O GRANDE
DESCONHECIDO
O DOGMA DO PURGATÓRIO
PRIMEIRA PARTE
(O Dogma do Purgatório Livro do Padre F S Schouppe)
Objetivo da Obra. A que Classe de Leitores se Dirige. O que somos obrigados a crer, o que podemos piedosamente crer e o que temos a liberdade de não admitir. Visões e Aparições. Credulidade Cega e Incredulidade Exagerada.
O dogma do Purgatório é muito esquecido pela maioria dos fiéis; a Igreja Sofredora, onde têm tantos irmãos para socorrer, para onde preveem que um dia irão, parece-lhes uma terra estranha. Este esquecimento verdadeiramente deplorável foi uma grande tristeza para São Francisco de Sales. "Ai de nós!", disse este piedoso doutor da Igreja, "não nos lembramos suficientemente dos nossos entes queridos falecidos; a sua memória parece perecer com o som dos sinos fúnebres." As principais causas disto são a ignorância e a falta de fé; as nossas noções sobre o Purgatório são demasiado fracas, a nossa fé é demasiado débil. Para que nossas ideias se tornem mais claras e nossa fé fortalecida, precisamos examinar isso mais de perto. A vida além do túmulo, este estado intermediário das almas justas, ainda não dignas de entrar na Jerusalém Celestial.
Este é o objetivo da presente obra: Propomos não provar a existência do Purgatório às mentes céticas, mas torná-lo mais conhecido aos piedosos fiéis que creem com fé divina neste dogma revelado por Deus. É a eles, propriamente falando, que este livro se dirige, para lhes dar uma ideia menos confusa do Purgatório. Digo propositadamente uma ideia mais real da que as pessoas geralmente têm, colocando esta grande verdade sob a luz mais forte possível desta verdade de fé.
Para isso, temos três fontes de luz bastante distintas. Primeiro, a doutrina dogmática da Igreja; depois, a doutrina explicada pelos doutores da Igreja; terceiro, as revelações de santos e de aparições, que confirmam o ensino dos doutores da Igreja:
(1) a doutrina dogmática da Igreja sobre o purgatório compreende dois artigos que indicaremos a seguir no capítulo 3; esses dois artigos são de fé e devem ser acreditados por todo católico.
(2) a doutrina de doutores e teólogos ou, de outra forma, seus pontos de vista e exortações sobre várias questões relativas ao purgatório (ver também a seguir, cap. III e seguintes) não devem ser incorporados como artigos de fé; podem ser passíveis de não aceitação sem capitulação da fé católica. No entanto, seria imprudente, até mesmo temerário, afastar-se deles, pois é inerente ao espírito da Igreja seguir as explanações comumente ensinadas pelos doutores da Igreja.
(3) as revelações dos santos, também chamadas revelações particulares, não pertencem ao depósito da fé confiado por Jesus Cristo à sua Igreja; são fatos históricos baseados em testemunhos humanos. É permitido acreditar neles e a piedade encontra neles um alimento salutar. Também podemos não acreditar neles sem pecar contra a fé; mas, se foram autenticados pela Igreja, não podem ser rejeitados sem ofender a razão: porque a justa razão ordena a todo homem dar o devido assentimento à verdade, quando ela for suficientemente demonstrada.
Para lançar mais luz sobre este assunto, vamos primeiro explicar a natureza das revelações de que estamos falando. As revelações particulares são de dois tipos: uma consiste em visões, a outra em aparições. São chamadas particulares porque, ao contrário daquelas descritas na Sagrada Escritura, não fazem parte da doutrina revelada a todos os homens, e não são propostas pela Igreja para que sejam acreditadas como dogmas de fé.
As próprias visões constituem luzes subjetivas que Deus derrama na inteligência de uma criatura para descobrir os seus mistérios. Essas são as visões dos profetas, de São Paulo, de Santa Brígida e de muitos outros santos. As visões geralmente ocorrem em estado de êxtase: consistem em certos eventos extraordinários que se apresentam aos olhos da alma e que nem sempre devem ser considerados literalmente. Frequentemente, constituem mais figuras ou imagens simbólicas que representam, em escala proporcional à nossa compreensão, coisas que são puramente espirituais e das quais a linguagem humana é incapaz de expressar em medida adequada.
As aparições ao contrário constituem, quase frequentemente, fenômenos objetivos, que têm um objeto externo real. Assim foi a aparição de Moisés e Elias no Tabor, a de Samuel evocada pela Pitonisa de Endor, a do anjo Rafael a Tobias, a de muitos outros anjos; enfim, estas são também as aparições de almas no purgatório. Que os espíritos dos mortos às vezes aparecem aos vivos é um fato que não pode ser negado. O Evangelho não evoca isso claramente? Quando Jesus ressuscitado apareceu pela primeira vez aos discípulos reunidos, eles pensaram que viam um espírito. O Salvador, em vez de dizer a eles que os espíritos não aparecem, lhes fala nos seguintes termos: 'Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho' (Lc 24, 38- 39).
As aparições das almas que estão no purgatório acontecem com frequência. Elas ocorrem em grande número na vida dos santos e, às vezes, até mesmo na vida de fiéis comuns. Reunimos e apresentamos ao leitor aqueles fatos que nos parecem mais adequados para instruí-lo ou edificá-lo. Mas - pode-se argumentar - estes fatos são historicamente verdadeiros? Nós escolhemos então os que foram mais comprovados¹. Mas se algum leitor não ficar convencido ou encarar com ceticismo alguns deles, pode desconsiderá-los sem problemas. Porém, no sentido de não se adentrar em uma severidade excessiva que beira a descrença, impõe-se ressaltar que, falando genericamente, aparições de almas do Purgatório ocorrem e isso não pode ser negado e nem mesmo que estas aparições não ocorram frequentemente.
¹ É na vida dos santos, honrados como tais pela Igreja, bem como de outros ilustres servos de Deus, que reunimos a maioria dos fatos que citamos. O leitor que quiser verificar esses fatos e avaliá-los pelo seu valor justo, poderá, sem dificuldade, recorrer às primeiras fontes com o auxílio de nossas indicações. Se o relato for tirado da vida de um santo, indicamos o dia em que seu nome está marcado no martirológio, o que basta para se consultar a Acta Sanctorum. Se falarmos de qualquer outra pessoa venerável, como Pe. José de Anchieta², apóstolo do Brasil, cuja vida não está incluída nos volumes dos Bollandistas³, tivemos que recorrer a biografias ou obras específicas. Para os exemplos tomados da obra 'Merveilles Divines dans les Ames du Purgatoire', do Pe. Rossignoli, nos limitamos a mencionar o número indicado no 'Merveilles', uma vez que o autor indicou uma ou mais fontes de sua própria pesquisa.
² São José de Anchieta, canonizado em 03 de abril de 2014
³ associação de especialistas religiosos na elaboração da biografia dos santos (Acta Santorum)
'Esses tipos de aparições' - diz Ribet - 'não são raros'. Deus os permite para o alívio das almas, que vêm até nós para despertar a nossa compaixão, e também para nos fazer compreender quão terríveis são os rigores da sua justiça contra faltas que podemos considerar como insignificantes. São Gregório, em seus 'Diálogos', relata vários exemplos, cuja autenticidade plena podemos, é verdade, contestar, mas que, na boca do santo Doutor, pelo menos provam que ele acreditava na possibilidade e na existência real desses fatos. Muitos outros autores, não menos louváveis do que São Gregório pela santidade e pela ciência, relatam fatos semelhantes. Além disso, histórias desse tipo abundam na vida dos santos: para se convencer disso, basta acessar as fichas da Acta Sanctorum (Ribet - La mystique divine, distinguée des contrefaçons diaboliques et des analogies humaines - Paris, Poussielgue).
A Igreja Padecente sempre implorou pelos sufrágios da Igreja na terra; e este convívio, marcado pela tristeza mas também eivado de instrução, constitui, por um lado, uma fonte inesgotável de alívio e, por outro, um poderoso estímulo à santidade. A visão do purgatório foi concedida a várias almas santificadas. Santa Catarina de Ricci descia ao purgatório em espírito todos os domingos à noite; Santa Lidwina, durante os seus êxtases, adentrou neste lugar de expiação e, conduzida por seu anjo da guarda, visitou as almas em seus tormentos. Um anjo conduziu também o bem aventurado Osanne de Mântua por esses abismos escuros. A bem aventurada Verônica de Binasco, Santa Francisca de Roma e muitos outros receberam visões muito semelhantes, com as mesmas impressões de terror.
Mais frequentemente, são as próprias almas sofredoras que se dirigem aos vivos e clamam por sua intercessão. Várias apareceram assim à bem aventurada Margarida Maria Alacoque⁴ e a uma multidão de outras figuras sagradas. As almas dos defuntos imploravam frequentemente a piedade de Dênis, o Cartuxo. Um dia perguntamos a este grande servo de Deus quantas vezes essas pobres almas lhe apareceram? 'Oh, centenas e centenas de vezes!'- respondeu ele.
⁴ Santa Margarida Maria Alacoque, canonizada pelo papa Bento XV em 1920.
Santa Catarina de Sena, para poupar o seu pai das dores do purgatório, ofereceu-se à justiça divina para sofrer em seu lugar durante a vida. Deus atendeu a sua oferta e a infligiu desde então com dores excruciantes até a sua morte, e acolheu a alma do seu pai na glória. Em troca, essa alma abençoada frequentemente aparecia para a filha, para agradecê-la e para fazer a ela inúmeras revelações.
As almas do purgatório, quando aparecem aos vivos, sempre se apresentam numa atitude que excita a compaixão, às vezes com feições que tiveram em vida ou na morte, com rosto triste e olhares suplicantes, com roupas de luto, com expressão de extrema dor; às vezes, porém, como uma luz, uma nuvem, uma sombra ou alguma figura fantástica, acompanhada de um sinal ou de uma palavra que os permite reconhecer. Em outras ocasiões, elas indicam a sua presença por meio de gemidos, soluços, suspiros, respiração ofegante ou murmurações aflitivas. Frequentemente aparecem envolvidas por chamas. Quando falam, é para expressar o seu sofrimento, para deplorar as suas faltas passadas, para pedir sufrágios ou mesmo para reprovar aqueles que deveriam ajudá-los.
'Outro tipo de revelação', acrescenta o mesmo autor, 'dá-se por meio de batidas invisíveis que os vivos percebem: batidas à porta, som de correntes, som de vozes. Esses fatos são demasiado frequentes para serem questionados: a única dificuldade é estabelecer a relação direta deles com o mundo da expiação. Mas quando tais manifestações ocorrem com a morte de pessoas que nos são queridas e então cessam, após serem feitas orações e reparações a Deus em nome delas, não nos parece razoável perceber por que estas almas nos dão a conhecer os seus sofrimentos?
Nestes vários fenômenos que acabamos de assinalar, reconheceremos a ação das pobres almas do purgatório. Mas há um caso em que a aparição deve ser considerada suspeita: é quando um pecador escandaloso, inesperadamente surpreendido pela morte, vem implorar as orações dos vivos para serem libertados do purgatório. O demônio está inclinado a nos fazer acreditar que uma alma pode viver na maior iniquidade até a morte e, ainda assim, escapar do inferno. Porém, mesmo nesses encontros, não é proibitivo imaginar que a alma que se manifesta se arrependeu retamente e que se encontra nas chamas da expiação temporária, nem, portanto, se deve deixar de orar por ela; mas é aconselhável atentar com a maior reserva sobre esses tipos de visões e sobre o crédito que elas possam ter (Ribet, Mystique Divine, tomo II, cap. X).
Os detalhes que acabamos de explicitar são suficientes para justificar aos olhos do leitor a citação dos fatos que encontrará no decorrer desta obra. Acrescentemos que o cristão deve ter cuidado para não ser muito incrédulo em fatos sobrenaturais, que estão relacionados com os dogmas de sua fé. São Paulo diz-nos que a caridade acredita em tudo (I Cor 13,7), isto é, como nos explicam os intérpretes, tudo o que se pode crer com prudência não pode ser prejudicial à nossa fé.
Se é verdade que a prudência condena a credulidade cega e supersticiosa, também é verdade que devemos evitar outro excesso, aquele que o Salvador censura no apóstolo São Tomé: 'Creste, porque me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto! (Jo 20, 29) e ainda: 'Não sejas incrédulo, mas homem de fé' (Jo 20, 27). O teólogo que expõe dogmas da fé deve ser severo na escolha de suas provas; o historiador também deve proceder sob rigoroso espírito crítico na exposição dos fatos; mas o escritor asceta, quando cita exemplos e fatos para esclarecer as verdades e edificar os fiéis, não está sujeito a esse rigor estrito. Os luminares mais autorizados da Igreja, como São Gregório, São Bernardo, São Francisco de Sales, Santo Afonso de Ligório, São Belarmino e tantos outros, tão distintos pela sabedoria como pela piedade, ao escrever suas obras de excelência, nada sabiam dos requisitos formais dos nossos tempos - que, de forma alguma, constituem propriamente um progresso.
Com efeito, se o espírito dos nossos pais na fé era mais simples, qual a causa que fez desaparecer entre nós esta simplicidade de outrora? Não é esse o racionalismo protestante que contamina em grande escala os católicos de hoje? Não é esse raciocínio e espírito crítico que emergem da reforma luterana, propagada pelo filosofismo francês, que os faz considerar as coisas de Deus de uma forma completamente humana, e que os torna frios e alheios ao espírito de Deus? O venerável Louis de Blois, falando sobre as revelações recebidas por Santa Gertrudes, disse que 'Este livro contém tesouros. Homens orgulhosos e carnais' - acrescenta - 'que nada entendem do espírito de Deus, tratam os escritos da virgem Santa Gertrudes, de Santa Mechtilde, de Santa Hildegarda e outros como devaneios; porque ignoram com que familiaridade Deus se comunica às almas humildes, simples e amorosas; e como, nessas comunicações íntimas, Ele se deleita em iluminar essas almas com a pura luz da verdade, sem sombra de erros' (Louis de Blois, Epist. Ad Florentium).
Estas palavras de Louis de Blois são muito sérias. Não querendo incorrer na censura deste grande mestre da vida espiritual e buscando evitar a credulidade condenável, reunimos com certa liberdade os fatos que nos pareceram ser os mais autênticos e os mais instrutivos. Que possam aumentar em quem os lê a devoção aos fieis defuntos! E que possam imprimir profundamente nas suas almas o pensamento santo e salutar temor do purgatório!
Primeira Parte:
O PURGATÓRIO, MISTÉRIO DE JUSTIÇA
Capítulo I
O Purgatório no Plano Divino
O Purgatório ocupa um lugar relevante na nossa santa religião: é uma das partes principais da obra de Jesus Cristo e desempenha um papel essencial no plano da salvação humana. Lembremos que a Santa Igreja de Deus, considerada como um todo, é composta por três parcelas distintas: a Igreja Militante, a Igreja Triunfante e a Igreja Padecente ou do Purgatório. Esta tríplice Igreja constitui o corpo místico de Jesus Cristo, e as almas do Purgatório não são menos membros dela do que os fieis na terra ou os eleitos no Céu. No Evangelho, a Igreja é normalmente chamada de Reino dos Céus; o Purgatório, assim como a Igreja celestial e a terrestre, constitui uma das províncias deste vasto reino.
As três Igrejas irmãs mantêm relações incessantes entre si, uma comunicação contínua que chamamos de Comunhão dos Santos. Essas relações não têm outro objetivo senão conduzir as almas à glória eterna, o termo final para o qual tendem todos os eleitos. As três Igrejas interagem mutuamente para povoar o Céu, a cidade permanente, a gloriosa Jerusalém. Qual é então o trabalho que nós, membros da Igreja Militante, devemos fazer pelas almas do Purgatório? Temos que aliviar os seus sofrimentos. Deus colocou em nossas mãos a chave desta misteriosa prisão: é a oração pelos mortos, é a devoção às almas do Purgatório.
Capítulo II
Oração pelos Mortos - Temor e Confiança
A oração pelos que partiram e os sacrifícios e os sufrágios pelos mortos fazem parte do culto cristão, e a devoção às almas no Purgatório é uma devoção que o Espírito Santo infunde com caridade nos corações dos fieis. É um pensamento sagrado e salutar - dizem as Sagradas Escrituras - orar pelos mortos para que sejam libertados dos seus pecados (II Mc 12, 46).
Para ser perfeita, a devoção às almas do Purgatório deve ser animada por um espírito de temor e um espírito de confiança. Por um lado, a santidade de Deus e e a sua justiça nos inspiram um temor salutar; por outro lado, a sua infinita misericórdia nos dá uma confiança ilimitada.
Deus é a própria santidade, luz muito maior do que o sol, e sombra alguma de pecado pode perpassar diante de sua face. 'Os teus olhos são puros', diz o profeta, 'e não podes contemplar a iniquidade' (Hb 1, 13). Quando a iniquidade se manifesta nas criaturas, a santidade de Deus exige expiação e, uma vez aplicada com todo o rigor da justiça divina, é terrível. É por esta razão que a Escritura diz também: 'Santo e terrível é o seu nome' (Sl 110, 9), tal como se dissesse: a sua justiça é terrível porque a sua santidade é infinita.
A justiça de Deus é terrível e pune com extremo rigor até as faltas mais comezinhas. A razão é que essas faltas, fagulhas aos nossos olhos, não são de forma alguma assim diante de Deus. O menor pecado o afronta infinitamente e, por causa da santidade infinita que é ofendida, a menor transgressão assume proporções enormes e exige, portanto, uma enorme expiação. Isso explica a terrível severidade das dores da outra vida e nos deve fazer compenetrados de um santo temor de Deus.
Esse temor do Purgatório é um temor salutar; o seu efeito não é apenas nos animar com uma compaixão caritativa para com as pobres almas sofredoras, mas também com um zelo vigilante pelo nosso próprio bem-estar espiritual. Pense no fogo do Purgatório e você se esforçará para evitar o pecado ao máximo; pense no fogo do Purgatório e você praticará a penitência, de modo a satisfazer a Justiça Divina neste mundo e não no próximo.
No entanto, devemos evitar o temor excessivo e não perder a confiança. Não nos esqueçamos da misericórdia de Deus, que não é menos infinita que a sua justiça: 'porque acima do céu se eleva a vossa misericórdia (Sl 107,5) e ainda: 'O Senhor é clemente e compassivo, generoso e cheio de bondade (Sl 144,8). Essa misericórdia inefável deve acalmar as nossas mais vivas apreensões e nos encher de santa confiança, segundo as palavras: in te Domine speravi non confundar in æternum - 'que em vós, Senhor, minha esperança não seja jamais confundida' (Sl 70,1).
Se formos animados com este duplo sentimento, se a nossa confiança na misericórdia de Deus for igual ao temor que nos inspira a sua justiça, teremos o verdadeiro espírito de devoção às almas do Purgatório. Este duplo sentimento brota naturalmente do dogma do Purgatório bem entendido - um dogma que contém o duplo mistério da justiça e da misericórdia: da justiça que pune e da misericórdia que perdoa. É deste duplo ponto de vista que vamos considerar o Purgatório e ilustrar a sua doutrina.
Capítulo III
A Palavra Purgatório - Doutrina Católica, Concílio de Trento, Questões Controversas
A palavra Purgatório é, às vezes, entendida como significando um lugar, comumente como um estado intermediário entre o Inferno e o Paraíso. É, propriamente falando, a condição das almas que, no momento da morte, estão em estado de graça, mas que não expiaram completamente as suas faltas e nem alcançaram o grau de pureza necessário para desfrutar a visão de Deus.
O Purgatório é, portanto, um estado transitório que termina em uma vida de felicidade eterna. Não é um lugar de provação, no qual um mérito pode ser ganho ou perdido, mas sim, um estado de expiação e reparação. A alma atingiu o fim de sua vida terrena, vida que era um tempo de provação, um tempo de mérito para a alma, um tempo de acolhida à misericórdia da parte de Deus. Uma vez expirado este tempo, nada mais que justiça se deve esperar de Deus, posto que a alma não pode ganhar nem perder mais méritos. Ela permanece no estado em que a morte a encontrou: se a encontrou no estado de graça santificante, ela está certa de nunca perder esse estado de felicidade e de chegar à posse eterna de Deus. No entanto, uma vez que ela está ainda sobrecarregada com certas dívidas de castigo temporal, ela deve satisfazer a Justiça Divina, submetendo-se ao rigor divino deste castigo.
Tal é o significado da palavra Purgatório e a condição das almas que ali se encontram. Sobre este assunto, a Igreja nos propõe duas verdades claramente definidas como dogmas de fé: primeiro, que existe um Purgatório; segundo, que as almas que estão no Purgatório podem ser assistidas pelos sufrágios dos fiéis, especialmente pelo Santo Sacrifício da Missa. Além destes dois pontos dogmáticos, há várias outras questões doutrinárias para as quais a Igreja não estabeleceu decisão final e que foram objeto de interpretações dos doutores da Igreja, que as responderam mais ou menos claramente. Essas questões se relacionam aos seguintes pontos: (i) o local do Purgatório; (ii) a natureza dos sofrimentos; (iii) o número e as condições das almas que se encontram no Purgatório; (iv) a certeza que possuem da sua bem-aventurança; (v) a duração dos seus sofrimentos; (vi) a intervenção dos vivos em seu nome e a aplicação dos sufrágios da Igreja.
Capítulo IV
Lugar do Purgatório - Doutrina dos Teólogos - Catecismo do Concílio de Trento - São Tomás
Embora a fé nada nos diga de definitivo sobre a localização do Purgatório, a opinião mais comum, aquela que mais está de acordo com a linguagem das Escrituras e que é mais geralmente aceita entre os teólogos, é aquela que o situa nas entranhas da terra e não muito longe do Inferno dos réprobos. Os teólogos são quase unânimes, diz São Belarmino, em ensinar que o Purgatório, pelo menos o lugar de expiação por excelência, está situado no interior da terra e tanto as almas do Purgatório como as dos condenados encontram-se no mesmo espaço subterrâneo do abismo profundo que as Escrituras chamam de Inferno (De purgat. lib. 2. cap. 6).
Quando repetimos no Credo dos Apóstolos que, depois de sua morte, Jesus Cristo desceu ao Inferno - o nome Inferno, diz o Catecismo do Concílio de Trento (Catech. Rom., Cap. 6, § 1), compreende todos aqueles lugares secretos onde se encontram as almas que ainda não alcançaram a beatitude eterna. Mas essas prisões são de tipos diferentes. Uma delas é uma masmorra escura e sombria, onde os condenados são continuamente atormentados por espíritos malignos e por um fogo que nunca se apaga. Este lugar, que é o inferno propriamente dito, também é chamado de geena e abismo. Existe um outro Inferno, que retém o fogo do Purgatório. Ali as almas dos justos sofrem por um determinado tempo, para que possam ser inteiramente purificadas de suas faltas, para então ser acolhidas na pátria celestial, onde contaminação alguma pelo pecado pode entrar.
Um terceiro Inferno foi aquele no qual foram acolhidas as almas dos santos que morreram antes da vinda de Jesus Cristo, no qual desfrutaram de um repouso tranquilo e isento de dores, consolados e sustentados pela esperança de sua redenção. Elas eram aquelas almas santificadas que aguardavam Jesus Cristo no seio de Abraão, e que foram resgatadas quando Cristo desceu ao Inferno. Nosso Salvador infundiu de repente sobre elas uma luz muito brilhante, que os encheu de alegria infinita e deu-lhes a bem-aventurança beatífica, que é a visão de Deus. Cumpriu-se então a promessa de Jesus revelada ao bom ladrão: 'Hoje estarás comigo no Paraíso'.
'Uma opinião muito provável' - diz São Tomás - 'e que, aliás, é ratificada pelas palavras dos santos em revelações particulares, é que o Purgatório apresenta um duplo espaço de expiação. O primeiro está destinado às almas em geral e situa-se em profundezas maiores, próximo ao Inferno; o segundo abrange casos particulares, dos quais provêm as tantas aparições' (Suplemento, part iii, ques. ult.). O santo Doutor admite, portanto, como tantos outros que compartilham de suas opiniões que, às vezes, a Justiça Divina atribui um lugar especial de purificação a certas almas, e permite inclusive que elas apareçam para instruir os vivos ou para obter para as almas sofredoras os sufrágios de que precisam e, em outros casos, por outros desígnios da sabedoria e da misericórdia de Deus.
Essa é a visão geral sobre a localização do Purgatório. Visto que não estamos escrevendo um tratado contencioso, não adicionamos nem provas nem refutações; estas podem ser acessadas nas obras de autores como Suarez e Belarmino. Vamos nos atentar aqui à opinião sobre um inferno subterrâneo que nada tem a temer da ciência moderna pois uma ciência puramente natural é incompetente para resolver questões que pertencem, como esta, à ordem sobrenatural. Além disso, sabemos que os espíritos podem estar em um lugar ocupado por corpos, como se esses corpos não existissem. Qualquer que seja, então, o interior da terra, seja inteiramente de fogo como os geólogos defendem ser, seja em qualquer outro estado, não há nada que tal lugar não possa servir de permanência de espíritos, mesmo de espíritos revestidos com um corpo ressuscitado. O apóstolo São Paulo ensina-nos que o ar está repleto de uma multidão de espíritos malignos: 'temos de lutar ... contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares' (Ef 6,12). Por outro lado, sabemos que os anjos bons que nos protegem não são menos numerosos no mundo. Assim, se anjos e outros espíritos podem habitar a nossa atmosfera, sem que o mundo físico experimente qualquer variação, por que as almas dos mortos não poderiam habitar o seio da terra?
Capítulo V
Localização do Purgatório - Revelações dos Santos - Santa Teresa - São Luís Bertrand - Santa Maria Madalena de Pazzi
Santa Teresa tinha grande caridade para com as almas do Purgatório e as ajudava tanto quanto estava em seu alcance com as suas orações e boas obras. Em recompensa, Deus frequentemente mostrava a ela as almas que ela havia libertado; ela as via no momento de sua libertação do sofrimento e da sua entrada no céu. E, em geral, as almas saíam do seio da terra.
'Recebi a notícia' - escreve ela - 'do falecimento de um religioso que havia sido o superior dessa província e depois de uma outra. Eu o conhecia e ele me prestou um grande serviço. Essa informação me causou grande inquietação. Embora este homem fosse louvável por muitas virtudes, fiquei apreensivo pela salvação de sua alma, porque ele havia ocupado o cargo de superior por um espaço de vinte anos, e sempre temo muito por aqueles que estão encarregados de cuidar das almas. Muito triste, fui a um oratório; ali invoquei nosso Divino Senhor para aplicar a este religioso o pouco bem que fizera durante a minha vida, e suprir o resto por seus infinitos méritos, a fim de que esta alma pudesse ser libertada do purgatório'.
'Enquanto eu implorava esta graça com todo o fervor de que era capaz, vi do meu lado direito esta alma sair das profundezas da terra e ascender ao céu em vórtices de alegria. Embora esse padre fosse avançado em anos, ele me pareceu com as feições de um homem que ainda não havia atingido a idade de trinta anos, e com um semblante resplandecente de luz. Esta visão, embora muito curta, deixou-me imersa em alegria e sem sombra de dúvida quanto à veracidade do que tinha visto. Como eu estava separada por uma grande distância do lugar onde esse servo de Deus havia terminado os seus dias, demorou algum tempo até que eu soubesse dos detalhes de sua morte edificante: todos aqueles que foram testemunhas disso não puderam olhar sem admiração como ele preservou a consciência até o último momento, as lágrimas que derramou e os sentimentos de humildade com os quais entregou s sua alma a Deus'.
'Um religioso da minha comunidade, um grande servo de Deus, estava morto há menos de dois dias. Estávamos rezando o Ofício dos Mortos para ele no coro; enquanto uma irmã fazia a leitura, eu estava de pé para rezar o versículo. Ao se chegar à metade da leitura, vi sair das profundezas da terra a alma deste religioso, como aquela de que acabei de falar, e ir para o céu'.
'Uma freira da minha comunidade, e uma grande serva de Deus, havia falecido há menos de dois dias. O Ofício dos mortos estava sendo celebrado para ela no coro: enquanto uma irmã fazia a leitura, eu ficava de pé para rezar o versículo. Na metade da leitura, vi a alma dessa religiosa sair, como aquela de quem acabei de falar, do fundo da terra e ir para o céu. Essa visão era puramente intelectual, enquanto a anterior se apresentou a mim sob a forma de imagens. Mas ambas me deixaram a alma com uma igual certeza'.
'Neste mesmo mosteiro, com a idade de dezoito ou vinte anos, acabara de falecer outra freira, verdadeiro modelo de fervor, perseverança e virtude. Sua vida tinha sido uma sequência de doenças e sofrimentos. sempre tolerados com paciência. Eu não tinha dúvidas de que, depois de ter vivido assim, ela não teria mais méritos do que precisava para estar isenta do Purgatório. No entanto, enquanto eu estava no serviço, antes de ser enterrada e cerca de quatro horas após sua morte, eu vi a sua alma também sair da terra e subir ao céu'. - É o que nos escreve Santa Teresa.
Um exemplo semelhante é relatado na vida de São Luís Bertrand, da Ordem de São Domingos. Esta leitura, escrita pelo Padre Antist, religioso da mesma ordem que conviveu com o santo, está inserida na Acta Sanctorum, no dia 10 de outubro: no ano de 1557, quando São Luís Bertrand residia no convento de Valência, a peste irrompeu nesta cidade. O terrível flagelo, em ondas sucessivas, ameaçava todos os habitantes e cada qual temeu pela sua vida. Um religioso da comunidade, Padre Clément Benet, desejando ardentemente preparar-se para a morte, fez uma confissão geral de toda a sua vida ao santo e, após a confissão, disse a ele: 'Padre, se agora for do agrado de Deus me chamar, eu haverei de voltar e tornar conhecido a você a minha condição na outra vida'.
Ele morreu realmente pouco depois e, na noite seguinte, apareceu ao santo dizendo-lhe que ainda estava retido no Purgatório por algumas pequenas faltas ainda a expiar, implorando a sua recomendação à comunidade. O santo comunicou imediatamente este pedido ao Padre Prior, que se apressou em recomendar a alma do defunto às orações e súplicas por parte de todos os irmãos daquela congregação. Seis dias depois, um homem da cidade, que nada sabia do ocorrido no convento, vindo confessar-se ao padre Bertrand, revelou-lhe que 'a alma do padre Clément havia se manifestado a ele. Ele tinha visto a terra se abrir e a alma do falecido padre emergir dela toda gloriosa: parecia - acrescentou ele - como uma estrela resplandecente que se elevou no ar em direção ao céu'.
Lemos na vida de Santa Madalena de Pazzi, escrita pelo seu confessor, o Padre Cépari da Companhia de Jesus, que esta serva de Deus foi testemunha da libertação de uma alma nas seguintes circunstâncias. Uma de suas religiosas já estava morta há algum tempo, quando a santa, encontrando-se em oração diante do Santíssimo Sacramento, viu a alma desta irmã emergindo da terra, mas ainda presa às prisões do Purgatório. Ela estava envolvida por um manto de chamas, abaixo do qual um vestido de alvura deslumbrante a protegia contra o calor muito forte do fogo; e ela permaneceu por uma hora inteira aos pés do altar, adorando, em indizível prostração, o Deus escondido sob as espécies eucarísticas. Essa hora de adoração, que Santa Madalena a viu fazer, foi a última de sua penitência; assim que esta hora expirou, sua alma se elevou e voou em direção ao céu.
Capítulo VI
Localização do Purgatório - Santa Francisca Romana - Santa Maria Madalena de Pazzi
Aprouve a Deus mostrar em espírito as moradas sombrias do Purgatório a algumas almas privilegiadas, que deviam revelar os seus tristes mistérios para a edificação dos fiéis. Dentre este número, encontra-se a ilustre Santa Francisca Romana, fundadora dos Oblatos, que morreu em Roma em 1440. Deus a favoreceu com grandes luzes sobre o estado das almas na outra vida. Ela viu o inferno e seus tormentos horríveis; viu também o interior do Purgatório e a misteriosa ordem - que dizia estabelecer uma hierarquia das expiações - que reina nesta porção da Igreja de Jesus Cristo.
Em obediência aos seus superiores, que se julgavam obrigados a impor-lhe esta obrigação, ela deu a conhecer tudo o que Deus lhe havia manifestado; e suas visões, escritas a pedido do venerável Cônego Matteotti, seu diretor espiritual, têm toda a autenticidade que se pode desejar em tais assuntos. Assim, a serva de Deus declarou que, após ter suportado com indizível horror a visão do Inferno, ela saiu daquele abismo e foi conduzida por seu guia celestial - o Arcanjo Rafael - para as regiões do Purgatório. Ali não reinava nem horror, nem desordem, nem desespero e nem escuridão eterna; ali a esperança divina difundia a sua luz e ela foi informada de que este lugar de purificação era também chamado de 'portal da esperança'. Ela viu que as almas sofriam cruelmente, mas os anjos as visitavam e as ajudavam em seus sofrimentos.
O purgatório - disse ela - é dividido em três partes distintas, que são as três grandes províncias daquele reino do sofrimento. Eles estão situados um abaixo do outro e ocupados por almas de diferentes ordens. Essas almas estão aprisionadas mais profundamente na medida em que estão mais conspurcadas e mais distantes do momento de sua libertação.
A região mais inferior é tomada por um fogo devorador, mas que não é escuro como o do inferno; é um vasto mar de fogo que projeta labaredas imensas. Inúmeras almas estão mergulhadas em suas profundezas: são aquelas que se tornaram culpadas de pecado mortal, devidamente confessados, mas que não foram expiados suficientemente em vida. A serva de Deus teve ciência então que, para cada pecado mortal perdoado, ainda faz-se necessário um período de expiação de sete anos. Este período não deve ser entendido como uma medida fixa, uma vez que os pecados mortais podem diferir enormemente, mas como um tempo médio de expiação. Embora as almas estejam envoltas nas mesmas chamas, seus sofrimentos não são os mesmos; estes diferem de acordo com o número e a natureza dos pecados de cada alma.
Neste Purgatório Inferior, a santa viu leigos e também pessoas consagradas a Deus. Os leigos eram aqueles que, depois de uma vida de pecado, tiveram a felicidade de se converterem sinceramente; as pessoas consagradas a Deus eram aquelas que não tinham vivido de acordo com a santidade do seu estado religioso. Nesse mesmo momento, ela viu descer a alma de um sacerdote que ela conhecia, mas cujo nome ela não revela. Ela observou que ele tinha o rosto coberto por um véu que escondia uma mancha - a mancha da sensualidade. Embora tivesse levado uma vida edificante, esse padre nem sempre mantivera uma rígida temperança e buscara com demasiada ansiedade as satisfações à mesa.
A santa foi levada então ao Purgatório Intermediário, destinado às almas que mereciam um castigo menos rigoroso. Ele tinha três compartimentos distintos; um parecia uma imensa masmorra de gelo, cujo frio era indescritivelmente intenso; o segundo, ao contrário, era como um enorme caldeirão de óleo fervente e piche; o terceiro tinha a aparência de um lago de metal líquido semelhante ao ouro ou a prata fundidos.
O Purgatório Superior - que a santa não descreve - é a morada temporária das almas que, tendo sido purificadas pelas dores dos sentidos, sofrem agora tão somente a dor da separação de Deus, à medida em que se aproximam do feliz momento de sua libertação.
Essa é, em substância, a visão de Santa Francisca Romana em relação ao Purgatório. O que se segue é um relato de Santa Madalena de Pazzi, uma carmelita florentina, como é relatado em sua vida pelo Padre Cepari. Ele dá uma imagem mais completa do Purgatório, enquanto a visão anterior apenas projetava os seus contornos.
Algum tempo antes de sua morte, que ocorreu em 1607, a serva de Deus, estando uma noite com várias outras religiosas no jardim do convento, foi arrebatada em êxtase e viu o Purgatório aberto diante dela. Ao mesmo tempo, como ela fez saber mais tarde, uma voz a convidou a visitar todas as prisões da Justiça Divina, e ver quão verdadeiramente dignas de compaixão são as almas ali aprisionadas.
Nesse momento, ela disse: 'Sim, irei'. Ela consentiu em empreender esta dolorosa jornada. Na verdade, ela caminhou por duas horas através do jardim, que era muito grande, parando de vez em quando. Cada vez que interrompia a sua caminhada, ela contemplava com atenção os sofrimentos que lhe eram mostrados. Ela então foi vista torcendo as mãos de compaixão, o seu rosto empalideceu, e o seu corpo curvou-se sob o peso do sofrimento diante do que se passava aos seus olhos.
Ela começou a chorar e a lamentar em alta voz: 'Misericórdia, meu Deus, misericórdia! Desce, ó Sangue Precioso, e livra essas almas de sua prisão. Pobres almas que sofrem tão cruelmente e, ainda assim, estão felizes e alegres. As masmorras dos mártires, em comparação a essas, eram jardins de deleite. No entanto, existem outras ainda mais profundas. Quão feliz eu deveria me considerar se não fosse obrigada a me adentrar nessas profundezas'.
Ela desceu, no entanto, porque foi forçada a continuar o seu caminho. Mas, depois de dar alguns passos, parou apavorada e, suspirando profundamente, gritou: 'Como? Religiosos estão também nesta morada sombria? Ó Bom Deus, como são atormentados! Ah, Senhor!'. Ela não explica a natureza destes sofrimentos; mas o horror que ela manifestava ao contemplá-los a fazia suspirar a cada passo. Ela passou dali para lugares menos sombrios. Eram masmorras de almas simples e de crianças nas quais a ignorância e a falta de razão atenuavam muitos defeitos. Seus tormentos pareciam-lhe muito mais suportáveis do que os dos outros. Nada além de gelo e fogo estavam lá. Ela notou que as almas tinham consigo os seus anjos da guarda, que as fortificavam enormemente com a sua presença; mas ela viu também demônios cujas formas terríveis faziam aumentar os seus sofrimentos.
Avançando mais alguns passos, ela viu almas ainda mais infelizes e foi ouvida gritando: 'Ó quão horrível é este lugar; está cheio de demônios horríveis e tormentos incríveis! Quem, ó meu Deus, são as vítimas dessas torturas cruéis? Ai de mim! Elas estão sendo perfurados com espadas afiadas, sendo cortadas em pedaços!'. Ela recebeu como resposta que eram as almas cuja conduta havia sido marcada pela hipocrisia.
Avançando ainda um pouco, viu uma grande multidão de almas que estavam pisoteadas por assim dizer, e esmagadas por uma prensa; e compreendeu que eram as almas vitimadas pela impaciência e pela desobediência em vida. Enquanto as contemplava, seus olhares, seus suspiros e toda a atitude delas expressavam compaixão e terror.
Um momento depois, a sua agitação aumentou e ela soltou um grito terrível. Era a masmorra das almas dos mentirosos que agora estava aberta diante dela. Depois de considerá-los com atenção, gritou em voz alta: 'Os mentirosos estão confinados em um lugar próximo ao inferno e os seus sofrimentos são particularmente intensos: chumbo derretido é derramado em suas bocas e eu os via queimar e, ao mesmo tempo, tremer de frio'.
Ela foi então para a prisão das almas que haviam pecado por fraqueza e foi ouvida a exclamar: 'Ai de mim! Pensei que te encontraria entre aqueles que pecaram por ignorância, mas estava enganada: você queima com um fogo mais intenso'. Mais adiante, ela percebeu almas que haviam se apegado demais aos bens deste mundo e pecaram por avareza: 'Que cegueira' - disse ela - 'para buscar avidamente uma fortuna perecível! Aqueles que antes as riquezas não podiam saciar o suficiente, estão aqui fartos de tormentos. Eles são fundidos como o metal na fornalha'.
Dali ela passou para o lugar onde estavam aprisionadas as almas manchadas de impureza. Ela os viu em uma masmorra tão imunda e pestilenta que a visão lhe produziu náusea. Ela se afastou rapidamente daquele lugar repugnante. Vendo os ambiciosos e os orgulhosos, ela disse: 'Eis aqueles que desejavam brilhar diante dos homens; e que agora estão condenados a viver nesta obscuridade terrível!'. Então ela viu as almas que haviam sido culpadas de ingratidão para com Deus. Eles eram vítimas de tormentos indizíveis e, por assim dizer, afogadas em um lago de chumbo derretido, por terem, por sua ingratidão, secado a fonte de piedade.
Finalmente, em uma última masmorra, ela viu almas que não haviam sido entregues a nenhum vício em particular, mas que, por falta de vigilância adequada sobre si mesmas, cometeram todos os tipos de falhas triviais. Ela observou que essas almas participavam das punições de todos os vícios, em grau atenuado, porque as faltas cometidas apenas de vez em quando as tornavam menos culpadas do que as cometidas repetidamente pelo hábito.
Depois desta última estação, a santa deixou o jardim, implorando a Deus que nunca mais a fizesse testemunhar um espetáculo tão comovente, pois sentia que não tinha mais forças para suportá-lo. Seu êxtase ainda continuava e, conversando com Jesus, ela lhe disse: 'Diga-me, Senhor, qual foi o seu desígnio ao desvelar para mim aquelas terríveis prisões, das quais eu sabia tão pouco e compreendia ainda menos? Ah! Agora vejo: queria dar-me o conhecimento da Vossa santidade infinita e fazer-me detestar cada vez mais a menor mancha do pecado, que é tão abominável aos Vossos olhos'.
Capítulo VII
Localização do Purgatório - Santa Liduína de Schiedam
Vamos narrar uma terceira visão relativa ao interior do Purgatório, a de Santa Liduína de Schiedam, falecida em 11 de abril de 1433, e cuja história, escrita por um sacerdote contemporâneo, tem a mais perfeita autenticidade. Esta admirável virgem, verdadeiro prodígio da paciência cristã, foi presa de todas as dores das mais cruéis doenças durante o período de trinta e oito anos. Seus sofrimentos tornaram o sono impossível para ela e, assim, passou longas noites em oração, e então, frequentemente envolta em êxtases, foi conduzida por seu anjo da guarda às misteriosas regiões do Purgatório. Lá ela viu moradias, prisões, masmorras diversas, uma mais sombria que a outra; ela conheceu, também, almas que ela conhecia, e ainda vislumbrou os seus diversos castigos.
Pode-se perguntar: 'qual foi a natureza dessas viagens de êxtase?' o que é difícil de explicar, mas podemos concluir de certas outras circunstâncias que havia mais realidade nelas do que podemos ser levados a acreditar. A santa prostrada e doente fazia viagens e peregrinações semelhantes na terra, aos lugares sagrados da Palestina, às igrejas de Roma e aos mosteiros das redondezas. Ela tinha um conhecimento exato dos lugares onde teria percorrido. Certa ocasião, um religioso do mosteiro de Santa Elisabeth, conversando com a santa, recebeu dela informações das celas, do oratório, do refeitório e da sua comunidade, com uma descrição tão exata e detalhada como se ela tivesse vivido a sua vida inteira ali. Tendo o religioso expressado a sua surpresa diante estes fatos, ela respondeu: 'Saiba, padre que eu que já visitei o seu mosteiro'.
Um infeliz pecador, enredado pelas corrupções do mundo, foi finalmente convertido. Graças às orações e exortações constantes de Liduína, fizera uma sincera confissão de todos os seus pecados e recebera a absolvição, mas teve pouco tempo para praticar a penitência, pois pouco depois morreu de peste. A santa ofereceu muitas orações e sofrimentos por sua alma; algum tempo depois, tendo sido levada por seu anjo da guarda ao Purgatório, ela desejou saber se ele ainda estava lá e em que condições. 'Ele está lá', disse o anjo, 'e sofre muito. Você estaria disposta a suportar um pouco de dor para diminuir a dele?' 'Certamente', respondeu ela, 'estou pronta para sofrer qualquer coisa para ajudá-lo'.
Instantaneamente, o seu anjo da guarda a conduziu a um lugar de terrível tortura. 'É esse, então o inferno, meu irmão?' perguntou a santa, tomada de grande horror. 'Não, irmã', respondeu o anjo, 'mas esta parte do Purgatório faz fronteira com o Inferno'. Olhando em volta por todos os lados, ela viu o que parecia ser uma imensa prisão, cercada por paredes de uma altura prodigiosa, cuja escuridão, associada às pedras monstruosas, lhe inspirou enorme horror.
Aproximando-se deste recinto sombrio, ela ouviu um barulho ensurdecedor de vozes de desespero, gritos de fúria, de correntes e de instrumentos de tortura, e golpes violentos que os algozes desferiram sobre suas vítimas. Esse barulho era tal que todo o tumulto do mundo, de tempestades ou batalhas, não podia ser comparado a ele. 'O que seria então aquele lugar horrível?' perguntou Santa Liduína ao seu anjo protetor. 'Você deseja que eu lhe mostre para você?' 'Não, eu te imploro', disse ela, recuando de terror, 'o barulho que ouço é tão terrível que não posso mais suportá-lo; como, então, eu poderia suportar a visão daqueles horrores?'
Continuando a sua misteriosa jornada, ela viu um anjo, envolto em tristeza, sentado na beira de um poço. 'Quem é aquele anjo?' perguntou ao seu guia. Ele respondeu: 'É o anjo da guarda do pecador em cujo destino você está interessado; a sua alma encontra-se neste poço, onde há um Purgatório especial'. Diante essas palavras, Liduína lançou um olhar inquiridor para o seu anjo; ela desejava ver aquela alma que lhe era tão querida e se dedicar a libertá-la daquele terrível calabouço. O anjo, compreendendo o seu empenho pessoal, removeu a tampa do poço pelo seu poder e imediatamente um redemoinho de fogo escapou para fora, acompanhado de terríveis gritos de desespero.
'Você reconhece essa voz?' disse o anjo para ela. 'Ai de mim, sim!', respondeu a serva de Deus. 'Você deseja ver essa alma?' retrucou o anjo. Quando ela respondeu afirmativamente, o anjo chamou a alma pelo seu nome e, imediatamente, a santa viu elevar-se sobre a abertura do poço um espírito todo envolto em chamas, à forma de um metal incandescente, que disse a ela em voz quase inaudível: 'Ó Liduína, serva de Deus, o que me darás em meu favor para que eu possa contemplar a face do Altíssimo?' A visão desta alma, encarcerada num abismo de fogo, deu à nossa santa um tal choque que o cinto que ela usava ao redor do corpo partiu-se em dois e, não sendo mais capaz de suportar a visão, ela despertou repentinamente do seu êxtase.
As pessoas presentes, percebendo o seu estado, perguntaram-lhe a causa. 'Ai de mim!' ela respondeu, 'quão terríveis são as prisões do Purgatório! Foi para ajudar as almas que consenti em descer até lá. Sem esse motivo, ainda que o mundo inteiro fosse dado a mim, eu não sofreria o terror que aquele horrível espetáculo me inspirou'. Alguns dias depois, o mesmo anjo que ela vira tão abatido apareceu-lhe com um semblante alegre; ele disse a ela que a alma de seu protegido havia deixado o poço e passado para o purgatório comum. Esse alívio parcial não bastou à caridade de Liduína; ela continuou a rezar em intenção daquela pobre alma e a aplicar a ela os méritos dos seus sofrimentos, até o dia em que viu as portas do céu finalmente abertas para ela.
Capítulo VIII
Localização do Purgatório - São Gregório Magno: o Diácono Paschasius e o Sacerdote de Centumcelle - O Beato Estêvão e o Religioso na Capela - Teóphile Renaud e a doente de Dôle
Segundo Santo Tomás e outros doutores da Igreja, como visto previamente, em alguns casos particulares a justiça divina atribui um lugar especial na terra para a purificação de certas almas. Esse sentimento é confirmado por vários fatos; entre os quais citaremos em primeiro lugar dois deles relatados por São Gregório Magno em seus Diálogos: 'Quando eu era jovem e ainda leigo' - escreve o santo Papa - 'ouvi de anciãos bem informados como o diácono Paschasius havia aparecido a Germain, bispo de Cápua'.
'Paschasius, diácono desta sé apostólica, de quem ainda temos excelentes livros sobre o Espírito Santo, era um homem de eminente santidade, devotado às obras de caridade, zeloso pela ajuda aos pobres e muito esquecido de si mesmo. Certa ocasião, teve início uma acirrada disputa envolvendo uma eleição de um pontífice. Paschasius, isolando-se da posição dos bispos, apoiou uma escolha diversa da aprovada pelo episcopado. Mas ele morreu em seguida, com fama de santidade, que Deus confirmou por um milagre: uma cura instantânea ocorreu no próprio dia do seu funeral, ao simples toque de sua dalmática'.
'Muito tempo depois, Germain, bispo de Cápua, foi enviado pelos médicos para se banhar nas termas de Sant-Angelo, em Abruzzo. Qual não foi o seu espanto em encontrar ali, empregado nos últimos serviços dos banhos, o mesmo diácono Paschasius! 'Estou expiando aqui', disse-lhe a aparição, 'pela culpa que tive em me aliar ao partido errado'. Peço-lhe, ore ao Senhor por mim: saberá que tem sido ouvido assim que deixar de me ver nestes lugares. Germain começou a orar pelo falecido e, depois de alguns dias, ao retornar, procurou em vão por Paschasius, que havia desaparecido. Ele teve que sofrer, acrescenta São Gregório, apenas um castigo temporário depois desta vida, porque pecou por ignorância e não por maldade'.
O mesmo santo papa relata também sobre um sacerdote de Centumcelle, atual Cività-Vecchia, que também foi-se servir das águas termais. Um homem atendeu-o nas funções mais servis e humildes daquele ofício, por vários dias, sempre com extrema complacência e disposição. O bom sacerdote, pensando que deveria recompensar tanta consideração, levou dois pães abençoados e, depois do serviço do dia, ofereceu-os ao servo prestativo. Este último, com uma expressão triste, respondeu-lhe: 'Por que, padre, oferece-me estes pães? Eu não os posso comer. Eu, que me vês, fui o senhor deste lugar e, depois da minha morte, fui mandado de volta para cá para a expiação das minhas faltas, nesta condição em que me encontro. Se você me quer bem, ó oferece a mim o Pão da Eucaristia!'.
Com essas palavras, desapareceu repentinamente e aquele que o sacerdote pensava tratar-se de um servidor prestativo mostrou-se, ao desaparecer assim, ser tão somente um espírito. Durante uma semana inteira, o sacerdote entregou-se a exercícios de penitência e ofereceu todos os dias a Sagrada Hóstia nas intenções do falecido; retornando posteriormente às termas, já não mais o encontrou ali, concluindo, então, que ele havia sido libertado.
Parece que a justiça divina, às vezes, condena as almas a padecer os seus castigos no mesmo lugar onde cometeram as suas faltas. Lemos nas crônicas dos Frades Menores que o Beato Estêvão, religioso deste instituto, tinha uma devoção singular ao Santíssimo Sacramento, o que o fazia passar parte de suas noites em adoração. Em uma dessas circunstâncias, estando sozinho na capela em meio a escuridão, quebrada pela única luz de uma pequena lamparina, ele viu de repente um religioso num dos assentos, profundamente recolhido e com a cabeça totalmente encoberta pelo capuz.
Estêvão se aproxima dele e pergunta se ele tem permissão para estar fora da cela naquele momento. 'Sou um religioso falecido' - o homem responde. 'É aqui que devo cumprir meu purgatório, de acordo com um julgamento da justiça de Deus, porque é aqui que pequei por mornidão e negligência no ofício divino. O Senhor permite que você conheça a minha condição, para que possa me ajudar com as suas orações'. Comovido diante estas palavras, o beato se ajoelhou imediatamente e começou a o hino De Profundis e outras orações, percebendo que, enquanto orava, o rosto do falecido expressava alegria. Várias vezes mais, nas noites seguintes, a aparição mostrou-se da mesma forma, cada vez mais feliz, à medida que se aproximava a sua libertação. Finalmente, depois de uma última oração do Beato Estêvão, o espírito levantou-se do seu assento, imerso em luz radiante, expressou sua gratidão ao beato e desapareceu na luz da glória.
O relato seguinte tem algo tão maravilhoso que ter-se-ia hesitação em reproduzi-lo, como disse o Cônego Postel, se não tivesse sido registrado em muitas obras, segundo o Pe. Théophile Renaud, teólogo e polemista do Século XVII, que o relata como um acontecimento ocorrido na sua época e quase sob os seus olhos. Padre Louvet acrescenta que o Vigário Geral do Arcebispado de Besançon, depois de examinar todos os detalhes, reconheceu a sua plena veracidade.
No ano de 1629, em Dôle, região de Franche-Compté, Huguette Roy, uma mulher de meia-idade, ficou confinada de cama por causa de uma inflamação dos pulmões, que a fez temer por sua vida. O médico que a atendeu, optando por induzir uma sangria na paciente, cortou involuntariamente uma artéria do seu braço esquerdo, comprometendo o fluxo de sangue até às extremidades do seu membro. No dia seguinte, logo pela manhã, uma jovem toda vestida de branco adentra no seu quarto e pergunta à paciente, com uma atitude muito modesta, se ela aceita ser cuidada por ela.
A paciente, feliz com a oferta, aceita de imediato e com grande prazer. Imediatamente a seguir, a estranha pôs-se a acender o fogo, conduziu gentilmente Huguette a deitar-se na cama e assim continuou a atendê-la e a servi-la como a enfermeira mais prestativa e devotada possível.. Coisa maravilhosa! O simples toque das mãos dessa estranha havia sido tão benéfico que a paciente ficara tão aliviada que até sentia estar já completamente curada. Ela queria saber detalhes daquela pessoa tão amável e quis interrogá-la, mas a estranha disse que precisava ir embora e que voltaria à noite.
Quando a visitante desconhecida retornou à noite, ela disse a Huguette Roy, sem maiores rodeios: 'Saiba, minha querida sobrinha, que eu sou a sua tia, Léonarde Collin, que morreu há dezessete anos, deixando para você uma pequena propriedade como herança. Graças à bondade divina, estou salva, e foi graças à bem aventurada Virgem Maria, por quem tive sempre grande devoção, que obteve para mim esta felicidade. Sem ela, eu estaria perdida. Quando a morte me atingiu de repente, eu estava em pecado mortal; mas a misericordiosa Virgem obteve para mim naquele momento um ato de contrição perfeita, salvando-me assim da condenação eterna. Desde então, estou no purgatório, e o Senhor permite que eu venha até aqui e complemente a minha expiação, ficando ao seu serviço por quarenta dias. No final deste tempo, estarei liberada dos meus sofrimentos e, por sua vez, você deverá ter a caridade de fazer três peregrinações em minha intenção a três santuários da Santíssima Virgem'.
Huguette ficou atônita, sem saber o que pensar dessa linguagem, não podendo acreditar na realidade dessa aparição e, temendo alguma armadilha do espírito maligno, consultou o seu confessor, o padre Antoine Rolland, um jesuíta, que a aconselhou a ameaçar a desconhecida com os exorcismos da Igreja. Essa ameaça, entretanto, não a perturbou; ela disse calmamente que não temia as orações da Igreja: 'Eles não têm força' - acrescentou ela - 'exceto contra os demônios e os condenados, de forma alguma contra as almas predestinadas e a favor de Deus, como a minha'.
Huguette não se convenceu: 'Como' - disse ela à jovem - 'você pode ser minha tia Léonarde? Ela era velha e alquebrada, além de desagradável e um tanto caprichosa, enquanto você é jovem, gentil e atenciosa'. 'Ah! minha sobrinha' - respondeu a aparição - 'meu verdadeiro corpo está no túmulo, onde permanecerá até a ressurreição; aquele pelo qual você me vê é outro corpo, milagrosamente formado do ar, para me permitir falar com você, servi-la e obter os seus votos. Quanto ao meu caráter difícil e raivoso, dezessete anos de terrível sofrimento me ensinaram paciência e gentileza. Saiba além do mais que, no Purgatório, a pessoa é confirmada na graça, marcada com o selo dos eleitos e, portanto, isenta de todos os vícios'.
Após tais explicações, a incredulidade não era mais possível. Huguette, ao mesmo tempo maravilhada e grata, recebeu com alegria os serviços que lhe foram prestados, durante os quarenta dias assinalados. Só ela podia ver e ouvir a falecida, que lhe aparecia em determinados momentos e depois desaparecia. Assim que as suas forças o permitiram, ela realizou piedosamente as peregrinações que lhe haviam sido solicitadas.
No final dos quarenta dias, as aparições cessaram. Léonarde apareceu uma última vez para anunciar sua libertação: ela estava então em um estado de glória incomparável, cintilando como uma estrela e trazendo no rosto a expressão da mais perfeita bem aventurança. Ela, por sua vez, expressou sua gratidão à sobrinha, prometeu rezar por ela e por toda a sua família, e se comprometeu a sempre lembrar a ela, em meio às dores da vida, a meta suprema de nossa existência, que é a salvação da nossa alma.
Capítulo IX
As Dores do Purgatório: Sua Natureza e Rigor - Doutrina dos Teólogos: São Belarmino e São Francisco de Sales - Medo e Confiança
Existe no Purgatório, tal como no Inferno, uma dor dupla - a dor da perda e a dor dos sentidos. A dor da perda consiste em ser privado por algum tempo da vista de Deus, que é o Bem Supremo, fim beatífico para o qual foram feitas as nossas almas, assim como são os nossos olhos para a luz. É uma sede moral que atormenta a alma. A dor dos sentidos, ou sofrimento sensível, é a mesma que experimentamos em nossa carne. A sua natureza não se define pela fé, mas é opinião comum dos Doutores da Igreja que ela consiste em fogo e outras espécies de sofrimento. O fogo do Purgatório, dizem os Padres da Igreja, é o mesmo do inferno, de que fala o rico glutão: - quia crucior in hac flamma - 'eu sofro cruelmente nestas chamas'.
Quanto à gravidade dessas dores, uma vez que são infligidas pela Justiça Infinita, são proporcionais à natureza, gravidade e número dos pecados cometidos. Cada um recebe segundo as suas obras, cada um deve honrar-se das dívidas de que se vê acusado perante Deus. Porém, essas dívidas diferem muito em qualidade. Algumas, que se acumularam durante uma longa vida, atingiram os dez mil talentos do Evangelho, ou seja, os milhões e as dezenas de milhões; enquanto outras são reduzidas a poucos centavos, o resto insignificante daquilo que não foi devidamente expiado na terra. Segue-se disso que as almas passam por vários tipos de sofrimentos e que existem inúmeros graus de expiação no Purgatório, sendo que alguns são incomparavelmente mais severos do que outros. No entanto, falando em termos gerais, os Doutores da Igreja concordam em dizer que estas dores são insuportáveis. O mesmo fogo, diz São Gregório, atormenta os condenados e purifica os eleitos (salmo 37). 'Quase todos os teólogos' - diz São Belarmino - 'ensinam que os réprobos e as almas do Purgatório sofrem a ação do mesmo fogo' (De Purgat., i. 2, cap. 6).
Deve-se tomar como certeza - escreve o mesmo São Belarmino - que não há proporção entre os sofrimentos desta vida e aqueles do Purgatório (De Gemitu Columbae, lib. ii, cap. 9). Santo Agostinho declara precisamente o mesmo em seu comentário sobre o Salmo 31: 'Senhor' - ele diz - 'não me castigueis com vossa ira, e não me rejeiteis como aqueles a quem dissestes: vai para o fogo eterno; não me castigueis com vosso santo furor: purificai-me antes de tal maneira nesta vida que eu não precise ser purificado pelo fogo na próxima. Sim, temo aquele fogo que foi aceso para aqueles que serão salvos, é verdade, mas ainda assim salvos pelo fogo (1 Cor 3, 5). Sim, estes serão salvos, sem dúvida, após a provação pelo fogo, mas essa provação será terrível, esse tormento será mais insuportável do que todos os sofrimentos mais excruciantes deste mundo.
Com base nas palavras de Santo Agostinho, e nas que São Gregório, o Venerável Beda, Santo Anselmo e São Bernardo falaram depois dele, São Tomás vai ainda mais longe, afirmando que a menor dor do Purgatório supera todos os sofrimentos desta vida, quaisquer que sejam eles. A dor, diz o beato Pedro Lefevre, é mais profunda e mais aguda quando ataca diretamente a alma e a mente do que quando afeta apenas o corpo. O corpo mortal e os próprios sentidos absorvem e interceptam uma parte da dor física e até mesmo moral (Sentim. Du B. Lefevre sur la Purg., Mess du S. Coeur, novembro de 1873). O autor da 'Imitação' explica essa doutrina por meio de uma frase bastante prática e marcante. Falando em geral dos sofrimentos da outra vida, diz ele: uma hora de tormento será mais terrível do que cem anos de rigorosa penitência nesta vida (Imitação de Cristo, lib. 1, cap. 24). Para provar esta doutrina, afirma-se que todas as almas do Purgatório sofrem a dor da perda e que essa dor supera todo o sofrimento mais agudo.
Mas, para falar apenas da dor dos sentidos: sabemos que coisa terrível é o fogo, quão fraca é a chama que acendemos em nossas casas, e que dor é causada pela menor queimadura; quanto mais terrível deve ser aquele fogo que não é alimentado com lenha nem óleo, e que nunca pode ser extinto! Aceso pelo sopro de Deus para ser o instrumento da sua Justiça, ele apodera-se das almas e as atormenta com incomparável rigor. O que já dissemos, e o que ainda temos a dizer, está bem justificado para nos inspirar aquele temor salutar que nos foi recomendado por Jesus Cristo.
Mas para evitar que alguns leitores, esquecidos da confiança cristã que deve moderar os nossos medos, não se entreguem a um temor excessivo, comparemos a doutrina anterior com a de um outro Doutor da Igreja, São Francisco de Sales, que apresenta as penas do purgatório temperadas pelas consolações que os acompanham. 'Podemos' - diz este santo e amável diretor de almas - 'extrair do pensamento do Purgatório mais consolo do que apreensão'. A maior parte dos que temem o Purgatório pensam muito mais em seus próprios interesses do que nos interesses da glória de Deus; isso procede do fato de que eles pensam apenas nos sofrimentos, sem considerar a paz e a felicidade que são desfrutadas pelas almas sagradas. É verdade que os tormentos são tão grandes que os sofrimentos mais agudos desta vida não se comparam a eles; mas a satisfação interior que existe é tal que nenhuma felicidade ou contentamento na terra pode igualá-la.
As almas estão em contínua união com Deus, estão perfeitamente resignadas à sua vontade, ou melhor, a sua vontade é tão transformada na própria vontade de Deus que não podem querer senão o que Deus quer; de modo que, se o Paraíso fosse aberto diante delas, eles se precipitariam no inferno em vez de se apresentarem diante de Deus com as manchas pelas quais se veem desfigurados. Elas se purificam de boa vontade e com amor, porque esta é a Vontade Divina.
As almas desejam permanecer ali no estado em que Deus quer e enquanto isso for do seu agrado. Elas não podem pecar, nem experimentar o menor sentimento de impaciência, nem cometer a menor imperfeição. Elas amam a Deus mais do que amam a si mesmos e mais do que todas as outras coisas; elas amam a Deus com um amor perfeito, puro e desinteressado. Estas almas são consoladas por anjos e têm a certeza da salvação eterna, estando plenos de uma esperança que nunca pode ser frustrada em suas expectativas. Sua angústia mais amarga é amenizada por uma certa paz profunda. É uma espécie do inferno quanto ao sofrimento; mas é o Paraíso no que diz respeito ao deleite infundido em seus corações pela caridade - caridade, mais forte que a morte e mais poderosa que o inferno; caridade iluminada por lâmpadas que são todas de fogo e chama (Cântico 8). 'Feliz estado' - complementa o santo bispo - 'mais desejável do que abominável, uma vez que suas chamas são chamas de amor e de caridade' (Esprit de Saint François de Sales, cap. 9, p. 16).
Tais são os ensinamentos dos Doutores da Igreja, dos quais se segue que, se as dores do Purgatório são rigorosas, não deixam de ser consoladoras. Ao impor a sua cruz sobre nós nesta vida, Deus derrama sobre ela a unção de sua graça; ao purificar as almas no Purgatório como o ouro no cadinho, Ele tempera as suas chamas com consolações inefáveis. Não devemos perder nunca de vista esse aspecto consolador, esse lado luminoso do quadro muitas vezes sombrio que estamos a examinar.
Capítulo X
Dores do Purgatório - Santa Catarina de Gênova - Santa Teresa - Padre Nieremberg - A Dor da Perda
Depois de termos ouvido os teólogos e os doutores da Igreja, ouçamos outros doutores: são santos que falam dos sofrimentos da outra vida e relatam o que Deus lhes deu a conhecer por comunicação sobrenatural. Santa Catarina de Gênova, em sua obra 'Tratado sobre o Purgatório' (cap. II, 8) diz: 'As almas suportam um tormento tão extremo que nenhuma língua pode descrevê-lo, nem o entendimento poderia conceber a menor noção disso, se Deus não o fizesse conhecido por uma graça particular'. 'Nenhuma língua' - acrescenta - 'pode expressar e nenhuma mente pode conceber qualquer ideia do que é o Purgatório. Quanto ao sofrimento, este é igual ao do Inferno'.
Santa Teresa, na obra 'Castelo da Alma', falando da dor da perda, assim se expressa: 'A dor da perda ou a privação da visão de Deus supera todos os sofrimentos mais lancinantes que podemos imaginar, porque as almas, impelidas em direção a Deus como para o centro de sua aspiração, são continuamente repelidas pela sua Justiça. Imagine-se um marinheiro naufragado que, depois de uma longa batalha contra as ondas, chega finalmente ao alcance da costa, apenas para se ver constantemente empurrado para trás por uma mão invisível. Que agonia torturante! No entanto, para as almas do Purgatório são mil vezes maiores!' (parte 6, cap. 11).
Padre Nieremberg, sacerdote da Companhia de Jesus e falecido em odor de santidade em Madri em 1658, relata um fato corrido em Treves e que foi reconhecido pelo Vigário Geral da diocese (de acordo com o padre Rossignolli em Merveilles, 69), como possuindo todas as características da verdade. Na Festa de Todos os Santos, uma jovem de rara piedade viu aparecer diante dela uma senhora conhecida que havia morrido algum tempo antes. A aparição estava vestida de branco, com um véu da mesma cor na cabeça, e segurando na mão um longo rosário, um símbolo da terna devoção que ela sempre professou em favor da Rainha dos Céus. Ela implorou a caridade de sua piedosa amiga, dizendo que tinha feito voto de que três missas fossem celebradas no altar da Virgem Maria e que, não tendo podido cumprir o seu voto, essa dívida aumentava seus sofrimentos. Ela então implorou que ela pagasse essa dívida em seu lugar.
A jovem concedeu de bom grado a súplica que lhe fôra pedida e, depois de celebradas as três missas, a falecida apareceu de novo, exprimindo a sua alegria e gratidão. Ela sempre continuou a aparecer todos os meses de novembro, e quase sempre na igreja. Sua amiga a viu ali em adoração diante do Santíssimo Sacramento, dominada por um temor que nada pode dar ideia; ainda não podendo ver Deus face a face, ela parecia querer indenizar-se contemplando-o pelo menos sob as espécies eucarísticas. Durante o Santo Sacrifício da Missa, no momento da elevação, o seu rosto tornou-se tão radiante que parecia um serafim descido do céu. A jovem, cheia de admiração, declarou que nunca tinha visto algo tão bonito.
Enquanto isso, o tempo passava e, não obstante as missas e orações oferecidas por ela, aquela alma sagrada permaneceu em seu exílio, longe dos Tabernáculos Eternos. No dia 3 de dezembro, festa de São Francisco Xavier, quando a sua protetora foi receber a comunhão na Igreja dos Jesuítas, a aparição a acompanhou até a Mesa Sagrada e ficou ao seu lado durante todo o tempo de ação de graças, como se para participar da a felicidade da Sagrada Comunhão e desfrutar da presença de Jesus Cristo. No dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, ela retornou novamente, mas tão brilhante que a amiga não conseguia mais olhar para ela. Ela visivelmente se aproximava do prazo final de sua expiação. Finalmente, no dia 10 de dezembro, durante a Santa Missa, ela apareceu em um estado ainda mais maravilhoso. Depois de fazer uma profunda genuflexão diante do altar, ela agradeceu à piedosa menina por suas orações e subiu ao céu na companhia de seu anjo da guarda.
Algum tempo antes, esta alma sagrada havia feito saber que ela não havia sofrido nada mais do que a dor da perda ou da privação de Deus; mas ela acrescentou que essa privação lhe causou uma tortura intolerável. Esta revelação justifica as palavras de São Crisóstomo na sua 47ª Homilia: 'Imagina todos os tormentos do mundo e não encontrarás igual à privação da visão beatífica de Deus'.
Na verdade, a tortura da dor da perda, de que agora tratamos é, segundo todos os santos e todos os doutores da Igreja, muito mais aguda do que a dor dos sentidos. É verdade que, na vida presente, não podemos compreender isso, porque temos muito pouco conhecimento do Bem Soberano para o qual fomos criados; mas, na outra vida, aquele Bem inefável parece para as almas o que o pão é para o homem faminto ou a água cristalina para o que morre de sede, como a saúde é para o doente torturado pela longanimidade da doença; que faz excitar os seus desejos mais ardentes e que o atormentam sem nunca poder satisfazê-los.
Capítulo XI
A Dor do Sentido: Tormento do Fogo e Tormento do Frio - Venerável Beda e a Ressurreição de Drithelm
Se a dor da perda não nos causa senão uma fraca impressão, é muito diferente em relação à dor dos sentidos; o tormento do fogo ou a tortura de um frio cortante e intenso apavoram a nossa sensibilidade. É por isso que a Divina Misericórdia, desejando despertar um santo temor em nossas almas, fala pouco da dor da perda, mas continuamente nos é mostrado o fogo, o frio e outros tormentos, que constituem a dor dos sentidos. Isso é o que vemos no Evangelho, e em revelações particulares, pelas quais Deus se grada em manifestar aos seus servos de vez em quando os mistérios da outra vida. Vamos mencionar uma dessas revelações. Em primeiro lugar, vejamos o que o piedoso e erudito Cardeal Belarmino cita do Venerável Beda.
A Inglaterra foi testemunha em nossos dias, escreve Beda, de um prodígio singular, que pode ser comparado aos milagres dos primeiros tempos da Igreja. Para estimular os vivos a temer a morte da alma, Deus permitiu que um homem, depois de ter dormido o sono da morte, voltasse à vida e revelasse o que tinha visto no outro mundo. Os detalhes terríveis e inéditos que ele relata, e sua vida de extraordinária penitência, que correspondeu às suas palavras, produziram uma impressão viva em todo o país. Vou agora retomar as principais circunstâncias desta história.
Havia em Northumberland um homem chamado Drithelm que, com a sua família, levava uma vida cristã. Ele adoeceu em com a sua enfermidade aumentando a cada dia, entrou em estado terminal e morreu, para grande desolação e tristeza de sua esposa e filhos. Velaram toda a noite em lágrimas diante dos seus restos mortais mas, no dia seguinte, antes do seu enterro, eles o viram de repente voltar à vida, levantar-se e colocar-se em uma postura sentada. Ao ver isso, foram tomados de tanto medo que todos fugiram, com exceção da esposa, que, tremendo, ficou sozinha com o marido ressuscitado.
Ele a tranquilizou imediatamente: 'Não tema', disse ele, 'É Deus quem me restaura a vida. Ele deseja mostrar, na minha pessoa, um homem ressuscitado dos mortos. Ainda tenho muito tempo para viver nesta terra, mas a minha nova vida será muito diferente daquela que levei até agora'. Então, ele se levantou cheio de saúde, foi direto para a capela ou a igreja do lugar, e ali permaneceu muito tempo em oração. Ele voltou para casa apenas para se despedir daqueles que lhe eram queridos na terra, aos quais declarou que viveria apenas para se preparar para a morte, e os aconselhou a fazer o mesmo.
Em seguida, dividiu a sua propriedade em três partes, dando uma para os seus filhos, outra para a sua esposa e reservou a terceira parte para dar em esmolas. Depois de ter distribuído tudo aos pobres e ficar reduzido à indigência extrema, foi bater à porta de um mosteiro e implorou ao abade do lugar que o recebesse como religioso penitente, que ele se tornaria o servo de todos os outros. O abade reservou-lhe uma cela isolada, a qual ocupou pelo resto de sua vida. Três exercícios dividiam o seu tempo - oração, o trabalho mais difícil e penitências extraordinárias. Os jejuns mais rigorosos ele considerava como nada. No inverno, ele mergulhava em água congelada e permanecia ali por horas e horas em oração, enquanto recitava todo o Saltério de Davi.
A vida mortificada de Drithelm, seus olhos sempre abaixados e até mesmo as suas feições indicavam uma alma atingida pelo medo dos julgamentos de Deus. Ele manteve um silêncio perpétuo mas, ao ser pressionado a relatar, para a edificação dos outros, o que Deus havia manifestado a ele após sua morte, ele assim descreveu sua visão:
'Ao deixar o meu corpo, fui recebido por uma pessoa benevolente, que me acolheu. Seu rosto estava brilhante e ele parecia rodeado de luz. Ele me levou a um grande vale profundo e de imensa extensão, que tinha fogo de um lado e era todo gelo e neve do outro; de um lado braseiros e caldeirões de fogo e, de outro, o frio mais intenso e o sopro de um vento glacial. Este vale misterioso estava cheio de inúmeras almas, que, sacudidas como por uma furiosa tempestade, eram jogadas de um lado para o outro. Quando não podiam mais suportar a violência do fogo, buscavam alívio em meio ao gelo e à neve mas, encontrando ali apenas uma nova tortura, lançavam-se novamente no meio das chamas.
Eu contemplei em estupor essas vicissitudes contínuas de tormentos horríveis e, até onde a minha vista podia se estender, não vi nada além de uma multidão de almas que sofriam sem ter repouso algum. Os aspectos delas me inspiraram medo. A princípio, pensei tratar-se do inferno, mas meu guia, que caminhava diante de mim, voltou-se para mim e disse: 'Não; este não é, como você pensa, o inferno dos réprobos. Você sabe' - continuou ele - 'que lugar é este?' 'Não', respondi. 'Saiba', ele resumiu, 'que este vale, onde você vê tanto fogo e tanto gelo, é o lugar onde permanecem as almas daqueles que, durante a vida, negligenciaram confessar os seus pecados, e que adiaram a sua conversão até o fim. Graças a uma misericórdia especial de Deus, eles tiveram a felicidade de se arrepender sinceramente antes da morte, de confessar e detestar os seus pecados. É por isso que eles não estão condenados, e no grande dia do julgamento entrarão no Reino dos Céus. Vários deles, entretanto, vão alcançar a sua libertação antes desse tempo final, pelos méritos de orações, esmolas e jejuns, oferecidos em seu favor pelos vivos, e especialmente, em virtude do Santo Sacrifício da Missa oferecido para o alívio de suas almas'.
Assim foi a descrição feita por Drithelm. Quando perguntado por que ele tratou seu corpo tão rudemente e por que havia mergulhado na água congelada, ele respondeu que tinha visto tormentos e frio de outro tipo. Quando os seus irmãos expressavam surpresa por ele poder suportar tais austeridades extraordinárias, ele respondia ter visto 'penitências muito mais excruciantes'. Até o dia em que aprouve a Deus chamá-lo para si em definitivo, não cessou de afligir o seu corpo e, ainda que alquebrado pela idade, nunca aceitava nenhum tipo de alívio.
Este evento produziu uma sensação profunda na Inglaterra; um grande número de pecadores, tocados pelas palavras de Drithelm e atingidos pela austeridade de sua vida, converteram-se sinceramente. Este fato, acrescenta Belarmino, parece-me de verdade incontestável, pois, além de estar conforme às palavras da Sagrada Escritura que diz que 'os mortos passam das águas da neve ao calor do fogo abrasador' (Jó, 24, 19), o Venerável Beda relata o fato como sendo recente e evento bem conhecido. Mais do que isso, seguiu-se ao mesmo a conversão de um grande número de pecadores, sinal da obra de Deus, que costuma fazer prodígios para produzir frutos nas almas.
Capítulo XII
Dores do Purgatório - Santa Cristina, a Admirável
O erudito e piedoso cardeal [Cardeal Belarmino, citado no capítulo anterior] passa então a relatar a história de Santa Cristina, a Admirável, que viveu na Bélgica no final do século XII e cujo corpo se conserva hoje em Sint-Truiden, na igreja dos Padres Redentoristas. A vida desta ilustre virgem foi, diz ele, escrita por Thomas de Cantimpré, religioso da Ordem de São Domingos, autor digno de crédito e contemporâneo da santa. O cardeal James de Vitry, no prefácio da Vida de Maria d'Ognies, fala de um grande número de mulheres santas e virgens ilustres; mas quem ele admira acima de todas as demais é Santa Cristina, de quem relata os feitos mais maravilhosos.
Esta serva de Deus, tendo passado os primeiros anos de sua vida em humildade e paciência, morreu com a idade de trinta e dois anos. Quando estava para ser enterrada, e o corpo já se encontrava na igreja repousando em caixão aberto, segundo o costume da época, ela se levantou cheia de vigor, deixando estupefata toda a cidade de Sint-Truiden, que tinha testemunhado essa maravilha. O espanto aumentou quando souberam, pela sua própria boca, o que lhe acontecera depois de sua morte. Vamos ouvir o seu próprio relato disso.
'Assim que a minha alma foi separada do meu corpo, ela foi recebida pelos anjos, que a conduziram a um lugar muito sombrio, inteiramente cheio de almas. Os tormentos que elas suportavam pareceram-me tão excessivos, que me é impossível dar qualquer ideia do seu rigor. Vi entre elas muitos de meus conhecidos e, profundamente tocada pela sua triste condição, perguntei que lugar era aquele, pois acreditava que fosse o Inferno. Meu guia me respondeu que era o Purgatório, onde eram punidos os pecadores que, antes da morte, se arrependeram de suas faltas, mas não haviam dado satisfação digna a Deus. Dali eu fui conduzida ao Inferno e lá também reconheci, entre os réprobos, alguns que eu havia conhecido anteriormente.
Os anjos então me transportaram para o Céu, até o trono da Divina Majestade. O Senhor me olhou com bons olhos e eu experimentei uma alegria extrema, porque pensei em obter a graça de morar eternamente com Ele. Mas meu Pai Celestial, vendo o que se passava em meu coração, disse-me estas palavras: 'Certamente, minha querida filha, um dia você estará comigo. Agora, porém, permito que você escolha, ou permanecer comigo daqui em diante ou retornar à Terra para cumprir uma missão de caridade e sofrimento. De modo a libertar das chamas do Purgatório aquelas almas que inspiraram tanto a sua compaixão, você deve sofrer por elas na terra; você deverá suportar grandes tormentos sem, no entanto, morrer pelos seus efeitos. E você não só aliviará os que partiram, mas o exemplo que dará aos vivos, e sua vida de sofrimento contínuo, levará pecadores a se converterem e a expiarem os seus crimes. Depois de ter terminado esta nova vida, você deverá retornar a mim sobrecarregada de méritos'.
A estas palavras, vendo as grandes vantagens que me eram oferecidas pelas almas, respondi, sem hesitar, que voltaria à vida, e levantei-me no mesmo instante. É com este único objetivo, o alívio dos que partiram e a conversão dos pecadores, que voltei a este mundo. Portanto, não se espantem com as penitências que praticarei, nem com a vida que levarei daqui em diante, pois será tão extraordinária que nada parecido jamais foi visto'.
Tudo isso foi relatado pela própria santa; vejamos agora o que o biógrafo acrescenta nos diversos capítulos de sua vida. 'Cristina começou imediatamente a obra para a qual fôra enviada por Deus. Renunciando a todos os confortos da vida, e reduzida à miséria extrema, viveu sem casa nem fogo, mais miserável que as aves do céu, que têm um ninho para as abrigar. Não satisfeita com essas privações, ela buscou avidamente tudo o que poderia causar sofrimento. Ela se jogou em fornos em chamas, e ali, sofrendo tão grande tortura que não pôde mais suportar, soltou os gritos mais terríveis. Ela permaneceu por um longo tempo no fogo, e ainda assim, ao sair, nenhum sinal de queimaduras foi encontrado em seu corpo. No inverno, quando o Meuse [rio que nasce na França e atravessa a Bélgica e a Holanda] estava congelado, ela mergulhava nele, permanecendo naquele rio congelado não apenas por horas e dias, mas por semanas inteiras, o tempo todo orando a Deus e implorando a sua misericórdia. Às vezes, enquanto rezava nas águas geladas, ela se deixava levar pela corrente até um moinho, cuja roda girava de uma maneira terrível de se ver, mas sem quebrar ou deslocar nenhum dos seus ossos. Em outras ocasiões, seguida por cães, que mordiam e rasgavam a sua carne, ela corria, atraindo-os para as moitas e entre os espinhos, até ficar coberta de sangue; no entanto, ao retornar, nenhuma ferida ou cicatriz era vista.
Tais são as obras de admirável penitência descritas pelo autor da Vida de Santa Cristina. Este escritor era um bispo subordinado ao arcebispo de Cambray. 'E nós temos', diz Belarmino, 'motivos para crer em seu testemunho, pois ele tem por garantia outro grande autor, Tiago de Vitry, bispo e cardeal, e porque relata o que aconteceu em seu próprio tempo, e mesmo na província onde viveu. Além disso, os sofrimentos desta admirável virgem não foram ocultados. Todos puderam ver que ela estava no meio das chamas sem ser consumida e coberta de feridas, todas as quais desapareceram apenas momentos depois. Mas, mais do que isso, foi a vida maravilhosa que ela levou por quarenta e dois anos, depois que ela foi ressuscitada dos mortos, com Deus mostrando claramente que as maravilhas operadas nela foram pelas virtudes do Alto.
'Assim', argumenta Belarmino, 'Deus quis silenciar aqueles libertinos que fazem profissão aberta de não acreditar em nada, e que têm a audácia de perguntar com desprezo: 'Quem voltou do outro mundo? Quem já viu os tormentos do Inferno ou do Purgatório?' Eis aqui duas testemunhas confiáveis [Santa Cristina e Drithelm - ver capítulo anterior], que nos asseguram tê-los visto e que são terríveis. O que se segue, então, senão que os incrédulos são indesculpáveis, mas que aqueles que acreditam e, no entanto, negligenciam fazer penitência, não merecem ainda mais ser condenados?'
Capítulo XIII
Dores do Purgatório - Irmão Antônio Pereyra e a Venerável Ângela Tholomei
Aos dois fatos anteriores, adicionaremos um terceiro, retirado dos Anais da Companhia de Jesus. Falamos de um prodígio realizado na pessoa de Antônio Pereyra, Irmão Coadjutor daquela Companhia, falecido em odor de santidade no Colégio de Évora, em Portugal, a primeiro de agosto de 1645. Quarenta e seis anos antes, em 1599, cinco anos após a sua entrada no noviciado, este irmão foi atacado por uma doença mortal na ilha de São Miguel, do arquipélago dos Açores. Poucos momentos depois de ter recebido os últimos sacramentos, na presença de toda a comunidade que o assistia em sua agonia, pareceu exalar a alma e logo ficou frio como um cadáver. A aparência, embora quase imperceptível, de uma leve batida do coração, por si só os impediu de enterrá-lo imediatamente. Foi mantido, então, por três dias inteiros em seu leito de morte e já começava a demonstrar sinais óbvios de decomposição em seu corpo quando, de repente, no quarto dia, abriu os olhos, respirou e falou.
Foi obrigado, então, por obediência, a relatar ao seu superior, padre Luís Pinheyro, tudo o que se passara com ele desde os últimos momentos terríveis de sua agonia. Apresentamos aqui um relato resumido, escrito de próprio punho: 'Eu vi primeiro', diz ele, 'do meu leito de morte o meu pai, Santo Inácio, acompanhado de vários de nossos Padres do Céu, que vinham visitar os seus filhos moribundos, em busca daqueles que julgavam dignos de serem oferecidos por ele e seus companheiros a Nosso Senhor. Quando ele se aproximou de mim, acreditei por um momento que me levaria, e meu coração estremeceu de alegria; mas logo ele me indicou aquilo de que devo me corrigir antes de obter tão grande felicidade'.
Então, por uma disposição misteriosa da Providência Divina, a alma do Irmão Pereyra separou-se momentaneamente de seu corpo e, imediatamente, ele viu uma trupe hedionda de demônios correndo em sua direção, enchendo-o de terror. No mesmo instante, o seu anjo da guarda e Santo Antônio de Pádua, seu conterrâneo e patrono, desceram do céu e puseram em fuga os inimigos, convidando-o para acompanhá-los para ver e saborear por um momento as alegrias e sofrimentos da eternidade.
'Levaram-me então por turnos', acrescenta, 'para um lugar de delícias, onde me mostraram uma coroa de glória incomparável, mas que eu ainda não tinha merecido; depois, à beira de um abismo, onde vi as almas réprobas caírem no fogo eterno, esmagadas como os grãos de trigo lançados sobre uma pedra de moinho que gira sem parar. O golfo infernal era como um daqueles fornos de cal onde, às vezes, as chamas são, por assim dizer, sufocadas pela massa de materiais jogados nelas, mas que apenas alimenta o fogo para que possa explodir com violência mais terrível'.
Conduzido dali ao tribunal do Juiz Soberano, Antônio Pereyra viu-se condenado ao fogo do Purgatório; e nada, assegura-nos, pode dar uma ideia do que aí se sofre, nem do estado de agonia a que as almas estão reduzidas pelo desejo e pela postergação do deleite de se estar com Deus em sua sagrada presença.
Quando, por ordem de Deus, sua alma reuniu-se novamente com o seu corpo, nem as torturas renovadas de sua doença impostas por seis meses inteiros à sua carne lacerada (e já incuravelmente contaminada com a corrupção de sua primeira morte), mesmo sob sofrimentos adicionais impostos a ferro e a fogo, e nem mesmo as terríveis penitências às quais se entregou desde então, tanto quanto a obediência assim o permitia, durante os quarenta e seis anos de sua vida restante, não foram capazes de aplacar a sua sede de sofrimento e expiação. 'Tudo isso', dizia, 'não é nada em comparação com o que a justiça e a infinita misericórdia de Deus me fizeram não apenas testemunhar, mas também suportar'.
Enfim, como autêntico selo sobre tantas maravilhas, o Irmão Pereyra desvelou detalhadamente ao seu superior os desígnios secretos da Providência quanto à futura restauração do reino de Portugal, mais de meio século antes disso acontecer. Mas podemos acrescentar, sem receio, que a maior garantia de todos esses prodígios era o surpreendente grau de santidade a que o irmão Pereyra não cessava de se elevar dia após dia.
Vamos relatar um exemplo similar que confirma em cada ponto o que acabamos de ler. Encontramos isso na vida da venerável serva de Deus, Angela Tholomei, uma freira dominicana. Ela foi ressuscitada dos mortos por seu próprio irmão, e deu um testemunho do rigor dos julgamentos de Deus exatamente conforme o precedente.
O Beato João Baptista Tholomei, cujas raras virtudes e o dom de milagres o colocaram nos nossos altares, tinha uma irmã, Ângela Tholomei, cujas virtudes heroicas foram também reconhecidas pela Igreja. Ela caiu gravemente doente, e seu santo irmão, por meio de fervorosa oração, implorou por sua cura. Nosso Senhor respondeu, como fizera anteriormente à irmã de Lázaro, que Ele não apenas curaria Ângela, mas faria mais: Ele a ressuscitaria dos mortos, para a glória de Deus e o bem das almas. Ela morreu, recomendando-se às orações de seu santo irmão. Enquanto estava sendo levada para o túmulo, o bem-aventurado João Baptista, em obediência, sem dúvida, a uma inspiração do Espírito Santo, aproximou-se do caixão e, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, ordenou que sua irmã se levantasse. Imediatamente ela acordou de um sono profundo e voltou à vida.
Aquela alma sagrada parecia tomada de terror e relatou coisas sobre a severidade dos julgamentos de Deus, que nos fazem estremecer. Ela começou, ao mesmo tempo, a levar uma vida que provava a verdade de suas palavras. Sua penitência foi terrível. Não contente com as práticas comuns dos santos, como jejum, vigílias de oração, usos de cilícios e vestimentas de auto-flagelação ou rigorosas penitências, ela se impôs a tortura de se lançar nas chamas e se contorcer nelas até que sua carne estivesse totalmente queimada. Seu corpo macerado tornou-se objeto de piedade e horror. Ela foi censurada e acusada de destruir, por seus excessos, a ideia do que seria a verdadeira penitência cristã.
Ela, no entanto, continuou estes tormentos e se contentava em responder: 'Se vocês conhecessem os rigores dos julgamentos de Deus, não falariam assim. O que são estas minhas penitências insignificantes em comparação com os tormentos reservados na outra vida para aquelas infidelidades que tão facilmente nos permitimos neste mundo? O que elas são? O que elas são? Quem me dera as pudesse fazer cem vezes mais!' Não se trata aqui, como vimos, do rigor espantoso a que seriam submetidos os grandes pecadores convertidos pouco antes de morrer, mas dos castigos infligidos por Deus a uma religiosa fervorosa pelas suas menores faltas.
Capítulo XIV –
Dores do Purgatório - Aparição de Foligno, Os Religiosos Dominicanos de Zamora
O mesmo rigor é revelado em uma aparição mais recente, envolvendo uma religiosa falecida de vida exemplar, que deu a conhecer os seus sofrimentos de uma forma calculada para inspirar terror a todas as almas. O evento aconteceu em 16 de novembro de 1859 em Foligno, próximo a Assis, na Itália. Fez muito alarde na Itália e, além da marca visível que se viu, um inquérito feito de maneira adequada e pela autoridade competente o caracterizou como fato incontestável.
No convento dos Terciários Franciscanos de Foligno constava uma irmã chamada Teresa Gesta que, durante muitos anos, foi a encarregada das noviças e, ao mesmo tempo, responsável pela sacristia da comunidade. Ela nasceu em Bastia, na Córsega, em 1797 e entrou para o mosteiro no ano de 1826. Irmã Teresa foi um modelo de fervor e caridade. 'Não precisamos ficar surpresos', disse seu diretor, 'se Deus a glorificar por algum prodígio após sua morte'. Ela morreu repentinamente, em 4 de novembro de 1859, de um ataque de apoplexia.
Doze dias depois, no dia 16 de novembro, uma irmã chamada Anna Felicia, que a sucedeu no cargo, dirigiu-se à sacristia e nela já ia entrar, quando ouviu gemidos que pareciam vir do interior da sala. Com certo receio, apressou-se em abrir a porta, mas não havia ninguém. Mas novamente ela ouviu gemidos, e tão distintamente que, apesar de sua coragem habitual, sentiu-se dominada pelo medo. 'Jesus! Maria!" ela gritou, 'o que pode ser isso?' Ela não havia acabado de falar quando ouviu uma voz queixosa, acompanhada de um suspiro doloroso: 'Ó meu Deus, como eu sofro! Oh! Dio, che peno tanto!'
A irmã, estupefata, reconheceu imediatamente a voz da pobre Irmã Teresa. Em seguida, a sala se encheu de uma fumaça espessa e o espírito da Irmã Teresa apareceu, movendo-se em direção à porta e deslizando junto à parede. Tendo alcançado a porta, ela clamou em voz alta: 'Eis aqui uma prova da misericórdia de Deus'. Dizendo essas palavras, ela bateu no painel superior da porta e deixou ali a marca de sua mão direita, queimada na madeira como se fosse um ferro em brasa. E então desapareceu.
Irmã Anna Felicia ficou como que meio morta de susto. Ela explodiu em gritos de socorro. Uma de suas companheiras acorreu de imediato e, em seguida, toda a comunidade. Elas se comprimiam ao redor dela, surpresas pela presença de um forte odor de madeira queimada. Irmã Anna Felicia contou o que havia acontecido e mostrou-lhes a terrível impressão fixada à porta. Elas imediatamente reconheceram a mão da irmã Teresa, que era notavelmente pequena. Tomadas de pavor, rumaram em direção ao coro, onde passaram a noite em oração e penitência pelos falecidos e, na manhã seguinte, todas receberam a Sagrada Comunhão para o repouso da alma da irmã falecida.
A notícia se espalhou fora dos muros do convento e muitas comunidades da cidade uniram as suas orações às dos franciscanos. Dois dias depois, em 18 de novembro, Irmã Anna Felicia, indo à noite para sua cela, ouviu ser chamada pelo nome outra vez e reconheceu imediatamente a voz da Irmã Teresa. No mesmo instante, um globo ou luz brilhante apareceu diante dela, iluminando sua cela com o brilho da luz do dia. Em seguida, ouviu Irmã Teresa pronunciar estas palavras com voz alegre e triunfante: 'Morri numa sexta-feira, dia da Paixão, e eis que, na sexta-feira, entro na glória eterna! Seja forte para carregar a sua cruz, seja corajosa para sofrer, ame a pobreza'. Em seguida, acrescentando afetuosamente 'Adieu, adieu, adieu!', ela se transfigurou e, como uma nuvem clara, branca e deslumbrante, elevou-se em direção ao Céu e desapareceu.
Durante a investigação realizada imediatamente a seguir, em 23 de novembro, na presença de um grande número de testemunhas, foi aberto o túmulo da Irmã Teresa e constatou-se que a impressão na porta correspondia exatamente à mão da falecida. 'A porta, com a marca da mão queimada' - acrescenta monsenhor Segur - 'está preservada com grande veneração no convento. A madre abadessa, testemunha do fato, teve o prazer de me mostrar ela mesma'.
Desejando assegurar-me da perfeita exatidão desses detalhes relatados por monsenhor Segur, escrevi ao bispo de Foligno. Ele respondeu dando-me um relato circunstancial, perfeitamente de acordo com o exposto acima, e acompanhado por um fac-símile da marca milagrosa. Esta narrativa explica ainda a causa da terrível expiação a que foi submetida Irmã Teresa. Depois de dizer: '“Ah! quanto eu sofro! Oh! Dio, che peno tanto!' acrescentou que foi penalizada por ter, no exercício da função na sacristia, transgredido em alguns pontos a extrema pobreza prescrita pela Regra [justificativa, entretanto, de difícil entendimento no contexto dos fatos].
De qualquer forma, vemos que a Justiça Divina pune mais severamente as menores faltas. Pode-se perguntar aqui por que a aparição, ao fazer a marca misteriosa na porta, a chamou de 'prova da misericórdia de Deus'. É porque, ao nos dar um aviso desse tipo, Deus demonstra por nós uma grande misericórdia. Ele nos exorta, da maneira muito eficaz, a ajudar as pobres almas padecentes e a estar vigilantes em relação a nós mesmos.
Neste mesmo contexto, podemos relatar um caso semelhante ocorrido na Espanha, e que causou também grandes repercussões naquele país. Fernando de Castela assim o relata em sua História de São Domingos (Malvenda, Annal. Ord. Praedic.). Um religioso dominicano levou uma vida santa em seu convento em Zamora, cidade do reino de Leão. Ele estava unido pelos laços de uma piedosa amizade com um irmão franciscano como ele, homem de grande virtude. Um dia, conversando sobre o assunto da eternidade, prometeram mutuamente que, se fosse do agrado de Deus, o primeiro que morresse deveria aparecer ao outro para lhe dar conselhos salutares.
O frade menor morreu primeiro; e um dia, enquanto seu amigo, o filho de São Domingos, preparava o refeitório, apareceu a ele. Depois de saudá-lo com respeito e carinho, disse-lhe que estava entre os eleitos mas que, antes de ser admitido no gozo da felicidade eterna, havia sofrido muito por uma infinidade de pequenas faltas das quais não havia se arrependido suficientemente durante a sua vida. 'Nada na terra', acrescentou ele, 'pode lhe dar uma ideia dos tormentos que sofri, e dos quais Deus me permite lhe dar uma prova visível'. Dizendo essas palavras, ele colocou a mão direita sobre a mesa do refeitório, e a marca da sua mão ficou gravada na madeira carbonizada como se tivesse sido aplicada por um ferro em brasa.
Essa foi a lição que o fervoroso franciscano falecido deu ao seu amigo vivo. Foi de grande proveito não só para ele, mas para todos aqueles que viram a marca impressa na madeira queimada; tão profundamente significativa porque tornou-se um objeto de piedade que as pessoas vinham de todas as partes para contemplar. 'Ainda pode ser vista em Zamora', disse o padre Rossignoli (Mervelles, 28), 'na época em que escrevo [em meados do século XVIII]; para protegê-la, a marca foi coberta por uma folha de cobre. A mesa marcada foi preservada até o final do século XVIII, sendo então destruída, durante a época das revoluções, como tantos outros memoriais religiosos.
Capítulo XV
Dores do Purgatório - O Irmão de Santa Madalena de Pazzi - Stanislaus Chocosca - Beata Catarina de Racconigi
Santa Madalena de Pazzi, na sua célebre visão em que lhe foram mostradas as diferentes prisões do Purgatório, viu a alma do seu irmão, que morrera depois de ter levado uma vida cristã fervorosa. No entanto, esta alma foi detida em sofrimento por certas faltas, que não haviam sido suficientemente expiadas na terra. Esses - diz a santa - são os sofrimentos mais intoleráveis e, no entanto, os que são suportados com mais alegria. Ah! Por que isso não é compreendido por aqueles que não têm coragem de carregar a sua cruz aqui embaixo?
Afligida pelo espetáculo terrível que acabara de contemplar, a santa correu para junto da sua priora e, jogando-se de joelhos, gritou: 'Ó minha querida mãe, quão terríveis são as dores do purgatório! Eu nunca poderia ter acreditado nisso, se Deus não tivesse manifestado isso para mim. E, no entanto, não posso chamá-los de cruéis; em vez disso, são frutuosos pois que conduzem à felicidade inefável do Paraíso'.
Para imprimir isso cada vez mais em nossas mentes, aprouve a Deus dar a certas pessoas santas uma pequena parte das dores da expiação, como que uma gota do cálice amargo que as pobres almas devem beber, uma centelha do fogo que as consomem. O historiador Bzovius, em sua História da Polônia, datada de 1598, relata um acontecimento milagroso ocorrido ao Venerável Estanislau Chocosca, um dos luminares da Ordem de São Domingos na Polônia (Rossign., Merv., 67).
Um dia, enquanto este religioso, tomado de caridade para com os defuntos, recitava o Rosário, viu surgir diante dele uma alma toda envolta em chamas. Ao pedir-lhe que tivesse piedade dela e aliviasse os sofrimentos intoleráveis que o fogo da Justiça Divina a fazia suportar, o santo homem perguntou-lhe se este fogo era mais doloroso do que o da terra. 'Ah!" - ela gritou - 'todos os fogos da terra comparados com o do Purgatório são como uma brisa refrescante' (Ignes alii levis aurce locum tenent si cum ardore meo comparentur).
Stanislaus mal podia acreditar. 'Eu gostaria de ter uma prova' - disse então - 'Se Deus permitir, para o seu alívio e para o bem da minha alma, eu consinto em sofrer parte de suas dores'. 'Ai de mim! Você não poderia fazer isso. Saiba que nenhum ser humano poderia suportar tanto tormento e ainda viver. No entanto, Deus permitirá que você o possa sentir em um grau muito atenuado. Estenda sua mão'. Chocosca estendeu a mão e o falecido deixou cair sobre ela uma gota de suor, ou pelo menos de um líquido semelhante a isso. No mesmo instante, o religioso soltou um grito espantoso e caiu desmaiado no chão, tão intensa foi a sua dor. Seus irmãos acorreram em sua direção e apressaram-se em dar-lhe a assistência que a sua condição exigia.
Quando restaurado à consciência, ele relatou o terrível acontecimento e do qual eles tinham uma prova visível. 'Ah! meus queridos padres' - disse ele - 'se soubéssemos a severidade dos castigos divinos, nunca haveríamos de cometer pecado, nem deixaríamos de fazer penitências nesta vida, de modo a evitar a expiação na outra vida'. Stanislaus ficou confinado ao seu leito a partir daquele momento. Ele viveu mais um ano no mais cruel sofrimento causado por aquela terrível ferida; e então, pela última vez exortando os seus irmãos a se lembrarem dos rigores da Justiça Divina, ele dormiu pacificamente no Senhor. O historiador acrescenta que esse acontecimento reanimou o fervor em todos os mosteiros daquela província.
Lemos um fato semelhante na vida da bem-aventurada Catarina de Racconigi (Diario Dominicano, 4 de setembro; cf. Rossig., Merv., 63). Um dia, sofrendo tanto a ponto de precisar da ajuda de suas irmãs de religião, pensou nas almas do Purgatório e, para amenizar o calor de suas chamas, ofereceu a Deus o calor ardente de sua febre. Naquele momento, entrando em êxtase, foi conduzida em espírito ao lugar de expiação, onde viu as chamas e os braseiros nos quais as almas são purificadas sob grande tortura.
Enquanto contemplava, cheia de compaixão, este espetáculo comovente, ela ouviu uma voz que lhe disse: 'Catarina, para que possas obter o mais eficazmente a libertação dessas almas, deves participar, de alguma maneira, dos seus tormentos. Naquele instante, uma faísca se desprendeu do fogo e pousou em sua bochecha esquerda. As irmãs presentes viram a faísca nitidamente, e também viram com horror como o rosto da enferma ficou terrivelmente inchado.
Ela passou vários dias neste estado e, como a Beata Catarina disse às suas irmãs, o sofrimento causado por aquela simples centelha superou em muito tudo o que ela havia suportado anteriormente nas doenças mais dolorosas. Até então, Catarina sempre se dedicara com caridade ao alívio das almas do Purgatório mas, a partir de então, redobrou o fervor e as austeridades para apressar a libertação delas, porque conhecia por experiência própria a grande necessidade que as almas padecentes tinham pelo seu auxílio.
Capítulo XVI
Dores do Purgatório - Santo Antonino e os religiosos enfermos - Um quarto de hora no Purgatório - Irmão Angelicus
O que nos mostra ainda mais o rigor do Purgatório é que o período de tempo mais curto ali parece ser de duração muito longa. Todos sabem que os dias de gozo passam rapidamente e parecem curtos, ao passo que o tempo que se passou no sofrimento nos parece muito longo. Ó como passam lentamente as horas da noite para os pobres enfermos, que as passam em meio à insônia e à dor. Podemos dizer que quanto mais intensa é a dor, um tempo de curta duração parece muito mais tempo. Essa regra nos fornece uma nova medida para se avaliar os sofrimentos do Purgatório.
Encontramos nos Anais dos Frades Menores, do ano de 1285, um fato que também é relatado por Santo Antonino em sua Summa (Parte 4, §4). Um homem religioso que sofreu, por muito tempo, uma doença dolorosa, permitiu-se ser vencido pelo desânimo e rogou a Deus que o permitisse morrer, para que pudesse ser libertado de suas dores. Ele não pensou que o prolongamento de sua doença fosse uma misericórdia de Deus, que desejava assim poupá-lo de sofrimentos mais severos.
Em resposta à sua oração, Deus encarregou o seu anjo da guarda de oferecer a ele uma escolha entre morrer imediatamente e se submeter às dores do purgatório por três dias ou suportar a sua doença por mais um ano e então ir diretamente para o Céu. O enfermo, tendo a opção de escolher entre três dias no Purgatório e um ano de sofrimento na terra, não hesitou em escolher os três dias no Purgatório. Após um lapso de uma hora, o seu anjo foi visitá-lo em seus sofrimentos. Ao vê-lo, o pobre paciente queixou-se por estar ainda tanto tempo naqueles tormentos e acrescentou: 'a promessa é que eu ficaria aqui por apenas três dias'. 'Há quanto tempo' - perguntou o anjo - 'você acha que está aqui?' . 'No mínimo vários anos, quando deveriam ser apenas três dias'. 'Pois saiba' - disse o anjo - 'que você está aqui há apenas uma hora.
A intensidade da dor faz você se enganar quanto ao tempo: um instante parece um dia e uma hora parece vários anos'. 'Ai de mim então' - disse ele com um suspiro - 'fui muito cego e imprudente na escolha que fiz. Reze a Deus, meu bom anjo, que me perdoe e que me permita voltar à terra. Estou pronto para sofrer as doenças mais dolorosas, não apenas por dois anos, mas o tempo que aprouver a Deus. E ainda que fossem muito mais anos de doenças terríveis, eu os prefiro a uma única hora neste lugar de sofrimentos inexprimíveis'.
O fato seguinte foi transcrito da obra de um piedoso autor citado pelo Padre Rossignoli (Merv 17). Dois religiosos, de virtudes muito elevadas, competiam entre si para levar uma vida santa. Um deles adoeceu e teve uma visão de que morreria em breve, que seria salvo e que permaneceria no purgatório apenas o tempo decorrido até se celebrar a primeira missa em intenção do repouso de sua alma. Cheio de alegria por estas revelações, apressou-se a comunicá-las ao bom amigo e rogou-lhe que não se atrasasse na celebração da missa que lhe abriria o Céu.
Ele morreu na manhã seguinte e seu companheiro não perdeu tempo em celebrar o Santo Sacrifício por intenção de sua alma. Depois da missa, enquanto fazia a sua ação de graças e continuava a rezar pelo amigo falecido, este lhe apareceu radiante de glória mas, em tom de queixa levemente complacente, perguntou por que demorara tanto para celebrar a missa de que tanto precisava. 'Meu caríssimo irmão' - respondeu o religioso, 'como assim, demorei? Não entendo o que você está me dizendo'. 'Como assim? Você me deixou sofrer no Purgatório, por mais de um ano, antes de oferecer a missa pelo repouso da minha alma...'. 'Não, meu querido irmão, celebrei a missa quase que imediatamente após a sua morte e certamente esse tempo não passou de um quarto de hora'. Olhando para ele com emoção, a alma abençoada então respondeu: 'Quão terríveis são essas dores expiatórias, pois me fizeram trocar alguns minutos como se fossem um ano... Sirva a Deus, meu querido irmão, com extrema fidelidade, para que possas evitar esses castigos. Até breve. Vou para o Céu, onde estaremos juntos um dia!'
Esta severidade da Justiça Divina, em relação às almas mais fervorosas, explica-se pela infinita santidade de Deus, que descobre manchas naquilo que nos parece mais puro. Os Anais da Ordem de São Francisco falam de um religioso cuja santidade eminente o levara a receber o sobrenome Angelicus (Chronique des Freres Min., P. 2, 1, 4. c. 8; cf. Rossign.). Morreu em odor de santidade no mosteiro dos Frades Menores de Paris, e um de seus irmãos religiosos, doutor em teologia, convenceu-se de que, depois de uma vida tão perfeita, havia ido direto para o céu e que não havia, portanto, necessidade de orações, sendo omitida desta forma a celebração das três missas de obrigação que, segundo o costume do mosteiro, deveriam ser oferecidas na intenção da alma de cada membro falecido.
Após alguns dias, enquanto caminhava e meditava em recolhimento, apareceu-lhe o falecido envolto em chamas e disse-lhe, com voz pungente: 'Querido amigo, imploro que tenha piedade de mim!'. 'Como? Irmão Angelicus, você precisa da minha ajuda?' 'Sim, estou retido na prisão de fogo do Purgatório, à espera dos frutos do Santo Sacrifício que devias ter oferecido três vezes por minha intenção'. "Amado irmão, pensei que você já estava na glória eterna; depois de uma vida tão fervorosa e exemplar como a sua, eu não poderia imaginar que restasse ainda alguma dívida a ser paga'. 'Ai de mim!' - respondeu o falecido: 'ninguém pode conceber com que severidade Deus julga e pune as suas criaturas. A sua infinita santidade descobre objeções em nossas melhores atitudes, e até as mínimas imperfeições que o desagradam. E Ele exige que prestemos contas de tudo até o último centavo - Usque ad novissimium quadrantem'.
Capítulo XVII
Dores do Purgatório - Bem aventurada Quinziani - O Imperador Maurício
Na vida da bem-aventurada Stephana Quinziani, freira dominicana (Auctore Franc. Seghizzo; cf. Merv., 42; Marchese, 2 de janeiro), é feita menção a uma irmã chamada Paula, que faleceu no convento de Mântua, após um longa vida de virtude eminente. O corpo foi levado para a igreja e exposto no coro diante os religiosos. Durante a recitação do ofício, a bem aventurada Quinziani ajoelhou-se próximo ao esquife, recomendando a Deus as almas das religiosas falecidas, que lhe eram muito queridas.
De súbito, a falecida deixou cair o crucifixo que havia sido colocado entre as mãos e, estendendo o braço esquerdo, agarrou com força a mão direita da Irmã Quinziani, como o esforço final feito a uma mão amiga de um pobre doente sob o ardor escaldante da febre. Assim permaneceu por um tempo considerável e então, removendo o braço, rearrumou-se outra vez no caixão.
As religiosas, perplexas diante tal prodígio, pediram uma explicação à Irmã Quinziani. Ela respondeu então que, enquanto a falecida pressionava a sua mão, uma voz inarticulada havia falado ao fundo do seu coração, dizendo: 'Ajudai-me, querida irmã, socorrei-me na terrível tortura que sofro. Ó se conhecêsseis a severidade do Juiz que deseja todo o nosso amor, o grau de expiação que nos exige pelas menores faltas antes de nos admitir à recompensa! Se soubésseis o quão puros devemos ser para ver a face de Deus! Rezai, rezai e fazei penitência por mim, que não posso mais me ajudar!'. A bem aventurada Quinziani, tocada pela oração da amiga, impôs-se toda espécie de penitências e boas obras, até que soube, por uma nova revelação, que Irmã Paula havia sido libertada dos seus sofrimentos e entrado na glória eterna.
A conclusão natural que se segue dessas terríveis manifestações da Justiça Divina é que devemos nos apressar em dar satisfação por nossos pecados nesta vida. Certamente um criminoso condenado a ser queimado vivo não recusaria uma dor mais leve, se a escolha fosse sua. Suponha que lhe seja dito: 'Você pode livrar-se desse terrível castigo com a condição de jejuar por três dias a pão e água'; ele ousaria recusar? Aquele que porventura preferisse a tortura do fogo à penitência leve, não seria considerado alguém que teria perdido a razão? Assim, pois, preferir o fogo do Purgatório à penitência cristã é uma loucura infinitamente maior.
O imperador Maurício entendeu isso e agiu com sabedoria. A história relata que este príncipe, não obstante suas boas qualidades, que o tornaram querido por São Gregório Magno, já perto do final de seu reinado cometeu uma falta grave, a qual expiou por um arrependimento exemplar (Berault, Histoire Eccles., Ano 602). Tendo perdido uma batalha contra o Khan - rei dos Avari - ele se recusou a pagar o resgate dos prisioneiros, embora tenha sido pedido nesse intento um valor bastante baixo por cada um deles. Essa recusa mesquinha provocou no conquistador bárbaro uma ira tão violenta que ele ordenou imediatamente o massacre de todos os prisioneiros, cerca de doze mil soldados romanos. Caindo em si, o imperador reconheceu a sua culpa e a sentiu tão agudamente, que enviou dinheiro e oferendas para as principais igrejas e mosteiros, implorando a Deus a graça de puni-lo nesta vida e não na próxima.
E as suas orações foram ouvidas. No ano de 602, o general Pierre - irmão do imperador - resolveu obrigar as suas tropas a passar o inverno na margem oposta do rio Danúbio, o que motivou um motim e a deposição do general, sendo proclamado em seguida como imperador, Focas, um simples centurião. A cidade imperial seguiu o exemplo do exército e o imperador Maurício foi obrigado então a fugir durante a noite, após ter sido privado de todas as honras da realeza, que agora serviam apenas para aumentar os seus temores.
No entanto, foi reconhecido e preso, junto com a sua esposa, cinco de seus filhos e três filhas - ou seja, quase toda a sua família, exceção feita ao seu filho mais velho, que havia sido coroado como imperador e que, assim, escapou da morte. Maurício e seus cinco filhos foram massacrados impiedosamente perto da Calcedônia. A carnificina começou pela morte dos príncipes, que foram todos mortos diante dos olhos do infeliz pai, sem mesmo uma palavra dele de revolta contra Deus. Lembrando as dores do outro mundo, ele se considerou feliz por sofrer na vida presente, e durante todo o massacre ele não falou outras palavras senão as do salmista: 'Vós sois justo, ó Senhor, e Vosso julgamento é justo' (Salmo 118).
Capítulo XVIII
Dores do Purgatório - Santa Perpétua - Santa Gertrudes - Santa Catarina de Gênova - Irmão João de Via
Como já dissemos, a dor dos sentidos tem diferentes graus de intensidade: é menos terrível para aquelas almas que não têm pecados graves para expiar, ou que, já tendo cumprido a parte mais rigorosa de sua expiação, aproximam-se do momento de sua libertação. Muitas daquelas almas não sofrem mais do que a dor da perda, e até já começam a perceber os primeiros raios da glória celestial e a ter um antegozo da bem-aventurança.
Quando Santa Perpétua (Cf. Mar., eh. 7) viu o seu irmão mais novo Dinócrates no Purgatório, a criança não parecia ter sido submetida a nenhuma tortura cruel. A própria mártir escreve o relato dessa visão em sua prisão em Cartago, onde foi confinada pela fé em Cristo durante a perseguição sob Septimus Severus no ano de 205. O purgatório apareceu para ela sob a forma de um deserto árido, onde ela viu o seu irmão Dinócrates, que morrera aos sete anos. A criança tinha uma úlcera no rosto e, atormentado pela sede, tentava em vão beber das águas de uma fonte que estava diante dele, mas cuja borda era muito alta para se alcançar.
A santa mártir compreendeu que o seu irmão estava no lugar de expiação e que implorava pela ajuda de suas orações. Ela então orou por ele e, três dias depois, em outra visão, viu o mesmo Dinócrates no meio de lindos jardins. Seu rosto era lindo, como o de um anjo; ele estava vestido com um manto brilhante; a beira da fonte estava abaixo dele, e ele bebia copiosamente daquelas águas refrescantes em uma taça de ouro. A santa então compreendeu que a alma de seu irmão mais novo agora desfrutava da bem-aventurança do Paraíso.
Lemos nas Revelações de Santa Gertrudes que uma jovem religiosa do seu convento, por quem nutria um amor especial pelas suas grandes virtudes, morreu nos mais belos sentimentos de piedade (Revelationes Gertrudiana ac Mechtildiana - Henri Oudin, Poitiers, 1875). Enquanto recomendava fervorosamente essa querida alma a Deus, ela ficou extasiada e teve uma visão. A irmã falecida foi mostrada a ela em pé diante do trono de Deus, rodeada por uma auréola brilhante e em ricas vestes.
No entanto, ela parecia triste e preocupada; seus olhos estavam abaixados, como se ela tivesse vergonha de aparecer diante de Deus; parecia que ela queria fugir e se esconder. Gertrudes, muito surpresa, perguntou à Divina Esposa das Virgens a causa desta tristeza e constrangimento por parte de uma alma tão santa. 'Dulcíssimo Jesus' - ela exclamou - 'Por que a tua infinita bondade não convida a tua cônjuge a se aproximar de ti e a entrar na alegria do seu Senhor? Por que você a abandona assim, triste e receosa?'. Então Nosso Senhor, com um sorriso amoroso, fez um sinal para que aquela alma santa se aproximasse; mas ela, cada vez mais perturbada e após alguma hesitação e toda trêmula, retirou-se.
A essa visão, a santa dirigiu-se então diretamente à alma. 'O que minha filha! - disse à alma - 'você foge diante do Nosso Senhor que a chama? Você, que desejou tanto Jesus durante toda a sua vida, agora afasta-se quando Ele abre os braços para recebê-la?' 'Ah minha querida Mãe' - respondeu a alma - 'eu ainda não sou digna de comparecer perante o Cordeiro Imaculado. Ainda tenho algumas impurezas que contraí na terra. Para se aproximar do Sol da Justiça, é preciso ser tão puro quanto um raio de luz. Ainda não tenho aquele grau de pureza que Ele requer dos seus santos. Saiba que ainda que a porta do Céu fosse aberta para mim, eu não deveria ousar cruzar o limiar antes de estar totalmente purificada de todas as menores impurezas. Parece-me que o coro das virgens que rodeiam o Cordeiro me afastariam com repulsa e horror'. 'E, mesmo assim' - continuou a abadessa - 'vejo-te rodeada de luz e de glória!' 'O que você vê' - respondeu a alma - 'é apenas a orla da vestimenta da glória. Para usar este manto celestial, não devemos reter nem mesmo a sombra do pecado'.
Esta visão nos mostra uma alma muito perto da glória do Céu; mas a sua revelação sobre a santidade infinita de Deus foi de uma ordem muito diferente daquela que conhecemos. Este conhecimento pleno faz com que ela busque, como uma bênção, a expiação que sua condição requer para torná-la digna da visão do Deus três vezes santo.
Este é exatamente o ensinamento de Santa Catarina de Gênova. Sabemos que esta santa recebeu uma luz particular de Deus sobre o estado das almas no Purgatório. Ela escreveu uma obra intitulada 'Um Tratado sobre o Purgatório', que goza de uma autoridade igual à das obras de Santa Teresa. No Capítulo VIII dessa obra, ela assim se expressa: 'O Senhor é misericordioso. Ele está diante de nós com os braços estendidos para nos receber em sua glória. Mas vejo também que a Essência Divina é de tal pureza que a alma, a menos que esteja absolutamente imaculada, não pode suportar esta visão. Se ela encontrar em si mesma o menor átomo de imperfeição, em vez de habitar com uma impureza na presença da Divina Majestade, ela preferiria mergulhar nas profundezas do Inferno. Encontrando no Purgatório um meio de apagar as suas impurezas, ela se lança ali prontamente e se considera feliz que, por meio de uma grande misericórdia de Deus, seja dada a ela um lugar onde possa se libertar dos obstáculos à felicidade suprema'.
A História da Ordem Seráfica (Parte 4., n. 7; cf. Merv., 83) faz menção a um santo religioso chamado Irmão João de Via, que morreu piedosamente em um mosteiro nas Ilhas Canárias. O seu enfermeiro, o Irmão Ascensão, estava na sua cela rezando e recomendando a Deus a alma dos defuntos, quando de repente viu diante de si um religioso da sua Ordem, mas que parecia transfigurado. Ele estava tão radiante que a cela se encheu de uma bela luz. O irmão, quase fora de si de espanto, não o reconheceu, mas aventurou-se a perguntar quem era e qual era o motivo da sua visita. 'Eu sou' - respondeu a aparição - 'o espírito do irmão João de Via. Agradeço-lhe as orações que elevou ao Céu em meu favor e venho pedir-lhe mais um ato de caridade'.
'Saiba que, graças à misericórdia divina, estou no lugar da salvação, entre os predestinados para o Céu - a luz que me rodeia é uma prova disso. No entanto, ainda não sou digno de ver a face de Deus por causa de uma omissão que não foi expiada. Durante a minha vida mortal, omiti, por minha própria culpa, e por várias vezes, a recitação do Ofício dos Defuntos, conforme prescrito pela Regra. Rogo-te, meu querido irmão, pelo amor que tens a Jesus Cristo, que rezes esses ofícios de tal forma que a minha dívida seja paga e eu possa me deleitar da visão do meu Deus'. O Irmão Ascensão dirigiu-se de imediato ao seu superior e relatou o que havia acontecido, apressando-se a rezar os ofícios como solicitado. Então a alma do bem-aventurado Irmão João de Via apareceu novamente a ele mas, desta vez, mais brilhante do que antes, pois já estava na posse da felicidade eterna.
Capítulo XIX
Dores do Purgatório - Santa Madalena de Pazzi e Irmã Benedita - Santa Gertrudes - Bem Aventurada Margarida Maria e Madre de Montoux
Lemos na Vida de Santa Madalena de Pazzi que uma de suas irmãs, chamada Maria-Benedita, religiosa de virtudes eminentes, morreu em seus braços. Durante a sua agonia, a santa viu uma multidão de anjos que a rodeavam com cânticos de alegria, esperando que ela exalasse a alma para então ser conduzida por eles até à Jerusalém Celestial. No momento em que a religiosa expirou, a santa viu os anjos recolhendo a sua alma sob a forma de uma pomba com cabeça ornada em tons dourados e então a visão desapareceu. Três horas mais tarde, velando junto aos seus restos mortais, Santa Madalena teve conhecimento que a alma da falecida não estava no Paraíso e nem no Purgatório, mas em um lugar particular onde, sem sofrer nenhuma dor sensível, havia sido privada da visão de Deus.
No dia seguinte, enquanto se celebrava a missa em intenção pela alma de Maria-Benedita, durante a recitação do Sanctus, Madalena foi tomada novamente em êxtase e Deus lhe permitiu ver a entrada daquela alma virtuosa na glória divina. A santa ousou então perguntar ao nosso Salvador por que Ele não havia permitido a entrada imediata dessa alma querida à sua sagrada presença. E recebeu como resposta que, na sua enfermidade derradeira, a religiosa se mostrara muito sensível aos cuidados que lhe eram dispensados, o que perturbava a sua união habitual com Deus e a perfeita conformidade de sua alma com a Divina Vontade.
Voltemos então às Revelações de Santa Gertrudes, como mencionado previamente. Ali encontramos outro exemplo que mostra como, pelo menos para algumas almas, o sol da glória é precedido por um amanhecer que se irrompe gradualmente. Uma religiosa morreu na flor de sua idade nos braços do Senhor. Ela havia sido notável por uma terna devoção ao Santíssimo Sacramento. Depois de sua morte, Santa Gertrudes a viu, resplandecente de luz celestial, ajoelhada diante do Divino Mestre, cujas feridas glorificadas pareciam tochas acesas, das quais emanavam cinco raios flamejantes que transpassavam os cinco sentidos da falecida. Entretanto, o semblante dela era como que obscurecido por uma expressão de profunda tristeza. 'Senhor Jesus' - exclamou a santa - 'como pode a vossa serva ser assim iluminada por Vós e não experimentar a alegria perfeita?'
'Até agora' - respondeu o bom Mestre - 'essa vossa irmã tem sido digna de contemplar apenas a minha humanidade glorificada e de se deleitar diante às minhas cinco chagas, como recompensa pela sua terna devoção ao mistério da Sagrada Eucaristia; mas, a menos que numerosos sufrágios sejam oferecidos em seu favor, ela ainda não pode ser admitida à visão beatífica, por causa de alguns pequenos desvios cometidos por ela na observação de suas regras sagradas'.
Concluamos o que dissemos sobre a natureza dessas dores com alguns detalhes que encontramos na Vida da bem aventurada Margarida Maria da Visitação. São excertos retirados das Memórias da Madre Greffier que, sabiamente hesitante a respeito das graças extraordinárias concedidas à Beata Irmã Margarida, somente reconheceu estes fatos como verdadeiros depois de mil provações. Madre Philiberte Emmanuel de Montoux, Superiora de Annecy, faleceu em 2 de fevereiro de 1683, após uma vida dedicada à edificação da sua ordem religiosa. Madre Greffier recomendou particularmente à Irmã Margarida que orasse na intenção da alma da irmã falecida. Depois de algum tempo, a Irmã Margarida comunicou à sua superiora que Nosso Senhor lhe havia dado a conhecer que a alma da Madre Philiberte lhe era muito querida, pelo amor e fidelidade prestados aos seus serviços e que uma grande recompensa a esperava no Céu, mas que isso se daria somente após o cumprimento da sua purificação no Purgatório.
A bem aventurada Irmã Margarida pôde ver a alma da falecida em seu lugar de expiação. Nosso Senhor lhe mostrou os sofrimentos impostos à alma da falecida e como esta ficava muito aliviada com os sufrágios e as boas obras que diariamente eram oferecidas em sua intenção por todas as religiosas da Ordem da Visitação. Durante a noite da Quinta-Feira Santa para a Sexta-Feira Santa, enquanto a Irmã Margarida ainda rezava por sua alma, o Senhor fez ver a ela a alma da falecida exposta sob o cálice contendo a Hóstia Sagrada no altar, indicando, assim, que ela havia sido contemplada com os méritos da sua agonia no Horto das Oliveiras. No domingo de Páscoa, que naquele ano ocorreu no dia 18 de abril, a Irmã Margarida viu a alma desfrutando do limiar, por assim dizer, da felicidade eterna, aspirando ansiosamente para ser admitida à visão e à posse de Deus. Finalmente, quinze dias depois, no domingo, 2 de maio e dia da festa do Bom Pastor, ela teve a visão da alma da falecida elevando-se docemente à glória eterna, cantando melodiosamente o cântico do Amor Divino.
Vejamos como a própria Beata Margarida relata esta última aparição, em uma carta dirigida no mesmo dia, 2 de maio de 1623, à Madre de Saumaise em Dijon: 'Viva Jesus para sempre! A minha alma está tomada de uma alegria tão grande que mal consigo contê-la dentro de mim. Permita-me, querida mãe, comunicá-la ao seu coração, que é um com o meu no de Nosso Senhor. Esta manhã, domingo do Bom Pastor, ao meu despertar, duas das minhas boas irmãs sofredoras vieram despedir-se de mim. Hoje o Supremo Pastor as recebeu em seu aprisco eterno com um milhão de outras almas.
Ambas se uniram a essa multidão de almas bem aventuradas e partiram em meio a cânticos de alegria celestial. Uma é a boa Madre Philiberte Emmanuel de Montoux e a outra é a irmã Jeanne Catherine Gâcon. Uma repetia incessantemente estas palavras: 'O amor triunfa, o amor se alegra em Deus', enquanto a outra dizia: 'Bem aventurados os que morrem no Senhor e os religiosos que vivem e morrem na exata observância de suas regras'. Ambas queriam que eu dissesse a você que a morte pode separar as almas, mas nunca pode desuni-las. Se você soubesse como minha alma foi tomada de alegria! Enquanto eu falava com elas, eu as vi mergulhar suavemente na glória como alguém que submerge num vasto oceano. Elas pedem para você rezar, em ação de graças à Santíssima Trindade, um Laudate e três vezes Gloria Patri. Quando lhes pedi que intercedessem por nós, as suas últimas palavras foram que a ingratidão nunca entrou no Céu.
Capítulo XIX
Dores do Purgatório - Santa Madalena de Pazzi e Irmã Benedita - Santa Gertrudes - Bem Aventurada Margarida Maria e Madre de Montoux
Lemos na Vida de Santa Madalena de Pazzi que uma de suas irmãs, chamada Maria-Benedita, religiosa de virtudes eminentes, morreu em seus braços. Durante a sua agonia, a santa viu uma multidão de anjos que a rodeavam com cânticos de alegria, esperando que ela exalasse a alma para então ser conduzida por eles até à Jerusalém Celestial. No momento em que a religiosa expirou, a santa viu os anjos recolhendo a sua alma sob a forma de uma pomba com cabeça ornada em tons dourados e então a visão desapareceu. Três horas mais tarde, velando junto aos seus restos mortais, Santa Madalena teve conhecimento que a alma da falecida não estava no Paraíso e nem no Purgatório, mas em um lugar particular onde, sem sofrer nenhuma dor sensível, havia sido privada da visão de Deus.
No dia seguinte, enquanto se celebrava a missa em intenção pela alma de Maria-Benedita, durante a recitação do Sanctus, Madalena foi tomada novamente em êxtase e Deus lhe permitiu ver a entrada daquela alma virtuosa na glória divina. A santa ousou então perguntar ao nosso Salvador por que Ele não havia permitido a entrada imediata dessa alma querida à sua sagrada presença. E recebeu como resposta que, na sua enfermidade derradeira, a religiosa se mostrara muito sensível aos cuidados que lhe eram dispensados, o que perturbava a sua união habitual com Deus e a perfeita conformidade de sua alma com a Divina Vontade.
Voltemos então às Revelações de Santa Gertrudes, como mencionado previamente. Ali encontramos outro exemplo que mostra como, pelo menos para algumas almas, o sol da glória é precedido por um amanhecer que se irrompe gradualmente. Uma religiosa morreu na flor de sua idade nos braços do Senhor. Ela havia sido notável por uma terna devoção ao Santíssimo Sacramento. Depois de sua morte, Santa Gertrudes a viu, resplandecente de luz celestial, ajoelhada diante do Divino Mestre, cujas feridas glorificadas pareciam tochas acesas, das quais emanavam cinco raios flamejantes que transpassavam os cinco sentidos da falecida. Entretanto, o semblante dela era como que obscurecido por uma expressão de profunda tristeza. 'Senhor Jesus' - exclamou a santa - 'como pode a vossa serva ser assim iluminada por Vós e não experimentar a alegria perfeita?'
'Até agora' - respondeu o bom Mestre - 'essa vossa irmã tem sido digna de contemplar apenas a minha humanidade glorificada e de se deleitar diante às minhas cinco chagas, como recompensa pela sua terna devoção ao mistério da Sagrada Eucaristia; mas, a menos que numerosos sufrágios sejam oferecidos em seu favor, ela ainda não pode ser admitida à visão beatífica, por causa de alguns pequenos desvios cometidos por ela na observação de suas regras sagradas'.
Concluamos o que dissemos sobre a natureza dessas dores com alguns detalhes que encontramos na Vida da bem aventurada Margarida Maria da Visitação. São excertos retirados das Memórias da Madre Greffier que, sabiamente hesitante a respeito das graças extraordinárias concedidas à Beata Irmã Margarida, somente reconheceu estes fatos como verdadeiros depois de mil provações. Madre Philiberte Emmanuel de Montoux, Superiora de Annecy, faleceu em 2 de fevereiro de 1683, após uma vida dedicada à edificação da sua ordem religiosa. Madre Greffier recomendou particularmente à Irmã Margarida que orasse na intenção da alma da irmã falecida. Depois de algum tempo, a Irmã Margarida comunicou à sua superiora que Nosso Senhor lhe havia dado a conhecer que a alma da Madre Philiberte lhe era muito querida, pelo amor e fidelidade prestados aos seus serviços e que uma grande recompensa a esperava no Céu, mas que isso se daria somente após o cumprimento da sua purificação no Purgatório.
A bem aventurada Irmã Margarida pôde ver a alma da falecida em seu lugar de expiação. Nosso Senhor lhe mostrou os sofrimentos impostos à alma da falecida e como esta ficava muito aliviada com os sufrágios e as boas obras que diariamente eram oferecidas em sua intenção por todas as religiosas da Ordem da Visitação. Durante a noite da Quinta-Feira Santa para a Sexta-Feira Santa, enquanto a Irmã Margarida ainda rezava por sua alma, o Senhor fez ver a ela a alma da falecida exposta sob o cálice contendo a Hóstia Sagrada no altar, indicando, assim, que ela havia sido contemplada com os méritos da sua agonia no Horto das Oliveiras. No domingo de Páscoa, que naquele ano ocorreu no dia 18 de abril, a Irmã Margarida viu a alma desfrutando do limiar, por assim dizer, da felicidade eterna, aspirando ansiosamente para ser admitida à visão e à posse de Deus. Finalmente, quinze dias depois, no domingo, 2 de maio e dia da festa do Bom Pastor, ela teve a visão da alma da falecida elevando-se docemente à glória eterna, cantando melodiosamente o cântico do Amor Divino.
Vejamos como a própria Beata Margarida relata esta última aparição, em uma carta dirigida no mesmo dia, 2 de maio de 1623, à Madre de Saumaise em Dijon: 'Viva Jesus para sempre! A minha alma está tomada de uma alegria tão grande que mal consigo contê-la dentro de mim. Permita-me, querida mãe, comunicá-la ao seu coração, que é um com o meu no de Nosso Senhor. Esta manhã, domingo do Bom Pastor, ao meu despertar, duas das minhas boas irmãs sofredoras vieram despedir-se de mim. Hoje o Supremo Pastor as recebeu em seu aprisco eterno com um milhão de outras almas.
Ambas se uniram a essa multidão de almas bem aventuradas e partiram em meio a cânticos de alegria celestial. Uma é a boa Madre Philiberte Emmanuel de Montoux e a outra é a irmã Jeanne Catherine Gâcon. Uma repetia incessantemente estas palavras: 'O amor triunfa, o amor se alegra em Deus', enquanto a outra dizia: 'Bem aventurados os que morrem no Senhor e os religiosos que vivem e morrem na exata observância de suas regras'. Ambas queriam que eu dissesse a você que a morte pode separar as almas, mas nunca pode desuni-las. Se você soubesse como minha alma foi tomada de alegria! Enquanto eu falava com elas, eu as vi mergulhar suavemente na glória como alguém que submerge num vasto oceano. Elas pedem para você rezar, em ação de graças à Santíssima Trindade, um Laudate e três vezes Gloria Patri. Quando lhes pedi que intercedessem por nós, as suas últimas palavras foram que a ingratidão nunca entrou no Céu.
Capítulo XX
Diversidade das Dores - Rei Sancho e Rainha Guda - Santa Lidwina e a a Alma Transpassada - Santa Margarida Maria e o Leito de Fogo
Segundo os santos, existe uma grande diversidade nos tormentos das penas do Purgatório. Embora o fogo seja o principal instrumento de tormento, há também o tormento do frio, o tormento imposto aos membros e o tormento aplicado aos diferentes sentidos do corpo humano. Esta diversidade de sofrimentos parece corresponder à natureza dos pecados, cada um dos quais exige o seu próprio castigo, segundo estas palavras: Quia per quce peccat quis, per hcec et torquetur - 'Pelas mesmas coisas que se peca, se é atormentado' (Sb 11,17). Acolhe ser assim em relação aos castigos, uma vez que a mesma diversidade existe em relação á concessão das recompensas. No Céu cada um recebe segundo as suas obras e, como diz o Venerável Beda, cada um recebe a sua coroa e o seu manto de glória. Enquanto que, para o mártir, tem o esplendor da púrpura, para o confessor, possui o brilho de uma alvura deslumbrante.
O historiador João Vasquez, em crônica do ano 940, relata como Sancho, Rei de Leão, apareceu à Rainha Guda, sua esposa, e pela piedade dela, foi libertado do Purgatório. Sancho, que levara uma vida verdadeiramente cristã, foi envenenado por um de seus súditos. Após a sua morte, a Rainha Guda passou seu tempo orando e intercedendo por orações em intenção da alma do rei. Não contente por ter oferecido muitas missas nessa intenção, para que pudesse chorar e velar perto dos queridos restos mortais, a rainha tomou o véu no convento de Castela, onde o corpo de seu marido havia sido sepultado. Num sábado, enquanto rezava aos pés da Santíssima Virgem, recomendando-lhe a alma do seu falecido marido, Sancho apareceu-lhe - mas em que condições! Bom Deus! Ele estava vestido com roupas de luto e usava uma fileira dupla de correntes em brasa em volta da cintura. Depois de agradecer a sua piedosa viúva por seus sufrágios, ele a conjurou para continuar no seu trabalho de caridade. 'Ah! se você soubesse, Guda, o que eu sofro' - disse a ela - 'você faria ainda mais'. No abismo de graças da Divina Misericórdia, eu te conjuro: ajude-me, querida Guda; ajude-me, pois sou devorado por essas chamas'.
A Rainha redobrou então as suas orações e boas obras; distribuiu esmolas entre os pobres, fez com que fossem celebradas missas em todas as partes do país e deu ao convento um magnífico ornamento para ser usado no altar. Ao final de quarenta dias, o rei lhe apareceu novamente. Ele havia sido aliviado do cinturão ardente e de todos os seus outros sofrimentos. No lugar de suas vestes de luto, usava agora um manto de alvura deslumbrante, adornado com o ornamento que Guda dera ao convento. 'Eis-me aqui, querida Guda' - disse ele - 'graças às suas orações, fui libertado de todos os meus sofrimentos. Que você seja abençoada para sempre. Persevere em sua santificação; medite frequentemente sobre a severidade das dores da outra vida e sobre as alegrias do Paraíso, onde estarei à sua espera'. Com essas palavras, desapareceu, deixando a piedosa Guda envolta em profunda consolação.
Um dia, uma mulher, bastante desconsolada, foi dizer a Santa Lidwina que havia perdido o irmão. 'Meu irmão acabou de falecer', disse ela, 'e venho recomendar a sua pobre alma à sua instituição de caridade. Ofereça a Deus por ele algumas orações e uma parte dos seus sofrimentos devidos à sua doença'. A santa doente prometeu a ela de rezar pelo irmão e, algum tempo depois, em um de seus frequentes êxtases, foi conduzida por seu anjo da guarda às masmorras subterrâneas, onde viu com extrema compaixão os tormentos das pobres almas mergulhadas nas chamas. Uma delas em particular atraiu a sua atenção. Ela a viu atravessada por vergas de ferro. Seu anjo disse a ela que era a alma do irmão falecido da mulher que lhe havia pedido orações. 'Se você' - acrescentou o anjo - 'quiser pedir qualquer graça em seu favor, isto não será recusada a você'. 'Eu peço então' - respondeu - 'que ele seja libertado daqueles horríveis ferros que o transpassam'. Imediatamente ela os viu retirados do pobre sofredor, que então foi removido desta prisão especial e colocado naquela ocupada pelas almas que não haviam incorrido em nenhum tormento particular.
A irmã do defunto retornou pouco depois junto a Santa Lidwina, que a fez conhecer a condição de seu irmão falecido e exortou-a a ajudá-lo, multiplicando as suas orações e esmolas pelo repouso de sua alma. Ela mesma ofereceu a Deus as suas súplicas e sofrimentos, até que finalmente a alma dele foi libertada (Vida de Santa Lidwina).
Lemos na Vida da Bem-aventurada Margarida Maria que uma alma foi submetida em um leito de tormentos por causa da sua indolência durante a vida; ao mesmo tempo, foi submetida a um tormento particular em seu coração, por causa de certos sentimentos perversos e em sua língua, como punição por suas palavras pouco caridosas. Além disso, ela teve que suportar uma dor terrível de natureza totalmente diferente, causada nem pelo fogo nem pelo ferro, mas pela visão de uma alma condenada.
Vejamos como a Beata Margarida* o descreve em seus escritos. 'Eu vi em um sonho' - diz ela - 'uma de nossas irmãs que havia morrido algum tempo antes. Ela me disse que sofreu muito no Purgatório, mas que Deus infligiu a ela um sofrimento que superava todas as outras dores, mostrando-lhe um de seus parentes próximos precipitado no Inferno. Com essas palavras, acordei e senti como se meu corpo estivesse machucado da cabeça aos pés, de forma que era com dificuldade que eu conseguia me mover. Como não devemos acreditar nos sonhos, não dei muita atenção a este, mas a alma da religiosa me forçou a considerá-lo apesar de tudo. A partir daquele momento, não me deu descanso e dizia-me incessantemente: 'Reze a Deus por mim; ofereça a Ele os seus sofrimentos unidos aos de Jesus Cristo, para aliviar os meus; me dê tudo o que você fizer até a primeira sexta-feira de maio, quando você, por favor, comungue em minha intenção'. Fiz assim, com a permissão da minha Superiora.
Nesse ínterim, a dor que essa alma sofredora me causou aumentou a tal ponto que não pude encontrar conforto nem repouso. A obediência obrigou-me a buscar um pouco de descanso em minha cama; mas mal havia repousado, ela pareceu aproximar-se de mim, dizendo: 'Você reclina-se à vontade em sua cama; olha aquela em que me deito e onde suporto sofrimentos intoleráveis'. ' Eu vi aquele leito de fogo e só de pensar nisso estremeço. A parte superior e inferior eram de pontas agudas e flamejantes que perfuravam a carne. Ela me disse então que isso se devia à sua preguiça e negligência na observância das regras. 'Meu coração está dilacerado' - ela continuou - 'e me causa os mais terríveis sofrimentos por meus pensamentos de desaprovação e crítica aos meus superiores. Minha língua é devorada por vermes e, por assim dizer, arrancada de minha boca continuamente, pelas palavras que proferi contra a caridade e minha pouca consideração pela regra do silêncio. Ah! Oxalá todas as almas consagradas a Deus me vissem nestes tormentos. Se eu pudesse mostrar a eles o que está preparado para aqueles que vivem negligentemente sua vocação, seu zelo e fervor seriam inteiramente renovados e eles evitariam aquelas faltas que agora me fazem sofrer tanto'.'
Diante dessa visão, derreti-me em lágrimas. 'Ai de mim!' - disse ela - 'um dia passado por toda a comunidade em observância exata iria curar minha boca ressecada; outro, vivido na prática da santa caridade, curaria minha língua; e um terceiro, passado sem qualquer murmúrio ou desaprovação aos superiores, curaria meu coração machucado; mas ninguém pensa em me aliviar'. Depois de ter oferecido a Comunhão que ela me pediu, ela me disse que os terríveis tormentos haviam diminuído muito, mas ela ainda tinha que permanecer muito tempo no Purgatório, condenada a sofrer as dores por aquelas almas que viveram mornas ao serviço de Deus. 'Quanto a mim' - acrescenta a bem-aventurada Margarida Maria - 'descobri que estava livre de meus sofrimentos que, como ela me havia dito, não diminuiriam a menos que ela própria fosse aliviada' (Languet, Vida da B. Margarida).
* canonizada em 13 de maio de 1920.