orgulho de conhecê-lo; mas como você o conhece e por que me faz essa pergunta?'. 'Ouço muitas vezes' - respondeu o eremita - 'que os espíritos malignos se queixam de pessoas piedosas que, com suas orações e esmolas, livram as almas das dores que suportam na outra vida, mas se queixam principalmente de Odilo, abade de Cluny e dos seus religiosos. Quando, portanto, você retornar ao seu país natal, eu imploro a você, em nome de Deus, que exorte o santo abade e os seus monges a redobrar suas boas obras em favor das pobres almas'.
O peregrino retornou à França e dirigiu-se até o mosteiro, cumprindo o que lhe havia sido recomendado. Em função disso, Santo Odilo ordenou que, em todos os mosteiros do seu Instituto, no dia seguinte ao dia de Todos os Santos, fosse feita uma comemoração especial pelas almas de todos os fieis defuntos, por meio da recitação das vésperas pelos mortos nas horas da véspera e das matinas da manhã seguinte, repique de sinos e celebração de missa especial pelo repouso das almas falecidas. Este decreto, redigido em Cluny, válido para o mosteiro e para todos os demais do instituto, ainda hoje se conserva e essa prática tão piedosa passou rapidamente a ser aplicada para outras igrejas e, com o tempo, tornou-se de observância universal para todo o mundo católico.
Capítulo XVII
Auxílio às Santas Almas - O êxtase de João de Alvernia - O exemplo de Santa Madalena de Pazzi - São Malaquias e sua Irmã Imprudente
Os anais da Ordem Seráfica nos falam de um santo religioso chamado João de Alvernia. Amava ardentemente Nosso Senhor Jesus Cristo e, com o mesmo amor, acolhia as almas resgatadas pelo seu Sangue e tão caras ao seu Coração. Aqueles que sofreram nas prisões do Purgatório tiveram grande intercessão por meio de suas orações, penitências e sacrifícios. Um dia Deus quis manifestar a ele os admiráveis e consoladores efeitos do Divino Sacrifício oferecido no Dia de Finados sobre todos os altares. O Servo de Deus celebrava a missa pelos defuntos naquela solenidade quando foi arrebatado em êxtase. Ele viu o Purgatório aberto e as almas saindo libertadas em virtude do Sacrifício da Propiciação; elas se assemelhavam a inúmeras faíscas que escapavam de uma fornalha ardente. Ficaríamos menos surpresos com os efeitos poderosos da Santa Missa se lembrarmos que ela é o mesmo sacrifício oferecido pelo próprio Filho de Deus na Cruz. É o mesmo Sacerdote, diz o Concílio de Trento, é a mesma Vítima, a única diferença está na forma de imolação: na Cruz, a imolação foi sangrenta e, no altar, é incruenta.
Ora, aquele sacrifício da cruz tem valor infinito; a do altar é, aos olhos de Deus, de valor equivalente. Observemos, no entanto, que a eficácia deste Divino Sacrifício é aplicada apenas parcialmente aos mortos e em uma medida conhecida apenas pela justiça de Deus. A Paixão de Jesus Cristo e o seu Preciosíssimo Sangue derramado pela nossa salvação são um oceano inesgotável de mérito e satisfação. É em virtude dessa Paixão que obtemos todos os dons e misericórdias de Deus. A mera comemoração que dela fazemos por meio da oração, quando oferecemos a Deus o Sangue de seu Filho unigênito, para implorar sua misericórdia - a oração unida e assim fortalecida pela Paixão de Jesus Cristo - tem grande poder junto de Deus. Santa Madalena de Pazzi aprendeu com Nosso Senhor a oferecer ao Pai eterno o Sangue do seu divino Filho, como exortação à Paixão. Ela o fazia cinquenta vezes ao dia e, em um de seus êxtases, viu um grande número de pecadores perdoados e suas almas libertadas do Purgatório por essa prática. 'Cada vez' - Jesus lhe falou - 'que uma criatura oferece ao meu Pai o Sangue pelo qual foi redimida, ela oferece a Ele um presente de valor infinito'. Se tal é o valor de uma oferenda que constitui uma mera exortação à Paixão, o que dizer do Sacrifício da Missa, que é a própria renovação dessa mesma Paixão?
Muitos cristãos não conhecem suficientemente a grandeza dos Divinos Mistérios realizados em nossos altares; a fraqueza de sua fé, juntamente com esta falta de conhecimento, os impede de apreciar o tesouro escondido no Divino Sacrifício e os leva a olhá-lo com uma espécie de indiferença. Infelizmente! Eles verão mais tarde, com amargo pesar, como se enganaram. A irmã de São Malaquias, arcebispo de Armagh, na Irlanda, dá-nos um notável exemplo disso.
São Bernardo, em sua bela 'Vida de São Malaquias', elogia muito aquele prelado pela sua devoção às almas do Purgatório. Quando ainda era diácono, gostava de assistir aos funerais dos pobres e à missa que se celebrava por eles; e acompanhava os seus restos mortais até o cemitério com profundo zelo, tanto maior quando costumava ver aquelas infelizes criaturas negligenciadas após a sua morte. Entretanto, uma sua irmã, movida pelo espírito mundano, julgava que tal prática degradava ao próprio irmão e à toda a sua família por associar-se assim aos pobres. Ele a repreendeu, mostrando que, com o seu comportamento, ela não entendia nem a caridade cristã e nem a excelência do Santo Sacrifício da Missa. Malaquias continuou assim o exercício de sua humilde caridade, limitando-se a responder à irmã que ela havia esquecido os ensinamentos de Jesus Cristo e que um dia se arrependeria de sua linguagem infeliz.
O Céu não deixou impune a temeridade imprudente dessa mulher: ela morreu ainda jovem e foi prestar contas ao Soberano Juiz da vida mundana que havia levado. Malaquias bem que tinha motivos para reclamar da sua conduta mas, diante a sua morte, fez questão de esquecer todos os seus erros e, preocupado somente na salvação da sua alma, ofereceu orações e o Santo Sacrifício pela irmã. Com o passar do tempo, porém, tendo muitos outros por quem orar, ele deixou de concentrar as suas intenções pela alma da irmã. 'Podemos acreditar' - diz Pe. Rossignoli - 'que Deus permitiu que ela fosse esquecida, como punição pela falta de compaixão que ela demonstrou pelos mortos'.
Seja como for, em certa ocasião ela se manifestou ao irmão durante o sono. Malaquias a viu então parada no meio do átrio diante da igreja, triste, vestida de luto e implorando a sua compaixão, por ele a ter esquecido em suas orações nos últimos trinta dias. Ele então acordou de repente e lembrou que, na verdade, fazia trinta dias que não celebrava a missa em intenção da sua irmã. No dia seguinte, ele recomeçou a oferecer o Santo Sacrifício por ela. Então a falecida apareceu para ele à porta da igreja, ajoelhada no umbral, lamentando que ainda não tinha permissão para nela entrar. Ele continuou seus sufrágios. Alguns dias depois, ele a viu entrar na igreja e avançar até o meio do corredor, sem conseguir entretanto, apesar de todos os esforços, aproximar-se do altar. Viu, portanto, que era preciso perseverar ainda mais e , assim, continuou a oferecer o Santo Sacrifício pelo repouso de sua alma. Finalmente, depois de alguns dias, ele a viu junto do altar, vestida com trajes magníficos, radiante de alegria e livre de quaisquer sofrimentos. 'Nisto vemos' - acrescenta São Bernardo - 'quão grande é a eficácia do Santo Sacrifício para remir os pecados, para combater os poderes das trevas e para abrir as portas do Céu às almas que deixaram esta terra'.
Capítulo XVIII
Auxílio às Santas Almas - São Malaquias no Mosteiro de Claraval - Irmã Zenaide - São José de Anchieta e a Missa de Réquiem
Não podemos deixar de contar a graça especial que a grande caridade de São Malaquias para com as santas almas lhe proporcionou. Um dia, estando na companhia de várias pessoas piedosas e conversando familiarmente sobre assuntos espirituais, chegaram a falar do seu último fim. 'Se' - disse ele - 'a escolha fosse dada a cada um de vós, a que hora e em que lugar gostaríeis de morrer?' A esta pergunta, um mencionou uma certa festa, outro uma tal hora e outro ainda, em tal lugar. Quando chegou a vez de o santo exprimir o seu pensamento, disse que não haveria lugar de seu maior agrado de terminar a sua vida do que no Mosteiro de Claraval, sob a direção de São Bernardo, a fim de poder gozar imediatamente do benefício dos sacrifícios daqueles fervorosos religiosos; e quanto a hora, preferia, o dia de Finados, para poder tomar parte em todas as missas e em todas as orações oferecidas em todo o mundo católico pelos fiéis defuntos.
Este seu piedoso desejo foi satisfeito em todos os detalhes. Estava a caminho de Roma para visitar o Papa Eugênio III quando, chegando a Claraval um pouco antes do dia de Finados, foi acometido por uma grave doença que o obrigou a permanecer naquele santo retiro. Compreendeu logo que Deus tinha ouvido as suas preces e exclamou como o profeta: 'Este é o meu repouso para todo o sempre; aqui habitarei, porque o escolhi' (Salmo 131). De fato, no dia seguinte, dia de Finados, enquanto toda a Igreja rezava pelos defuntos, ele entregou a sua alma nas mãos do Criador.
'Conhecemos' - diz o Abade Postel - 'uma santa religiosa chamada Irmã Zenaide que, afligida por uma doença terrível por vários anos, pediu a Nosso Senhor a graça de morrer no Dia de Finados, para o qual sempre tivera grande devoção. Seu desejo foi concedido. Na manhã do dia 2 de novembro, depois de dois anos de sofrimentos suportados com verdadeira coragem cristã, ela começou a entoar um hino de ação de graças e calmamente expirou alguns momentos antes da celebração das missas.
Sabemos que na liturgia católica há uma Missa Especial pelos defuntos; é celebrada com paramentos negros e é chamada de Missa de Réquiem. Pode-se perguntar: esta missa é mais proveitosa para as almas do que qualquer outra? O Sacrifício da Missa, não obstante a variedade de suas cerimônias, é sempre o mesmo Sacrifício infinitamente santo do Corpo e Sangue de Jesus Cristo mas, como a Missa pelos Defuntos contém orações especiais para as almas dos falecidos, ela oferece também uma ajuda especial para elas, pelo menos naqueles momentos em que as leis litúrgicas permitem que o padre celebre trajado de preto. Esta opinião, fundamentada na instituição e na prática da Igreja, é confirmada por um fato que lemos na Vida do Venerável Padre José Anchieta.
Este santo religioso, justamente apelidado de Taumaturgo do Brasil, tinha, como todos os santos, grande caridade para com as santas almas do Purgatório. Um dia, na Oitava de Natal, tempo no qual a Igreja proíbe a celebração de Missas de Réquiem, precisamente no dia 27 de dezembro, festa de São João Evangelista, este homem de Deus, para grande espanto de todos, subiu ao altar com paramentos negros e ofereceu o Santo Sacrifício pelos defuntos. O seu superior, padre Nóbrega, conhecendo a santidade de Anchieta, não duvidou que tivesse recebido uma inspiração divina; no entanto, para remover de tal conduta o caráter de irregularidade que parecia ter, repreendeu o santo sacerdote na presença de todos os irmãos. 'Como foi isso, padre' - disse a ele - 'você não sabe que a Igreja proíbe a celebração da missa em paramentos negros no dia de hoje? Você esqueceu a liturgia?'
O bom padre, bastante humilde e obediente, respondeu com respeitosa simplicidade que Deus lhe havia revelado a morte de um sacerdote da Companhia. Este padre, seu colega de estudos na Universidade de Coimbra, e que nessa altura residia na Itália, no Colégio da Santa Casa de Loreto, falecera naquela noite. 'Deus' - revelou ele - 'tornou-me isso conhecido e deu-me a entender que eu deveria oferecer o Santo Sacrifício em sua intenção imediatamente e fazer tudo ao meu alcance para o repouso de sua alma'. 'Mas' - disse então o Superior - 'como você sabe que a missa celebrada hoje será de algum benefício para ele?' Anchieta respondeu simplesmente: 'Imediatamente após ter feito a memória dos defuntos, quando disse estas palavras: A Vós, Deus Pai Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e glória!, Deus me mostrou a alma desse querido amigo, libertada de todos os seus sofrimentos, elevando-se ao Céu para receber a sua coroa de glória'.
Capítulo XIX
Alívio às Santas Almas pelo Santo Sacrifício da Missa - Madre Inês e Irmã Serafina - Rainha Margarida da Áustria e o Arquiduque Alberto - Padre Mancinelli e o Manto da Caridade
Acabamos de falar da eficácia do Santo Sacrifício para aliviar as pobres almas. Uma fé viva neste mistério consolador inflama a devoção dos verdadeiros fiéis e suaviza a amargura da dor da perda. A morte privou-os de um pai, de uma mãe, de um amigo? Voltem os seus olhos lacrimosos em direção ao Altar, que lhes oferece o meio de testemunhar o seu amor e a sua gratidão para com os seus queridos defuntos. Daí resulta as numerosas missas que podem mandar celebrar; daí também esse afã de assistir ao Santo Sacrifício de Propiciação em favor dos defuntos.
A Venerável Madre Inês de Langeac, religiosa dominicana de quem já nos referimos antes, assistia à Santa Missa com a máxima devoção e incentivava as suas religiosas a um fervor semelhante. Dizia-lhes que este Divino Sacrifício era o ato mais santo da religião, a obra de Deus por excelência, e recordava-lhes a Sagrada Escritura: 'Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor!' (Jr 48,10).
Uma irmã da comunidade chamada Serafina faleceu; ela não tinha prestado atenção suficiente aos conselhos salutares da sua Superiora e foi condenada a um Purgatório severo. Madre Agnes soube disso por revelação. Num êxtase, foi levada em espírito ao lugar da expiação e viu muitas almas no meio das chamas. Entre elas, reconheceu a Irmã Serafina que, por meio de penosos lamentos, implorava a sua ajuda. Tocada pela mais viva compaixão, a caridosa Superiora fez tudo o que estava ao seu alcance: durante oito dias, jejuou, comungou e assistiu à Santa Missa em intenção da querida irmã falecida. Enquanto rezava, entre lágrimas e suspiros, implorando a Divina Misericórdia por meio do precioso Sangue de Jesus, para que Ele tivesse a bondade de livrar a sua querida filha daquelas terríveis chamas e admiti-la ao deleite da sua presença, ela ouviu uma voz que lhe disse: 'Continue a rezar; a hora da libertação dela ainda não chegou'. Madre Agnes perseverou na oração e, dois dias depois, enquanto assistia ao Santo Sacrifício, no momento da elevação, viu a alma da Irmã Serafina elevar-se ao Céu num êxtase de alegria. Esta visão consoladora foi a recompensa da sua caridade e a inflamou ainda mais na devoção pelo Santo Sacrifício da Missa.
As famílias cristãs, que possuem um espírito de fé viva, têm o dever, segundo a sua categoria e os seus meios, de mandar celebrar um grande número de missas pelos defuntos. Na sua santa liberalidade, esgotam os seus recursos para multiplicar os sufrágios da Igreja e assim aliviar as almas santas. Conta-se na Vida da Rainha Margarida de Áustria, esposa de Filipe III que, no dia de suas exéquias, se celebraram na cidade de Madri quase mil e cem missas pelo repouso da sua alma. Esta rainha tinha pedido por mil missas no seu último testamento e o Rei mandou acrescentar este número para vinte mil. Quando o arquiduque Alberto morreu em Bruxelas, a piedosa Isabel, sua viúva, mandou celebrar quarenta mil missas pelo repouso da sua alma e, durante um mês inteiro, ela própria assistiu com a maior piedade às dez missas de cada dia (Padre Mumford, 'Caridade para com os Falecidos').
Um dos modelos mais perfeitos de devoção ao Santo Sacrifício da Missa e da caridade para com as almas do Purgatório, foi o Padre Júlio Mancinelli, da Companhia de Jesus. As missas oferecidas por este digno religioso - diz L. Rossignoli (Merv 23) - pareciam ter uma eficácia toda especial para o alívio dos fiéis defuntos. As almas apareciam-lhe frequentemente para implorar o favor de uma única Missa.
César Costa, tio do Pe. Mancinelli, era arcebispo de Cápua. Um dia, encontrando o seu santo sobrinho muito mal vestido, apesar do mau tempo, deu-lhe, com a maior caridade, uma esmola para que comprasse um manto. Pouco tempo depois, o arcebispo faleceu; e o padre, ao sair para visitar os doentes, envolto no seu novo manto, encontrou o seu falecido tio a vir em sua direção, envolto em chamas e a pedir-lhe que lhe emprestasse o seu manto. Assim que o padre concedeu e o arcebispo vestiu o manto, as chamas extinguiram-se de imediato. O Pe. Mancinelli compreendeu que aquela alma estava a sofrer no Purgatório e que pedia a sua ajuda, em troca da caridade que tivera para com ele. Pegando então o manto, prometeu rezar pela pobre alma sofredora com todo o fervor possível, especialmente junto do altar.
Este fato foi noticiado internacionalmente e produziu uma impressão tão salutar que, após a morte do padre, foi representado em uma pintura que se conserva no Colégio de Macerata, a sua terra natal. O Padre Júlio Mancinelli é visto no altar, vestido com as vestes sagradas, um pouco elevado acima dos degraus do altar, para significar o arrebatamento com que foi favorecido por Deus. Da sua boca saem faíscas, emblema das suas orações ardentes e do seu fervor durante o Santo Sacrifício. Sob o altar, vê-se o Purgatório e as almas que recebem o benefício dos seus sufrágios. Por cima dele, dois anjos derramam de vasos esplendorosos uma chuva de ouro, significando as bênçãos, as graças e os privilégios concedidos às pobres almas em virtude do Santo Sacrifício. Vemos também o manto e uma inscrição em verso, que traduzida diz assim: 'Ó veste milagrosa, dada como proteção contra a severidade do frio e que depois serviu para temperar o calor do fogo. É assim que a caridade atua, dando calor ou refrigério, segundo os sofrimentos que alivia'.
Capítulo XX
Alívio às Santas Almas pelo Santo Sacrifício da Missa - Santa Teresa e Bernardino de Mendoza - Número de Missas x Pompas das Exéquias
Concluamos o que dissemos sobre o Santo Sacrifício com as palavras que Santa Teresa relata sobre Bernardino de Mendoza. Ela relata este fato no seu Livro das Fundações (capítulo 10), da seguinte forma: 'Na Festa de Finados, Dom Bernardino de Mendoza doou uma casa com um belo jardim, em Madrid, para que ela fundasse ali um mosteiro em honra da Mãe de Deus. Dois meses depois, ele adoeceu subitamente e perdeu a fala, de modo que não podia nem confessar, embora desse muitos sinais de contrição. 'Morreu '- diz Santa Teresa - 'muito pouco tempo depois, e longe do lugar onde eu estava. Mas Nosso Senhor falou-me e me disse que ele estava salvo, apesar de ter corrido um grande risco; mas que a misericórdia lhe tinha sido feita por causa da doação da casa ao convento de Sua Mãe Santíssima; mas que a sua alma só seria libertada dos sofrimento quando fosse rezada a primeira missa naquele lugar. Senti tão profundamente as dores que esta alma sofria que, embora estivesse muito ansiosa para realizar a fundação de um convento em Toledo, parti imediatamente para Valladolid no dia de São Lourenço'.
'Um dia, quando estava a rezar em Medina del Campo, Nosso Senhor me disse para que me apressasse o máximo possível, porque a alma de Mendoza era refém dos mais intensos sofrimentos. Ordenei imediatamente aos pedreiros que erguessem sem demora as paredes do convento; mas como isso levaria muito tempo, pedi ao bispo autorização para fazer uma capela provisória para uso das Irmãs que eu tinha trazido comigo. Obtida a autorização, mandei rezar a missa e, no momento em que deixava o meu lugar para me aproximar da Santa Mesa, vi o nosso benfeitor que, de mãos unidas e rosto radiante, me agradeceu por o ter libertado do Purgatório. Depois eu o vi entrar no Céu. Fiquei tanto mais contente quanto não contava com isso assim. Isto porque, embora Nosso Senhor me tivesse revelado que a libertação desta alma se seguiria à celebração da primeira missa na casa, eu pensava que deveria ser a primeira missa em que o Santíssimo Sacramento fosse ali reservado'. Este belo relato nos mostra não só a eficácia do Santo Sacrifício da missa, mas também a terna bondade com que Jesus se interessa pelas almas santas, condescendendo mesmo em solicitar os nossos sufrágios em favor delas.
Mas, sendo o Divino Sacrifício de tanto valor, pode-se perguntar se um grande número de missas proporciona às almas mais alívio do que um número menor, mas que, em compensação, são acompanhadas por magníficas exéquias e abundantes esmolas? A resposta a esta pergunta pode ser deduzida do espírito da Igreja, que é o espírito do próprio Jesus Cristo e a expressão da sua vontade. Ora, a Igreja aconselha os fiéis a mandarem rezar pelos defuntos, a darem esmolas e a praticarem outras boas obras, a pedirem indulgências para eles mas, sobretudo, mandarem celebrar a Santa Missa e a ela assistirem. Embora dando o primeiro lugar ao Divino Sacrifício, ela aprova e faz uso de vários tipos de sufrágios, de acordo com as circunstâncias, devoção ou condição social do falecido ou dos seus herdeiros.
É um costume católico, religiosamente observado desde a mais remota antiguidade, mandar celebrar a missa pelos defuntos com cerimônias solenes, e fazer um funeral com tanta pompa quanto as posses o permitam. A despesa com isso é uma esmola dada à Igreja, uma esmola que, aos olhos de Deus, aumenta muito o preço do Santo Sacrifício e seu valor compensatório para o falecido. É bom, porém, regular as despesas do funeral, de modo a deixar uma soma suficiente para um certo número de missas, e também para dar esmolas aos pobres. O que se deve evitar é perder de vista o caráter cristão dos funerais e considerar a cerimônia fúnebre menos como um grande ato de religião do que como uma mera manifestação de vaidade mundana.
O que deve ainda ser evitado são os emblemas profanos de luto que não são conformes à tradição cristã, tais como as coroas de flores, com as quais, com grande despesa, se carregam os caixões dos mortos. Trata-se de uma inovação, justamente desaprovada pela Igreja, à qual Jesus Cristo confiou o cuidado dos ritos e cerimônias religiosas, sem exclusão das cerimônias fúnebres. Aquelas de que ela se serve por ocasião da morte de seus filhos são veneráveis pela sua antiguidade e cheias de sentido e de consolação. Tudo o que se apresenta aos olhos dos fiéis em tais ocasiões, a cruz e a água benta, as luzes e o incenso, as lágrimas e as orações, respiram a compaixão pelas pobres almas, a fé na Divina Misericórdia e a esperança da imortalidade. O que há de tudo isso nas frias coroas de violetas? Não dizem nada à alma cristã; não passam de emblemas profanos desta vida mortal, que contrastam estranhamente com a cruz, e que são estranhos aos ritos da Igreja Católica.