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O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO

 

Padres Carmelitas

ADEODATO JUAN, CARDEAL PIAZZA
Bispo de Sabina e Poggio Mirteto

Secretário da Sagrada Congregação Consistorial Carmelita Descalço

P. DA ESPANHA - MADRID - 1953

 

NIHIL OBSTAT:
FR. JACINTO DE SANTA TERESA
FR. HENRIQUE DO SAGRADO CORAÇÃO Madrid, 9-II-63.

 

IMPRIMI POTEST:
FR. PEDRO TOMÁS DE LA SF Vigário Provincial.
Com Licença Eclesiástica

 

ÍNDICE

 

I. O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO NO MISTÉRIO DA REDENÇÃO.

 

> As efusões do Sangue

> Os Apóstolos do Sangue

> O valor do sangue de Cristo

> A virtude redentora do Sangue

> Os benefícios do sangue

> O Sacramento e o Cálice de Sangue

> A Mãe

> Um Homem e um Povo

 

II. O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO NO MISTÉRIO DA IGREJA.

 

> A Esposa lavada no Sangue

> O Corpo Místico de Cristo

> A distribuição do sangue

> A Fonte Perene

> <<Ager Sanguinis>>>

> Primavera de Sangue

> Os Triunfos do Sangue

 

III. - A HORA DO SANGUE.

 

> O sangue humano desconsagrado

> Negligências e profanação do Sangue Divino

> A Mística do Sangue

> O Culto do Sangue de Cristo

> Aos Ministros do Sangue

> As Esposas do Sangue

> Aos Arautos do Sangue

> A todos os Filhos do Sangue

 

Talvez o hino eucarístico mais utilizado entre os cristãos, e também o mais conhecido, seja o Pange Língua. Neste hino, somos convidados a cantar o mistério do Corpo glorioso e do preciosíssimo sangue de Cristo. Desse Sangue - cantamos - que o Rei das nações, fruto de entranhas generosas, derramou para a redenção do mundo: "in mundi pretium" (Ofício de Corpus).

 

O mistério do Sangue! Santo Tomás de Aquino, o Doutor da Eucaristia, na primeira estrofe desse hino com o qual enriqueceu a inspirada Liturgia da Igreja, resume como em síntese os detalhes deste comovente mistério. São eles: A nobreza deste Sangue, que brota da fonte virginal, que é Maria; o valor inestimável que lhe é conferido pela Pessoa divina que o assumiu; o seu derramamento em oblação para a reconquista da Humanidade perdida; a Realeza universal de Cristo, conquistada com o preço desse Sangue derramado: Rex effudit gentium.

 

Canta, ó língua, o mistério do Sangue. Mas antes que a língua cante, é preciso que a inteligência medite, embriagando-se com as sublimidades deste tema, sobre o qual se fundamenta toda a vida cristã.

 

Assim, pois, contemplaremos o PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO à luz misteriosa destes dois quadros sublimes:

 

A Redenção, e a Igreja.

 

Meditando neste soberano mistério, não poderemos deixar de compreender claramente quais são os nossos deveres nesta HORA DO SANGUE, na qual, amedrontados, estamos vivemos dentro do Corpo Místico de Cristo, que continua perpetuando o seu martírio.

#I

O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO NO MISTÉRIO DA REDENÇÃO

 

A redenção humana é, ao mesmo tempo, um fato e um mistério. A história descreve o fato. A fé nos propõe o mistério, que a doutrina teológica trata depois de explicar na medida em que é possível.

 

Ora, no fato, ou melhor, na trama dos fatos, encontramos uma tapeçaria de Sangue. Todo o mistério da nossa Redenção é um mistério de Sangue; do Sangue Daquele que é, precisamente, o Deus-Homem. Sem ele, nem se compreende a Redenção, nem sequer teria existido no plano que a Divina Providência a predeterminou e revelou.

#

AS EFUSÕES DO SANGUE

 

Abramos o santo Evangelho. Sua primeira e última página ostentam vestígios de Sangue.

 

Como uma flor mal entreaberta, espalhando seu aroma celestial, Jesus nascera sete dias antes e eis que já, nos mesmos braços da Mãe, padece o rasgo e a ignominia da circuncisão. Algumas gotinhas de Sangue consagram assim o nome de Jesus, que significa Salvador, como dolorosas primícias de uma Redenção que havia de ser copiosa tanto no fluir do Sangue quanto nos efeitos. Tal havia de ser o epílogo da missão de Cristo, no crepúsculo avermelhado de sua existência terrena.

 

Jesus sua Sangue no Horto das Oliveiras, rodeado pelas sombras da noite e pelas trevas de uma tristeza mortal. A prensa espreme seu Coração e faz escorrer dele, pelos poros, grossas gotas que, deslizando pelo rosto e por todo o corpo, vão empapando as vestes e encharcando o solo. É assim que o Profeta O surpreende, em tanta amargura, solidão e abandono, e Lhe pergunta: Por que é, pois, vermelha a tua veste, e as tuas roupas como as do que pisa no lagar? E a resposta é desoladora: Eu pisei sozinho no lagar, e nenhum homem dentre os povos estava comigo (Is 63, 3). Era a prensa do amor infinito.

 

A cena termina tornando-se macabra no Pretório de Pilatos: Jesus é despido, amarram-No à coluna e descarregam sobre Ele, por todas as partes, os flagelos, agitados com fúria de tempestade pelos legionários. Daqueles membros lívidos e desolados brota com força o Sangue, avermelhando tudo ao redor.

 

Como se não bastasse, acrescenta se ainda à flagelação a barbárie da Coroação de Espinhos. Colocam-Lhe sobre a cabeça um feixe de ramos espinhosos, retorcidos em forma de coroa. As pontas longas e endurecidas cravam-se nas têmporas e em todos os contornos da cabeça å força de golpes de cana, fazendo aparecer um diadema de Sangue.

Horrível, mas digna Coroa para o Rei do amor e dos Mártires!

 

Subindo para o Calvário, ao longo da Via Dolorosa, vai deixando marcada no chão uma trilha de Sangue divino, onde quer que assente o seu pé (Santo Afonso).

 

Quando tropeça, ou cai exausto sob o peso do enorme madeiro, volta a brotar mais sangue dos novos machucados que se abrem nos joelhos e nas mãos. É quando a piedosa Verónica se aproxima para enxugar Lhe o rosto, que fica maravilhosamente desenhado no lenço com traços de Sangue.

 

Quando depois, no cume do outeiro, a Vítima é estendida sobre o altar da Cruz e os cravos rasgam suas mãos e seus pés, fixando-os ao tronco, novamente saem jorros de Sangue por aquelas chagas. E ao ser levantada a Cruz com sua dupla carga, eis que um gotejar continuo, proveniente de todas as feridas, prossegue caindo, até que as veias se esvaem e o Coração deixa de bater. Consummatum est.

 

Mas não. Ainda nos resta outro tesouro por descobrir! Aproxima-se o centurião que, com um golpe, crava sua lança no lado esquerdo, e do Coração trespassado, brotam água e Sangue. É o último dilaceramento prodigioso, que manifesta, melhor que qualquer outra prova, a profundidade inefável deste mistério.

 

Nessa atitude, em tão sublime postura, devia permanecer imutável e imortal, o divino Crucificado por todos os séculos.

#

OS APÓSTOLOS DO SANGUE

 

Foram os doze. Mas de modo particular o foram os dois mais privilegiados do Colégio apostólico: Pedro e João. A estes se juntou mais tarde Paulo, a quem Jesus derrubou por terra e deixou cego à porta de Damasco, para que, no meio daquela luminosa cegueira, vislumbrasse a cena e o mistério do Calvário. A teologia do Sangue não pode ter melhores intérpretes, nem mestres de maior autoridade.

 

PEDRO, o chefe, não viu Jesus em sua sangrenta agonia do Horto com seus olhos sonolentos, mas, sim, O viu pendente da Cruz, ainda que de longe. Por isso, pôde chamar-se a si mesmo testemunha dos padecimentos de Cristo (1 Pd 5,1). Mas onde talvez ele tenha compreendido melhor o mistério foi quando, no pátio da casa do Pontífice, olhou e viu de relance aquele semblante triste de Jesus, ainda marcado pelas manchas do suor sanguíneo da noite, ao mesmo tempo que começou a pesar em sua consciência o delito que acabara de cometer, negando três vezes ao seu Mestre. Veio-lhe à memória, naquele momento, a referência ao Cordeiro, que três anos antes ouvira da boca do Batista: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo (Jo 1. 29). Por conseguinte, poderia tirar-lhe também o seu pecado!

 

Começou, pois, a chorar com aquele pranto tão amargo que só terminará junto com a sua vida. Por isso, ao escrever de Roma aos cristãos da dispersão, saúda-os assim: eleitos segundo a presciência de Deus Pai, e santificados pelo Espírito (Santo), para prestarem obediência a Jesus Cristo e serem aspergidos com o seu sangue (1 Pd 1. 2). E mais adiante os admoesta: sabendo que fostes resgatados da nossa vã maneira de viver recebida de vossos pais, não a preço de coisas corruptíveis, de prata ou de ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, o cordeiro sem defeito e sem mancha (1 Pd 1, 18-19). Que profunda emoção encerram estas palavras!

 

JOÃO: o discípulo predileto, a quem Jesus amava (Jo 21, 20), aquele que contemplou dessangrado na Cruz o Cordeiro de Deus, que já The indicara com o dedo o Batista, e o que recebeu de bem perto as primeiras salpicaduras do Sangue precioso. João, em seu Evangelho, em sua primeira Epistola e no Apocalipse, faz a apologia do Sangue divino com acentos comovedores. É ele quem descreve a cena do Ecce homo, e somente ele nos transmitiu o dado sobre aquele golpe misterioso da lança (Jo 19,34). O bispo de Hipona destaca o estudado da expressão ao dizer o evangelista: não golpeou ou feriu o lado de Cristo, mas, disse, abriu aperuit, "para indicar que foi aberta, de fato, aquela porta vital por onde manam os Sacramentos da Igreja, sem os quais não é possível entrar na verdadeira vida". E, ali mesmo, na descrição, revela-se o mistério!

 

O Apóstolo clama forte, escrevendo aos fiéis da Ásia: Deus é luz... se andamos na luz (da verdade e da santidade), como ele mesmo também está na luz, temos comunhão reciproca, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado (1 Jo 1,5-7). Recordando talvez o sangue do lado, exclama: Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus (e procede segundo esta fé)? Este Jesus Cristo é aquele que veio pela água e pelo sangue (1 Jo 5, 5-6).

 

Exatamente; são o Sangue da Redenção e a água do Batismo, que tem daquele Sangue origem e virtude purificadora. Por isso, o Apóstolo afirma que o Sangue, junto com a água e com o Espírito, que são uma só coisa em Jesus, são os que dão testemunho de sua Divindade (1 Jo 5, 8). Nas visões do Apocalipse, São João invoca desde o principio paz para os crentes; a paz de Jesus Cristo, que é a testemunha fiel, o primogênito (o primeiro que ressuscitou) dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. Aquele que nos ama e nos livrou dos nossos pecados pelo seu sangue, e fez de nós um reino e sacerdotes para Deus e seu Pai (Ap 1, 5-6).

 

Verdades estupendas que se voltam a encontrar no cântico novo que entoam os anciãos diante do Cordeiro! Digno és de receber o livro e de abrir os seus selos, porque foste morto e resgataste para Deus, com o teu sangue, homens de toda a tribo, língua, povo e nação, e fizeste deles, para o nosso Deus, um reino e sacerdotes, e reinam sobre a terra (Apoc. 5, 9-10), e aqueles que O venceram (ao dragão infernal) pelo sangue do Cordeiro (Ap 12, 11).

 

Quem são os santos? Aqueles que vêm da grande tribulação e lavaram suas túnicas e as alvejaram no Sangue do Cordeiro (Ap 7,14).

 

Desta maneira, a tragédia do Calvário, dominando a História humana, chega ao seu termo e tem sua glorificação na apoteose da eternidade.

 

O APÓSTOLO SÃO PAULO. Paulo de Tarso, o fariseu perseguidor de Cristo e dos cristãos, uma vez fulminado pela graça e diretamente iluminado pelo Divino Mestre, transformou-se em um Apóstolo incansável e no teólogo do Sangue divino. Enquanto São João escruta com seu olhar penetrante o futuro, São Paulo volta-se para olhar o passado, para demonstrar como todo o Antigo Testamento se resolve e se sublima no Novo. Recorda aos de Éfeso e aos Colossenses o imenso beneficio da predestinação divina para chegarem a ser filhos adotivos de Deus por mediação de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para glorificação de sua graça in laudem gloriae gratiae suce. E é por essa graça, por meio da qual nós chegamos a ser aceitos por Deus em seu Filho muito amado, no qual temos a Redenção por meio de seu Sangue e a remissão dos pecados segundo a riqueza de sua graça (EF 1, 5-7; CI 1, 13-14).

 

Dirigindo-se aos hebreus, São Paulo enaltece a Pessoa e a Obra de Jesus Cristo, que confirmou os sacrifícios da Lei Antiga ao fundar o novo Pacto, infinitamente mais nobre e mais santo: Cristo, vindo como pontífice dos bens futuros, passando pelo meio de um tabernáculo mais excelente e perfeito, não feito por mão de homem, isto é, não desta criação, e não com o sangue dos bodes ou dos bezerros, mas com o seu próprio sangue, entrou uma só vez no santuário, conseguindo-nos uma redenção eterna (Hb 9, 11-12).

 

Por isso, regozija-se o Apóstolo com aqueles de seus conacionais que já se aproximaram do Mediador da Nova Aliança, Jesus, e da aspersão do Sangue, que fala melhor que a de Abel (Hb 12, 24). Exorta-os com toda ternura, dizendo-lhes: Tendo, pois, irmãos, em virtude do Sangue de Cristo, firme confiança de entrar no santuário que Ele nos abriu como caminho novo e vivo através do véu, isto é, de sua carne.... Aproximemo-nos com coração sincero, com fé perfeita, purificados os corações de toda consciência má (Hb 10,19-22).

 

Com eloquência semelhante expõe a doutrina da justificação escrevendo aos romanos: Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e agora são justificados gratuitamente por sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs como propiciação pela fé em seu Sangue, para manifestação de sua justiça, pela tolerância dos pecados passados (Rm 3, 23-25). Esta passagem nos oferece uma síntese estupenda do pensamento paulino e, através dele, do profundo mistério da justificação humana.

 

A causa primeira que opera é Deus. A causa segunda meritória, é Jesus Cristo. Terceira causa instrumental (como a chamam os teólogos), é o Sangue de Cristo. Agora, a justificação, que consiste precisamente na remissão dos pecados pela graça santificante, não se aplica à alma senão por meio da fé no Sangue de Cristo: per fidem in sanguinem eius. O fim supremo a que miram todos os méritos da graça é a manifestação da justiça divina: ad ostensionem iustitiae suae. Temos, pois, todos os fatores e termos que integram a Redenção e, à luz deste mistério, as maravilhas do preciosíssimo sangue. Tudo quanto de agora em diante dissermos não passará de uma mera divulgação de tão elevados conceitos.

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0 VALOR DO SANGUE DE CRISTO

 

Convém assinalar desde já, no Sangue de Cristo, uma nobreza de origem. Na mensagem da Anunciação se disse que Aquele que havia de nascer: será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de David, seu Pai (Lc 1, 32). Trata-se, pois, de um Sangue real que destila através dos séculos até chegar a correr pelas veias de uma Virgem. Jesus é a flor aberta na plenitude dos séculos sobre a vara de Jessé, é a raiz e a descendência de David, a estrela resplandecente da manhã (Ap 22, 16). Quem quer que se escandalize porque Jesus adotou a natureza humana de um povo que depois O haveria de cravar na Cruz, não entende nada do drama mundial do Filho de Deus, o qual, como sumo sacerdote, o pós a ação divina da morte redentora ao crime de seus crucificadores (Pio XI, Con viva ansia, 1937).

 

Mas esta nobreza de origem é ainda superada por uma nobreza superior e divina. Esse Sangue, oferecido por uma Mãe que permanece Virgem, recolhido e vivificado pelo Espírito Santo, foi assumido para estar unido à Pessoa do Verbo, vindo a ser assim: o Sangue de Deus.

 

Não há palavra humana que acerte a expressar, nem mente alguma que possa compreender quanto vale cada gota e cada átomo deste Sangue divino. Seu preço é, na realidade, infinito.

 

Só que, em ordem à Redenção, tem valor unicamente o Sangue derramado. Quando São Paulo afirmou que, sem derramamento de sangue, não há remissão (Hb 9, 22), fez algo a mais que recordar a lei levítica; assentou, assim, um principio profundamente radicado na consciência humana, que é para expiar as culpas nada serve senão o sangue. Mas, qual sangue?

 

Os pagãos e quantos haviam perdido, junto com as noticias de uma revelação primitiva, o sentido de uma proibição inspirada na dignidade do homem, sacrificaram às suas falsas divindades, com um ritual horripilante, holocaustos de virgens e de crianças inocentes.

 

Os judeus, ao contrário, que conservaram intacta a revelação e, com ela, o veto absoluto: Não matarás, houveram de buscar outras vítimas. Foi o próprio Deus quem lhas indicou: cordeiros e cabritos, touros e bezerros, que eram degolados sobre os altares em cerimônias diárias ou periódicas. Mas, que eficácia podia ter aquele sangue de animais, senão a de significar uma limpeza puramente exterior, por meio de uma santidade legal que se acomodasse às intenções do culto? Necessitava-se de um sangue mais nobre para expiar a culpa.

 

Na realidade, nenhum sangue bastaria, se não fosse o Sangue de Deus.

 

Não podia ter tido outra solução o conflito entre as duas leis. As exigências de uma expiação que, tendo em conta os direitos e os interesses da Divindade, deveria adotar proporções infinitas, pediam, como consequência, a necessidade de um sacrifício de valor infinito. Eis por que, ao entrar no mundo, diz (Cristo no Pai): "Não quiseste sacrifício nem oblação, mas formaste-me um corpo; os holocaustos e os sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis-me que venho" (Hb 10, 5-7). O Apóstolo raciocina assim: se o sangue dos bodes e dos touros, e a cinza de uma novilha, aspergindo os impuros, os santificam e lhes dão a pureza da carne, quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu a si mesmo sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras de morte para servir a Deus vivo! (Hb 9, 13-14).

 

Não se podia determinar melhor o valor e a eficácia deste Sangue, derramada por um ímpeto do amor, que é o que caracteriza e valoriza todas as outras abundantes efusões, até o esgotamento total. Bastaria uma só gota para redimir o mundo inteiro. Não obstante, Jesus quis derramá-lo todo, gota a gota. E, por quem? Por nós, pecadores! Eis aqui o heroísmo da caridade! Eis aqui o fundamento de nossa esperança!

 

Deus como diz São Paulo provou seu amor para conosco em que, sendo pecadores, Cristo morreu por nós. Com maior razão, pois, justificados agora por seu Sangue, seremos por Ele salvos da ira (Rm 5. 8-9). Ó, que triunfo maior este da caridade divina sobre nós! Sangue e fogo, amor inestimável!, exclamava Santa Catarina de Sena. E o dulcíssimo São Boaventura assim nos convida: Olha para cima e vê como a rosa sanguinolenta da paixão se cobre de púrpura em sinal de um amor ao vermelho vivo. A caridade e a paixão disputam entre si; aquela, por ser a mais ardente, esta, por ser mais cruenta... A flor preciosa do céu, ao chegar à plenitude dos tempos, abriu-se de todo e em todo o corpo, banhada pelos raios de um amor ardentíssimo. A labareda vermelha do amor refulgiu no vermelho vivo do Sangue (A vide mística, с. 23).

#

A VIRTUDE REDENTORA DO SANGUE

 

Devemos aprofundar ainda mais em nossa meditação e, para fazê-lo, tomaremos por guia o Doutor Angélico (efr. Summa, III, q. 48). O poema da Redenção é como um prisma de muitas faces irisadas. Em cada uma destas faces veremos resplandecer um reflexo sanguíneo.

 

Com efeito, a Redenção é o dom do divino Sangue à Humanidade, para enriquecê-la de méritos que não tinha. Nem os tinha nem podia tê-los, posto que a culpa havia matado nela a raiz mesma do mérito, a caridade. Era necessário que Cristo, Primogênito entre muitos irmãos (Rm 8, 29), cedesse as próprias riquezas a estes, com quem estava intimamente solidarizado em virtude de sua natureza humana. Tais riquezas não eram outras senão as que Ele granjeara com seu Sangue. Pois no Sangue está a vida, e dar o sangue quer dizer precisamente dar a vida. Ora, ninguém teve jamais um amor maior que quem deu a vida por seus amigos (Jo 15, 13). Todo a origem de nossos merecimentos está neste dom inefável.

 

A Redenção é a resposta divina à voz do Sangue de Cristo, implorando de seu Pai perdão para nós, em nosso favor. Nada tem maior eloquência que o sangue. A primeira vez que se viu a terra manchada com sangue, Deus gritou imediatamente indignado a Caim, o fratricida: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama a mim desde a terra (Gn 4, 10). Mas, ai! A provocação dos sanguinários multiplicou-se quase até o infinito no decurso dos séculos. Para poder calar essa voz que clama vingança, precisava se de outra voz mais poderosa que clamasse, por sua vez, misericórdia. Esta voz foi a do Sangue do Deus Homem: Melius loquentem quam Abel (Hb 12, 24). São Paulo faz esta observação: Nos dias da sua vida mortal, oferecendo, com grande brado e com lágrimas, preces e súplicas, ao que o podia salvar da morte (pela ressurreição), foi atendido pela sua piedade (para com Deus), (...) tornou-se a causa da salvação eterna para todos os que lhe obedecem (Hb 5, 7-9). Eram precisamente gritos e lágrimas de Sangue.

 

A Redenção equivale ao preço do Sangue, oferecido por Cristo ao Pai com duas finalidades: a de dar Lhe uma satisfação condigna pela ofensa que lhe fizera o gênero humano, e a de conseguir para este a liberdade dos filhos de Deus. Quem jamais, entre os nascidos no ódio; que pessoa pôde jamais aproximar-se do Santo inacessível para Lhe dizer: Perdoa? Fazer com Ele um pacto eterno? Arrebatar Lhe a presa ao vencedor do inferno? (Manzoni, A Natividade).

 

A ofensa que, no que diz respeito a Deus, era infinita, exigia uma reparação de valor infinito. As cadeias da escravidão sob o império de Satanás e do pecado, e cravadas sobre os pulsos dos homens, não poderiam ser quebrantadas senão por uma força infinita. Como observa Santo Agostinho: Enquanto os homens tiveram facilidade para se venderem, agora não poderiam resgatar-se; pior, nem sequer tinham possibilidade de resgatar-se. O preço de semelhante resgate é nada menos que o Sangue de Cristo. Nada é capaz de se lhe comparar, porque realmente seu valor é tão grande que com ele se pode comprar o mundo inteiro e todos os povos.

 

A Redenção é uma consequência do oferecimento do Sangue em holocausto à Divindade. Ao transtornar o pecado as relações entre o Criador e suas criaturas, disputa com Deus os direitos soberanos e a glória que só a Ele é devida. O sacrifício pretende reparar tão delituoso atentado e a monstruosa desordem da culpa, mediante o reconhecimento solene do domínio de Deus sobre todos os seres e particularmente sobre o homem, sobre a vida e sobre a morte. Por esta razão, a efusão do sangue, que equivale a uma destruição da vida, constitui a essência do perfeito sacrifício. Oblação única; capaz de remediar o desequilíbrio moral e de restituir a Deus toda a glória; oblação cruenta, que só Cristo pôde oferecer, quem precisamente, tendo oferecido um sacrifício pelos pecados, para sempre se sentou à direita de Deus... De maneira que, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os santificados (Hb 10, 12-14).

 

Por último, a Redenção é o admirável efeito do banho do Sangue, derramado sobre as almas desde feridas da Humanidade do Redentor. Tal é o conceito que com frequência se encontra nos Livros Sagrados e nas afetuosas elevações dos Padres e Doutores da Igreja. A culpa mancha e deforma a alma, que se converte, assim, em objeto repugnante para Deus. Ora, nenhum banho pode penetrar com sua eficácia até a alma, senão o que se realiza com este Sangue divino, que opera precisamente em virtude da Divindade, à qual está inseparavelmente unida. Este é o banho prodigioso preparado para nós, pecadores, pelo amor heroico e inesgotável de nosso Deus.

 

Santo Ambrósio exclama: Salve, ó Vitima de salvação, oferecida por mim e por todo o género humano no patíbulo da Cruz! Salve, ó nobre e precioso Sangue, que fluis das chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo Crucificado e que limpais os pecados de todo o mundo! Lembra-Te, Senhor, de tua criatura, redimida com teu Sangue.

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O BENEFÍCIO DO SANGUE

 

O grande Santo Tomás nos convida novamente a distanciarmo-nos no campo do mistério, para melhor compreender e valorar a riqueza dos frutos da Redenção (III, q. 49), levando-nos da consideração da admirável e múltipla virtualidade do Sangue de Cristo à dos efeitos obtidos na realidade. O beneficio é imenso. Melhor seria dizer que aqui se trata de um cúmulo de benefícios.

 

O primeiro deles é a liquidação da culpa e de todas as suas fatais consequências. Deus como vem a dizer São Paulo nos salvou e nos chamou com vocação santa, não em virtude de nossas obras, mas em virtude de seu propósito e da graça que nos foi dada em Cristo Jesus (2 Tm 1, 9). Graça que floresceu precisamente em seu Sangue, segundo afirma o mesmo São Paulo em outro lugar: Em Cristo temos a Redenção e a Remissão dos pecados mediante seu Sangue (Cl 1, 14).

 

Os conceitos de redenção e de libertação equivalem. Quitado o pecado, que é como uma hipoteca que o demônio tem posta sobre as almas, desmorona todo o reino satânico. Ante a iminência de sua paixão, Jesus havia predito: O príncipe deste mundo será lançado fora, e Eu, quando for levantado da terra (isto é, sobre a Cruz), atrairei tudo a Mim (Jo 12, 31-32). Da mesma maneira atribui o Apóstolo das Gentes esse mesmo dom inefável de Deus ao Sangue de Cristo, ao liurar-nos do poder das trevas e trasladar-nos ao reino do Filho de seu amor (Cl 1, 13).

 

Remitida já a culpa, o castigo não tem mais razão de ser. Daqui que podemos considerar-nos livres também do inferno e das penas temporais, segundo seja a medida em que participamos do beneficio do Sangue. Pois não convém esquecer que somente os assinalados com o Sangue do Cordeiro hão de ser respeitados pelo anjo exterminador, do mesmo modo que foram respeitadas no Egito as casas dos hebreus, cujas portas ostentaram os sinais feitos com o sangue do cordeiro pascal (cf. Ex 12), quando teve lugar aquele massacre terrífico dos primogênitos egípcios.

 

Outra série de benefícios é a que encerra o conceito de Reconciliação. Diz o Apóstolo: Estáveis então sem Cristo, afastados da sociedade da Igreja, estranhos à aliança da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo; enquanto que agora, por Cristo Jesus, os que outrora estáveis longe, fostes aproximados pelo Sangue de Cristo (Ef 2. 12-13). Sim, estávamos muito afastados de Deus, de quem nos havia inimistado a culpa: mas, uma vez derrubada a barreira que nos separava, eis-nos de novo em seus braços, como filhos e amigos de adoção. Afastados também uns dos outros como irmãos, nos havíamos tornado outra coisa que irmãos, mais bem lobos (homo homini lupus). mas, quando a graça e a caridade refizeram os corações, eis que se voltaram a reatar e a ficar soldados os vínculos da verdadeira fraternidade mediante o Sangue de Cristo. Desta maneira, o abismo que distanciava as nações ficou também aberto, destruindo-se por outra parte e para sempre as diferenças de raças, de atavismos, de hegemonias, e vindo a ser refundidos todos os povos em um só e grande povo, modelado com o Sangue Redentor.

 

A Cruz foi, a maneira de ponte, estendida entre a terra e o céu.

 

com o fim de facilitar a comunicação entre os desterrados da terra e os bem-aventurados do Reino eterno. Porque: foi do agrado do Pai que residisse nele toda a plenitude e que por ele fossem reconciliadas consigo todas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as coisas da terra como as do céu (Cl 1, 19-20).

 

Um terceiro beneficio derivado do Divino Sangue foi a exaltação da Humanidade, por cujas veias começou a circular aquele Sangue, enobrecendo até o infinito nossa estirpe. Bem disse o bispo de Hipona: Ele fez também precioso o sangue dos seus, por quem deu o preço de seu Sangue. Eis aqui nossa autêntica nobreza! Gloriar-nos daquela herança que recorda nosso sangue infectado pela pessoa de origem significaria proclamar nossa vergonha. Em troca, a consciência da nova dignidade de filhos adotivos de Deus, feitos tais pela graça de Cristo, por quem fomos enobrecidos sobre nossa primitiva nobreza, nos confere a galhardia de poder levantar nossa fronte, antes envilecida pelo rubor da culpa, para poder, agora, olhar ao céu como uma herança prometida e assegurada: Se filhos, também herdeiros (Rm 8, 17).

 

São Lourenço Justiniano comove a alma pondo de relevo este mesmo pensamento. Diz: A púrpura do Sangue de Cristo me faz amável para Deus e para o mundo. Amável e honrado. As turbas de bem-aventurados se perguntam: Quem é este tão digno de ver-se com tal vestidura? (Is 63, 1). Quem é este que vem avançando glorioso, coroado com o Sangue de Cristo?

 

A flor mais admirável que brotará eternamente junto a esta torrente de Sangue foi certamente Aquela que houve de prestar-lhe seu próprio sangue ao Verbo divino: a Virgem Mãe. A Igreja ensinou ao mundo uma doutrina profunda ao definir como dogma de fé a Concepção Imaculada de Maria. Ela também é filha da Redenção. Mas o é de uma maneira muito mais elevada e perfeita: Sublimiori modo redempta. Não foi livrada, senão prevenida da culpa original. E o foi precisamente graças e em vista dos futuros merecimentos de Cristo, isto é, de seu Sangue divino. Com efeito; como poderia estar contaminado aquele sangue que havia sido escolhido para ser transfundido às veias de seu Filho Deus? O Sangue do Cordeiro sem mancha foi, pois, o que com efeito retrospectivo preservou também o da Mãe, quem por isso mesmo veio a ser, em certa maneira, segundo feliz expressão de Dante: filha de seu Filho. E nós recordamos com emoção que a encantadora beleza de Maria, de seu corpo e de sua alma, é um prodígio do Sangue Redentor.

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O SACRAMENTO E O CÁLICE DO SANGUE

 

Antes da festa da Páscoa, vendo Jesus que chegava sua hora de passar deste mundo ao Pai, tendo amado aos seus que estavam no mundo, ao fim extremadamente os amou (Jo 13, 1). Com estas palavras tão solenes, que deixam transparentar a tristeza do momento e de uma recordação inapagável, delineou o Apóstolo do amor os traços daquele grande acontecimento e mistério do Cenáculo: a instituição da Eucaristia.

 

Que motivos impeliram a Jesus? Talvez sua iminente despedida, que comportava uma separação: transiturus de hoc mundo ad Patrem? O, não! Com isso o amor não teria ficado satisfeito! Havia aceitado e havia querido a morte, mas não havia aceitado suas duas desventuradas e naturais consequências: a separação e o esquecimento. Todos quantos O rodeavam e ficavam no mundo ainda deviam pertencer-Lhe sempre e nunca haveriam de esquecer que Ele estava disposto a suportar precisamente por eles a paixão e a morte tormentosíssima. O ideal divino que Jesus levou a efeito na Eucaristia, sacramento e sacrifício da Nova Lei, foi precisamente a união mais estreita e profunda entre Ele e nós, assim como a perpetuidade de seu holocausto e de sua morte.

 

Não poderia ter-se imaginado nada nem mais prodigioso nem divino que a união eucarística, pela qual se nos dá o Corpo de Cristo em comida e seu Sangue em bebida: Accipite et comedite. Bibite ex hoc omnes (Mt 26, 26-27). Ο Apóstolo São Pedro, que também relata o sucedido no Cenáculo como os evangelistas, nos desvenda o efeito admirável de nossa incorporação a Cristo, da qual se segue a união íntima e recíproca de quantos participam do mesmo Sacramento: O cálice de bênção que bendizemos, não é a comunhão do Sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é a comunhão do Corpo de Cristo? Porque o pão é um, somos muitos um só corpo, pois todos participamos deste único pão (1 Cor 10, 16-17). E aqui temos o mistério da Igreja, brotando do mistério do Corpo e do Sangue do Senhor!

 

O sangue puríssimo das uvas (Dt 32, 14) vem a transformar-se no Sangue imaculado de Cristo, a fim de transfundir-se em nosso sangue para embalsamá-lo e divinizá-lo. É uma maravilha e compêndio de maravilhas divinas esta transubstanciação, que põe em compromisso a todos os atributos divinos, pois, como diz São Alberto Magno: A bondade divina nos deu em bebida espiritual o Sangue, a caridade divina nos redimiu com o Sangue e a potência divina converteu o vinho em Sangue. Mas não é menor prodígio a transfusão e a divinização que lhe sucede. Diz o mesmo Santo: Uma das maravilhas maiores que tenha feito o Senhor foi a de unir tão intimamente a natureza humana com o Corpo e o Sangue de Cristo; com o mesmo Cristo. Efetivamente, é neste Sacramento diviníssimo, recebido dignamente, no qual nós nos convertemos em "concorpóreos e consanguíneos" de Cristo (São Cirilo de Jerusalém).

Jesus administrou seu próprio Sangue separado do Corpo no único cálice do qual beberam todos os Apóstolos: Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós (Lc 22, 20).

 

O pensamento nos vai espontaneamente a outro cálice, que umas poucas horas mais tarde foi sustentado por um anjo sobre os lábios de Jesus agonizante, enquanto rezava: Pai, se queres, aparta de Mim este cálice. Mas não se faça minha vontade, senão a tua (Lc 22, 42). A aceitação deste cálice, que continha a infinita amargura da paixão, confirmou e perpetuou o cálice misterioso do Cenáculo. Depois de semelhante fiat, deu início àquele derramamento de Sangue, que, gota a gota, ia desprendendo-se do Corpo, resvalando e empapando a terra, consagrada assim por ele e constituindo-se no primeiro altar do mundo. Este não era senão o primeiro derramamento de Sangue dos que profetizou Cristo: in sanguine meo, qui pro vobis effundetur, e que no Cenáculo teve lugar misticamente, assim como o tem em todas as Missas que se celebram, oferecendo-se o Sangue separado do Corpo. E outro tanto se diga da morte de Cristo, a que igualmente se perpetua na Eucaristia por disposição do mesmo: Fazei isto em memória de Mim (Lc 22, 19).

 

Por conseguinte, foi inaugurado no Cenáculo o Novo Testamento, que é pacto de Sangue. O Apóstolo afirma: Onde há testamento, é preciso que intervenha a morte do testador. O testamento é válido pela morte (Hb 9, 16-17). Ora, sabemos que no Calvário se ratificou com Sangue definitivamente, e, por isso continua, em vigor dito pacto, que diariamente se renova no sacrifício eucarístico: in sanguine meo; isto é, no Sangue de um testamento que, ao mesmo tempo, é novo e eterno: in sanguine testamenti aeterni (Hb 13, 20).

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A MÃE

 

Jesus, Filho de Deus vivo, também era Filho do homem. Ele tinha deleite em denominar-se com este título, não só por humildade, senão para dar-nos a entender que levava a cabo sua missão e sua obra redentora naquela vestidura de sua Humanidade, destinada a ser horrivelmente dilacerada. Ora, dizer Filho do homem não é dizer outra coisa que Filho de Maria, posto que ambos títulos são equivalentes. Esta é a razão pela qual o Sangue de Jesus é assim também o Sangue da Virgem. Por isso, quando a Mãe divina visse correr aquele Sangue, pôde pensar: É meu Sangue! Em realidade, não teria sofrido mais se aquele Sangue vivo tivesse brotado de seu próprio corpo virginal. Esta consideração nos dá alguma medida do quanto Maria participou no sacrifício cruento da Cruz.

 

Já em outro tempo, foi Ela quem viu brotar as primeiras gotinhas de sangue na circuncisão, e lhe pareceu sentir derramar-se o Coração. Pressentiu de imediato aquele drama de Sangue que o ancião profeta lhe prognosticou, ao anunciar-lhe que uma espada havia de atravessar-lhe a alma. Seria a mesma espada que devia matar a seu Filho (Lc 2, 35). Possivelmente a realidade, quando sucedeu, houve de superar todas as previsões. Mas Ela havia já pronunciado seu fiat quando começou a ser Mãe. O mesmo fiat que pronunciara Jesus ao passar os umbrais de sua própria tragédia. E assim se uniram perfeitamente as vontades de ambos para aceitar e querer o mesmo sacrifício; os dois Corações que ofereceram juntos a mesma oblação daquele Sangue, que, ao mesmo tempo, saía das veias do Filho e do Coração da Mãe. Daqui lhe vem todo o sublime significado de seu título de Corredentora.

 

Para compreender, ainda que só seja confusamente, o que custou à Virgem a Paixão de seu Filho, seria necessário conhecer a fundo o coração e a alma de uma mãe, e, em nosso caso, de tal Mãe; sua virginal delicadeza e sua maternal sensibilidade, somente superadas pela fortaleza heroica que a manteve erguida e unida aos pés da Cruz: stabat. Eis aqui outra palavra mais reveladora, que João Evangelista nos diz sobre quando ele também permaneceu de pé junto à Virgem, nos momentos em que, por vontade do Moribundo, foi feito filho seu (Jo 19, 25-26). Assim, as últimas gotas daquele orvalho sangrento vieram a cair sobre a Mãe, quem o recolheu todo em suas mãos imaculadas, para apresentar ao Pai Eterno aquele Sangue de seu Filho e seu.

 

No Novo Testamento, ela é a primeira Sacerdotisa, depois de Cristo, posto que dito Testamento ficou sancionado com aquele Sangue pelo duplo martírio. Ninguém melhor que Ela compreendeu o que valia tal oblação. Ninguém jamais adorou nem poderá adorar mais profundamente e mais dignamente este mistério do Sangue.

 

Quem soubesse compor um poema em honra do Sangue divino, deveria consagrar as estrofes mais delicadas a cantar este amor maternal e sangrante, que resultou universal e sempre presente onde quer que uma gota do Sangue de Cristo tenha ido brilhar e cair nas almas, para infundir nelas a graça e o amor. O piedoso autor do Stabat Mater intentou escrever algumas estrofes desse poema deveras divino. São curtas e comovedoras. A Igreja as adotou para sua liturgia. No entanto, há que afirmar que nenhuma poesia pode traduzir o que foi o Coração consumido desta Mãe. Com o poeta, também nós lhe pediremos: "Virgem..., sua paixão e morte tenha em minha alma, de sorte que sempre suas penas veja". E com o mesmo poeta ousaremos pedir ainda mais: "Fazei que sua Cruz me enamore, e que nela viva e more, ébrio do Sangue de teu Filho".

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UM HOMEM E UM POVO

 

O homem que apareceu durante a noite da prisão de Jesus, chefiando os esbirros, para trair o Mestre com um beijo, desapareceu logo entre as trevas, embora não tardasse em sair para vingar em si mesmo seu próprio delito. Era um dos Apóstolos; o que conservava a bolsa da comunidade. Desta vez pôde lançar nela trinta dinheiros.

 

Enquanto Pilatos, face ao povo, hipocritamente lavava as mãos, declarando em sua tola persuasão que queria declinar toda responsabilidade: Eu sou inocente do Sangue deste homem justo (Mt 27, 24), o traidor começava a sentir sobre sua consciência todo o peso daquele Sangue. Vencido por aquele peso, precipita-se para o templo e arroja com raiva no chão as trinta moedas, gritando aos que lhe haviam corrompido a alma: Pequei, entregando um Sangue inocente (Mt 27, 4). A seguir, desaparece e dirige-se ao campo do Sangue, para enforcar-se em uma árvore. Mas a corda não aguentou o peso do traidor morto e, ao romper-se, deixou-o cair, ficando espalhadas pelo chão as vísceras pela força do golpe. Sangue por Sangue!

 

Aquele homem era o expoente de uma raça, o sombrio representante do povo judeu, em cujo seio fermentou o deicídio. Porque todo aquele povo foi deicida; desde os pontífices e os sacerdotes para baixo, até a plebe, instigada por eles, liberando seus instintos sanguinários: Crucifica-O, crucifica-O!, e que, para vencer as últimas resistências do governador romano, lhe imprecou delirante: Que seu Sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos! (Mt 27, 25).

 

E o sangue que imprecaram os pais passou à cerviz dos filhos, que, manchados por séculos e séculos vão, sem que nada os possa lavar.

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(Manzoni: A Paixão)

 

O povo judeu, convertido em deicida, depois de haver sido o eleito pelo Senhor, disperso agora e entremeado com todos os povos, conserva sempre seu caráter inconfundível, qual um estigma da reprovação. Este povo, que se enreda sempre com as seitas mais tenebrosas, com a maçonaria, com o bolchevismo; que se imiscui nos mais sangrentos acontecimentos revolucionários e nas guerras mais ferozes, como recentemente na da Espanha dilacerada, tentando talvez apagar à força de sangue humano a grande mancha do Sangue divino traído; semelhante povo, que em todo tempo e lugar provoca as mais violentas reações, e que ainda hoje vai pagando com seu próprio sangue a dívida por aquele delito impagável, na terra mesma de seus pais que um dia se empapou com o Sangue de Cristo; esse povo que, não obstante, parece gozar do terrível dom da imortalidade, deve, sim, deve permanecer vagando e assinalado como Caim, precisamente para que sirva de testemunho, ainda que seja com seu ódio inextinguível, do Sangue divino um dia derramado e jamais expiado.

 

Converter-se-á? É um dos acontecimentos que estão anunciados para o fim do mundo. Enquanto isso, a Igreja roga com sua piedosa generosidade: Et pro perfidis Judaeis. E nós oramos com ela: Oh, que Deus Nosso Senhor rompa o véu que cobre seu coração, para que finalmente também eles reconheçam a Jesus Cristo, Senhor Nosso! Não importa que a Igreja seja o alvo de suas iras e perseguições. Se bem se olha, é o mais natural. Ao suceder por direito à sinagoga, tendo sido reprovado o povo judeu, a Igreja segue acolhendo em seu regaço, desde há vinte séculos, a um povo inumerável que ocupa o posto daquela, proclamando-se linhagem eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido... pela virtude d'Aquele que nos chamou das trevas a sua luz admirável (1 Pd 2, 9). Mas, embora perseguida, a Igreja continua rogando por seus perseguidores, a fim de que o Senhor se volte à piedade e torne em salvação a palavra malvada com que, um dia, seu povo o desafiou. Enquanto isso, seguiremos repetindo para eles e para nós mesmos aquele anseio do poeta:

 

Que aquele Sangue sobre eles desça, mas em chuva que, mansa, os lave. Todos erramos; que nossas ofensas fiquem lavadas nesse Sangue.

(Manzoni, 1. c.).

#II

 O PRECIOSÍSSIMO SANGUE DE CRISTO NO MISTÉRIO DA IGREJA 

 

A adorável Pessoa do Redentor domina os séculos. O Apóstolo São Paulo pôde afirmar: Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje e pelos séculos (Hb 13, 8). Em efeito, o Cristo histórico se antecipou no Cristo divinamente prometido e vivido na fé dos patriarcas e dos profetas, e hoje sobrevive no Cristo místico, vivente ainda na Igreja e nas almas.

Tal é o fruto de sua obra admirável, a Redenção. Embora seja certo que em seus elementos causais esta esteve circunscrita à vida mortal de Cristo, desde o primeiro instante de sua concepção até o último suspiro da Cruz, contudo, em todos os séculos que Lhe precederam houve sua preparação, sempre magnífica, e em todos os séculos que Lhe sucederam, houve aplicação admirável da mesma, que a fez sempre atual e inesgotável. Por isso, o Sangue de Cristo sela, embora em forma distinta, o Antigo e o Novo Pacto. No primeiro, esteve figurado nos sacrifícios legais, e antecipou, por assim dizê-lo, sua eficácia em virtude da fé num futuro derramamento. No Novo, está recolhido no seio da Igreja e continua derramando-se através dos séculos em místicas efusões, que levam por todas as partes a virtude e os frutos da Redenção. Vamos fixar mais esta ideia.

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A ESPOSA LAVADA NO SANGUE

 

A Igreja é a sociedade dos homens que vivem a vida de Cristo. Resulta constituída por dois elementos essenciais: o elemento visível e natural, que são os próprios homens que formam parte de tal sociedade. O elemento invisível e sobrenatural é o outro, e precisamente é a vida da graça trazida à terra e comunicada pelo Redentor: Eu vim para que tenham vida, e a tenham abundante (Jo 10, 10). Pois bem: tal comunicação supõe a união íntima e contínua da Igreja com Cristo. Eis aqui o mistério que só conhecemos pela fé e que, em sua amplitude e profundidade, transcende nossa inteligência.

 

O Apóstolo São Paulo, Doutor do Sangue de Cristo, nos oferece duas concepções, divinamente inspiradas, que abrem caminho para poder chegar a conhecer esta realidade mística, sublime e transcendental.

 

A Igreja é a Esposa de Cristo. E Cristo - escreve São Paulo aos de Éfeso amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, purificando-a no batismo da água pela palavra, para apresentar a si mesmo esta Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e imaculada (Ef 5, 25-27). Da mesma maneira se expressa São João, que, segundo seu Apocalipse, escutou o convite do anjo: Vem e te mostrarei a noiva, a Esposa do Cordeiro. E o anjo segue contando o vidente - levou-me em espírito a um monte grande e alto, e me mostrou a cidade santa, Jerusalém, que descia do céu da parte de Deus, que tinha a glória de Deus (Ap 21, 9-10). A mística Jerusalém, cidade de Deus e esposa do Cordeiro, refulgente de beleza e de glória divina, é precisamente a Igreja.

 

Ora, há que se dizer que esta esposa nasceu no Sangue, foi lavada no Sangue e pelo Sangue ficou vinculada a Cristo, quem a fez mãe dos vivos segundo o espírito. O Doutor da graça, Santo Agostinho, com quem fazem coro outros Padres e Doutores, ensina: A primeira mulher foi extraída do lado do primeiro homem enquanto este dormia, e por isso foi chamada vida e mãe dos vivos. Dessa maneira, esteve simbolizado naquele fato este bem tão grande, ainda antes do grande mal da prevaricação. E, com efeito, o segundo Adão, inclinando sua cabeça no abandono da morte, dormiu na Cruz, a fim de que fosse formada sua Esposa, que saiu de seu lado, ao tempo que Ele permanecia dormido com o sono da morte. E o grande Bispo exclama entusiasmado: Ó morte, pela qual os mortos recobram a vida! Que outra coisa pôde haver jamais mais puro que este Sangue? Quem pôde imaginar nada mais salutar que esta ferida?

Ficamos extasiados na presença desta última criação do amor de um Deus crucificado, que, sobre o leito de sua Cruz, quis escolher uma Esposa, admiravelmente formosa, coberta com a púrpura de seu próprio Sangue, para dar-nos nela uma Mãe que transmitisse aquele Sangue divino às almas, em chuva benéfica e em banho purificador.

 

A Igreja foi constituída por Jesus herdeira de todas as inestimáveis e imensas riquezas de sua Redenção e, portanto, de seus méritos infinitos, que, no final das contas, não são outra coisa que seu preciosíssimo Sangue. A Igreja é Mãe dos santos precisamente porque é a eterna conservadora do Sangue incorruptível (Manzoni: Pentecostes).

 

É conservadora e distribuidora. Pois, na realidade, é no Sangue de Cristo em que esta Mãe, prodigiosamente fecunda, gera os filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (Jo 1, 13). É neste Sangue de Cristo que a Mãe piedosa e solícita lava seus filhos e os alimenta para a eternidade. Finalmente, é o Sangue de Cristo o que a Igreja, seguindo ternamente preocupada pela sorte de seus filhos além do sepulcro, faz descer sobre suas almas em forma de chuva refrescante.

 

Que grande consolo poder repetir com o grande serafim do Carmelo, Santa Teresinha: Ao fim, sou filha da Igreja! Doce mistério, que São Paulo delineia em outra luminosa concepção.

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O CORPO MÍSTICO DE CRISTO

 

Aquele corpo natural que se formou no seio da Virgem por obra do Espírito Santo, corpo divinamente belo e perfeito, com o qual Cristo realizou o drama cruento e o mistério da Redenção; que mais tarde ressuscitou do sepulcro em sua integridade física e com todo o Sangue que havia perdido (cfr. Summa, III, q. 54, a. 2), desde o dia memorável da Ascensão, encontra-se agora à direita de Deus Pai, sempre vivo para interceder por nós (Hb 7, 25). Mas antes de separar-se Jesus de seus Apóstolos, assegurou-lhes: Eu estarei convosco sempre até a consumação do mundo (Mt 28, 20). E longe de haver faltado jamais a sua promessa, Ele permanece, efetivamente, sempre presente de maneira misteriosa e tão intimamente unido à Igreja, que faz com ela seu Corpo místico, do qual Ele é Cabeça e nós, seus membros. Tal é a sublime realidade, descoberta pela estupenda doutrina de São Paulo.

 

A Igreja é a obra-prima de Cristo, quem a fundou com o fim de que continuasse administrando os bens da Redenção às almas dos crentes no decurso dos séculos. Mas isso não teria sido possível se não se criasse um organismo vivente que recebesse de Cristo o fluxo continuado da vida, com o fim de que fosse transfundido aos membros articulados e unidos para formar um organismo.

 

Este organismo é exatamente a Igreja, a qual recebe da Cabeça, que é Cristo, a vida da graça para comunicá-la a seus membros, que são os cristãos. Assim como sendo o corpo um, tem muitos membros... assim também é Cristo...Vós sois o corpo de Cristo e cada um em parte seu membro, ensina o Apóstolo (1 Cor 12, 12-27). E em outro lugar insiste: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo e Pai da glória... sujeitou todas as coisas debaixo de seus pés e O pôs como cabeça de todas as coisas na Igreja, que é um corpo, a plenitude d'Aquele que cumpre tudo em todos (Ef 1, 17-23). O que significa que Cristo e a Igreja são inseparáveis, formando um só organismo. E se a Igreja, que é o corpo, completa a Cristo, sua Cabeça, é a própria Cabeça quem inunda todos os membros que Lhe estão aderidos no corpo com as riquezas da graça, fruto da Redenção.

 

Ora, o Corpo místico de Cristo não pode viver senão com seu Sangue místico, que não é outra coisa que os méritos de sua Paixão e Morte, que, qual torrentes de Sangue, percorrem constantemente os membros, partindo do Coração, que é o depósito imensamente grande e inesgotável. E quais serão os canais misteriosos deste Sangue que, qual artérias escondidas, a repartem por todo o corpo com um movimento de fluxo e refluxo sem descanso? São os sacramentos, instituídos pelo próprio Redentor e instalados no Corpo da Igreja como instrumentos dotados do poder de significar e produzir a graça. Por isso, se são meros instrumentos, não criam a graça, senão que simplesmente a comunicam, derivando-a do Coração de Cristo e repartindo-a por todo o Corpo místico da Igreja.

 

Como consequência do que foi dito, segue-se a necessidade absoluta de ter que permanecer incorporados a esse Corpo, para poder receber as comunicações da vida divina. Santo Agostinho faz esta observação a este propósito: Do espírito de Cristo não vive senão o Corpo de Cristo. Queres, pois, viver tu também do espírito de Cristo? Permanece no Corpo de Cristo.

 

Semelhante incorporação se realiza pelo Batismo, que regenera os homens em Cristo por meio da água e do Espírito Santo. Aqui é a água a que tem a virtude do Sangue da Redenção. Afirma São Lourenço Justiniano: Ninguém pode pertencer ao Corpo de Cristo sem haver sido antes limpo pelo Sangue de Cristo.

 

Mas não bastam estes começos. Necessita-se que a primeira incorporação prossiga e se aperfeiçoe. Da mesma forma que o Corpo real de Cristo consta de membros puríssimos, assim também seu Corpo místico, a Igreja, está composto de fiéis purificados. E assim como os membros de um corpo humano não vêm animados pelo espírito se não permanecem compactos em sua união, assim, da mesma forma, nenhum fiel terá o espírito vivificante de Cristo se não perseverar na união da Igreja, coluna e base da verdade (São Lourenço Justiniano).

 

É necessário compreender e apreciar melhor este inefável benefício que é o pertencer à Igreja: o benefício de nossa incorporação ao Corpo místico de Cristo, de quem nos dimanam todos os demais bens de graça e de glória.

 

Deveríamos ter um vivo sentimento, o orgulho santo, uma alegria incontida por gozar de semelhante dignidade, que nos dá, não somente o ser cristãos, senão o próprio Cristo, a quem fomos incorporados. Como afirma Santo Agostinho: Transformamo-nos em Cristo, posto que Ele é a Cabeça, nós somos seus membros. Ele e nós formamos todo o homem.

 

Daí que devamos juntar um fervoroso agradecimento a Nosso Senhor, que nos fez tão inestimável favor, com uma preocupação constante por fazer que esta incorporação a este Corpo místico seja cada dia mais profunda, por meio da fé e da graça; de maneira que cheguemos a poder receber abundantes efusões de Sangue e de vida, e crescer espiritualmente qual varões perfeitos, à medida da plenitude de Cristo (Ef 4, 13).

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A DISTRIBUIÇÃO DO SANGUE

 

No Corpo místico, tal como no corpo natural, nem todos os membros desempenham a mesma função. Todos recebem o suficiente para manterem-se vivos, mas somente alguns estão em disposição de dar além aos outros, cooperando ativamente à conservação e ao crescimento do organismo inteiro. Isto mesmo explica a missão que tem o sacerdócio de administrar, sob as ordens do Chefe supremo, Cristo, as riquezas da Redenção, isto é, o preciosíssimo sangue.

 

O mesmo que desceu diz São Paulo é o que subiu acima de todos os céus para cumprir todas as coisas; e Ele constituiu uns Apóstolos, outros profetas, estes evangelistas, aqueles pastores e doutores, para a perfeição consumada dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo (Ef 4, 10-12). Tal é, por conseguinte, a função dos bispos e dos sacerdotes e tal é sua divina missão na Igreja e pela Igreja. Eles são os órgãos que transmitem naturalmente a graça para santificar aos demais membros e dar crescimento ao Corpo místico.

 

Nós, os bispos e sacerdotes, percebemos a inefável beleza desta missão e, ao mesmo tempo, não podemos deixar de lamentar a desproporção de nossas forças. Mas nos sentimos ao mesmo tempo felizes em poder consagrar toda nossa atividade para levar a cabo tal encomenda e em unir a ela nossos insignificantes sacrifícios pessoais. De maneira que podemos repetir como o Apóstolo das gentes: Alegro-me de meus padecimentos por vós, e supro na minha carne o que falta às tribulações de Cristo por seu Corpo, que é a Igreja, da qual sou Ministro (Cl 1, 24-25).

 

Essa é a palavra exata: Ministro da Palavra e Ministro do Sangue. O sacerdote tem uma dupla autoridade, de magistério e de ministério. Uma complementa a outra, e ambas perseguem idêntico fim: a santificação dos membros do Corpo místico. A palavra sozinha teria um som vazio, se não conduzisse à comunicação do Sangue. Esta se leva a efeito de três maneiras pelo sacerdócio:

 

Mediante a administração gratuita.

Pela administração dos sacramentos.

E oferecendo o santo sacrifício.

 

Que outra coisa são as indulgências que a Igreja concede aos fiéis sob determinadas condições indulgências parciais, plenárias, solenes de jubileu, senão dons gratuitos do Sangue de Cristo? Pois é principalmente por seus méritos que essas satisfações de valor infinito, preço de seu Sangue e confiadas ao depósito e administração da Igreja, vêm a converter-se em indultos generosos das penas temporais em favor de quem faz as obras prescritas em estado de graça. E por muito que se prodigalizem as repartições, jamais se esgota o tesouro, posto que é infinito.

 

A administração dos sacramentos, parte principal do ministério sacerdotal, é o modo mais ordinário e eficaz, aparte de ser indispensável, para administrar a graça àqueles que estão mortos pelo pecado. Estes sinais admiráveis da graça guardam conexão íntima e necessária com a Paixão e com o Sangue de Cristo. Recordam, em efeito, aquele Sangue que é a causa de nossa santificação. Fazem sempre presente o efeito do Sangue na graça que floresce no sacramento.

 

Finalmente, prognosticam a glória futura, que é como o fruto do Sangue, já maduro para a eternidade (cfr. Summa, III, q. 60, a. 3).

 

Pode-se admirar, assim, nos sacramentos da Igreja, os riachuelos da água misteriosa, da que profetizou Isaías: Sacareis com alegria a água das fontes do Salvador (Is 12, 3). Já vimos quando ficaram abertas essas fontes na Humanidade santíssima de Jesus. É coisa manifesta conclui o Angélico que os sacramentos da Igreja têm toda sua eficácia da Paixão de Cristo, cuja virtude se nos pega, por assim dizê-lo, no momento em que os recebemos. Em prova disso, ao estar Cristo pendurado da Cruz, manaram de seu lado água e Sangue, dos quais o primeiro recorda o Batismo e o segundo a Eucaristia, que são os dois sacramentos principais (1. c., q. 62, a. 5).

 

Já fizemos menção mais acima do primeiro sacramento de nossa regeneração e incorporação a Cristo. Da Eucaristia trataremos depois. Detenhamo-nos um pouco a estudar a importância e o significado especial que tem outro grande sacramento, a Penitência, no qual o Sangue de Cristo corre para converter-se em banho das almas. Escutemos a Santo Alberto Magno: O Senhor soube extrair a medicina espiritual que nos cura de todas as doenças contraídas por nossos pecados, da terra bendita da carne e do Sangue de Jesus.

 

E seu discípulo, Santo Tomás de Aquino, ensina que o próprio Jesus Cristo, Deus e Homem, deixou estabelecido por sua Paixão a causa de nossa libertação do pecado, para sempre, ao estilo de como se um médico preparasse uma medicina capaz de curar todas as doenças, inclusive possíveis no futuro. Escusado é dizer que tal medicina há de aplicar-se, para que surta efeito, em cada caso em particular. E isto é o que se faz precisamente quando se recebem o Batismo, a Penitência e os demais sacramentos (Summa, III, q. 49, a. 1).

 

Isso sucede de um modo peculiar na Penitência, à qual os Padres e o Concílio Tridentino chamam um batismo trabalhoso (Trid., sess. 14, c. 2), posto que supõe nossa pessoal e laboriosa cooperação. Nela, efetivamente, nossas lágrimas de dor e arrependimento se unem ao Sangue purificador de Cristo para formar o único lavatório, a medicina infalível que destrói o pecado mortal e tudo quanto encontre de infectado e manchado em seu uso.

 

Aqui, nossas pequenas satisfações humanas, unidas às satisfações divinas oferecidas por Cristo ao Pai, obtêm do mesmo o inevitável benefício do perdão, o sorriso da graça e o tesouro dos méritos, um refrigério contra o ardor das paixões e a força para lutar e vencer. Não o esqueçais - vos direi, com um excelente autor ascético; sempre que recebestes dignamente, com devoção, este sacramento, ainda que fosse só para confessar pecados veniais, cairá abundantemente sobre vossas almas o Sangue de Cristo para vivificá-las e fortificá-las contra a tara do pecado, assim como para destruir nelas as raízes e os efeitos da culpa. A alma encontra neste sacramento uma graça especial para desarraigar os vícios e sempre mais purificar-se, e também para encontrar ou aumentar em si a vida da graça (Columba Marmion: Cristo, vida da alma).

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A FONTE PERENE

 

Lê-se na primeira página da Escritura que Deus preparou para o homem que Ele havia feito de barro, um paraíso de delícias, cujos frutos tinham a virtude de manter a Humanidade em perfeita e eterna juventude. Nesse lugar de delícias, fez que manasse um rio, para que regasse o paraíso (Gn 2). Estes planos divinos foram desbaratados pelo pecado. Somente depois que Cristo levou a efeito uma restauração dos mesmos é que eles vieram a recobrar sua primitiva finalidade, agora num plano superior. O lugar de espirituais delícias é a Igreja. Dentro da Igreja, a Eucaristia ocupa os lugares da autêntica árvore da vida e, ao mesmo tempo, de rio de Sangue, que, manando de uma fonte perene, rega abundantemente e sem esgotamento o paraíso das almas.

 

Esta nova árvore da vida ostenta somente um fruto, que se reproduz diariamente e durante todos os séculos em todos os altares e em todas as almas. É o Corpo de Cristo. O mesmo Corpo que se desenvolveu no seio da Virgem e que, mais tarde, pendeu da Cruz. O mesmo que perfuma o Paraíso de sua glória. É um fruto vivo e vital. Basta comê-lo para que comunique a vida, e uma vida que é eterna. Para isso precisamente está destinado. Minha carne é verdadeiramente comida... O que come minha carne... tem a vida eterna (Jo 6, 54-56). Mas com o Corpo está também o Sangue, como sumo exprimido do mesmo fruto. Meu Sangue é verdadeiramente bebida... Quem bebe meu Sangue, tem a vida eterna (ibidem). Não se trata já tão só de meras realidades místicas, senão fisicamente reais: Vere est cibus, vere est potus. Portanto, a carne de Jesus se une a nossa carne para nutrir e saciar a alma, assim como também o Sangue de Jesus se une ao nosso sangue para que a alma beba e sacie sua sede. Nossa alma com isso se torna divinizada, e inclusive nosso corpo recebe como uma espécie de consagração por causa desses contatos divinos.

 

Já sabemos o que nos afirma a fé: que em virtude das palavras da consagração, diretamente - vi verborum - se faz presente o Corpo de Jesus sob a espécie do pão, e, da mesma maneira, o Sangue de Jesus sob a espécie de vinho. Desta forma, o sacerdote que tem a fortuna de consumar o divino sacrifício, come o Corpo de Jesus e, igualmente, bebe seu Sangue; enquanto que os simples fiéis, dadas as atuais prescrições da Igreja Romana, comungam somente sob as espécies de pão. Mas não nos esqueçamos do que a fé nos ensina, a saber: que Jesus está todo inteiro ali onde se encontre; que seu Corpo e seu Sangue estão sempre vivos, não podendo viver o corpo sem o sangue. Isto suposto, há que se dizer que também os fiéis, ao receber o Pão eucarístico, recebem o preciosíssimo sangue de Cristo, junto com seu Corpo.

 

Mistério inefável e dom verdadeiramente sublime, que somente um amor infinito podia realizar! Foi inspirando-se nisto que a tradição adotou o pelicano das lendas, que, com seu próprio bico, rasga o peito e o coração para fazer brotar o sangue com que sacia aos seus filhotes. Com o que se quis sempre figurar o gesto de Cristo neste mistério de amor. Que cada cristão repita, pois, aquele ritmo devoto do Doutor da Eucaristia: Ó pelicano, Senhor Jesus, purifica-me a mim, imundo, com teu Sangue, do qual uma só gota que brotasse pode salvar a todo o mundo de qualquer delito! (Santo Tomás: Adoro te).

 

Mas é necessário aproximar-se à Mesa eucarística com o vestido nupcial da graça. Primeiro, tem que correr misticamente por toda a alma o Sangue do Redentor, no sacramento da Penitência; depois, o Sangue vivo, verdadeiro e real de Cristo, junto com seu Corpo, completará, na diviníssima Eucaristia, a obra admirável de nossa purificação e divinização, acrescentando as riquezas da graça com o fervor da caridade e embriagando dela as almas que bebem e saboreiam da sua doçura na fonte de toda doçura. Da mesma forma que as almas em particular, assim também a Igreja inteira, jardim de Deus enriquecido com os frutos da árvore da vida, está toda ela canalizada e inundada por esse rio divino que verdadeiramente a converte em um paraíso de delícias. Este rio parte do altar e não é outro que o que forma o Sangue de Jesus, derramado misticamente em perpétuo sacrifício.

 

Corpo e Sangue. Ambos são a única Vítima e o único Sacrifício, sob as espécies do pão e do vinho, consagrados separadamente. Mas as Missas se multiplicam em todos os confins da terra, e isto desde há vinte séculos. Seguramente que ninguém seria capaz de enumerar as místicas efusões do Sangue que ocorreram no cálice do sacrifício. Como tampouco ninguém conseguiria reduzir a cifras as inumeráveis aplicações dos méritos de Cristo para conseguir salvação e riquezas em favor das almas.

 

Realmente, trata-se de um rio caudaloso e inesgotável que corre pelo seio da Igreja, desde a Cabeça até os membros, para vivificá-los, alegrá-los e dotá-los de imortalidade. É natural que a Igreja, Esposa amantíssima de Cristo, Cidade vivente de Deus, se regozije ante o ímpeto desta correnteza: Fluminis impetus laetificat civitatem Dei (Sl 45, 5).

 

A Igreja, repetimos, não fica como que alheia ao sacrifício eucarístico. De nenhum modo. O sacerdote oferece em nome próprio e da Igreja: Te oferecemos, Senhor, o cálice da salvação, a fim de que suba até a presença de tua divina Majestade, em odor de suavidade, por nossa salvação e a de todo o mundo (Liturgia). Junto ao Corpo real de Cristo, oferece o sacerdote a seu Corpo místico, a Igreja, de quem a Eucaristia é centro de vida e símbolo de unidade: Em espírito de humildade e coração contrito, sejamos por vós acolhidos, Senhor. E assim se faça hoje este nosso sacrifício em vossa presença, de modo que vos seja agradável, ó Senhor Nosso Deus! (Liturgia).

 

Finalmente, o sacerdote oferece em favor da Igreja, que ocupa um posto privilegiado nas intenções do oferente: A vós, Pai clementíssimo, por Jesus Cristo vosso Filho e Senhor nosso, humildemente rogamos e pedimos aceiteis e abençoeis estes dons, estas dádivas, estas santas oferendas ilibadas. Nós Vo-los oferecemos, em primeiro lugar, pela vossa santa Igreja católica (Liturgia). Deste modo, o oferecimento do Sangue, feito em nome da Igreja, volta em favor da Igreja mesma e em forma de chuva de bênçãos.

 

É conveniente que nos detenhamos um pouco mais aqui para contemplar este campo regado pelo Sangue e com uma floração magnífica.

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<<AGER SANGUINIS>>

 

Os sacerdotes da Lei, olhando as trinta moedas lançadas ao chão por aquele que vendeu a Cristo, julgaram com puritana hipocrisia: Não é lícito lançá-las ao tesouro do templo, posto que são preço de sangue "pretium sanguinis est".

 

Por isso, destinaram-nas para comprar um campo, que foi denominado precisamente assim: o campo do Sangue (Mt 27, 6-8). Bem mesquinha foi semelhante aquisição!

 

Naquele mesmo momento, Deus penhorava, por sua vez, o mundo, todas as almas do passado, do presente e do futuro, e dizia: "São o preço do Sangue de meu Filho!" E resgatou as almas, que, desde aquele momento, se transformaram no campo onde o Sangue de Cristo, impregnando-o profundamente, frutifica para a vida eterna: ager sanguinis.

 

Campo dos vivos que, em seu desterro peregrino, caminham rumo à Pátria celestial. Contra os inimigos do exterior, a união compacta entre todos os membros com a Cabeça visível, o Romano Pontífice; o governo firme e sábio em todas as partes do mundo. O apóstolo São Paulo faz esta observação: que precisamente depende de Cristo, Cabeça do Corpo místico, que todo o corpo esteja bem travado e unido por todos os ligamentos que o unem e nutrem para a operação de cada membro, que cresce e se aperfeiçoa da caridade (Ef 4, 16). Tal admirável desenvolvimento da Igreja na perfeita unidade e harmonia de suas partes, ocorre de forma misteriosa por obra do Sangue de Cristo, que a percorre inteira com seu fluxo, formando, ao mesmo tempo, uma argamassa de união inseparável e uma levedura que fomenta contínuas e estupendas expansões.

 

Por último, o amplo campo do mundo. Ai do mundo, se este fluxo de Sangue não circular continuamente ao redor da terra para lavá-la de suas imundícies! As famílias cristãs estão assinaladas e consagradas por meio do sacramento do Matrimônio, que é grande em Cristo e na Igreja (Ef 5, 32), posto que é símbolo do mistério que viemos meditando. Ali, onde as portas da casa estão ainda assinaladas com este Sangue vermelho, o anjo exterminador se sente aplacado e passa adiante. A cidade e as nações que receberam o batismo da religião cristã também ostentam um timbre do Sangue divino em tudo quanto conservam daquela preciosa herança: leis, costumes, tradições, ritos, escolas e tribunais. O triste dia em que desaparecesse a última relíquia de Sangue haveria que começar inclusive a duvidar da mesma existência da Humanidade.

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PRIMAVERA DE SANGUE

 

Mas voltemos a respirar tranquilos frente à maravilhosa aparição das flores de santidade que o Sangue do Senhor fez brotar em sua Igreja, eterna primavera das almas que bebem esta divina seiva com sede incontida. "O divino Redentor diz Santo Alberto Magno permitiu que Lhe abrissem o lado, as mãos e os pés a fim de que o Sangue que saiu por eles corresse, regando o místico jardim da Igreja, onde fizesse abrir-se as flores de todas as virtudes, e, alargando-se em forma de rio sobre o mundo inteiro, devolvesse a vida a tudo quanto estava árido e seco, ao mesmo tempo que apagasse o que queimava com o fogo das paixões e do pecado".

 

A nota de santidade que distingue a verdadeira Igreja de Cristo é o rebento constante que produz o divino Sangue em tudo o que é da Igreja, embalsamando o ambiente e santificando nela todas as coisas: doutrina e culto, lugares e pessoas, costumes e instituições. Por isso, a Igreja é Mãe de Santos em todas as épocas, até as mais tristes da História, e em todos os ambientes, até os mais bárbaros e corrompidos, desde que Ela consiga chegar até lá para deixar cair algumas gotas do Sangue da Redenção. São tão abundantes os faustos dos Santos glorificados pela Igreja, que escapa a qualquer cálculo, e vai enriquecendo-se ainda mais a cada dia com a inscrição de novas figuras nobilíssimas que põe em evidência a perene atualidade e vitalidade da Redenção; dando por suposto que cada Santo, que novamente vem agregado ao aguerrido exército dos bem-aventurados, é uma nova apologia do Sangue de Cristo.

 

Os puros de coração que veem a Deus de perto e as virgens que seguem ao Cordeiro onde quer que vá, lavaram os vestidos brancos que usam em seu Sangue.

 

Os mansos, que se assemelham ao Cordeiro divino, sempre mudo e apaziguado diante de seus caluniadores e verdugos, apagaram todo o fogo interior que lhes fazia fermentar em ódios e rebeldias em seu Sangue.

 

Os pobres de espírito, os humildes e os desprezados, são aqueles que afogaram o próprio egoísmo no Sangue divino.

 

Os misericordiosos, que acolhem em seu coração as misérias de seus irmãos, fazendo-lhes participantes dos próprios bens espirituais e materiais, são aqueles a quem o Sangue de Cristo enriqueceu com os tesouros da piedade divina.

 

Quantos que têm fome e sede de justiça souberam encontrar no Sangue de Jesus o preço adequado para satisfazer à justiça ofendida de Deus.

 

Os pacíficos levam dentro de si a paz da reconciliação com Deus e com os homens, essa paz que evoca precisamente o Sangue.

 

Os fortes, que não claudicam sob a fúria da tentação ou da perseguição, são os heróis fortalecidos para alcançar todas as vitórias pelo Sangue de Cristo (Mt 5, 1-10).

 

Poucos Santos aprofundaram as maravilhas deste Sangue precioso como a angelical Catarina de Sena. No Sangue molhava sua pena para escrever suas cartas e suas comovedoras apóstrofes. Eu, Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo em seu precioso Sangue, com desejo de ver-vos a vós e aos demais, meus Senhores, com o coração e com a alma pacificados em Seu dulcíssimo Sangue, em cujo Sangue se apagam todos os ódios e a guerra, e toda a soberba do homem se relaxa... Vos suplico insiste a ardente Santa pelo amor de Cristo crucificado, que recebais o tesouro do Sangue, que se vos encomendou pela Esposa de Cristo.

 

Quem teria podido resistir diante de semelhante eloquência de palavras e de Sangue? A empresa pacificadora da Santa, conhecida por todos, aqui teve sua força secreta.

 

Mas talvez seja o hino mais belo, entoado ao argumento, aquele que desenvolve em uma carta a seu confessor, o Beato Raimundo de Cápua. Não se impaciente pelo tamanho da citação. Fomos nós diz aquela terra que manteve erguida a Cruz e somos o Vaso que recebeu o Sangue. Quem conheça e seja esposa desta verdade, achará no Sangue a graça, a riqueza e a vida da graça. Verá coberta sua nudez e se sentirá vestido com o traje nupcial do fogo da Caridade, impregnado e impermeabilizado no Sangue e no fogo, que foi derramado por amor e unido à Divindade. No Sangue se alimentará e se nutrirá de misericórdia. No Sangue se diluem as trevas e brota a luz. No Sangue se dissipam a nuvem do amor próprio sensitivo e o temor servil que causa pena, recebendo-se, em troca, temor santo e a segurança do amor divino, que se encontra no Sangue.

 

Outra criatura seráfica, como foi a carmelita de Florença Santa Maria Madalena de Pazzi, canta as mesmas maravilhas em suas elevações extáticas: Oh!, como e quão docemente o Verbo se esconde entre os lírios brancos e aromáticos! Que faz ali? Que faz? Pois inspira nas almas, suas esposas, um ardente afeto de amor, e, ao inspirá-lo, realiza nelas uma contínua infusão da virtude e das graças de seu Sangue. De tal forma que elas continuamente sentem afogar-se e morrer pela força do amor, permanecendo, não obstante, na vida que lhes proporciona esse Sangue. Disse que morrem, mas é também por amor, pela força dessa contínua efusão daquele Sangue ardente na alma, que se submerge tanto nesse Sangue que já nem sente, nem entende, nem vê, nem gosta de outra coisa que do Sangue.

 

Seria impossível declarar melhor os frutos que as almas experimentam com a imersão no Sangue de Cristo. A mesma Santa termina assim seu colóquio com o Eterno Pai: Essa fonte, em torno da qual vão brotando os lírios brancos e perfumados, é de Sangue e de água. De água para limpar, de Sangue para embelezar. E da água e do Sangue recebem aquele odor delicadíssimo que se sente por toda parte: "Christi bonus odor sumus".

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OS TRIUNFOS DO SANGUE

 

A Liturgia é a voz sublime da Esposa mística que canta ao Esposo os divinos epitalâmios e os cânticos da glória. Ora, em dois hinos litúrgicos se encontram, ao entoar duas estrofes, uns versos delicados que se correspondem no conceito e no movimento lírico. No Ofício recente do Preciosíssimo Sangue canta a Esposa: Salvete Christi vulnera! Salve, ó feridas de Cristo!

 

Com o mesmo ímpeto entoa também outro hino no Ofício dos Santos Inocentes: Salvete, flores Martyrum! Salve, ó flores dos Mártires!

 

Oh, quão belo resulta esta união de mártires e de coroas! Pois, não foi, efetivamente, das chagas abertas do Crucificado de onde manou o Sangue que houve de cobrir de púrpura e perfumar todas as flores do Martírio, desde as primeiras rosas frescas e acesas que entreteceram coroas de sangue inocente ao redor do presépio de Jesus Menino, até as rosas mais variadas e magníficas, desfolhadas através dos séculos pelas rajadas das perseguições por render homenagem ao Mártir do Gólgota?

 

Por isso, a Esposa canta a Cristo: Rex gloriose Martyrum. Ó Rei glorioso dos Mártires! A eles, em efeito, foi a quem deixou em herança a orla de seu vestido ensanguentado, como também as pérolas de sua coroa real.

 

Os Mártires representam, na História da Igreja, os triunfos mais seguros e mais esplendorosos do Sangue de Cristo.

 

Santo Agostinho ilustra, com reflexões geniais, este aspecto comovedor do Mistério do Sangue, dizendo: Suou Sangue por todo o corpo de Jesus Cristo, precisamente para figurar em seu corpo, que é a Igreja, o sangue dos Mártires.

 

Brotava sangue de todo o corpo; assim também a Igreja tem seus mártires e, por todas as partes de seu corpo, se verteu seu sangue. Nessa quase identificação do Sangue de Cristo com o sangue dos Mártires, vertido por todo o corpo da Igreja através dos séculos, está toda a valoração do martírio cristão e a glória póstuma do primeiro Mártir crucificado.

 

Assim se compreende perfeitamente a doutrina de São Paulo, que se alegrava em padecer por aqueles que ele havia gerado à graça, e quando afirmava que dava acabamento em sua carne ao que faltava nos sofrimentos de Cristo (Cl 1, 24).

 

Por conseguinte, é sempre Jesus quem luta, quem sofre e consegue vitória; o eterno Crucificado pela malícia humana, o Vencedor imortal dos séculos. Jesus estará na agonia até o fim do mundo (Pascal). Corresponde a nós o estar vigilantes e proporcionar consolo a Cristo enquanto durarem a Ele e a sua Igreja estas agonias, devendo estarmos preparados, em cada momento, a seguir ao convite de Jesus no caminho do patíbulo: Surgite, eamus. Levantai-vos, vamos! (Mt 26, 46).

 

Cada vez que o Redentor repetiu durante estes vinte séculos seu amoroso convite, encontrou sempre massas de homens e de mulheres de todas as idades e condições que se adiantaram, dispostas a segui-Lo usque ad mortem. Sim, até à morte!, E muitas vezes uma morte atroz e ignominiosa! Para quê? Para corresponder com amor ao amor, para juntar sangue com Sangue, pelo Corpo de Cristo, que é a Igreja (Cl 1, 24): E a Igreja triunfou pelo Sangue, porque o sangue dos mártires foi semente de cristãos e porque as perseguições foram suas vindimas de sangue e de méritos, de ultrajes e de glória.

 

Hoje também se faz ouvir a voz de Cristo que nos convida, enquanto certas tochas sinistras brilham entre as trevas do mundo, as pessoas sussurram atemorizadas e rangem as armas dos assaltantes, dispostos a fazer novas presas. Que resposta terá Cristo?

 

Nossos irmãos já responderam valentemente como São Pedro: Senhor, estamos preparados para ir contigo, não só à prisão, senão à morte (Lc 22, 33). E estes não renegarão a Cristo como São Pedro, ο covarde, senão que, como Pedro, o penitente, se deixarão crucificar. Eis aqui o drama trágico e sublime da Rússia, do México, da Espanha..., e quiséramos pôr ponto final! Mas, a mulher do Apocalipse, ébria do sangue dos Santos (Ap 17, 6), tem ainda sede. Inclinemo-nos e adoremos. A hora das trevas é para o Sangue de Cristo a hora do triunfo.

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III

A HORA DO SANGUE

 

Podemos ver uma perspectiva da hora presente, não menos autêntica e terrivelmente amarga, na agonia de Jesus Cristo no Horto de Getsêmani. Escutemos ao eloquente dominicano, orador de Nossa Senhora de Paris, em um de seus retiros pascais (1877), no qual interpreta os divinos pressentimentos que anteciparam em Jesus o sofrimento destes mesmos momentos: Oh Mestre adorável! - exclama Monsabré. Parece-me ouvir-Te gritar com o Profeta: Para que pode servir meu Sangue? Quae utilitas in sanguine meo! (Sl 30, 10).

 

Este Sangue precioso, qual nuvem purpúrea, se espalhará sobre todos os extremos da terra para cair sobre as iniquidades e purificá-las; embora em todas as partes será desprezada pelos torvelinhos das paixões. Para que derramá-la, pois? Quae utilitas in sanguine meo? Não somente haverá na Igreja ingratos e profanadores, senão que povos inteiros se verão arrancados à força dos lugares onde corre o rio da Redenção. E também as heresias, os cismas, a falsa ciência assediarão as almas e deterão a suas portas os torrentes sagrados que deveriam regenerá-las. Virá também um século fatal em que os homens porão especial empenho em não se deixar tocar jamais pelo Sangue do Salvador, e, para isso, formarão entre si uma sociedade de ajuda mútua para facilitar a impenitência final.

 

Estamos já nesse século desventurado? Não há que fazer grandes esforços para ver que a hora fúnebre de sangue em que nos toca viver se insere demasiado claramente naquela hora distante, sempre presente, apesar de tudo, da divina agonia. Isso, não obstante, Jesus afrontou a Paixão e derramou seu Sangue por nós. Ah, que nosso tempo se converta na hora do Sangue Redentor!

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SANGUE HUMANO DESCONSAGRADO

 

Talvez o crime maior da Humanidade desde há algum século seja o querer eliminar de todas as partes, almas e edifícios, o selo da Redenção. Dessa maneira se explica que o sangue humano, deificado por divinos contatos, venha sendo cada dia mais desconsagrado por teorias e práticas anticristãs.

 

Chegou-se assim, fatalmente, a dois extremos opostos: a cínica dispersão, como se se tratasse de uma coisa sem valor, e a glorificação pagã até o ridículo.

 

Todos sabemos o apreço que em nossos tempos se tem da vida humana. Um desperdício impressionante de sangue, cada vez em aumento, tem vindo a verter-se desde a primeira guerra mundial, que pareceu inaugurar uma era nova de sangue, e, por isso, definida por Bento XV como o inútil desastre (Oh, quanto se tentou então desculpar de escândalo o que continha essa frase, que os acontecimentos se encarregariam de justificar mais tarde como verdadeira e profética!).

 

A Escritura resumiria uma impressão sobre esta triste realidade, dizendo: Effuderunt sanguinem eorum tamquam aquam (Sl 79, 3), ou como um punhado de terra: sicut humus (Sofonias 1, 17). E que estranho é se hoje não se fala mais que do material humano? Não nos serve voltar a vista atrás, para buscar uma compensação que nos justifique, recordando os séculos mais turvos da história, em tempos dos bárbaros, por exemplo. Semelhante desperdício quase inconsciente do sangue humano, qual estamos presenciando, parece cada vez mais absurdo depois de vinte séculos de Cristianismo, e verificando-se por outra parte cada vez maior refinamento na civilização. Mas toda a explicação se encontra no fato de que a civilização voltou ao paganismo.

 

Nós nos inclinamos ante os heróis da pátria que houveram de cumprir atos de valor extraordinário, enfrentando-se com riscos - e até com a morte -, com coragem, movidos por um ideal e um sentimento tanto mais nobres quanto mais identificados com uma consciência cristã. Mas a quem nos objetasse que sem guerras não teríamos tão grandes e tão numerosos heróis, poderia se contestar que, pelo mesmo procedimento, não teríamos tampouco os mártires sem os tiranos! E, no entanto, ninguém que tenha a cabeça no seu lugar poderá fazer panegírico dos tiranos, de suas pretensões, nem de seus métodos.

 

Nunca chegaremos a compreender como entre homens dotados de inteligência, de senso comum e de coração não se acerta a buscar soluções equitativas em todas as desavenças, por graves que sejam, sempre que se ponha no empenho todo o espírito de humana e cristã solidariedade, junto com um sentimento de grave responsabilidade e com um conceito exato do que vale a vida humana.

 

Salvo em casos de legítima defesa, deveriam e poderiam desaparecer as guerras. Proclame-se quanto se queira contra este anseio, que se trata de uma utopia. O certo é que jamais se poderá se apagar da Sagrada Escritura a ameaça divina contra os sanguinários: Todo o que derramar o sangue humano, pela mão do homem será derramado o seu, porque o homem foi feito à imagem de Deus (Gn 9, 6). E o Senhor diz contra as nações que tratam de embriagar-se de sangue e de vitórias por meio de guerras injustas: Ai do que edifica com sangue a cidade e a cimenta sobre a iniquidade!... Chegará sua vez ao cálice da destra do Senhor, que te fará beber até a saciedade a vergonha, até embriagar-te (Hab 2, 12-16).

 

Jesus louvou a Pedro quando o confessou: Filho do Deus vivo, porque havia dito isso, não foi obedecendo à revelação da carne ou do sangue, senão à de seu Pai (Mt 16, 17). Haveria que esperar ao nosso século XX para que alguns pregadores fizessem o artigo do chamado mito do sangue e da raça, deduzindo-o de supostas revelações da carne e do sangue, uma vez rejeitada a revelação divina (cfr. Pio XI, Encíclica Mit brennender Sorge). Não é necessário esclarecer em que consista semelhante aberração. Bastaria denunciar as teorias e as práticas seletivas que se adotam com pretexto de manter a pureza do sangue e da raça, e que são gravemente de lesa dignidade humana.

 

Um príncipe da Igreja, feito alvo principal das perseguições da nova heresia, deu a refutação adequada. O dogma da raça foi abolido pelo dogma da fé faz já muitos séculos... Não poderemos esquecer jamais que não fomos redimidos por sangue alemão (que cada um substitua sua palavra pela de sua própria nacionalidade); nós fomos redimidos pelo Sangue precioso de Nosso Senhor crucificado. Não há outro nome algum nem outro Sangue no céu em virtude do qual possamos nós santificar-nos, senão é o nome e o Sangue de Cristo (Card. Faulhaber: Judaísmo, Cristianismo, Germanismo).

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NEGLIGÊNCIA E PROFANAÇÕES DO SANGUE DIVINO

 

Sem gênero de discussão, são gravíssimos os crimes contra a vida e a dignidade humana, se tivermos em conta o zelo de Deus, que pronuncia tremendas ameaças: Vingarei o sangue dos meus servos (2 Reis 9, 7). Eu pedirei contas do seu sangue (Ez 33, 6).

 

Mas não, ainda existem outros crimes piores! São os cometidos com insulto ao Sangue de Deus. À enormidade do sacrilégio não se chega de uma vez, mas são as negligências e as ingratidões as que lhe preparam o caminho com grande facilidade.

 

Santo Agostinho faz a seguinte observação: Quanto nos deu Cristo, deu-o por todos. E prossegue: A Cristo se lhe deu o Sangue para que o derramasse todo por nossa redenção. De tal maneira que, se tu queres, é como se por ti não o tivesse derramado. Mas poder-se-á não querer? O mesmo Santo Agostinho conclui: Sanguis Christi volenti est salus, nolenti supplicium. Não existem aqui meias palavras. Para quem quer, é salvação; para quem não quer, condenação.

 

Ter pretensões de entrar no céu sem antes ter sido purificados e assinalados por este Sangue é presunção tola e absurda. É preciso passar pelo lavadouro da Penitência; é preciso sentar-se ao banquete eucarístico para receber o divino alimento da Carne e do Sangue do Senhor. Os indiferentes e os retardatários não terão parte no Reino dos céus. Muito menos o terão os ingratos que pecam contra o Sangue da Redenção.

 

O Apóstolo das gentes fulminou a impassível contradição daqueles cristãos que quisessem ver harmonizadas as coisas mais opostas: santidade e vícios, Cristo e Satanás. Não quero - dizia aos Coríntios que vós tenhais parte com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis ter parte na mesa dos demônios (1 Cor 10, 20-21). Não é isso precisamente o que fazem hoje muitíssimos cristãos, que frequentam a Igreja e depois não se envergonham de exibir-se em bailes e em cinemas profanos?

 

Que se aproximam da comunhão e depois condescendem com seus sentidos e instintos para dar-lhes todo gênero de satisfações, ainda que sejam ilícitas? Quem quer pertencer à família de Cristo, deve estar assinalado com o sinal de sua Cruz e de seu Sangue. Seria a coisa mais ignominiosa ver uma fronte assinalada com esse Sangue e os demais membros cobertos de rosas e de prazeres. Assim como também é coisa indigna ostentar os estigmas de nossos vícios e querer, ao mesmo tempo, ser coberto com a púrpura de Nosso Senhor Jesus Cristo (São Alberto Magno).

 

Para estes cristãos São Paulo formulou uma condenação bem dura em nome de Deus: A carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus, nem a corrupção herdará a incorrupção (1 Cor 15, 50). Desventurada sorte para a alma que se verá excluída do Céu e lançada à perdição, o mesmo que para o corpo, que compartilhará seu destino, vendo-se excluído da gloriosa ressurreição que Cristo prometeu solenemente: O que come minha Carne e bebe meu Sangue tem a vida eterna e Eu o ressuscitarei no último dia (Jo 6, 54)!

 

Mas semelhante privilégio não está, por certo, garantido para aqueles que, depois de terem comungado, dilapidaram os frutos do Sangue em coisas abomináveis ou, o que é pior, que repetem a traição de Judas. O mesmo Apóstolo deduz a lógica consequência, depois de ter feito menção dos castigos da lei mosaica: De quanto maior castigo pensais que será digno o que pisoteia o Filho de Deus e reputa por imundo o sangue de seu testamento, no qual Ele foi santificado, e insulta o Espírito da graça? (Hb 10, 29).

 

Perguntar-se-á acaso: quem são semelhantes pisoteadores de Cristo, desprezadores de seu Sangue, dissipadores de seus dons? Qualquer cristão sabe responder: todos os pecadores. Mas entre todos eles e horroriza só pensá-lo são os sacrílegos, que profanam a Eucaristia, de qualquer maneira infame que seja (sabe sugerir tantas o demônio!), mas particularmente com o beijo da traição. No entanto: Quem come o pão e bebe o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor... Come e bebe sua própria condenação.

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A MÍSTICA DO SANGUE

 

O que de melhor nós poderíamos opor às aberrações, às infâmias, aos sacrilégios que tanto desonram e entristecem em nossos tempos? Não parece que haja mais que uma resposta: devemos opor um conhecimento mais profundo, mais culto, mais íntimo e um amor mais inflamado ao Preciosíssimo Sangue que nos redimiu.

 

Devemos aprofundar mais no conhecimento deste mistério. Nele encontraremos abundantíssima luz para afirmar nossa fé e para iluminar nosso caminho espiritual. Isto é o que eu tentei demonstrar ao escolher este tema para vossas meditações; embora, bem me dou conta, de que em tão curto volume de páginas apenas o deixamos delineado. E, no entanto, se não me engano, que horizontes tão amplos e luminosos se abriram ante nossa inteligência!

 

Quantas vezes nosso coração se sentiu inundado de profundo deleite espiritual e quantas também de dor! Não meditaram diante do crucifixo todos os santos? E pode-se meditar nele sem descobrir aquele gotejar vermelho que cai do divino Paciente e que continua caindo desde o Corpo místico da Igreja, sempre jorrando o preciosíssimo sangue sobre nossas almas?

 

Existe uma mística do Sangue, que como verificamos se apoia sobre fundamentos muito sólidos da doutrina inspirada dos Apóstolos, particularmente de São Paulo, e que cada vez foi adquirindo mais amplo e profundo desenvolvimento.

 

Entre os grandes mestres desta doutrina, através da tradição cristã, cabe assinalar em particular, entre as mais geniais e felizes interpretações dos Padres da Igreja, a São João Crisostomo e a Santo Agostinho. Entre os amplos e firmes comentários dos doutores, destacam Santo Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino e São Boaventura. Dos escritos dos santos que viveram profundamente este mistério, me agrada recordar, com os de São Lourenço Justiniano, aos das duas místicas toscanas, Santa Catarina de Sena, que disse coisas admiráveis, e de Santa Maria Madalena de Pazzi, às quais, mais perto já de nós, haveria que somar o Beato Gaspar del Búfalo, fundador de uma Congregação de missionários com o nome e a bandeira do Preciosíssimo Sangue. Finalmente, muitos escritores ascéticos, antigos e modernos, que trataram diretamente ou de passagem este dulcíssimo tema, que guarda tão íntima conexão com todos os demais mistérios de Cristo e da Redenção.

 

Acompanhando a mística teórica está a mística prática, vivida por almas excepcionais, cuja penetração do valor e significado do divino Sangue fez que nelas se reproduzissem, em diferentes formas admiráveis, detalhes e sentimentos da Paixão de Cristo. Convém pensar em São Paulo, que se sente cravado com Cristo na Cruz e que leva em seu corpo, marcados nas cicatrizes de sua paixão, os estigmas de Jesus (Gl 6, 17); no Pobrezinho de Assis, que, na solidão do Alverne, recebe prodigiosamente em seu corpo macerado a impressão das cinco chagas luminosas e sangrentas do mesmo Crucifixo que se lhe aparece na figura de um Serafim; na virgem dominicana de Sena, que foi escolhida por Jesus como esposa de sangue, ferida também ela pelo fogo divino em forma de cinco raios que lhe abriram em seu corpinho frágil as cinco feridas do Crucificado; e em outras numerosas almas privilegiadas (algumas de nossos dias), em cuja humanidade se renova a divina crucificação com o estilicídio místico e real do sangue.

 

E não somente a crucificação, senão também todos os demais momentos cruentos da Paixão parecem que se renovam: a agonia do Horto, a flagelação, a coroação de espinhos e, inclusive, a ferida do coração. Oh coração de Teresa de Jesus, dizei-nos vós, que fostes transverberada pelo dardo de um serafim em um êxtase de amor e de dor que vos durou toda a vida!

 

Nos atreveríamos a afirmar que não pode dar-se uma santidade que não seja crucificada. Verdadeiramente é um contrato inefável: amor por amor e sangue por Sangue!

 

E isso em todos os tempos, particularmente quando a Humanidade sente maior necessidade de participar intensamente da Paixão de Cristo. Tal sucede precisamente em nossos dias. Há uma necessidade urgente de expiação, aparte de que Jesus, por sua conta, trata de fazer-se novas vítimas de amor e de sangue.

 

À cabeça desta pequena legião está Santa Teresinha do Menino Jesus, a rosa que se desfolha lentamente no místico Calvário do Carmelo. Está Santa Gema Galgani, flor da Paixão que, sacudida pela tormenta, se reclina sobre seu jovem talo vermelho em sangue.

 

Mas quem seria capaz de dar todos os nomes a essas vítimas? Quem está nos segredos de Deus? Com o grito com que a Santa de Sena termina sua jornada na vida: Sangue! Sangue!, mistura-se o grito da pequena vítima de nossos tempos: Deus meu, eu Vos amo! Não significam coisa diversa. É a mesma resposta humana que, através dos séculos, tem tido o sitio do divino Agonizante do Gólgota.

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CULTO DO SANGUE DE CRISTO

 

O conhecimento de tão profundo mistério nos leva espontânea e necessariamente a cair de joelhos. Este Sangue esteve hipostaticamente unido ao Verbo com toda a Humanidade santíssima de Jesus. Em tal união há que se vê-lo sempre, ainda durante as vezes que foi derramado, e mais agora que permanece reunido todo em seu Corpo glorioso. Assim o afirma o conhecido aforismo dos teólogos: O que Cristo assumiu uma vez, nunca o abandonou "quod semel assumpsit, numquam dimisit". Daí que se lhe deva culto de latria ao divino Sangue de Cristo, da mesma forma que a seu Coração.

 

Mas existe alguma razão especial que aconselhe o culto ao Sangue de Jesus? Já o meditamos. É o preço de nossa Redenção, que continua aplicando-se às almas. Eis o objeto sublime deste culto!

 

A Igreja, guardiã e mestra da fé, e por isso reguladora do culto, sobretudo se é público, por razão de que nele se manifesta solenemente a fé, há tempos introduziu em sua liturgia devotas insinuações a este mistério. No cânon da Missa, o Corpo e o Sangue do Senhor se encontram naturalmente associados na memória e no culto.

 

A liturgia do tempo, que começa com o Domingo da Paixão, faz, tanto no oficio como na missa, frequentes e comovedoras alusões ao Sangue redentor; alusões que se fazem mais expressivas durante as sempre impressionantes cerimônias da Semana Santa.

 

Mas, apesar de tudo, faltava uma festa especial. Foi Pio IX quem a instituiu, designando o primeiro domingo de julho para sua celebração. Pio X, de santa e grata memória, fixou-a definitivamente no dia primeiro deste mês de julho, que se converteu, pouco a pouco, no mês consagrado ao culto da Preciosíssimo Sangue. Pio XI, em memória do centenário e jubileu da Redenção (1933), elevou de grau litúrgico esta festividade, outorgando-lhe rito duplo de primeira classe.

 

É como se a divina Providência, reitora da Igreja, depois de haver disposto para estes últimos tempos a culminação do culto em honra do Sagrado Coração ao maior grau litúrgico, tivesse querido também ir encaminhando pelos mesmos destinos o culto ao Preciosíssimo Sangue de Cristo, que tão íntimas relações guarda com o Sagrado Coração, e que, por outra parte, tem tão clara significação de atualidade, dadas as necessidades do momento.

 

O cardeal Schuster afirmou, em seu Liber Sacramentorum: Existe uma íntima relação entre o Coração e o Sangue, não somente por razão daquilo que diz São João, de que do Coração aberto de Jesus, depois de morto, jorrou sangue e água, senão porque o primeiro cálice no qual aquele Sangue divino foi consagrado foi precisamente o Coração do Verbo encarnado (ibidem, vol. 8).

 

Poderia acrescentar-se que a um coração não se pode imaginar sem sangue, e que, se a Redenção recebeu, por um lado, o impulso do Coração de Jesus isto é, de seu amor infinito, cujo símbolo é o Coração, por outro lado não pôde realizar-se senão mediante o Sangue derramado.

 

Não seria exagero se examinássemos agora o ofício litúrgico em que a Igreja deixou condensado seu pensamento, oferecendo-nos em fragmentos da Escritura e dos Padres, nos hinos realmente melódicos e em preciosas orações, uma síntese das verdades que se contêm no doce mistério e dos sentimentos que o mesmo evoca. Mas, talvez não esteja mal tampouco que analisemos, permanecendo ainda no terreno do culto, os atos que se levam a efeito, e que são: adoração, ação de graças, reparação e súplica; atos que no fundo, são inspirados por um único sentimento: o amor.

 

E, em efeito, é o amor o que, vencido pela Majestade, se prostra adorando o Sangue divino e seu Mistério, que só pode ser captado de algum modo em seu sentido mais íntimo por quem ama.

 

O amor é aquele que, entregando-se, se transforma em fervorosa ação de graças por tão estimável dom, que supera infinitamente todas as expressões e a capacidade de nosso agradecimento.

 

O amor, ferido pelos pecados e pelas ingratidões dos irmãos, é aquele que chora com lágrimas de sangue, que vão a misturar-se com as divinas expiações de Cristo.

 

O amor é, por último, o que implora com insistência o benefício do Sangue para si, para as almas, para a Igreja e para o mundo.

 

Estes mesmos sentimentos tão nobres hão de informar também o culto privado, que oxalá penetre cada dia mais na vida privada dos fiéis! Realmente, deveria ser seu pensamento dominante, da mesma maneira que é já um de seus mais graves e prementes deveres. A Igreja satisfaz sua dívida mediante o culto público, ao qual todos devemos associar-nos com amor de filhos. Mas nós levamos, em particular, o Sangue de Cristo em nossas almas. Por isso, o que para a Esposa e Corpo místico de Cristo se converte em um dever social, é, para cada cristão, uma obrigação pessoal.

 

É necessário dar ao Sangue da Redenção um lugar mais destacado em nossa espiritualidade, o que seria uma realidade, não somente se lhe déssemos preferência nas preces que fazemos, quanto se o tivéssemos mais presente na direção prática de nosso proceder na vida. Se o conseguimos, uma grande alegria renovará nosso sangue, devolvendo uma espécie de juventude à nossa alma, ao mesmo tempo que resultará de grande vantagem para nosso progresso espiritual.

 

Esta convicção me sugere a conclusão de minhas páginas muitas para a finalidade a que me propus, demasiado curtas para tratar com amplitude um tema tão importante, pondo aqui algumas exortações que surgem espontaneamente e por obrigação.

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AOS MINISTROS DO SANGUE

 

É muito natural. Além disso, me resulta agradável começar por vós, sacerdotes, posto que, falando-vos a vós, exijo-o a mim mesmo. Aqui temos nossa missão e nossa razão de ser. Nós somos ministros do Sangue de Cristo. A mística de Florença, dirigindo-se a Sixto V com a audácia própria dos santos, o conjurava a que renovasse sua Esposa, a Igreja, a ele encomendada, para que a cuidasse e a guardasse, assegurando-lhe que não lhe faltariam ajudas e cooperações na obra de Deus entre seus súditos e os ministros do Sangue. Segundo a Santa, era necessário e os tempos lhe davam base para isso fazer vir de novo ao redil a tantas ovelhas perdidas de um ou outro sexo, mesmo entre os consagrados e consagradas a Deus. E prosseguia em sua recomendação ao Pontífice: A importância desta obra é de tal envergadura, qual exige o Sangue de que Vós guardais as chaves. Esta inútil e miserável serva sua pensa que Vós compreendereis e penetrareis bem a importância que tem o Sangue de Cristo (Santa Maria Madalena de Pazzi).

 

Para dizer a verdade, esta é a única maneira de valorar com exatidão a importância de nosso ministério.

 

Ministros do Sangue significa: consagradores, consumidores e distribuidores da preciosíssimo Sangue. Aprofundando nestes conceitos, temos de fazer-nos melhor emprego de nossos deveres. Não poderá nunca ser bastante a santidade pessoal, na mais impoluta limpeza de costumes, para quem têm trato diário com o Santo dos Santos na Eucaristia e que pronunciam sobre o cálice em nome e representação da pessoa de Cristo: Este é o cálice do meu Sangue.

 

Garantia de abundantes frutos, depois do privilégio de que só fruem os sacerdotes de consumar o sacrifício bebendo o Sangue da Vítima, serão: a preparação mais esmerada, tratando de limpar a alma da mancha mais insignificante; o acender-se em uma terníssima devoção ao doce e grande mistério e o cumprimento mais exato das rubricas e cerimônias prescritas. Fazendo assim, as orações rituais surtirão seu efeito: o Corpo e o Sangue do Senhor guardarão a alma para a vida eterna, ficarão aderidos às vísceras, apagando todo rastro de pecado e servindo de verdadeira tutela da mente e do coração, e como medicina espiritual (cfr. Ordo Missae).

 

Uma melhor compreensão do quanto vale o preço deste Sangue e do valor das almas por ele resgatadas inflamará, por sua vez, o zelo sacerdotal e a fidelidade mais escrupulosa em administrar as riquezas deste Sangue divino por meio dos sacramentos, longe dessa prodigalidade irreflexiva que pareceria o mesmo que lançar pérolas aos cães, mas, sim, com essa generosa largueza, com essa assiduidade que não conhece cansaço e com amável complacência.

 

Não nos moleste ouvir mais uma vez a voz persuasiva da Santa, que se atrevia a apostrofar assim ao próprio sacerdote que dirigia sua alma: Submergi-vos, pois, no Sangue de Cristo crucificado e embriagai-vos em seu Sangue. E se fostes infiéis, rebatizai-vos no Sangue. Se o demônio vos chegou a ofuscar o olhar da inteligência, lavai os olhos com o Sangue. Se caístes na ingratidão a respeito dos dons recebidos, buscai o agradecimento no Sangue. Se vos fizestes pastor covarde e sem o cajado da justiça, temperada com a prudência e a misericórdia, extraí-a do Sangue... No Sangue quente temperai vossa tibieza, e com a luz do Sangue afastai as trevas. E, fazendo assim, sereis esposo da Verdade e verdadeiro pastor e guia das ovelhas que se vos encomendaram... Se permanecerdes no Sangue, sereis assim; se não, não (Santa Catarina de Sena).

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ÀS ESPOSAS DO SANGUE

 

Vossa vocação é verdadeiramente sublime, ó virgens consagradas ao Senhor! Cada uma de vós pode fazer seu o cântico de Santa Inês: Amo a Cristo, e quero ser sua esposa, porque amando-o sou casta, tocando-o sou pura, possuindo-o sou virgem. De sua boca só mel e leite provei e seu Sangue é o que colore minhas faces (Liturgia).

 

Esposas de Cristo, é o mesmo que dizer, esposas de Sangue. Que excelsa é vossa dignidade! Não vos tem Ele cravadas à sua Cruz com os santos votos, qual com outros três cravos? Não encontrais diariamente em seu Sangue o místico alimento de vossas almas e de vossa virgindade consagrada? A Eucaristia é, com efeito, para vós também o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens (Zc 9, 17).

 

A vós toca, por conseguinte, aproveitar-vos sem medida do mistério do Sangue de Cristo, no qual encontrareis os anseios de maior santidade, a fortaleza certa para seguir guardando fidelidade ao Esposo e a embriaguez divina do amor e do sacrifício. A Virgem como diz São Paulo só tem que preocupar-se das coisas do Senhor e de ser santa em corpo e espírito (1 Cor 7, 34).

 

Ora, nunca o pensamento está melhor voltado para as coisas do Senhor que quando se fixa nas chagas do Crucifixo e se submerge no vermelho abismo de seu Sangue. As virgens prudentes hão de levar sempre sua lâmpada acesa e com muita reserva de óleo para esperar a deliciosa vinda do Esposo (Mt 25). E quando, durante essa espera, venha Cristo batendo a vossas portas para convidar-vos às eternas núpcias, iluminem vossas lâmpadas, abastecidas abundantemente do óleo puríssimo do Sangue de Cristo.

 

Tendes que permanecer assim para vós mesmas e para quantas almas fareis vossas filhas em virtude do Sangue do Esposo. Como dizia o Cisne de Lisieux: Teu Sangue e tuas lágrimas, fonte fecunda e que virginiza os cálices das flores, tornaram capazes às virgens de engendrar-te um crescido número de corações, ainda desde este mundo. Por isso, a mesma Santa Teresinha exclamava em seus arrebatamentos: Eu sou virgem, ó Jesus! E que mistério tão profundo! Unindo-me a Ti, eu sou mãe de almas! Este sentimento tão vivo de maternidade espiritual descobriu-se nela após uma visão de sangue: Um domingo diz, ao fechar meu livro de orações terminando-se a missa, ficou um pouco sobressaindo dos bordos uma estampa que representava a Jesus crucificado, deixando ver uma das mãos ferida e sangrenta do Redentor. Experimentei, então, um sentimento novo e inefável. Parecia desfazer-se-me o coração de dor à vista daquele Sangue precioso que caía no chão sem que ninguém se apressasse em recolhê-lo. Fiz, então, o propósito de permanecer continuamente aos pés da Cruz para recolher aquele orvalho divino de salvação e reparti-lo entre as almas.

 

Seu primeiro filho foi um conhecido malfeitor que, já sobre o cadafalso da morte, havia tomado um crucifixo que lhe apresentou o sacerdote e havia beijado três vezes aquelas santíssimas Chagas. Quando Teresa conheceu esses detalhes, pulou louca de alegria. Comentando o caso: Depois dessa graça, verdadeiramente excepcional, aumentou cada dia mais meu desejo de salvar almas. Parecia-me estar escutando a Jesus que me dizia, suavemente, como à Samaritana: "Dá-me de beber". Era o nosso um intercâmbio de amor: eu repartia o Sangue de Jesus e depois oferecia a Jesus aquelas mesmas almas vigorizadas com o orvalho do Calvário (História de uma Alma, capítulo V).

 

Aqui tendes, ó virgens consagradas, vossas ambições de esposas, vossos presentes de matrimônio e vossas estupendas conquistas!

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AOS ARAUTOS DO SANGUE

 

Sois vós, quantos militais na Ação Católica. Sempre que penso em vós sinto, meu coração se enche de ternura e de paternal orgulho. Pois não é a vós, almas generosas, a quem efetivamente o sacerdote encomenda o tesouro da divino Sangue para que o leveis onde ele não pode chegar, onde quer que haja alguém que, encarcerado no corpo ou no espírito, espera o dom de Deus? Deveis imitar a Tarcísio, o acólito das catacumbas, que recebeu o Corpo do Senhor para levá-lo aos futuros mártires e o defendeu até derramar seu próprio sangue, tornando-se, assim, o primeiro mártir da Eucaristia. Eu sei perfeitamente que em vós ardem os mesmos ideais e o mesmo coração.

 

Agora, vós não levais o Sangue da Eucaristia na realidade, senão no místico ardor de vossa vida e de vossas palavras, na branca pureza, no fogo da caridade, na constância do sacrifício. Aí é onde resplandece em vós o Sangue de Cristo, com o qual fostes marcados com sinal de membros de seu Corpo Místico e de soldados para a defesa de sua santa causa.

 

Sois arautos do Sangue por comissão da Igreja, que foi quem abriu em vossos lábios a fonte da persuasão pela palavra; daquela palavra do Evangelho com a qual vós precisamente abris novos caminhos para que triunfe o Sangue divino. É por este Sangue, que recebeis na comunhão eucarística, que fica consagrada vossa língua e recebe o dom de uma eloquência irresistível. Este Sangue, feito fogo, é o que vos alimenta na alma este tríplice amor: às almas, à Igreja e ao Vigário de Cristo.

 

Vosso ideal e vosso programa não visam outra coisa além de ganhar almas. Já sabeis por experiência quanto custam, sobretudo em tantas ocasiões em que não podeis recusar vossa colaboração ao sacerdote ou em que deveis enfrentar-vos valentemente com incômodos e, se a ocasião o exigir, inclusive com perseguições. Estimando o imenso benefício de pertencer à Igreja, que Cristo adquiriu com seu Sangue (At 20, 28), amais ternamente a esta Esposa d'Aquele que a grandes gritos a fez esposa sua com o Sangue bendito (Dante). A amais com o mesmo amor com que amais a Jesus: amor delicado e firme, humilde e generoso, confirmado por obras, consagrado com o sangue do coração. E com semelhante entusiasmo amais assim ao doce Cristo da terra, ao Pai santíssimo das almas redimidas. Por ele aguentais bem vossas fadigas, com ele orais e sofreis, e nisto pondes vosso orgulho e vossos desejos.

 

Para dizer a verdade, em nossos dias desapareceu aquilo de ver cativo a Cristo em seu Vigário ou de novo ser ultrajado; não se vê renovar nele o tormento do vinagre, do fel, e ver-se morto entre dois ladrões vivos (Dante: Purgatório, 20); mas existe outro martírio que começa e acaba no segredo do coração e que ninguém tem direito a negar, embora não o veja. Pois bem: o Papa falou, exteriorizando suas augustas ansiedades e suas penas. Naturalmente, tudo quanto está hoje acontecendo no mundo não podia deixar de repercutir dolorosamente no coração do Pai. É uma hora de sangue a nossa!

 

Que o anjo consolador substitua o cálice de amargura, pegado aos lábios do Cristo visível, por outro cálice embriagador de Sangue divino! Que nossas preces e mortificações, unidas às do Pai comum, apressem o dissipar das trevas e o resplendor de uma aurora de fúlgidos arrebóis de caridade!

 

Que, por último, o Rei eterno do martírio e da glória, conceda a quantos combatem pelo triunfo de seu Reino sobre a terra o poder entrar um dia no Reino dos céus para formar parte da milícia santa, à qual Cristo desposou em seu Sangue! (Dante: Paraíso, c. 31)

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A TODOS OS FILHOS DO SANGUE

 

O dia propriamente dito do nascimento não foi precisamente aquele em que abristes os olhos à luz, senão o dia de vosso batismo, que vos regenerou para Cristo. De pouco vos teria servido o nascer se não tivésseis encontrado preparada a Redenção: nihil nasci profuit, nisi redimi profuisset. Naquele dia, fostes marcados com o Sangue do Cordeiro, desde então e para sempre.

 

Sucederam-se logo outros dias olhá-los-eis como os mais formosos de vossa vida nos quais novo fluxo de Sangue invadiu vossas almas. Ninguém de vós pode esquecer-se de seu primeiro encontro com Jesus na Eucaristia, depois de ter-se preparado antes com o banho da Penitência. Resulta-me consolar supor que, a partir de então, sucederam-se com frequência estes banhos depuradores e os encontros eucarísticos.

 

Por último, os que haveis consagrado com o matrimônio uma nova família, o haveis feito rubricando vosso pacto com o Sangue da Redenção.

 

Pois bem: tendes consciência de vossa dignidade de cristãos? O Apóstolo das gentes vos dá ainda este aviso: Não pertenceis a vós mesmos. Fostes comprados a alto preço. Glorificai, pois, e levai a Deus em vosso corpo (1 Cor 6, 19-20).

 

Glorificar a Deus no próprio corpo significa manter limpa e luminosa, mediante uma vida irrepreensível e uma conduta realmente cristã, a imagem soberana de Deus impressa em vós pela criação, assim como a amável fisionomia de Cristo, gravada em vossa alma pelo Redentor, por meio dos sacramentos.

 

Levar a Deus no próprio corpo significa transfundir desde a alma vivificada pela graça, através da carne, tal luz e sorriso da Divindade, que resplandeça no bom exemplo. É o lema de Jesus: Há de resplandecer vossa luz ante os homens para que, vendo vossas obras boas, glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus (Mt 5, 16).

 

Tudo isto, para resumi-lo em uma palavra, é o que significa levar em triunfo o Sangue de Cristo.

 

Mas para conservar e valorizar esses bens inestimáveis da Redenção, é necessário que retornemos com frequência às fontes do Salvador, de maneira particular ali onde o divino Sangue flui para purificar as almas e onde se faz bebida confortante de vida eterna: na confissão e na comunhão eucarística. Se alguém tem sede dizia Jesus às turbas que venha a Mim e beba (Jo 7, 37). Não é precisamente a sede uma coisa que abrasa o coração e a alma? Sede de bondade, sede de pureza, sede de amor, sede de alegria e de felicidade. Mas, na realidade, tudo isto é pura ilusão se não se extinguir esta sede que se sente em Deus.

 

Jesus, sem dúvida, nos chama. Ele nos dará a água, cujo fonte jorra até a vida eterna. Ele nos servirá o vinho revigorador de seu Sangue. Seríamos, portanto, insensatos e despreocupados se recusássemos o sentar-nos a um convite tão dulcíssimo!

 

Que nos diga as últimas palavras seráficas um Santo que fez as mais doces experiências: Ó coração de diamante, submergi-te no Sangue puro e inocente de nosso Cordeiro! Arroja-te dentro dele para aquecer-te, e com o calor enternecer-te e, enternecido, abrir as comportas das lágrimas. Eu, por minha parte, buscarei a fonte das lágrimas e a encontrarei nas lágrimas, na Cruz, nos cravos e, finalmente, no sangue vermelho do mansíssimo Jesus...

 

Apressar-me-ei a beber e comprarei, sem gasto algum, aquele vinho e aquele leite, que a Sabedoria do Pai Eterno, o benigníssimo Jesus, nos brindava no cálice de sua carne, isto é, seu Sangue, o preço de nossa vida. Apressai-vos a vir comigo todos quantos quereis bem ao bom Jesus. Comprai-o, não com metais corruptíveis de ouro ou de prata, senão com o câmbio de obras e de santa cortesia. Comprai aquele vinho e aquele leite, o Sangue puríssimo, que embriaga como vinho aos perfeitos e nutre como leite aos infantes. Se és perfeito, se és robusto, o Sangue de Jesus será vinho para ti. Sangue sincero de uva generosa! Se ainda fraco és e necessitado da primeira alimentação do leite, o Sangue será teu leite nutritivo. Bebe, pois, deste puríssimo Sangue (SÃO BOAVENTURA: A vide mística, c. 15).

 

Não nos resta mais que prostrar-nos e rezar:

 

Alma de Cristo, santificai-me,

Corpo de Cristo, salvai-me.

Sangue de Cristo, inebriai-me.

Água do Lado de Cristo, lavai-me.

Paixão de Cristo, confortai-me.

Entre tuas santas Chagas, escondei-me...

Na hora de minha morte, chamai-me...

Ó bom Jesus, escutai-me.

 

(Santo Inácio).