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O PURGATÓRIO, MISTÉRIO DE JUSTIÇA

(Continuação...)

 

Capítulo XXI

 

Diversidade das Dores - Blasio Ressuscitado dos Mortos por São Bernardino - Venerável Francisca de Pamplona e as Penas do Fogo - São Corpreus e o Rei Malaquias 

 

O célebre Blasio Massei, ressuscitado dos mortos por São Bernardino de Sena, viu que havia uma grande diversidade nas penas do Purgatório. O relato desse milagre é transcrito detalhadamente na Acta Sanctorum. Pouco tempo depois da canonização de São Bernardino de Sena, morreu em Cássia, no reino de Nápoles, uma criança de onze anos, chamada Blasio Massei. Seus pais o inspiraram com a mesma devoção que eles próprios tinham para com este novo santo, e este não tardou em recompensá-los. 

 

No dia seguinte à sua morte, quando o corpo estava sendo levado para a sepultura, Blasio acordou como de um sono profundo e disse que São Bernardino o restaurou à vida, para relatar as maravilhas que o santo lhe havia mostrado no outro mundo. Podemos compreender facilmente a curiosidade que este evento produziu. Durante um mês inteiro, o jovem Blasio não fez outra coisa senão falar do que viu e responder às perguntas que lhe faziam os visitantes. Ele falava com a simplicidade de uma criança, mas ao mesmo tempo com uma precisão de expressão e um conhecimento das coisas da outra vida muito acima de sua idade.

 

No momento de sua morte, disse ele, São Bernardino apareceu-lhe e, tomando-o pela mão, lhe disse: 'Não tenha medo, mas preste muita atenção ao que vou lhe mostrar, para que se lembre, e depois seja capaz de relatá-lo'. Assim o santo conduziu o seu jovem protegido sucessivamente para as regiões do Inferno, do Purgatório e do Limbo e, finalmente, permitiu que ele pudesse ver também o Paraíso.

 

No Inferno, Blasio viu horrores indescritíveis e as diversas torturas pelas quais os orgulhosos, os avarentos, os impuros e outros pecadores são atormentados. Entre eles reconheceu vários que tinha conhecido em vida, e chegou a testemunhar a chegada ali de dois recém-falecidos, Buccerelli e Frascha. Este último foi condenado por ter mantido bens ilícitos em sua posse. O filho de Frascha, atingido por esta revelação como por um raio, e conhecendo bem a verdade destes fatos, apressou-se a fazer a restituição completa das posses e, não contente com este ato de justiça, para não se expor um dia a vir compartilhar a triste sorte do seu pai, distribuiu o resto de sua fortuna aos pobres e abraçou a vida monástica.

 

Conduzido então ao Purgatório, Blasio viu ali os mais terríveis tormentos, variados de acordo com os pecados dos que eram punidos. Ele reconheceu um grande número de almas, e várias imploraram-lhe para informar os seus pais e parentes sobre a sua condição de sofrimento, indicando inclusive os sufrágios e boas obras de que necessitavam. Quando interrogado sobre o estado de uma alma que partira, ele respondeu sem hesitação e deu os detalhes mais precisos. 'Seu pai' -  disse ele a um de seus visitantes - 'está no Purgatório desde aquele dia e ele cobrou de você que pagasse tal quantia em esmolas, que você se esqueceu de fazê-lo'. 'Seu irmão' - disse ele a outro 'pediu que você mandasse celebrar tantas missas como você havia concordado em fazer mas não cumpriu o seu compromisso; e tantas missas ainda precisam ser feitas nesta intenção'.

 

Blasio também falava do Paraíso, último lugar para onde fora levado; mas falava quase como São Paulo que, tendo sido arrebatado ao terceiro céu, se com o seu corpo ou sem o seu corpo que ele não reconhecia, ouviu palavras misteriosas que nenhuma língua mortal poderia repetir. O que mais chamou a atenção do menino foi a imensa multidão de anjos que rodeava o trono de Deus e a beleza incomparável da Bem Aventurada Virgem Maria, elevada acima de todos os coros de anjos.

 

A vida da Venerável Madre Francisca do Santíssimo Sacramento, religiosa de Pamplona (La Vie par le F. Joachim; cf. Merv., 26), apresenta vários fatos que mostram como as penas do Purgatório são inerentes às faltas a serem expiadas. Esta venerada serva de Deus tinha a comunicação mais íntima com as almas do Purgatório, de modo que estas vinham em grande número e tomavam a sua cela, esperando humildemente cada uma, por sua vez, para serem assistidas pelas suas orações. Frequentemente, para mais facilmente excitar a sua compaixão, elas apareciam ornadas com os instrumentos dos seus pecados, agora tornados instrumentos de sua tortura. Um dia ela viu um religioso rodeado por móveis muito caros, como quadros, poltronas, etc., envoltos em chamas. Ela havia recolhido essas coisas em sua cela, contrariando o voto de pobreza religiosa e, depois de sua morte, tornaram-se o seu tormento.

 

Um notário apareceu a ela um dia com todas as insígnias de sua profissão. Estando amontoadas ao seu redor, as chamas que saíam de lá causaram-lhe o mais intenso sofrimento. 'Usei esta caneta, esta tinta, este papel' - disse ele - 'para elaborar escrituras ilegais. Também tinha paixão pelo jogo e essas cartas que sou forçado a ter continuamente em minhas mãos constituem agora o meu castigo. Esta bolsa flamejante contém os meus ganhos ilegais e agora tenho de expiá-los'. De tudo isso devemos tirar grande e salutar instrução. As criaturas são dadas ao homem como um meio de servir a Deus; eles devem ser os instrumentos da virtude e das boas obras. Se ele abusar delas e torná-los instrumentos do pecado, é justo que se voltem contra elas e se tornem os instrumentos do seu castigo.

 

A Vida de São Corpreus, um bispo irlandês, que encontramos nos Bolandistas [Acta Sanctorum, publicada por esta comunidade de jesuítas desde 1643] em 6 de março, nos fornece outro exemplo do mesmo tipo. Um dia, enquanto este santo prelado estava em oração após o Ofício, ele viu aparecer diante dele um espectro horrível com semblante lívido, uma coleira de fogo em volta do pescoço e, sobre os ombros, um manto miserável todo em farrapos. 

 

'Quem é você?' - perguntou o santo, nem um pouco perturbado. 'Eu sou uma alma da outra vida'. 'E o que o trouxe à triste condição em que o vejo?' “Minhas faltas resultaram estes castigos sobre mim. Apesar da miséria a que agora me vejo reduzido, sou Malaquias, ex-rei da Irlanda. Nessa posição elevada, eu poderia ter feito muito bem e era meu dever fazê-lo. Eu negligenciei isso e, portanto, sou punido'. 'Você não fez penitência por suas faltas?' 'Não fiz penitência suficiente, e isso se deve à fraqueza culposa do meu confessor, a quem submeti aos meus caprichos, oferecendo-lhe um anel de ouro. É por isso que agora uso uma coleira de fogo em volta do pescoço'.  'Eu gostaria de saber' -  continuou o bispo, 'por que você está coberto com esses trapos?' 'É outro castigo. Eu não vesti o nu. Não ajudei os pobres com a caridade, o respeito e a liberalidade que se tornaram minha dignidade de rei e meu título de cristão. É por isso que você me vê vestido como pobre e coberto com estes andrajos'. A biografia acrescenta que São Corpreus, unido na sua comunidade em oração, ao cabo de seis meses obteve a mitigação do sofrimento e, um pouco mais tarde, a libertação total do rei Malaquias. 

 

Capítulo XXII

 

Duração do Purgatório - Posições dos Doutores da Igreja - São Berlamino - Estimativas do Padre Mumford

 

A fé não nos ensina a duração precisa das dores do Purgatório. Sabemos, de maneira geral, que estes tempos são medidos pela Justiça Divina e que são proporcionais ao número e à gravidade das faltas que ainda não foram expiadas. Deus pode, entretanto, sem prejuízo de sua Justiça, abreviar esses sofrimentos aumentando a sua intensidade; a Igreja Militante também pode obter a remissão das dores pelo Santo Sacrifício da Missa e por meio de outros sufrágios oferecidos pelos defuntos.

 

Segundo a opinião comum dos Doutores da Igreja, as dores expiatórias são de longa duração. 'Não há dúvida', diz São Belarmino (De Gemitu, lib. 2, c. 9), 'que as dores do Purgatório não se limitam a dez ou vinte anos mas que, em alguns casos, duram séculos inteiros. Mas, admitindo que a sua duração não exceda dez ou vinte anos, podemos considerar que seja nada suportar por dez ou vinte anos os mais excruciantes sofrimentos sem o mínimo alívio? Se um homem tivesse a garantia de que sofreria alguma dor violenta nos pés, na cabeça ou nos dentes pelo espaço de vinte anos, sem nunca poder dormir ou repousar o mínimo possível, não preferiria morrer mil vezes a viver um tal estado? E se a escolha fosse dada a ele entre isso e uma vida miserável e a perda de todos os seus bens temporais, hesitaria em fazer o sacrifício de sua fortuna para se livrar de tal tormento? Encontraremos então alguma dificuldade em abraçar o trabalho e a penitência para nos libertar dos sofrimentos do Purgatório? Teremos receio de praticar os exercícios mais dolorosos como vigílias, jejuns, esmolas, longas orações e, principalmente, contrição, acompanhados de suspiros e lágrimas?'

 

Essas palavras abrangem toda a doutrina dos santos e teólogos. O Padre Mumford, da Companhia de Jesus, em seu Tratado sobre a Caridade para com os Defuntos, baseia a longa duração do Purgatório em um cálculo de probabilidade, que daremos em substância. Ele parte do princípio de que, segundo as palavras do Espírito Santo, o justo cai sete vezes ao dia (Pv 24,16), ou seja, mesmo aqueles que se aplicam mais perfeitamente ao serviço de Deus, apesar de toda boa vontade, comete um grande número de faltas aos olhos infinitamente puros de Deus. Só temos que entrar em nossa própria consciência e então analisar, diante de Deus, os nossos pensamentos, nossas palavras e obras, para nos convencermos deste triste efeito da miséria humana. Ó como é fácil não ter respeito na oração, preferir nossa comodidade ao cumprimento do dever, pecar por vaidade, pela impaciência, pela sensualidade, por pensamentos e palavras pouco caridosos, por falta de conformidade com a vontade de Deus... O dia é longo; não é muito provável que até mesmo uma pessoa virtuosa pode cometer, não digo sete, mas vinte ou trinta deste tipo de faltas e imperfeições por dia?

 

Façamos então uma estimativa moderada e supor que se cometa cerca de dez faltas por dia; ao final de 365 dias, a soma será de 3.650 faltas. Vamos arredondar, para facilitar o cálculo, considerando 3.000 faltas por ano. Ao final de dez anos, serão 30.000 e, ao final de 20 anos, 60.000. Supondo que, dessas 60.000 faltas, tenham sido expiadas a metade por penitência e boas obras, ainda restarão 30.000 faltas para serem expiadas.

 

Continuemos a nossa hipótese: você morre após estes vinte anos de vida virtuosa e se coloca diante de Deus com uma dívida de 30.000 faltas, que você deve expiar no Purgatório. Quanto tempo você precisará para realizar essa expiação? Vamos supor que, em média, cada falta requeira uma hora de expiação. Esta medida é muito moderada, se julgarmos pelas revelações dos santos; mas, de qualquer forma, isso implica um purgatório de 30.000 horas. Agora você sabe quanto tempo essas 30.000 horas representam? Três anos, três meses e quinze dias. Assim, um bom cristão que zela por si mesmo, que se aplica à penitência e às boas obras, encontra-se sujeito por princípio a três anos, três meses e quinze dias de purgatório.

 

O cálculo anterior é baseado em uma estimativa tolerante ao extremo. Agora, se você estende a duração da dor e, em vez de uma hora, estima em um dia a expiação de cada falta; e se, em vez de não ter apenas pecados veniais, tem-se ainda perante Deus uma dívida resultante de pecados mortais, mais ou menos numerosos que anteriormente se cometeu; se for atribuído em média, como diz Santa Francisca Romana, sete anos para a expiação de cada pecado mortal, remido quanto à culpa, quem não vê que se chegaria a uma duração espantosa e que a expiação poderia facilmente prolongar-se por muitos anos e mesmo por séculos? Anos e séculos de tormentos! Ó se apenas pensarmos nisso, com que cuidado não iríamos evitar os menores defeitos e com que fervor não iríamos praticar penitências para dar satisfação a Deus neste mundo!

 

Capítulo XXIII

 

Duração do Purgatório - O Abade Cisterciense e o Papa Inocêncio III - João de Lierre - A irmã de São Vicente Ferrer

 

Na 'Vida de Santa Lutgarda', obra escrita pelo seu contemporâneo, Tomás de Cantimpre, é mencionado um religioso outrora fervoroso mas que, por excesso de zelo, foi condenado a quarenta anos do Purgatório. Este era um abade da Ordem Cisterciense, chamado Simão, que tinha por Santa Lutgarda grande veneração. A santa, por sua vez, seguiu de bom grado o seu conselho e, em consequência, formou-se entre eles uma espécie de amizade espiritual. Mas o abade, por sua vez, não era tão brando com os seus subordinados quanto era com a santa. 

 

Severo consigo mesmo, também foi severo em sua administração, e levou as suas exigências em matéria de disciplina até um rigor muito elevado, esquecendo a lição do Divino Mestre que nos ensina a ser mansos e humildes de coração. Tendo falecido, e enquanto Santa Lutgarda estava rezando fervorosamente e impondo a si penitências pelo repouso de sua alma, ele apareceu a ela e declarou que estava condenado a quarenta anos no Purgatório. Felizmente ele tinha em Lutgarda uma amiga generosa e poderosa. Ela redobrou as suas orações e austeridades e, tendo recebido de Deus a garantia de que a alma que partira logo seria libertada, a santa respondeu: 'Não cessarei de chorar; não deixarei de importunar a Vossa Misericórdia até vê-lo livre de suas dores'.

 

Uma vez que me referi a Santa Lutgarda, devo falar também da célebre aparição do Papa Inocêncio III? Reconheço que a leitura deste incidente me chocou, e gostaria de passá-lo olvidado pois relutei em pensar que um papa, e um papa assim, tivesse sido condenado a um Purgatório tão longo e terrível. Sabemos que Inocêncio III, que presidiu o célebre Concílio de Latrão em 1215, foi um dos maiores pontífices que já ocuparam a cátedra de São Pedro. Sua piedade e zelo o levaram a realizar grandes coisas da Igreja de Deus e da santa disciplina. Como, então, admitir que tal homem foi julgado com tanta severidade no Supremo Tribunal? Como conciliar esta revelação de Santa Lutgarda com a Divina Misericórdia? Quis, portanto, tratá-la como uma fantasia e procurei razões que apoiassem essa ideia. Mas descobri, pelo contrário, que a realidade desta aparição tem sido admitida pelos autores mais fidedignos, e nunca rejeitada por nenhum deles. Além disso, o biógrafo, Thomas de Cantimpre, é muito explícito e ao mesmo tempo muito reservado: 'Observe, leitor´' - escreve ele no final de sua narrativa - 'que foi da boca da própria piedosa Lutgarda que ouvi falar das faltas reveladas pelo defunto, e que omito aqui por respeito a tão grande papa'.

 

Além disso, considerando o evento em si, podemos encontrar alguma boa razão para questioná-lo? Não sabemos que Deus não faz distinção de pessoas – que até os papas aparecem diante do seu tribunal como os mais humildes dos fiéis – que todos os grandes e os humildes são iguais diante dele, e que cada um recebe de acordo com as suas obras? Não sabemos que aqueles que governam os outros têm uma grande responsabilidade e terão que prestar contas bastante severas? Judicium durissimum seu qui praesunt fiet – um julgamento mais severo será para aqueles que governam (Sb 6,6). É o Espírito Santo que o declara. Agora, Inocêncio III reinou por dezoito anos e durante os tempos mais turbulentos e, acrescentam os bolandistas, não está escrito que os julgamentos de Deus são inescrutáveis ​​e muitas vezes muito diferentes dos julgamentos dos homens? - Judicia tua abyssus multa (Sl 35,7). A realidade desta aparição não pode, então, ser razoavelmente questionada. Não vejo razão para omiti-la, visto que Deus não revela mistérios dessa natureza para nenhum outro propósito além de que eles sejam conhecidos para a edificação da sua Igreja.

 

O Papa Inocêncio III morreu em 16 de julho de 1216. No mesmo dia, apareceu a Santa Lutgarda em seu mosteiro em Aywieres, em Brabante. Surpresa ao ver o espectro envolto em chamas, ela perguntou quem seria e o que ele queria. 'Eu sou o Papa Inocêncio' - ele respondeu. 'Como é possível que você, nosso pai comum, esteja em tal estado?' 'É bem verdade: estou expiando três faltas que poderiam ter causado a minha perdição eterna. Graças à bem aventurada Virgem Maria, obtive o perdão, mas tenho que fazer expiação por eles. Infelizmente! Isto é terrível; e durará séculos se você não vier em meu auxílio. Em nome de Maria, que obteve para mim o favor de apelar para você, ajude-me'. Com essas palavras, desapareceu. Lutgarda anunciou a morte do papa às suas irmãs e todas juntas se dedicaram à oração e às obras penitenciais em favor da alma do augusto e venerado pontífice, cuja morte lhes foi confirmada algumas semanas depois por outra fonte.

 

Acrescentemos aqui um fato mais consolador, que encontramos na vida da mesma santa. Um pregador célebre, chamado John de Lierre, era um homem de grande piedade e bem conhecido da nossa santa. Ele havia feito um compromisso com ela, pelo qual mutuamente prometiam que aquele que morresse primeiro, com a permissão de Deus, deveria aparecer ao outro. João foi o primeiro a partir desta vida. Tendo empreendido uma viagem a Roma para tratar de certos assuntos de interesse dos religiosos, encontrou a morte entre os Alpes. 

 

Fiel à sua promessa, ele apareceu a Lutgarda no célebre claustro de Aywières. Ao vê-lo, a santa não teve a menor ideia de que ele estaria morto, e o convidou, de acordo com a Regra, a entrar no salão para que pudessem conversar. 'Não sou mais deste mundo' - respondeu ele - 'e venho aqui apenas em cumprimento da minha promessa.' Com essas palavras, Lutgarda caiu de joelhos e permaneceu por algum tempo bastante confusa. Então, erguendo os olhos para o seu abençoado amigo, perguntou: 'Por que você está vestido com tamanho esplendor? O que significa este manto triplo com o qual te vejo adornado'? 'A vestimenta branca' - respondeu ele - 'significa a pureza virginal, que sempre preservei; a túnica vermelha implica os trabalhos e sofrimentos que esgotaram prematuramente minhas forças e o manto azul, que cobre tudo, denota a perfeição da vida espiritual'. Ditas essas palavras, ele de repente deixou Lutgarda, que ficou dividida entre o arrependimento por ter perdido um amigo tão bom e a alegria que experimentara por causa de sua felicidade. 

 

São Vicente Ferrer, o célebre taumaturgo da Ordem de São Domingos, que pregou com tanta eloquência a grande verdade do Juízo de Deus, tinha uma irmã que não se comovia nem com as palavras e nem com o exemplo do seu santo irmão. Ela estava cheia do espírito do mundo, intoxicada com seus prazeres, e caminhou a passos rápidos em direção à sua eterna ruína. Entretanto, o santo rezou pela sua conversão, e sua oração foi finalmente respondida. A infeliz pecadora caiu mortalmente doente e, no momento da morte, voltando a si, fez a sua confissão com sincero arrependimento.

 

Alguns dias depois de sua morte, enquanto seu irmão celebrava o Santo Sacrifício, ela lhe apareceu no meio das chamas e presa dos mais intoleráveis ​​tormentos. 'Ai! meu querido irmão' - disse ela - 'estou condenada a sofrer esses tormentos até o dia do Juízo Final. Mesmo assim, você pode me ajudar. A eficácia do Santo Sacrifício é tão grande: ofereça para mim cerca de trinta missas, e assim posso esperar o resultado mais feliz'. O santo apressou-se a atender o seu pedido. Ele celebrou as trinta missas e, no trigésimo dia, viu sua irmã aparecer novamente cercada de anjos e subindo ao céu. Graças às virtudes do Sacrifício Divino, uma expiação de vários séculos foi reduzida a trinta dias.

 

Este exemplo nos mostra ao mesmo tempo que a duração das dores que uma alma pode incorrer e o poderoso efeito do Santo Sacrifício da Missa, quando Deus se agrada de aplicá-lo a uma alma. Mas esta aplicação, como todos os outros sufrágios, nem sempre se realiza ou, melhor dizendo, nem sempre se realiza na mesma plenitude.

 

Capítulo XXIV

 

Duração do Purgatório - O Duelista - Padre Schoofs e a Aparição em Antuérpia

 

O exemplo a seguir mostra não só a longa duração da punição infligida por certas faltas, mas também a dificuldade em declinar a Justiça Divina em favor daqueles que cometeram faltas dessa natureza. A história da Ordem da Visitação menciona, entre as primeiras religiosas daquele Instituto, Irmã Marie Denise, chamada no mundo Maria Marignat. Ela era muito caridosa e devotada às almas do Purgatório, e sentia-se particularmente atraída a recomendar a Deus, de maneira especial aqueles que haviam ocupado altas posições no mundo, pois sabia por experiência os perigos a que as suas posições os expunham. Um certo príncipe, cujo nome não é revelado, mas que se acredita pertencer à Casa da França, foi morto em um duelo, e Deus permitiu que ele aparecesse à irmã Denise para pedir-lhe a ajuda da qual tanto necessitava. Ele revelou então que não havia sido condenado, embora o seu crime merecesse condenação. Graças a um ato de contrição perfeita que fez no momento da morte, foi salvo; mas, como punição por sua vida e morte temerosas, havia sido condenado ao mais rigoroso castigo do Purgatório até o Dia do Juízo Final.

 

A irmã, tomada pela caridade e profundamente tocada pelo estado daquela alma, ofereceu-se generosamente como vítima de expiação em sua intenção. Mas é impossível dizer o que ela teve que sofrer por muitos anos em consequência desse ato heroico. O pobre príncipe não a deixou descansar e a fez participar de todos os seus tormentos. Ela completou o seu sacrifício pela morte; mas, antes de morrer, confidenciou à sua superiora que, em troca de tanta expiação, conseguira para o seu protegido a remissão de apenas algumas horas de sofrimento. 

 

Quando a superiora expressou o seu espanto com esse resultado, que lhe pareceu totalmente desproporcional a tudo que a irmã havia padecido, a irmã Denise respondeu: 'Ah! minha querida mãe, as horas do Purgatório não são computadas como as da Terra; anos de dor, cansaço, pobreza ou doença neste mundo não são nada comparados a uma hora de sofrimento do Purgatório. Já é muito que a Divina Misericórdia nos permita exercer qualquer influência sobre a sua justiça. Eu estou menos comovida pelo estado lamentável em que vi esta alma definhar do que pelo extraordinário retorno da graça que consumou a obra de sua salvação. O ato pelo qual o príncipe morreu merecia o inferno; um milhão de outros poderiam ter encontrado a sua perdição eterna no mesmo ato em que ele encontrou a sua salvação. Ele recobrou a consciência apenas por um instante, tempo suficiente para cooperar com aquele precioso movimento de graça que o dispôs a fazer um ato de contrição perfeita. Aquele momento abençoado me parece um excesso da bondade, clemência e amor infinito de Deus'. Assim falou a Irmã Denise; ela admirou ao mesmo tempo a severidade da Justiça de Deus e a sua Infinita Misericórdia. Tanto uma quanto a outra brilharam neste exemplo da maneira mais impressionante.

 

Continuando o assunto da longa duração do Purgatório, relataremos aqui um caso de ocorrência mais recente. O padre Philip Schoofs, da Companhia de Jesus, falecido em Fouvain em 1878, relatou o seguinte fato, ocorrido em Antuérpia durante os primeiros anos de seu ministério naquela cidade. Ele acabara de pregar uma missão e retornara ao Colégio de Notre Dame, então situado na Rue L'Empereur, quando lhe disseram que alguém o esperava no salão. Descendo imediatamente ao salão, encontrou ali dois jovens irmãos, acompanhados por uma criança pálida e doentia de cerca de dez anos.

 

'Padre' - dizia um deles - 'aqui está uma pobre criança que adotamos e que merece nossa proteção porque é boa e piedosa. Nós o alimentamos e o educamos e há mais de um ano que ele faz parte da nossa família, onde é feliz e goza de boa saúde. Nestas últimas semanas, no entanto, ele começou a ficar mais magro e a definhar, ficando no estado em que se vê agora'. E qual é a causa dessa mudança?' - perguntou o padre. 'É medo' - responderam - 'a criança é despertada todas as noites por aparições. Um homem, ele nos garante, apresenta-se diante dele e ele o vê tão distintamente quanto nos vê em plena luz do dia. Esta é a causa de seu contínuo medo e inquietação. Viemos, padre, pedir-lhe alguma solução'.

 

'Meus caros' - respondeu o padre Schoofs - 'em Deus há solução para todas as coisas. Comecem, ambos, fazendo uma boa confissão e comunhão, e implorem a Deus que os livre de todo mal, e nada temam. Quanto a você, meu filho, faça bem as suas orações e depois durma tão profundamente que nenhum fantasma possa acordá-lo'. Ele então os dispensou, dizendo-lhes que voltassem caso algo mais acontecesse. Duas semanas se passaram e eles voltaram novamente. 'Padre' - disseram eles - 'seguimos as suas orientações e, ainda assim, as aparições continuam como antes: a criança sempre vê o mesmo homem aparecer'. 'A partir desta noite' - disse o padre Schoofs - 'vigiem na porta do quarto da criança, providos de papel e tinta para escrever as respostas. Quando a criança avisá-lo da presença daquele homem perguntem, em nome de Deus, quem ele é, a hora de sua morte, onde ele viveu e por que ele voltou'.

 

No dia seguinte eles voltaram, trazendo o papel onde estavam escritas as respostas que haviam recebido. 'Vimos' - disseram eles - 'o homem que aparece para a criança'. Descreveram-no como um velho, do qual só podiam ver o busto, e ele usava um traje dos velhos tempos. Ele lhes disse o seu nome e a casa em que morava em Antuérpia. Morreu em 1636, seguira a profissão de banqueiro nessa mesma casa que, no seu tempo, compreendia ainda as duas casas que hoje se podem ver situadas à direita e à esquerda. Observemos aqui que alguns documentos que comprovam a exatidão dessas indicações foram descobertos nos arquivos da cidade de Antuérpia. Acrescentou que estava no Purgatório e que poucas orações haviam sido feitas por ele. Ele então implorou às pessoas da casa que oferecessem a Sagrada Comunhão por ele e, finalmente, pediu que uma peregrinação fosse feita a Notre Dame des Fievres e outra a Notre Dame de la Chapelle, em Bruxelas. 'Você fará bem em atender a todos esses pedidos' - disse o padre Schoofs - 'e se o espírito retornar, antes de falar com ele, exija que ele diga o Pai Nosso, a Ave Maria e o Credo'.

 

Eles realizaram as boas obras indicadas com toda piedade possível, e muitas conversões ocorreram. Quando tudo terminou, os jovens retornaram. 'Padre, ele rezou' - disseram eles ao padre Schoofs - 'com um tom de fé e piedade indescritíveis. Nunca ouvimos ninguém orar assim. Que reverência no Pai Nosso! Que amor na Ave Maria! Que fervor no Credo! Agora sabemos o que é orar. Então ele nos agradeceu por nossas orações; ele ficou muito aliviado e disse que teria sido libertado inteiramente se uma assistente em nossa loja não tivesse feito uma comunhão sacrílega. Nós relatamos essas palavras para a pessoa. Ela ficou pálida, reconheceu a sua culpa então, e correndo ao seu confessor, apressou-se a reparar o seu crime'.

 

'Desde aquele dia' - acrescenta o padre Schoofs - 'aquela casa nunca teve problemas. A família que a habita prosperou rapidamente e hoje é rica. Os dois irmãos continuaram a se comportar de maneira exemplar e irmã deles tornou-se religiosa em um convento, do qual atualmente é superiora'. Tudo nos leva a crer que a prosperidade daquela família foi fruto do socorro prestado à alma que partiu. Após dois séculos de punição, restava a esta alma apenas uma pequena parte da expiação e a realização de algumas boas obras que ele pediu. Quando isso se realizou, ele foi libertado e desejou mostrar a sua gratidão obtendo as bênçãos de Deus sobre os seus benfeitores.

 

Capítulo XXV

 

Duração do Purgatório - A Abadia de Latrobe - Cem Anos de Sofrimento por Retardar a Recepção dos Últimos Sacramentos

 

O seguinte incidente é relatado com autenticação de prova pelo jornal The Monde, no número de abril de 1860. Ocorreu na América, na Abadia dos Beneditinos, situada na aldeia de Latrobe. Uma série de aparições ocorreu durante o ano de 1859. A imprensa americana abordou o assunto e tratou essas graves questões com a sua habitual leviandade. Para acabar com o escândalo, o abade Wirnmer, superior da casa, dirigiu aos jornais a seguinte carta.

 

'O seguinte documento é uma verdadeira declaração do caso: Em nossa abadia de São Vicente, perto de Latrobe, em 10 de setembro de 1859, um noviço viu a aparição de um beneditino composto com traje completo de coro. Esta aparição se repetiu todos os dias, entre 18 de setembro e 19 de novembro, às onze horas, ao meio-dia ou às duas horas da manhã. Somente no dia 19 de novembro, o noviço interrogou o espírito, na presença de outro membro da comunidade, e perguntou o motivo dessas aparições. Ele respondeu que já havia padecido por setenta e sete anos no Purgatório por ter deixado de celebrar sete missas de obrigação; que ele já havia aparecido em ocasiões diferentes a outros sete beneditinos, mas que estes não lhe deram ouvidos, e que seria obrigado a efetuar outra aparição novamente, após onze anos, se o noviço não viesse em seu auxílio.

 

Finalmente, o espírito pediu que estas sete missas fossem celebradas na sua intenção; além disso, o noviço deveria permanecer em retiro por sete dias, manter silêncio absoluto e, durante trinta dias, recitar três vezes ao dia o salmo Miserere, com os pés descalços e os braços estendidos em forma de cruz. Todas estas condições foram cumpridas entre 20 de novembro e 25 de dezembro, e nesse dia, após a celebração da última missa, a aparição desapareceu.

 

Durante esse período o espírito manifestou-se várias vezes, exortando o noviço da maneira mais urgente a rezar pelas almas do Purgatório; pois - disse ele - elas sofrem terrivelmente e são extremamente gratos àqueles que cooperam com a sua libertação. Ele acrescentou - e isso é triste relatar - que, dos cinco sacerdotes que morreram em nossa abadia, nenhum ainda havia entrado no céu, e todos sofriam ainda no Purgatório. Eu não tiro nenhuma conclusão, mas esses são os fatos'. 

 

Esta conta, assinada pela mão do Abade Superior, é um documento histórico incontestável. Quanto à conclusão que o venerável prelado nos deixa tirar, é evidente. Vendo que um religioso está condenado ao Purgatório por setenta e sete anos, basta-nos aprender a necessidade de refletir sobre a duração do castigo futuro, tanto para sacerdotes e religiosos como para os fiéis comuns que vivem em meio à corrupção do mundo.

 

Uma causa muito frequente desta longa permanência do Purgatório é que muitos se privam de um grande meio estabelecido por Jesus Cristo para encurtá-lo, retardando, quando gravemente doentes, para receber os últimos sacramentos. Estes sacramentos, destinados a preparar as almas para a sua última viagem, a purificá-las dos restos do pecado e a poupá-las das penas da outra vida, exigem, para produzirem os seus efeitos, que o doente os receba com as devidas disposições. Ora, quanto mais são adiadas e as faculdades do doente se enfraquecem, mais defeituosas tornam-se essas disposições. O que eu disse? Muitas vezes acontece, em consequência desse atraso imprudente, é que o doente morra privado dessa ajuda absolutamente necessária. O resultado é que o falecido, desde que não condenado, é lançado nos abismos mais profundos do Purgatório e sobrecarregado com todo o peso de suas dívidas.

 

Miguel Alix nos fala de um eclesiástico que, em vez de receber prontamente a extrema unção e, com isso, dar um bom exemplo aos fiéis, foi culpado de negligência a esse respeito e foi punido com cem anos de Purgatório. Sabendo que estava gravemente doente e em perigo de morte, este pobre padre deveria ter dado a conhecer o seu estado e recorrer imediatamente aos socorros que a Mãe Igreja reserva aos seus filhos naquela hora suprema. Ele omitiu fazê-lo; ou por uma ilusão comum entre os doentes, ele não quis declarar a gravidade de sua situação ou porque estava sob a influência daquele preconceito fatal que faz com que os cristãos fracos adiem a recepção dos últimos sacramentos, ele não pediu nem pensou em recebê-los. 

 

Mas sabemos como a morte vem às escondidas; o infeliz adiou tanto que morreu sem ter tido tempo de receber o Viático ou a Extrema Unção. Agora, Deus se agradou de fazer uso desta circunstância para dar um grande aviso aos outros. O próprio falecido veio dar a conhecer a um irmão eclesiástico que estava condenado ao Purgatório por cem anos. 'Estou sendo assim punido' - disse ele - 'por ter demorado em receber a graça da última purificação. Se eu tivesse recebido os sacramentos como deveria ter feito, teria escapado da morte pela virtude da extrema unção e teria tido tempo para fazer penitência'. 

 

Capítulo XXVI

 

Duração do Purgatório - Venerável Catarina Paluzzi e a Irmã Bernardina - Irmãos Finetti e Rudolfini - São Pedro Claver e os Casos de Duas Almas

 

Citemos alguns outros exemplos que servirão para nos convencer ainda mais de quão longa é a duração dos sofrimentos do Purgatório. Veremos que a Justiça Divina é relativamente severa para com as almas chamadas à perfeição e que receberam muitas graças. Não diz Jesus Cristo no Evangelho: 'a quem muito é dado, muito será exigido; e que mais será pedido daquele a quem mais foi confiado?' (Lc 12,48).

 

Lemos na Vida da Venerável Catarina Paluzzi que uma santa religiosa, que morreu em seus braços, só foi admitida à beatitude eterna depois de passar um ano inteiro no Purgatório. Catarina Paluzzi levou uma vida santa na diocese de Nepi, na Itália, onde fundou um convento de dominicanos. Vivia com ela uma religiosa chamada Bernardina, também muito avançada nos caminhos da vida espiritual. Estas duas santas imitaram-se com fervor e ajudaram-se mutuamente a progredir cada vez mais na perfeição a que Deus as chamou.

 

O biógrafo da Venerável Catarina as compara a duas brasas vivas que comunicam calor entre si e a duas harpas afinadas que se harmonizaram em um hino perpétuo de amor à maior glória de Deus. Bernardina morreu depois de uma doença dolorosa, que suportou com paciência cristã. Quando estava prestes a expirar, ela disse a Catarina que não a esqueceria diante de Deus e que, se Deus assim o permitisse, voltaria a conversar com ela sobre assuntos espirituais que contribuíssem para a sua santificação.

 

Catarina orou muito pela alma da irmã religiosa e, ao mesmo tempo, implorou a Deus que permitisse que a sua alma pudesse aparecer a ela. Um ano inteiro se passou e a falecida não retornou. Finalmente, no aniversário da morte de Bernardina, estando Catarina em oração, viu um poço de onde saíam volumes de fumaça e chamas; então ela percebeu saindo do poço uma forma cercada de nuvens escuras. Aos poucos, esses vapores foram se dispersando e a aparição tornou-se radiante com um brilho extraordinário. Nessa gloriosa personagem, Catarina reconheceu Bernardina e correu em sua direção. 'É você, minha querida irmã?' - disse ela. 'Mas de onde você vem? O que significam este poço e esta fumaça ardente? Somente hoje termina o seu purgatório?'. 'Você está certa' - respondeu a alma - 'há um ano estou detida neste lugar de expiação, e hoje, finalmente, poderei entrar no Céu. Quanto a ti, persevere em seus santos exercícios: continue sendo caridosa e misericordiosa e você obterá misericórdia'.

 

O seguinte incidente pertence à história da Companhia de Jesus. Dois escolásticos ou jovens religiosos daquele Instituto, os Irmãos Finetti e Rudolfini, prosseguiram os seus estudos no Colégio Romano, no final do século XVI. Ambos eram modelos de piedade e regularidade, e ambos também haviam recebido uma advertência do Céu, que divulgaram, segundo a Regra, ao seu diretor espiritual. Deus lhes dera a conhecer a proximidade da morte e os sofrimentos que os esperava no Purgatório. Um ali iria permanecer por dois anos; o outro, por quatro anos. Eles morreram, de fato, um após o outro. Seus irmãos na religião imediatamente ofereceram as orações mais fervorosas e todos os tipos de penitências pelo descanso de suas almas. Eles sabiam que se a santidade de Deus impõe longas expiações aos seus eleitos, elas também podem ser abreviadas e inteiramente remidas pelos sufrágios dos vivos. Se Deus é severo para com aqueles que receberam muitos conhecimentos e graças, por outro lado Ele é muito indulgente para com os pobres e simples, desde que estes o sirvam com sinceridade e paciência.

 

São Pedro Claver, da Companhia de Jesus, Apóstolo dos Negros de Cartagena, soube do Purgatório de duas almas, que levaram vidas pobres e humildes sobre a terra; seus sofrimentos foram reduzidos a algumas horas. Encontramos o seguinte relato na vida deste grande servo de Deus. Ele havia persuadido uma mulher virtuosa, chamada Ângela, a receber em sua casa outra mulher chamada Úrsula, que havia perdido o uso de seus membros e estava coberta de feridas. Um dia, quando foi visitá-los, como fazia de vez em quando, para ouvir as suas confissões e levar-lhes algumas provisões, a caridosa anfitriã lhe disse com pesar que Úrsula estava à beira da morte. 'Não, não' - respondeu o sacerdote, consolando-a - 'ela ainda tem quatro dias de vida e não morrerá até sábado'. Quando chegou o sábado, ele rezou a missa por sua intenção, e saiu para prepará-la para a morte. Depois de algum tempo em oração, disse à anfitriã com ar de confiança: 'Consola-te, Deus ama Úrsula; ela morrerá hoje, mas ficará apenas três horas no Purgatório. Que ela se lembre de mim quando estiver com Deus, para que possa orar por mim e por aquela que até agora foi sua mãe'. Ela morreu ao meio-dia, e o cumprimento de uma parte da profecia deu grande razão para acreditar no cumprimento da outra.

 

Numa outra ocasião, tendo ido ouvir a confissão de uma pobre doente que costumava visitar, soube que ela estava morta. Os pais estavam muito angustiados e ele ficou também inconsolável, porque não acreditava que ela estivesse tão perto de seu fim e com a ideia de não ter podido ajudá-la em seus últimos momentos. Ajoelhando-se para rezar ao lado do cadáver, levantou-se de repente e com um semblante sereno disse: 'Tal morte é mais digna de nossa inveja do que de nossas lágrimas; esta alma está condenada ao Purgatório, mas apenas por vinte e quatro horas. Procuremos encurtar este tempo pelo fervor de nossas orações'.

 

Já foi dito o suficiente sobre a duração dos sofrimentos. Vemos que eles podem ser prolongados a um grau terrível; mesmo os sofrimentos mais curtos, ao considerarmos a sua gravidade, são longos. Procuremos abreviá-los para os outros e mitigá-los para nós mesmos, ou melhor ainda, preveni-los completamente. Agora vamos preveni-los removendo as causas. Quais são as causas? Qual é o cerne das penas de expiação no Purgatório?

 

Capítulo XXVII

 

As Causas dos Sofrimentos - Razão das Expiações do Purgatório - Ensinamentos de Suarez e de Santa Catarina de Gênova

 

Por que as almas devem sofrer antes de serem admitidas para ver Deus face a face? Qual é a razão, ou qual é a justificativa dessas expiações? O que tem o fogo do Purgatório para purificar, o que precisa ser consumido nele? São, dizem os Padres  da Igreja, as impurezas ou máculas devidas aos nossos pecados.

 

Mas o que se entende aqui por impurezas? De acordo com a maioria dos teólogos, não é a culpa do pecado, mas a dor ou a dívida da dor procedente do pecado. Para entender bem isso, devemos lembrar que o pecado produz um duplo efeito na alma, que chamamos de dívida (reatus) de culpa e dívida de dor; que torna a alma não apenas culpada, mas merecedora de dor ou castigo. Ainda que a culpa seja perdoada, acontece geralmente que a dor perdura, total ou parcialmente, e, portanto, deve ser suportada ou expiada nesta vida ou na vida futura.

 

As almas do Purgatório não detêm nenhuma dívida de culpa; a culpa venial que tinham no momento de sua morte desaparece na ordem da pura caridade com a qual estão plenamente infundidos na outra vida; o que ainda carregam consigo é a dívida dos sofrimentos que não foram expiados antes da morte. Esta dívida procede de todas as faltas cometidas durante a vida, especialmente aquelas devidas aos pecados mortais, remidos quanto à culpa por confissões sinceras, mas que deixaram de ser expiadas devidamente com frutos dignos de penitência exterior.

 

Tal é o ensinamento comum dos teólogos, que Suarez resume em seu Tratado sobre o Sacramento da Penitência: 'Concluímos então que todos os pecados veniais com que morre um justo são remidos da culpa, no momento em que a alma é separada do corpo, em virtude de um ato de amor a Deus, e a contrição perfeita que então excita por todas as suas faltas passadas. De fato, a alma neste momento conhece perfeitamente a sua condição e os pecados dos quais foi culpada diante de Deus; ao mesmo tempo, é dona de suas faculdades, para poder agir. Por outro lado, da parte de Deus, são dadas a ela as ajudas mais eficazes, para que aja segundo a medida da graça santificante que possui. Segue-se, então, que, nesta disposição perfeita, a alma age sem a menor hesitação. Volta-se diretamente para o seu Deus e encontra-se livre de todos os seus pecados veniais por um ato de soberana aversão ao pecado. Este ato universal e eficaz basta para a remissão de sua culpa. Toda mácula de culpa então desaparece; mas a dor continua a ser imposta e deve ser expiada, com todo o rigor e longa duração, pelo menos para aquelas almas que não são assistidas pelas intenções dos vivos. Eles não podem obter o menor alívio para si mesmas, porque o tempo do mérito já passou; elas não podem mais merecer, podem apenas sofrer e, assim, pagar à temível justiça de Deus tudo o que devem, até o último centavo - usque ad novissimum quadrantem (Mt 5, 26).

 

Essas dívidas de dor são restos de pecados e uma espécie de obstáculo, que lhes intercepta a visão de Deus e que impõe um freio à união da alma com o seu fim último. Uma vez que as almas do Purgatório estão livres da culpa do pecado - escreve Santa Catarina de Gênova -  não há outra barreira entre elas e sua união com Deus, a não ser os restos do pecado, os quais devem ser expiados. Estes obstáculos que sentem dentro de si fazem com que padeçam os tormentos dos condenados, dos quais falamos previamente, e retardam o momento no qual o instinto pelo qual são atraídas para Deus, quanto à sua soberana bem aventurança, atingirá a sua plena manifestação. 

 

As almas têm a plena percepção de quão graves são, diante de Deus, os menores resquícios dos pecados cometidos e que é, por necessidade de justiça, que estes devem ser pagos até a plena saciedade do seu instinto beatífico. Esta percepção faz incendiar dentro delas um fogo ardente e semelhante ao do inferno, com exceção da culpa do pecado.

 

Capítulo XXVIII

 

As Longas Penas de Expiação no Purgatório - Lord Stourton - Santa Lidwina e a Alma Tomada pelos Pecados da Luxúria

 

Dissemos que o valor total da dívida dos sofrimentos do Purgatório provém de todas as faltas não expiadas na terra, mas principalmente dos pecados mortais não remidos à sua culpa. Assim, aqueles homens que passam a vida inteira em estado habitual de pecado mortal e que atrasam a sua conversão até quase à morte, supondo que Deus lhes conceda essa graça excepcional, terão que sofrer os mais terríveis castigos. 

 

O exemplo de Lord Stourton dá-nos bons motivos para reflexão. Lord Stourton, um nobre inglês, era católico de coração mas, para manter a sua posição na corte, frequentava regularmente os ritos protestantes. Ele até acolheu um sacerdote católico em sua própria casa, ao preço dos maiores perigos, com o propósito de fazer uso do seu ministério para se reconciliar com Deus na hora de sua morte. Entretanto, ele sofreu um acidente repentino e, como muitas vezes acontece em tais casos, por um justo decreto de Deus, não teve tempo de realizar o seu desejo de conversão tardia. No entanto, a Divina Misericórdia, levando em consideração o que ele havia feito em favor da Igreja Católica tão perseguida na Inglaterra, concedeu-lhe a graça da contrição perfeita e, consequentemente, garantiu a sua salvação. Mas teve que pagar muito caro por sua negligência culposa. Anos se passaram. Sua viúva casou novamente e teve filhos. E é uma de suas filhas, Lady Arundel, que relata este fato como testemunha ocular:

 

'Um dia minha mãe pediu a F. Cornelius, um jesuíta de grande prestígio e que mais tarde morreu mártir (foi traído por um servo da família Arundel e executado em Dorchester em 1594), que rezasse uma missa em intenção da alma de Lord Stourton, seu primeiro marido. Ele assim o fez e, enquanto estava no altar, entre a Consagração e a Memento pelos mortos, parou por um longo tempo como se estivesse absorto em oração. Depois da missa, numa exortação que dirigiu aos presentes, contou-lhes uma visão que acabara de ter durante o Santo Sacrifício. Ele tinha visto uma imensa floresta que se estendia à sua frente, mas inteiramente em chamas, formando uma fornalha imensa. No meio dela, estava o nobre falecido, soltando gritos terríveis, lamentando a vida culpada que levara no mundo e na corte. Após ter feito uma confissão completa de suas faltas, o infeliz a terminou com estas palavras, que a Sagrada Escritura coloca na boca de Jó: 'Tem piedade de mim! Tenham piedade de mim, pelo menos vocês meus amigos, pois a mão do Senhor me tocou'. E então desapareceu. Enquanto relatava isso, F. Cornelius derramou muitas lágrimas, e todos nós, membros da família, ao número de vinte e quatro pessoas, choramos também. De repente, enquanto o padre ainda falava, percebemos na parede contra a qual o altar estava o que parecia ser o reflexo de brasas acesas'. Tal é o relato de Dorothy, Lady Arundel, como pode ser lido na 'História da Inglaterra', por Daniel.

 

Santa Lidwina também viu no Purgatório uma alma que sofreu longas penas por pecados mortais não suficientemente expiados na terra. O incidente é assim relatado na vida da santa. Um homem que, por muito tempo foi escravo do demônio da impureza, finalmente teve a felicidade de se converter. Confessou os seus pecados com grande contrição, mas, impedido pela morte, não teve tempo de expiar com justa penitência seus numerosos pecados. Lidwina, que o conhecia bem, rezou muito pela sua alma. Doze anos depois de sua morte ela ainda continuava a rezar na sua intenção, quando, em um de seus êxtases, foi levada ao Purgatório por seu anjo guardião e então ouviu uma voz triste saindo de um poço profundo. 'É a alma daquele homem' - disse o anjo - 'por quem você tem rezado com tanto fervor e constância'. 

 

Ela ficou surpresa ao encontrá-lo nas profundezas do Purgatório doze anos após a sua morte. O anjo, vendo-a tão afetada, perguntou se ela estava disposta a sofrer algo em favor de sua libertação. 'De todo o meu coração' - respondeu a donzela caridosa. A partir desse momento, passou a sofrer novas dores e tormentos assustadores, que pareciam superar a força da resistência humana. No entanto, ela os suportou com tanta coragem, sustentada por uma caridade mais forte que a morte, que agradou a Deus enviar-lhe finalmente alívio. Ela então respirou como quem tivesse sido trazida novamente à vida e, ao mesmo tempo, viu aquela alma, pela qual tanto sofrera, sair do abismo, branca como a neve, e voar para o Céu. 

 

Capítulo XXIX

 

As Longas Penas de Expiação no Purgatório - Mundanismo - Santa Brígida: a Jovem Cortesã e o Soldado - Beata Maria Villani e a Senhora da Sociedade

 

As almas que se deixam deslumbrar pelas vaidades do mundo, ainda que tenham o privilégio de escapar da condenação, terão de sofrer terríveis castigos. Abramos as 'Revelações de Santa Brígida', tão apreciadas pela Igreja. Lemos no Livro Seis dessa obra que a santa se viu transportada em espírito para o Purgatório e que, entre outros, viu ali uma jovem de alta estirpe que outrora se havia abandonado aos luxos e vaidades do mundo. 

 

Essa alma infeliz contou-lhe a história de sua vida e o triste estado em que se encontrava então. 'Felizmente' - disse ela - 'antes da morte confessei os meus pecados com disposição para escapar do inferno, mas agora sofro aqui para expiar a vida mundana que minha mãe não me impediu de levar! Ai!' - acrescentou, com um suspiro - 'este rosto, que adorava ser maquiado e que procurava chamar a atenção de todos, agora é devorado por chamas por dentro e por fora, e essas chamas são tão violentas que a cada momento parece que vou morrer. Esses ombros, esses braços, que eu adorava ver admirados, estão cruelmente presos em correntes de ferro em brasa. Esses pés, outrora treinados para a dança, agora estão cercados de víboras que os rasgam com as suas presas e os sujam com seu lodo imundo; todos esses membros que adornei com joias, flores e diversos outros ornamentos são agora uma prisão da mais horrível tortura. Ó mãe, mãe! - ela gritou - 'quão culpada você foi em relação a mim! Foste tu que, por uma indulgência fatal, encorajastes o meu gosto pela ostentação e por gastos extravagantes; fostes tu que me levastes a teatros, festas e bailes, e àqueles encontros mundanos que são a ruína das almas... Se não incorri na condenação eterna foi porque uma graça especial da misericórdia de Deus tocou o meu coração com sincero arrependimento. Fiz uma boa confissão e assim fui libertada do Inferno, mas apenas para me ver precipitada nos mais horríveis tormentos do Purgatório'. 

 

Já observamos que o que se diz dos membros torturados não deve ser tomado literalmente, porque a alma está separada do corpo; mas Deus, suprindo a falta de órgãos corporais, faz a alma experimentar as sensações que acabamos de descrever. A biógrafa da santa conta-nos que esta relatou a visão a uma prima da falecida, igualmente dada às ilusões das vaidades mundanas. A prima ficou tão impressionada com as revelações que renunciou aos luxos e diversões perigosas deste mundo, dedicando-se o resto da sua vida à penitência em uma ordem religiosa austera.

 

A mesma Santa Brígida, em outro êxtase, viu o julgamento de um soldado que acabara de morrer. Viveu nos vícios muito comuns de sua profissão, e teria sido condenado ao inferno se a Santíssima Virgem, a quem sempre havia honrado, não o tivesse preservado dessa desgraça, obtendo para ele a graça de um arrependimento sincero. A santa o viu comparecer perante o tribunal de Deus e ser condenado a um longo Purgatório pelos pecados de todos os tipos que havia cometido. 'O castigo dos olhos' - disse o Juiz - 'será contemplar os objetos mais assustadores; a da língua, para ser perfurada com agulhas pontiagudas e atormentada pela sede; a do toque, ser mergulhada em um oceano de fogo'. E então a Santa Virgem intercedeu, obtendo para ele alguma mitigação do rigor da sentença.

 

Relatemos ainda outro exemplo dos castigos reservados aos mundanos no Purgatório, quando não foram, como o rico glutão do Evangelho, sepultados no Inferno. A Beata Maria Villani, religiosa dominicana, tinha uma viva devoção às santas almas, e muitas vezes acontecia que estas lhe apareciam, seja para lhe agradecer ou para implorar a ajuda de suas orações e boas obras. Um dia, enquanto orava por elas com grande fervor, foi transportada em espírito para a prisão de expiação. Entre as almas que ali sofriam, ela viu uma mais cruelmente atormentada que as outras, no meio de chamas que a envolviam inteiramente. 

 

Tocada de compaixão, a serva de Deus interrogou a alma. 'Estou aqui' - respondeu ela - 'há muito tempo, castigada por minha vaidade e minha extravagância escandalosa. Até agora não recebi o menor alívio. Enquanto eu estava na terra, totalmente ocupada com a minha aparência, meus prazeres e diversões mundanas, eu pensava muito pouco em meus deveres como cristã, e os cumpri apenas com grande relutância e de maneira preguiçosa. Meu único pensamento sério era promover os interesses mundanos da minha família. Veja agora como sou castigada: tudo isso não me vale agora nem um pensamento passageiro; meus pais, meus filhos, aqueles amigos com quem vivia intimamente – todos se esqueceram de mim'.

 

Maria Villani implorou a essa alma que lhe permitisse sentir algo do que sofria e lhe pareceu então que um dedo de fogo tocava sua testa, e a dor que ela experimentou instantaneamente fez com que o seu êxtase cessasse de imediato. A marca ficou e tão profunda e dolorosa permaneceu que, dois meses depois, ainda podia ser vista e fez a santa freira padecer os mais terríveis sofrimentos. Ela suportou essa dor em espírito de penitência, para o alívio da alma que lhe havia aparecido, a qual, algum tempo depois, retornou para lhe anunciar a sua libertação.

 

Capítulo XXX

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados da Juventude - Santa Catarina da Suécia e a Princesa Gida

 

São muitas as vezes que os cristãos não refletem suficientemente sobre a necessidade de se fazer penitência pelos pecados cometidos na juventude, os quais serão um dia expiados pela mais rigorosa penitência do Purgatório. Tal foi o caso da princesa Gida, nora de Santa Brígida, como lemos nas Vidas dos Santos - Vida de Santa Catarina (24 de março). Santa Brígida estava em Roma com a sua filha Catarina, quando esta foi privilegiada com uma aparição da alma de sua cunhada Gida, cuja morte então ignorava. 

 

Quando se encontrava em oração na antiga basílica de São Pedro, Catarina viu diante de si uma mulher vestida com uma túnica branca e um manto preto, que lhe veio pedir suas orações por uma pessoa falecida: 'É uma de suas conterrâneas' - acrescentou ela - 'e que precisa da sua ajuda'. 'Qual é o nome dela?' - perguntou a santa. 'É a princesa Gida da Suécia, a esposa do seu irmão Charles'. Catarina implorou então à aparição que a acompanhasse até sua mãe Brígida, para dar a ela estas tristes notícias. 'Estou encarregado de dar esta mensagem só para você' - disse a aparição - 'e não tenho permissão para fazer outras visitas, pois devo partir imediatamente. Você não tem motivos para duvidar da veracidade desse fato; em poucos dias deverá chegar um mensageiro da Suécia, trazendo a coroa de ouro da princesa Gida. Ela a legou a você por testamento, a fim de garantir a assistência de suas orações; mas estenda-lhe desde agora a sua ajuda caridosa, pois ela precisa muito e urgentemente das suas orações'. Com essas palavras, retirou-se. Catarina a teria seguido mas, embora os seus trajes a tivessem distinguido facilmente, ela não mais  se encontrava em lugar algum.

 

Surpreendida e abalada por este estranho acontecimento, Catarina apressou-se a regressar à casa da mãe e contar a ela tudo o que tinha acontecido. Santa Brígida respondeu com um sorriso: 'Foi a sua cunhada Gida que apareceu a você. Nosso Senhor teve a delicadeza de revelar isso para mim. A querida falecida morreu nos mais consoladores sentimentos de piedade; é por isso que obteve o favor de aparecer a você pedindo as suas orações. Ela tem ainda que expiar as inúmeras falhas de sua juventude. Vamos ambas fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para lhe dar alívio. A coroa de ouro que ela lhe enviou impõe esta obrigação a você'.

 

Poucas semanas depois, um emissário da corte do príncipe Charles chegou a Roma, carregando a coroa e crendo ser o primeiro a transmitir a notícia da morte da princesa Gida. A bela coroa foi vendida e o dinheiro arrecadado foi usado para a celebração de missas e outras boas obras em intenção do repouso da alma da falecida princesa.

 

Capítulo XXXI

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados de Escândalo - Padre Zucchi e a Noviça

 

Aqueles que tiveram a infelicidade de dar mau exemplo, ferir ou causar a perdição das almas pelo escândalo devem ter todo o cuidado de reparar tudo isso neste mundo, senão serão submetidos às mais terríveis expiações no outro. Não foi em vão que Jesus Cristo proclamou: 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem o escândalo vem!' (Mt 18,7). Ouçamos o que o Padre Rossignoli relata em seu Merveilles du Purgatoire. 

 

Um pintor de grande maestria e vida exemplar havia feito uma pintura que não se conformava com as regras estritas da modéstia cristã. Era uma daquelas pinturas que, a pretexto de serem obras de arte, são mantidas sob as melhores famílias, e cuja mera visão causa a perda de tantas almas. A verdadeira arte é uma inspiração do Céu, que eleva a alma a Deus; a arte profana, que apela apenas aos sentidos, que não apresenta aos olhos senão as belezas da carne e do sangue, traduz apenas uma inspiração do espírito maligno; suas obras, por mais brilhantes que sejam, não são obras de arte, e este nome é falsamente atribuído a elas. São apenas as infames produções de uma imaginação corrupta.

 

O artista que mencionamos deixou-se enganar neste caso por um mau exemplo. Em seguida, porém, renunciando a esse estilo pernicioso, dedicou-se à produção de quadros religiosos ou daqueles que pelo menos eram perfeitamente irrepreensíveis. Uma vez realizando a pintura de um grande afresco para um convento dos carmelitas descalços, abateu-se sobre ele uma doença mortal. Sentindo-se prestes a morrer, solicitou ao prior que pudesse ser sepultado na igreja do mosteiro, legando àquela comunidade os seus ganhos, que ascendiam a uma soma considerável em dinheiro, exortando-lhes que fossem rezadas muitas missas para o repouso de sua alma. 

 

Morreu sob piedosos sentimentos e, após alguns dias, um religioso que havia permanecido no coro depois das Matinas, o viu aparecer em meio a chamas e suspirando de maneira lastimável: 'Como? - disse o religioso - 'como pode você estar padecendo tantas dores, depois de levar uma vida tão justa e morrer uma morte tão santa?' 'Ai!' - respondeu ele - 'tudo isso é por causa do quadro imodesto que pintei anos atrás. Quando compareci perante o tribunal do Juiz Soberano, uma multidão de acusadores veio depor contra mim. Eles declararam que tinham sido estimulados a pensamentos impróprios e maus desejos pela imagem que foi obra da minha mão. Por causa desses maus pensamentos, alguns estavam no Purgatório e outros no Inferno. Estes clamavam por vingança dizendo que, tendo sido esta a causa de sua perdição eterna, eu merecia, pelo menos, o mesmo castigo. Então a Santíssima Virgem e os santos que eu havia glorificado com meus quadros me defenderam. Eles representaram ao Juiz que aquela pintura infeliz tinha sido obra da minha juventude e da qual havia me arrependido; que eu a havia reparado depois com objetos religiosos que haviam sido fonte de edificação para as almas. Em consideração a essas e outras razões, o Juiz Soberano declarou que, por causa do meu arrependimento e das minhas boas obras, eu deveria estar isento de condenação; mas, ao mesmo tempo, Ele me condenou a essas chamas até que aquele quadro fosse queimado, para que não pudesse mais escandalizar ninguém'.

 

Então a aparição implorou aos religiosos do convento que tomassem as providências para que aquela pintura fosse destruída. 'Eu imploro' - acrescentou - 'procure em meu nome tal pessoa, proprietária do quadro; diga-lhe em que condições estou por ter cedido às suas insistências em pintá-lo e exorte-o a desfazer-se dele de pronto e ai dele se o recusar! Para provar que isso não é uma fantasia e para puni-lo pela sua própria culpa, diga-lhe que em breve perderá os seus dois filhos e, se ainda recusar a obedecer Àquele que nos criou, ele pagará por isso com uma morte prematura'.

 

O religioso não tardou em fazer o que a pobre alma havia pedido e foi ter com o dono do quadro. Este, ao ouvir essas coisas, pegou a pintura e a lançou no fogo. No entanto, como designado pelas palavras do falecido, ele perdeu os seus dois filhos em menos de um mês e passou o resto dos seus dias fazendo penitência, por ter encomendado e mantido por tanto tempo aquela pintura escandalosa em sua casa. Se tais são as consequências de um único quadro, qual será, então, o castigo dos escândalos ainda mais desastrosos induzidos por maus livros, notícias falseadas, ensinamentos perversos e conversas vulgares? Vae mundo a scandalis! Vae homini illi per quem scandalum venit! - 'Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem vem o escândalo!' (Mt 18, 7).

 

O escândalo faz grandes estragos nas almas pela sedução da inocência. Ah! esses malditos sedutores! Eles prestarão a Deus uma terrível conta pelo sangue de suas vítimas. Lemos o seguinte na Vida do Pe. Nicolau Zucchi, escrita pelo Pe. Daniel Bartoli, da Companhia de Jesus. O santo e zeloso Pe. Zucchi, falecido em Roma, em 21 de maio de 1670, atraiu para uma vida de perfeição três jovens, que se consagraram a Deus no claustro. A mais nova delas, antes de deixar o mundo, recebera uma proposta de casamento de um jovem nobre. Após a sua entrada no noviciado, este homem, em vez de respeitar a sua santa vocação, continuou a dirigir-lhe cartas a quem desejava chamar de sua noiva, insistindo que ela deixasse - como dizia - o tedioso serviço a Deus para voltar a viver as alegrias da vida. O sacerdote,  encontrando-o um dia na rua, exortou-lhe que abandonasse tal conduta: 'Eu lhe asseguro' - disse ele - 'que em breve você irá comparecer perante o tribunal de Deus e, portanto, já é mais que tempo para se preparar para isso com sincera penitência'.

 

De fato, quinze dias depois, este jovem morreu de uma morte muito rápida, que lhe deixou pouco tempo para colocar em ordem os assuntos de sua consciência, de modo que havia tudo a temer por sua salvação. Uma noite, enquanto as três noviças estavam envolvidas em uma conversa religiosa, a mais jovem foi chamada a se dirigir até a sala de entrada, onde a esperava um homem encoberto por uma pesado casaco e que andava a passos largos pelo ambiente. 'Sim, senhor - ela disse - 'o senhor queria falar comigo?' O estranho, sem nada responder, aproximou-se dela e abriu o misterioso manto que o envolvia. A religiosa reconheceu de imediato e horrorizada de que se tratava do recém-falecido, que estava totalmente tomado por correntes de fogo que o prendiam pelo pescoço, pulsos, joelhos e tornozelos. 'Reze por mim!' - gritou ele, desaparecendo em seguida. Esta manifestação milagrosa mostrou que Deus teve misericórdia dele no último momento e que não foi condenado, mas que pagou caro por sua tentativa de sedução à jovem noviça com um terrível Purgatório.

 

Capítulo XXXII

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados de uma Vida de Prazer e de Conforto - Venerável Francisca de Pamplona e o Homem Mundano - Santa Elisabeth da Hungria e a Alma da sua Mãe 

 

Em nossos dias, há cristãos que são totalmente alheios à cruz e à mortificação de Jesus Cristo. Sua vida adocicada e sensual consiste apenas em uma sequência de prazeres; temem tudo o que é dado ao sacrifício; dificilmente observam as leis restritas do jejum e da abstinência prescritas pela Igreja. Uma vez que não se submetem a nenhuma penitência neste mundo, que reflitam sobre o que lhes será infligido no próximo. É certo que nesta vida mundana não fazem nada além de acumular dívidas. Como se omitem em fazer penitência, nenhuma parte da dívida é paga, e chega-se então a um montante assustador à imaginação. 

 

A venerável serva de Deus, Francisca de Pamplona, que foi favorecida com diversas visões do Purgatório, certa vez viu um homem mundano que, embora fosse um cristão razoavelmente bom, passou cinquenta e nove anos no Purgatório por causa da sua busca sempre por comodidade e conforto. Outro passou ali trinta e cinco anos pelo mesmo motivo; um terceiro, que tinha uma paixão muito forte pelo jogo, ficou detido nessa prisão por sessenta e quatro anos. Infelizmente esses cristãos imprudentes permitiram que as suas dívidas permanecessem diante de Deus e muitas delas, que poderiam tão facilmente ter pago por obras de penitência, tiveram que ser pagas depois por anos de tortura. 

 

Se Deus é severo para com os ricos e os que buscam prazeres do mundo, não o será menos para com os príncipes, magistrados, pais e para todos aqueles que têm o encargo das almas e autoridade sobre os outros. Um julgamento particularmente severo, diz Ele mesmo, será para aqueles que governam (Sb 6,6). Laurence Surius relata [na obra Merveilles já citada previamente] como uma ilustre rainha, após sua morte, deu testemunho dessa verdade. Na Vida de Santa Elisabeth, Duquesa da Turíngia, conta-se que esta serva de Deus perdeu a mãe, Gertrudes, Rainha da Hungria, por volta do ano 1220. Com o espírito de uma santa filha cristã, deu abundantes esmolas, redobrou-se em orações e mortificações e esgotou todos os recursos da sua caridade para o alívio dessa querida alma. Mas Deus revelou a ela que isso ainda não era o bastante. 

 

Uma noite, a  falecida apareceu para ela com um semblante triste e definhado; colocou-se de joelhos ao lado da cama e disse-lhe, chorando: 'Minha filha, você vê a seus pés a sua mãe sobrecarregada de sofrimento. Venho implorar-vos que multipliqueis os vossos sufrágios, para que a Divina Misericórdia me livre dos terríveis tormentos que padeço. Ó quão são dignos de pena aqueles que exercem autoridade sobre os outros... Expio agora as faltas que cometi no trono. Ó minha filha, rogo-te pelas dores que suportei ao trazer-te ao mundo, pelos cuidados e ansiedades que me custou a tua educação, conjuro-te a livrar-me dos meus tormentos'. Elizabeth, profundamente emocionada, levantou-se de imediato e fez, a partir de então, severas penitências físicas, implorando a Deus, entre lágrimas, que tivesse misericórdia da alma de sua mãe, Gertrudes, e que assim rezaria até obter a sua libertação. As suas orações foram ouvidas.

 

Observemos aqui que, no exemplo anterior, fala-se apenas do caso de uma rainha; quão mais severamente serão julgados e tratados os reis, os magistrados e todos os superiores cuja responsabilidade e influência sobre outros homens são muito maiores!

 

Capítulo XXXIII

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados da Tibieza - São Bernardo e o Monge de Claraval - Venerável Madre Inês e a Irmã de Haut Villars - Padre Surin e a Religiosa de Loudun

 

Os bons cristãos, sacerdotes e religiosos, que desejam servir a Deus de todo o coração, devem evitar as armadilhas da tibieza e da negligência. Deus quer ser servido com fervor; aqueles que são mornos e indiferentes tendem a suscitar o seu descontentamento e Ele chega mesmo a ameaçar com a sua maldição aqueles que realizam funções sagradas de maneira descuidada – isto é, Ele tende a punir com grande rigor no Purgatório toda negligência feita ao seu serviço.

 

Entre os discípulos de São Bernardo, que perfumaram o célebre vale de Claraval com o odor de sua santidade, houve um cuja negligência contrastava tristemente com o fervor dos seus irmãos. Apesar de seu duplo caráter de sacerdote e de religioso, ele deixou-se levar por um deplorável estado de tibieza. No momento da morte, chamado à presença de Deus, apresentou-se sem ter dado nenhum sinal de emenda.

 

Enquanto se celebrava a Missa de Réquiem, um venerável religioso de rara virtude logrou conhecer por uma luz interior que, embora o defunto não estivesse perdido eternamente, sua alma purgava numa terrível condição. Na noite seguinte, a alma lhe apareceu em uma condição triste e miserável. 'Ontem' - disse ele - 'você ficou sabendo do meu destino deplorável; venha ver agora as torturas a que estou condenado como punição por minha indesculpável tibieza'. Conduziu então o venerável até a beira de um poço muito grande e profundo, cheio de fumaça e de chamas. 'Eis aqui o lugar' - disse ele - 'onde os ministros da Justiça Divina têm ordens para me atormentar; não cessam de me fazer mergulhar nesse abismo e, quando me puxam, é apenas para me precipitar novamente nele, sem me dar qualquer momento de trégua ou de descanso'.

 

Na manhã seguinte, o religioso foi ao encontro de São Bernardo para lhe dar a conhecer a sua visão. O santo abade, que tivera uma visão semelhante, recebeu-a como uma advertência do céu à sua comunidade. Convocou um Capítulo [assembleia dos confrades] e, com os olhos lacrimejantes, relatou a dupla visão recebida, exortando os seus religiosos a socorrer em favor da alma do pobre irmão falecido por meio de sufrágios de caridade, e a aproveitar este triste exemplo para preservar o fervor e evitar a menor negligência nos serviços prestados a Deus.

 

O exemplo a seguir é relatado por M. de Lantages na Vida da Venerável Madre Inês de Langeac, uma religiosa dominicana. Enquanto esta serva de Deus estava um dia rezando no coro, uma religiosa, que ela não conhecia, apareceu de repente diante dela, miseravelmente vestida e com um semblante que expressava a mais profunda dor. Ela a olhou com grande espanto, perguntando-se quem poderia ser; quando então ouviu uma voz lhe dizer distintamente: 'Esta é a Irmã de Haut Villars'. A Irmã de Haut Villars tinha sido uma religiosa do mosteiro de Puy que havia falecido há cerca de dez anos. Embora a aparição não tivesse dito qualquer palavra, demonstrou claramente pelo seu semblante amargurado o quanto precisava de ajuda.

 

Madre Inês compreendeu isso perfeitamente e começou, a partir daquele dia, a oferecer as mais fervorosas orações pelo alívio desta alma. A alma da religiosa não se contentou com a primeira visita; continuou a aparecer pelo espaço de três semanas, quase em todos os lugares e em todos os momentos, especialmente depois da Sagrada Comunhão e das orações, manifestando sempre um grande sofrimento pela expressão dolorosa do seu semblante.

 

Inês, a conselho de seu confessor e sem mencionar a aparição, pediu a sua Superiora permitir que a comunidade pudesse oferecer orações particulares pelas almas do Purgatório, por intenção dela. Como, apesar dessas orações, as aparições continuaram, ela temeu muito por algum engano. Deus, no entanto, dignou-se a remover esse receio. Assim Ele fez saber à sua serva fiel, pela voz do seu anjo guardião, que a aparição se tratava realmente de uma alma do Purgatório, cujo sofrimento era resultado de sua negligência no serviço a Deus. A partir deste momento, as aparições cessaram e não se sabe exatamente quanto tempo aquela alma infeliz permaneceu ainda no Purgatório. 

 

Citemos outro exemplo, bem adequado para estimular o fervor dos fiéis. Uma santa religiosa chamada Maria da Encarnação, do convento das Ursulinas, em Loudun, apareceu algum tempo depois de sua morte à sua Superiora, uma mulher de inteligência e mérito, que descreveu os detalhes da aparição ao Padre Surin da Companhia de Jesus: 'No dia 6 de novembro' - escreveu ela - 'entre as três e as quatro horas da manhã, a Irmã Encarnação apareceu diante de mim, com uma expressão de doçura em seu rosto que parecia mais de debilidade do que de sofrimento, mas, ainda assim, percebi nela uma grande angústia.

 

A princípio, fiquei tomada de grande pavor mas, como não havia nada nela que inspirasse medo, recuperei a serenidade. Perguntei a ela então em qual estado ela se encontrava e se podíamos fazer algo em favor dela. Ela respondeu: 'Eu satisfaço a Justiça Divina no Purgatório'. Insisti que ela me dissesse o motivo pelo qual ainda estava detida lá. Então, com um suspiro profundo, respondeu: 'É por ter sido negligente em vários exercícios comuns; uma certa aquiescência pela qual me deixei levar pelo exemplo de religiosas tíbias; enfim, e principalmente, o hábito que eu tinha de reter em minha posse coisas das quais não tinha permissão para dispor e de usá-las para satisfazer as minhas necessidades e inclinações naturais. Ah! se os religiosos soubessem' - continuou a aparição - 'o mal que fazem às suas almas não se aplicarem à perfeição, e quão caro eles um dia expiarão as satisfações que se dão contra a luz de suas consciências, como seriam outros os seus esforços para fazer violência contra si mesmos! Deus vê as coisas diferentes de nós, seus julgamentos são outros'. 

 

Perguntei a ela novamente se poderíamos fazer alguma coisa para aliviar os seus sofrimentos. Ela me respondeu: 'Desejo ver e possuir a Deus, mas me contento em satisfazer a sua Justiça, desde que isto seja do seu agrado'. Pedi-lhe então que me dissesse se tinha sofrido muito. 'Minhas dores' - respondeu -'são incompreensíveis para aqueles que não as sentem'. Ao dizer essas palavras, aproximou-se do meu rosto para se despedir de mim. Parecia que eu estava sendo queimada por uma brasa de fogo ardente, embora o rosto dela não tivesse tocado o meu e o meu braço, que mal havia roçado o seu manto, foi queimado vivamente e me causou uma dor considerável'. Um mês depois, ela apareceu novamente à Superiora para anunciar a sua libertação.

 

Capítulo XXXIV

 

Razões da Expiação no Purgatório - Negligência na Sagrada Comunhão - Relato do Venerável Luís de Blois - Santa Madalena de Pazzi e os Tormentos da Alma em Adoração

 

À tibieza está associada a negligência na preparação para o Banquete Eucarístico. Se a Igreja chama incessantemente os seus filhos à Santa Mesa, se deseja que comunguem com frequência, quer sempre que o façam com aquele fervor e piedade que tão grande mistério exige. Toda negligência voluntária em uma ação tão santa é uma ofensa à Santidade de Jesus Cristo, uma ofensa que deve ser reparada por uma justa expiação. O Venerável Luís de Blois, em sua obra Miroir Spirituel, fala de uma grande serva de Deus que aprendera de maneira sobrenatural quão severamente essas faltas são punidas na outra vida. Ela recebeu a visita de uma alma do Purgatório implorando a sua ajuda em nome da amizade pela qual nutriram outrora. Ela havia suportado - revelou a alma - tormentos horríveis devido à negligência com que se preparava para a Sagrada Comunhão, durante os dias de sua peregrinação terrena. Ela não poderia ser libertada senão por uma fervorosa comunhão que compensaria a sua antiga tibieza. A amiga apressou-se a satisfazer o seu desejo, recebendo a Sagrada Comunhão com grande pureza de consciência e com toda a fé e devoção possível; e então ela pôde ver a santa alma aparecer, brilhante e com um esplendor incomparável, e então subir para o céu.

 

No ano de 1589, no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, em Florença, morreu uma religiosa muito estimada por suas irmãs na religião, mas que logo apareceu a Santa Madalena de Pazzi para implorar a sua assistência no rigoroso Purgatório ao qual estava condenada. A santa estava em oração diante do Santíssimo Sacramento quando percebeu a alma da falecida ajoelhada no meio da igreja e em atitude de profunda adoração. Ela tinha ao seu redor um manto de chamas que parecia consumi-la, mas uma túnica branca que recobria o seu corpo a protegia parcialmente da ação do fogo. Muito espantada, Madalena quis saber o que isso significava, e teve como resposta que esta alma sofria assim por ter tido pouca devoção ao Augusto Sacramento do Altar. Não obstante as regras e costumes sagrados de sua Ordem, ela comungava poucas vezes e quase sempre com indiferença. Por isso, a Justiça Divina a havia condenado a vir todos os dias adorar o Santíssimo Sacramento e submeter-se ao suplício de fogo, aos pés de Jesus Cristo. No entanto, em recompensa por sua pureza virginal, representada pelo manto branco, o seu Esposo Divino havia mitigado muito os seus sofrimentos.

 

Tal foi a revelação que Deus fez à sua serva. Ela ficou profundamente sensibilizada e fez todos os esforços possíveis para ajudar a pobre alma por meio dos sufrágios ao seu alcance. Muitas vezes relatou esta aparição e dela fez referência constante para exortar as suas filhas espirituais ao zelo pela Sagrada Comunhão.

 

Capítulo XXXV

 

Razões da Expiação no Purgatório - Negligência na Oração - Venerável Inês de Langeac e Irmã Angelique - São Severino de Colônia - Venerável Francisca de Pamplona e os Sacerdotes - Padre Streit e sua única Falta

 

Devemos tratar as coisas sagradas de maneira santa. Toda irreverência nos exercícios religiosos é extremamente desagradável a Deus. Quando a Venerável Inês de Langeac, de quem já falamos, era prioresa do seu convento, ela recomendou expressamente às suas religiosas respeito e especial fervor em todas as suas relações com Deus, lembrando-lhes estas palavras da Sagrada Escritura: 'maldito aquele que faz o trabalho de Deus com negligência'. Uma certa irmã da comunidade chamada Angelique faleceu. A piedosa superiora estava rezando perto do seu túmulo, quando de repente viu a irmã falecida diante dela, vestida com o hábito religioso; ela sentiu ao mesmo tempo como se uma chama de fogo tocasse o seu rosto. Irmã Angelique agradeceu a ela por tê-la estimulado no fervor e, em particular, por tê-la feito repetir com frequência durante a vida estas palavras: maldito aquele que faz o trabalho de Deus com negligência. 'Continue, mãe' - acrescentou ela - 'a incitar as irmãs neste fervor; para que sirvam a Deus com a máxima diligência e amem a Deus de todo o coração e com todo o poder de sua alma. Se elas pudessem entender quão rigorosos são os tormentos do Purgatório, nunca seriam culpadas da menor negligência'.

 

A advertência anterior diz respeito de maneira especial aos sacerdotes, cujas relações com Deus são contínuas e mais sublimes. Lembrem-se, portanto, sempre e nunca se esqueçam disso, quer ofereçam a Deus o incenso da oração, quer distribuam os Tesouros Divinos dos sacramentos, quer no altar celebrem os mistérios do Corpo e Sangue de Jesus Cristo. Veja o que relata, por exemplo, São Pedro Damião em sua 14ª Carta a Desidério.

 

São Severino, Arcebispo de Colônia, edificou a sua igreja como exemplo de todas as virtudes. A sua vida apostólica e as suas grandes obras de de evangelização e proclamação do reino de Deus nas almas fizeram que merecesse as honras da canonização. No entanto, após a sua morte, ele apareceu a um dos cônegos de sua catedral para pedir orações. Este digno sacerdote, não sendo capaz de entender como um santo prelado - como sabia que Severino o era - precisaria obter orações na outra vida, ouviu o seguinte do falecido bispo: 'É verdade que Deus me deu a graça de servi-lo com todo o meu coração e trabalhar na sua vinha, mas muitas vezes o ofendi com a pressa com que recitei o Santo Ofício. As ocupações de cada dia absorviam tanto a minha atenção que, quando chegava a hora da oração, eu buscava me desincumbir desse grande dever sem a devida atenção e, muitas vezes, em horários diversos daqueles recomendados pela Santa Igreja. Assim agora estou expiando essas infidelidades, e Deus me permite vir até aqui e pedir as suas orações'. A biografia acrescenta que Severino permaneceu seis meses no Purgatório por estas faltas.

 

A Venerável Irmã Francisca de Pamplona, que também já mencionamos, viu um dia no Purgatório um pobre padre cujos dedos estavam carcomidos por terríveis úlceras. Foi assim castigado por ter feito o Sinal da Cruz no altar com demasiada leviandade e sem a necessária gravidade. Ela disse que, em geral, os padres permanecem no Purgatório por mais tempo do que os leigos e que a intensidade dos seus tormentos é proporcional à sua dignidade. Deus revelou a ela o destino de vários sacerdotes falecidos. Um deles teve que suportar quarenta anos de sofrimento por ter permitido, por sua negligência, que uma pessoa morresse sem os sacramentos; outro ali permaneceu quarenta e cinco anos por ter desempenhado com certa leviandade as sublimes funções do seu ministério. Um bispo, cuja liberalidade o levou a ser nomeado esmoler [um capelão encarregado de distribuir dinheiro aos pobres], ficou detido ali por cinco anos por ter ansiado por tal dignidade; outro, não tão caridoso, foi purgado por quarenta anos pelo mesmo motivo.

 

Deus quer que o sirvamos com todo o nosso coração e que evitemos, na medida em que a fragilidade da natureza humana assim o permita, até as menores imperfeições; mas o cuidado de agradá-lo e o temor de desagradá-lo devem ser acompanhados por uma humilde confiança em sua misericórdia. Jesus Cristo nos admoestou a ouvir aqueles a quem Ele designou para serem os nossos guias espirituais como nós o ouviríamos e a seguir o conselho do nosso superior ou confessor com perfeita confiança. Assim, um temor excessivo é uma ofensa à sua misericórdia.

 

Em 12 de novembro de 1643, padre Philip Streit, da Companhia de Jesus, religioso de grande santidade, faleceu no Noviciado de Brünn, na Boêmia. Todos os dias ele fazia o seu exame de consciência com o maior cuidado e assim adquiriu uma grande pureza de alma. Algumas horas depois de sua morte, ele apareceu glorioso para um dos Padres de sua Ordem, o Venerável Martin Strzeda. 'Uma única falta' - disse ele - 'ainda me impede de ir para o Céu e me detém por oito horas no Purgatório; é a de não ter confiado suficientemente nas palavras do meu superior que, nos últimos momentos da minha vida, esforçou-se por acalmar-me um pequeno problema de consciência. Eu deveria ter considerado as suas palavras como a voz do próprio Deus'.

 

Capítulo XXXVI

 

Razões da Expiação no Purgatório - Mortificação dos Sentidos - A visão do Padre Francisco de Aix - Mortificação da Língua e o Célebre Durand

 

Os cristãos que desejam escapar dos rigores do Purgatório devem amar a mortificação do seu Divino Mestre e ter cuidado para não serem membros transigentes sob uma Cabeça coroada de espinhos. Em 10 de fevereiro de 1656, na província de Lyon, faleceu o padre Francisco de Aix, da Companhia de Jesus, para uma vida melhor. Ele levou todas as virtudes de um religioso a um elevado grau de perfeição. Possuído por uma profunda veneração à Santíssima Trindade, teve por particular intenção em todas as suas orações e mortificações honrar este Augusto Mistério; abraçar de preferência os trabalhos pelos quais os outros mostravam menos inclinação tinha um encanto especial para ele. Frequentemente visitava o Santíssimo Sacramento, mesmo durante a noite, e nunca saía da porta de seu quarto sem ir rezar ao pé do altar. Suas penitências, um tanto excessivas, deram a ele a alcunha de homem das dores. A alguém que o aconselhou a moderação, ele respondeu: 'O dia que eu deixasse passar sem derramar algumas gotas do meu sangue para oferecer ao meu Deus seria para mim a mais dolorosa e severa mortificação. Assim, já que não posso esperar sofrer o martírio por amor de Jesus Cristo, pelo menos terei alguma participação em seus sofrimentos'.

 

Outro religioso, Irmão Coadjutor da mesma Ordem, não imitou o exemplo deste bom padre. Ele tinha pouco amor pela mortificação e, ao contrário, buscava mais a comodidade e o conforto, bem como tudo o que pudesse agradar os sentidos. Este irmão, alguns dias depois de sua morte, apareceu ao padre d'Aix, envolvido por um cilício tenebroso e sofrendo grandes tormentos, como castigo pelas faltas de sensualidade que havia cometido em vida. Ele implorou a ajuda de suas orações e logo em seguida desapareceu.

 

Outra falta contra a qual devemos nos proteger, porque nela caímos muito facilmente, é a não mortificação da língua. Ó como é fácil errar nas palavras! Quão raro é falar por muito tempo sem ofender a mansidão, a humildade, a sinceridade ou a caridade cristã! Mesmo pessoas piedosas estão frequentemente sujeitas a esse defeito; quando escapam de todas as outras armadilhas do demônio, deixam-se levar, diz São Jerônimo, nesta última armadilha – a calúnia. 

 

Ouçamos o que é relatado por Vincent de Beauvais. Quando o célebre Durand que, no século XI, resplandeceu a Ordem de São Domingos, era ainda um simples religioso, mostrou-se um modelo de regularidade e fervor; mas ele tinha um defeito. A sua vivacidade era uma predisposição a falar muito; gostava excessivamente de expressões espirituosas, muitas vezes à custa da caridade. Hugh, seu abade, alertou isso ao seu conhecimento, prevendo mesmo que, se não se corrigisse dessa falta, certamente teria que expiá-la no Purgatório. Durand não deu importância suficiente a esse conselho e continuou a se dedicar, sem muita restrição, aos distúrbios da língua. Após sua morte, a previsão do abade Hugh foi cumprida. Durand apareceu a um religioso, um de seus amigos, implorando-lhe que o ajudasse com suas orações, porque ele foi terrivelmente punido pela não mortificação de sua língua. Em consequência desta aparição, os membros da comunidade decidiram por unanimidade em observar estrito silêncio por oito dias, e praticar outras boas obras para o repouso do falecido. Esses exercícios de caridade produziram seu efeito; algum tempo depois Durand apareceu novamente, mas agora para anunciar a sua libertação.

 

Capítulo XXXVII

 

Razões da Expiação no Purgatório - Intemperança da Língua - O Religioso Dominicano - Irmãs Gertrudes e Margarida - São Hugo de Cluny e o Infrator da Regra do Silêncio 

 

Acabamos de ver como a imoderação no uso das palavras é expiada no Purgatório. Padre P. Rossignoli fala de um religioso dominicano que incorreu nos castigos da Justiça Divina por falta semelhante. Este religioso, um pregador cheio de zelo, uma glória para sua Ordem, apareceu depois de sua morte a um de seus irmãos em Colônia. Ele estava vestido com vestes magníficas, usando uma coroa de ouro na cabeça, mas sua língua estava terrivelmente atormentada. Esses ornamentos representavam a recompensa de seu zelo pelas almas e a sua perfeita observância em todos os pontos de sua Regra. No entanto, sua língua foi torturada porque ele não havia sido suficientemente cauteloso em suas palavras, e sua língua nem sempre moldavam os lábios sagrados de um padre e de um religioso.

 

O exemplo a seguir é extraído de Cesarius. Num mosteiro da Ordem de Citeaux, diz este autor, viviam duas jovens religiosas, chamadas Gertrudes e Margarida. A primeira, embora virtuosa, não cuidou suficientemente de sua língua; ela frequentemente se permitia transgredir a regra do silêncio prescrita, às vezes até em coro, antes e depois do canto do Ofício. Em vez de se recolher com a reverência devida àquele lugar santo, dirigia palavras inúteis à irmã, que se colocava ao lado dela, de modo que, além de sua violação da regra do silêncio e sua falta de piedade, ela foi objeto de desvirtuação para a sua Irmã de Ordem. 

 

Ela morreu ainda jovem. Pouco tempo depois de sua morte, a Irmã Margarida dirigiu-se ao coro e viu de repente a Irmã Gertrudes chegar e ocupar o mesmo assento que ocupava em vida. Muda de espanto, a irmã chegou quase a desmaiar diante essa visão. Quando se recuperou suficientemente, foi contar à Superiora o que acabara de ver. Esta admoestou-lhe a não preocupar-se em demasia e que, caso a falecida aparecesse outra vez, perguntasse a ela, em nome de Deus, o motivo de sua aparição.

 

No dia seguinte, a falecida reapareceu da mesma forma e, seguindo a orientação da Superiora, a de acordo com a ordem da prioresa, a Irmã Margarida lhe perguntou: 'Minha querida Irmã Gertrudes, de onde você vem e o que você quer?'. 'Venho' - disse ela- 'para satisfazer a Justiça de Deus neste lugar onde pequei. Foi aqui, neste santo santuário, que ofendi a Deus com palavras inúteis e contrárias ao respeito religioso, para desonra de muitos e pelo escândalo que vos dei em particular. Ah se você soubesse' - acrescentou ela - 'o quanto sofro! Sou devorada pelas chamas e, em particular, a minha língua é terrivelmente atormentada'. Ela desapareceu em seguida, depois de ter pedido orações em sua intenção.

 

Quando São Hugo, que sucedeu a Santo Odilo em 1049, governava o fervoroso mosteiro de Cluny, um de seus religiosos, que havia sido descuidado na observância da regra do silêncio, tendo falecido, apareceu ao santo abade para pedir a ajuda de seu orações. Sua boca estava cheia de úlceras terríveis, como castigo imposto ás suas muitas palavras vãs. São Hugo estabeleceu então sete dias de silêncio à sua comunidade, que foram passados ​​em recolhimento e oração. Então o falecido reapareceu, livre de suas úlceras e com semblante radiante, testemunhando a sua gratidão pelo socorro caridoso que recebera dos seus irmãos. Se tal é o castigo das palavras vãs, qual não deveria ser o das palavras mais passíveis de recriminação?

 

Capítulo XXXVIII

 

Razões da Expiação no Purgatório - Faltas em Matéria de Justiça - Padre D'Espinoza e a Bolsa para Pagamentos - Santa Margarida de Cortona e os Dois Mercadores Assassinados

 

Uma multidão de revelações nos mostra que Deus castiga com rigor implacável todos os pecados contrários à Justiça e à Caridade e que, em questões de Justiça, Ele parece exigir que a reparação seja feita antes que a pena seja remitida; assim como, na Igreja Militante, os seus ministros devem exigir a restituição de modo a remir a culpa, de acordo com o axioma que 'sem restituição, não há remissão'.

 

Padre P. Rossignoli nos fala de um religioso de sua Ordem, chamado Augustin d'Espinoza, cuja vida santa consistia em uma ato contínuo de devoção às almas do Purgatório. Um homem rico que se confessou com ele, tendo morrido sem ter regulado suficientemente os seus negócios, apareceu-lhe de certa vez, perguntando-lhe primeiro se o conhecia. 'Certamente' - respondeu o religioso - 'Eu administrei o Sacramento da Penitência a você alguns dias antes da sua morte'. 'Pois você deve saber, então' - acrescentou a alma - 'que venho à sua presença por uma graça especial de Deus, para conjurá-lo a apaziguar a sua Justiça e fazer por mim o que não posso mais fazer por mim mesmo. Por favor, você pode me seguir?'

 

O sacerdote foi primeiro informar ao seu superior o que estava sendo pedido a ele e também para pedir permissão para seguir o estranho visitante. Obtida a permissão para sair do convento, saiu e seguiu a aparição, que, sem pronunciar uma única palavra, o conduziu a uma das pontes da cidade. Ali pediu ao sacerdote que o esperasse um pouco, desaparecendo por um momento e retornando depois com uma bolsa de dinheiro, entregando-a ao sacerdote para a carregasse, e voltaram ambos para o convento. Então, o falecido deu-lhe um bilhete escrito e mostrou-lhe o dinheiro. 'Tudo isso' - disse ele - 'está à sua disposição. Tenha a caridade de tomá-lo para pagar os meus credores, cujos nomes estão escritos neste papel, com o valor devido a cada um. Utilize o valor remanescente para fazer boas obras ao seu critério, para o descanso de minha alma'. E, com essas palavras, desapareceu.

 

Mal haviam transcorrido oito dias quando o padre d'Espinoza recebeu outra visita da mesma alma. Ele agradeceu ao sacerdote toda a sua dedicação: 'Graças à exatidão caritativa com que pagaste as dívidas que deixei na terra, graças também às santas missas que celebraste por mim, estou livre de todos os os meus sofrimentos e sou agora admitido na bem-aventurança eterna'.

 

Encontramos um exemplo desta mesma natureza na Vida da Beata [Santa] Margarida de Cortona. Esta ilustre penitente também se distinguiu pela caridade para com as almas que partiram. Elas apareceram para ela em grande número, para implorar a sua ajuda e sufrágios. Um dia, entre outros, viu-se diante de dois viajantes, que lhe suplicaram que os ajudasse a reparar as injustiças deixadas em sua conta. 'Somos dois mercadores' - disseram a ela - 'que foram assassinados na estrada por bandidos. Não podíamos confessar ou receber a absolvição; mas pela misericórdia de nosso Divino Salvador e de Sua Santa Mãe, tivemos tempo de fazer um ato de contrição perfeita e fomos salvos. Mas os nossos tormentos no Purgatório são terríveis porque, no exercício da nossa profissão, cometemos muitas injustiças. Até que esses atos sejam reparados, não podemos ter repouso e nem alívio. É por isso que te rogamos, serva de Deus, que possas ir ao encontro de nossos parentes e herdeiros, para adverti-los a fazer a restituição o mais rápido possível de todo o dinheiro que adquirimos injustamente'. Forneceram em seguida todas as informações necessárias sobre estes herdeiros e desapareceram. 

 

Capítulo XXXIX

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados Contra a Caridade - Santa Margarida Maria e as Duas Pessoas Nobres no Purgatório - Visão de Almas de Religiosas no Purgatório

 

Já dissemos que a Justiça Divina é extremamente severa em relação aos pecados contra a caridade. A caridade é, de fato, a virtude mais cara ao Coração de nosso Divino Mestre, a qual recomenda aos seus discípulos como aquela que deve distingui-los aos olhos dos homens. Por isso, Ele diz que 'todos os homens saberão que vocês são meus discípulos, se vocês amarem uns aos outros' (Jo 13,35). Não é, pois, surpreendente que a aspereza para com o próximo, e todas as outras faltas contra a caridade sejam punidas severamente na outra vida.

 

Disso temos várias provas, tiradas da Vida da Beata Margarida Maria. 'Soube pela irmã Margarida' - diz Madre Greffier em suas Memórias - 'que ela um dia ela rezou em intenção de duas pessoas de alta posição no mundo que haviam acabado de falecer. Ela viu ambos no Purgatório. A primeira foi condenada por vários anos aos sofrimentos, apesar do grande número de missas que foram celebradas por ela. Todas essas orações e sufrágios foram aplicados pela Justiça Divina às almas pertencentes a algumas das famílias dos seus súditos, que foram prejudicadas por causa de suas injustiças e falta de caridade. Como nada foi deixado para aqueles pobres, que lhes permitissem fazer orações por eles após a sua morte, Deus os compensou da maneira que relatamos. A outra ficou no Purgatório por tantos dias quantos anos viveu nesta terra. Nosso Senhor deu a conhecer à Irmã Margarida que, entre as boas obras que esta pessoa tinha feito, especial consideração havia sido dada à caridade com que tinha suportado as faltas do próximo, bem como os esforços que tinha feito para superar os desgostos que isso lhe causara. 

 

Em outra ocasião, Nosso Senhor mostrou à Beata Margarida um grande número de almas de religiosas no Purgatório que, por não terem servido com zelo às suas superioras durante a vida ou porque tiveram algum desentendimento com elas, foram severamente punidas e privadas, após a morte, do auxílio da Santíssima Virgem e dos santos, e também das visitas dos seus anjos da guarda. Várias dessas almas estavam destinadas a permanecer por muito tempo sob chamas terríveis. Algumas delas não tinham nenhum outro sinal de sua predestinação além de não odiarem a Deus. Outras, que viveram sua vida religiosa, mas que durante a vida mostraram pouca caridade para com as suas irmãs, foram privadas dos sufrágios oferecidos em sua intenção e não receberam assistência alguma.

 

Acrescentemos ainda mais um extrato das Memórias da Madre Greffier: 'Enquanto Irmã Margarida estava orando por duas religiosas falecidas, suas almas lhe foram mostradas nas prisões da Justiça Divina, onde uma sofria incomparavelmente mais do que o outra. A primeira lamentava muito que, por suas faltas contra a caridade mútua e a santa amizade que deveria permanecer nas comunidades religiosas, ela havia sido privada, entre outras punições, dos sufrágios que lhe eram oferecidos pela comunidade. Ela recebeu alívio apenas pelas orações de três ou quatro pessoas da mesma comunidade, por quem teve menos afeição e inclinação durante a sua vida. Essa alma sofredora também se recriminava pela excessiva facilidade com que havia recebido dispensas das regras e dos exercícios da comunidade. Finalmente, ela deplorava o cuidado que havia devotado na terra para obter para seu corpo tantos confortos e comodidades. Depois deu ainda a conhecer à nossa querida Irmã que, como castigo por três faltas, ficou à mercê de três ataques violentos do demônio durante a sua última agonia, o que quase a fez acreditar-se perdida e a ponto de cair em desespero mas que, pela intercessão da Santíssima Virgem, a quem sempre tivera grande devoção durante a sua vida, ela tinha sido arrebatada por três vezes das garras do inimigo'.

 

Capítulo XL

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados Contra a Caridade e o Respeito ao Próximo - São Luís Bertrand e o Jovem Religioso - Padre Nieremberg - Santa Margarida e o Religioso Beneditino 

 

A verdadeira caridade é humilde e indulgente para com os outros, respeitando-os como se fossem seus superiores. As suas palavras são sempre amigas e cheias de consideração pelos outros, não tendo nada de amargura ou de frieza, nada de desprezo, porque deve nascer de um coração manso e humilde como o de Jesus. Ela também evita cuidadosamente tudo o que poderia perturbar a unidade; ela toma todos os meios, faz todos os sacrifícios para efetuar uma reconciliação, de acordo com as palavras de nosso Divino Mestre: 'se você oferecer sua oferta no altar, e lá você se lembrar de que seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe sua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-se com teu irmão, e depois, vindo, oferecerás a tua oferta' (Mt 5, 23).

 

Um religioso que feriu a caridade em relação a São Luís Bertrand recebeu um terrível castigo após a morte. Ele foi lançado no fogo do Purgatório e que teve de suportar esse sofrimento até satisfazer a Justiça Divina; mais ainda, não poderia ser admitido na morada dos eleitos até que tivesse realizado um ato de reparação exterior, que deveria servir de exemplo para os vivos. O fato é assim relatado na vida desse santo.

 

Quando São Luís Bertrand, da Ordem de São Domingos, residia no convento de Valência, havia na comunidade um jovem religioso que dava demasiada importância à ciência profana. Sem dúvida, as letras e a erudição têm seu valor mas, como declara o Espírito Santo, devem ceder ao temor de Deus e à ciência dos santos: scientiam sed non est super timentem Deum - nenhuma ciência é tão grande quanto aquele que teme o Senhor (Eclo 25,13). Esta ciência dos santos, que a Sabedoria Eterna veio nos ensinar, consiste na humildade e na caridade. O jovem religioso de quem falamos, embora pouco avançado na ciência divina, permitiu-se repreender o padre Bertrand por seu pouco conhecimento e disse-lhe: 'Vê-se, padre, que você não é muito instruído!' 'Irmão' - respondeu o santo com firmeza mansa - 'Lúcifer era muito instruído e ainda assim se condenou'.

 

O irmão que cometeu esta falta não pensou em repará-la. Não obstante, não era um mau religioso e, algum tempo depois adoecendo gravemente, recebeu os últimos sacramentos com muito boa disposição e expirou pacificamente no Senhor. Decorreu um tempo considerável e Bertrand foi nomeado prior. Um dia, tendo permanecido no coro depois das matinas, o defunto apareceu-lhe envolto em chamas e, prostrando-se humildemente diante dele, disse: 'Padre, perdoe-me as palavras ofensivas que um dia eu lhe dirigi. Deus não permitirá que eu veja o seu rosto até que você tenha perdoado a minha culpa e rezado a Santa Missa em minha intenção'. O santo o perdoou de bom grado e, na manhã seguinte, celebrou a missa pelo descanso de sua alma. Na noite seguinte, estando novamente no coro, viu reaparecer o irmão falecido, agora radiante de glória e se elevando ao Céu.

 

Padre Eusébio Nieremberg, religioso da Companhia de Jesus, autor do belo livro Diferença entre Tempo e Eternidade, residiu no Colégio de Madri, onde morreu em odor de santidade em 1658. Este servo de Deus, que era singularmente devoto pelas almas do Purgatório, estava um dia rezando na igreja do colégio por um padre recém-falecido. O falecido, que por muito tempo havia sido professor de teologia, provou ser um religioso tão bom quanto um teólogo erudito; ele havia se distinguido por sua grande devoção à Santíssima Virgem, mas um vício havia se insinuado entre suas virtudes – ele não era caridoso em suas palavras e frequentemente falava das faltas de seu próximo. 

 

No momento em que o padre Nieremberg estava reverenciando a sua alma a Deus, este religioso apareceu e revelou-lhe o estado de sua alma. Ele tinha sido condenado a terríveis tormentos por ter falado frequentemente contra a caridade. Sua língua, instrumento de sua culpa, foi torturada por um fogo devorador. A Santíssima Virgem, em recompensa da terna devoção que ele tinha por ela, obteve permissão para que ele viesse pedir orações e, ao mesmo tempo, servir de exemplo para os outros, para que aprendessem a ser cautelosos em todas as suas palavras. Padre Nieremberg, após ter feito muitas orações e penitências por ele, logrou finalmente obter a sua libertação. 

 

O religioso que se faz menção na vida da bem-aventurada Margarida Maria, pelo qual aquela serva de Deus teve que sofrer tão terrivelmente durante três meses, entre outras faltas, foi punido também pelos seus pecados contra a caridade. Assim foi relatada essa revelação. A bem-aventurada Margarida Maria, estando um dia diante do Santíssimo Sacramento, viu-se de repente diante de um homem totalmente envolto em chamas, cujo fogo era tão intenso que lhe pareceu prestes a consumi-la também. O estado lastimável em que se encontrava esta pobre alma a fez cair em lágrimas. O homem era um religioso beneditino do mosteiro de Cluny, a quem ela havia se confessado no passado, com um grande bem à sua alma, ordenando-lhe que recebesse a Sagrada Comunhão. Em compensação por esse serviço, Deus permitiu que a sua alma pudesse dirigir-se à Margarida, para assim obter algum alívio para os seus sofrimentos.

 

A pobre alma implorou então que tudo que ela fizesse ou sofresse durante três meses fosse aplicado em sua intenção. Após pedir a devida permissão, ela assim o prometeu. Ele revelou então que a causa principal do seu grande sofrimento foi de ter sempre buscado os seus próprios interesses e não a glória de Deus e o bem das almas, dando assim demasiada importância à sua reputação. A segunda causa teria sido a sua falta de caridade para com os seus irmãos. A terceira, a afeição natural por criaturas a quem, por fraqueza, se rendera e às quais dera provas desta predileção em suas orientações espirituais, o que - acrescentou - teriam em muito desagradado a Deus.

 

É difícil dizer tudo o que a serva de Deus sofreu durante os três meses seguintes. O falecido nunca a deixou, sempre postado ao seu lado e envolto em chamas que a consumiam em dores excruciantes, que a faziam chorar sem cessar. A sua superiora, movida pela compaixão, ordenou-lhe penitências e disciplinas severas, porque a dor e o sofrimento destas coisas muito a aliviavam. Os tormentos - ela dizia - que a santidade de Deus lhe imprimia eram absolutamente insuportáveis. E eram apenas uma amostra do sofrimento suportado pelas pobres almas do Purgatório.

 

Capítulo XLI

 

Razões da Expiação no Purgatório - Pecados Contra o Abuso da Graça - Santa Madalena de Pazzi e a Religiosa em Expiação por Abuso da Graça - Santa Margarida Maria e as Três Almas do Purgatório 

 

Há uma outra desordem na alma que Deus pune severamente no Purgatório, a saber, o abuso da graça. Por isso se entende a negligência em corresponder às ajudas que Deus nos dá e aos convites que Ele nos impõe à prática da virtude para a santificação de nossas almas. Esta graça que Ele nos oferece é um dom precioso, que não podemos jogar fora; é a semente da salvação e do mérito, que não se pode deixar improdutiva. Ora, esta falta é cometida quando não respondemos com generosidade ao convite divino. Recebo de Deus o meio de dar esmolas; uma voz interior me convida a fazê-lo. Mas fecho o meu coração ou a dou com mão avarenta; isso é um abuso da graça. Posso assistir a missa, ouvir o sermão ou frequentar os sacramentos; uma voz interior me incita a ir, mas não vou por frouxidão, isso é um abuso da graça. Uma pessoa religiosa deve ser obediente, humilde, mortificada e devotada aos seus deveres. Deus exige isso e lhe dá esta graça em virtude de sua vocação. Mas quando ela não se aplica a isso e não se esforça para superar a si mesma, a fim de cooperar com a assistência que Deus lhe dá; isso é um abuso da graça.

 

Este pecado, como dissemos, é severamente punido no Purgatório. Santa Madalena de Pazzi relata que uma das suas irmãs religiosas teve muito que sofrer depois da morte por não ter correspondido à graça por três vezes. Num certo dia de festa, sentiu-se inclinada a fazer um pouco de trabalho de pouca monta; tratava-se de uma simples peça de bordado, mas que não era absolutamente necessária e que poderia ter sido adiada convenientemente para outro momento. A inspiração da graça a alertara para se abster disso, por respeito à santidade do dia, mas ela preferiu satisfazer o desejo natural que tinha de fazer o trabalho, sob o pretexto de que era algo leve. Numa segunda ocasião, tendo notado que um ponto relevante de discussão havia passado desapercebido - e cuja menção às suas superioras teria resultado em um grande bem à comunidade - omitiu-se por mencioná-lo. A inspiração da graça a motivou para realizar esse ato de caridade, mas o respeito humano o impediu de fazê-lo. Uma terceira falta foi um apego desregulado aos seus que estavam no mundo. Como esposa de Jesus Cristo, devia todos os seus afetos a este divino Esposo; mas ela compartilhava seu coração por se importar muito com os membros de sua família. Embora pressentisse que a sua conduta a esse respeito era equivocada, ela não obedeceu ao movimento da graça e não trabalhou fervorosamente para se corrigir nesse sentido.

 

Quando esta irmã, aliás muito edificante, veio a falecer, Santa Madalena de Pazzi rezou em sua intenção com o seu habitual fervor. Dezesseis dias depois, ela se apresentou diante à santa, anunciando a sua libertação. Como Madalena estava espantada por ela ter estado tanto tempo em tormento, a alma revelou a ela que teve que expiar pelo abuso de graça nos três casos mencionados e acrescentou que essas faltas a teriam mantido por muito mais tempo em expiação se Deus não tivesse considerado aspectos mais positivos da sua conduta; assim, Ele abreviara suas sentenças por causa de fidelidade da alma ao cumprimento da regra, das suas boas intenções e dos frutos da sua caridade para com suas outras irmãs.

 

Aqueles que tiveram mais graças neste mundo e mais meios para quitar as suas dívidas espirituais serão tratados no Purgatório com menos indulgência do que outros que tiveram menos facilidade para as satisfazer durante a vida. Santa Margarida Maria, ao ser informada da morte de três pessoas recentemente falecidas, sendo duas freiras e um secular, começou imediatamente a rezar pelo descanso eterno de suas almas. Era o primeiro dia do ano. Nosso Senhor, tocado por sua caridade e usando uma inefável familiaridade, condescendeu em aparecer a ela; e, mostrando-lhes as almas dos três falecidos nas prisões de fogo onde sofriam, lhe disse: 'Minha filha, como um presente de Ano Novo, concedo-lhe a graça da libertação de uma dessas três almas, e deixo que você faça a escolha; qual delas você quer que seja libertada?' A santa respondeu então: 'Quem sou eu, Senhor, para designar aquela que merece a Vossa consolação? Façais Vós mesmo essa escolha!' Então Nosso Senhor libertou o secular, dizendo que tinha menos dificuldade em ver as religiosas sofrerem, porque elas teriam tido mais meios de expiar os seus pecados em vida.