O GRANDE
DESCONHECIDO
A DIVINIZAÇÃO DO SOFRIMENTO.
Adolphe Alfred Tanquerey (1854 - 1932)
I. A Diversidade dos Nossos Sofrimentos.
1. Privação dos Bens Naturais.
6°) A Inferioridade em relação aos Dons Naturais...
7º) Inferioridade nas Funções.
2. Privação de Certos Bens Espirituais.
2°) Impossibilidade de praticar certos exercícios espirituais.
8°) Privação Das Graças Místicas.
II- As Etapas ou Graus na Aceitação do Sofrimento.
1. O Primeiro Grau ou a Resignação Cristã.
2. O Segundo Grau ou a Aceitação Cristã do Sofrimento.
3. O Terceiro Grau ou o Amor à Cruz.
4. Os Principais Atos do Amor Vitimal.
Um Exemplo Recente de Amor Vitimal.
CAPÍTULO TERCEIRO:
JESUS, SOFRENDO EM SEUS MEMBROS, DIVINIZA SEUS SOFRIMENTOS
Se Jesus e Maria sofreram tanto para nos salvar, é evidente que não podemos conquistar nossa salvação sem tomar parte em sua paixão: "Si tamen compatimur ut et conglorificemur" (Rm 8, 17). Como membros do corpo místico de Jesus Cristo, devemos assemelhar-nos à nossa Cabeça, e, como ela, chegar à glória através do sofrimento.
Essa lei nos é lembrada a cada página do Novo Testamento. Sem dúvida, o amor é a condição essencial da santidade e a plenitude da lei. Mas, na terra, enquanto guardamos em nós a tripla concupiscência e estamos rodeados de inimigos exteriores que não buscam senão atiçá-la', não podemos amar a Deus, e ao próximo por causa de Deus, senão na medida em que combatemos e subjugamos esses temíveis inimigos.
A Sagrada Escritura não deixa nenhuma dúvida sobre isso. A todos aqueles que querem ser seus discípulos, Nosso Senhor indica claramente o caminho: "Se alguém quer seguir-me, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga" (Mt 16, 24; Lc 9, 23). Para seguir Jesus e amá-lo, é preciso renunciar a si mesmo, isto é, às más tendências da natureza, ao egoísmo, ao orgulho, à ambição, à sensualidade; é preciso tomar a sua cruz, aceitar os sofrimentos, as privações, as humilhações, as doenças, as enfermidades, os revezes da sorte, numa palavra, todas as cruzes providenciais que Deus nos envia para nos provar, nos fortalecer na virtude e facilitar a expiação de nossas faltas.
Então, e somente então, pode-se ser seu discípulo e trilhar os caminhos do amor e da perfeição. Aliás, ele mesmo não confirma isso por seu exemplo? Se, da manjedoura ao Calvário, a sua vida foi um longo martírio, foi para ensinar-nos que não há outro caminho a não ser este para obter a salvação. Como devemos ser-lhe reconhecidos por ter, por seus exemplos e sobretudo por sua crucifixão, merecido para nós a graça de segui-lo! Ele nos havia prometido que, do alto da cruz, nos atrairia a si: "E eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12, 32). Ele cumpriu sua palavra, e milhões de discípulos o seguem, carregando generosamente a sua cruz.
Assim falaram e agiram os Apóstolos. São Pedro afirma claramente que, se Cristo sofreu por nós, foi para que sigamos os seus passos (1Pd 2, 21). E ele mesmo, depois de muitas provações, morreu crucificado para ir ao encontro de seu Mestre.
São Paulo, sem deixar de pregar o amor, não cessa de dizer-nos que é preciso crucificar as más tendências da natureza humana (Cl 3, 9; Gl 5, 24). E dá o exemplo castigando seu corpo e reprimindo-lhe a concupiscência, por medo de que, pregando o evangelho aos outros, acabe ele mesmo por ser reprovado (1Cor 9, 27). Enquanto São Pedro era crucificado no Vaticano, ele mesmo oferecia sua cabeça ao carrasco no caminho de Óstia.
São João, o apóstolo da caridade, ensina que, para amar a Deus, é necessário observar os mandamentos e combater a tripla concupiscência que reina no mundo, de tal forma que quem ama o mundo e seus falsos prazeres não pode amar o Pai (Jo 14, 15; 1Jo 2, 15. 5,19). Também ele foi mártir, e, se saiu vivo do caldeirão de óleo fervente, nem por isso deixou de aceitar sofrer e morrer por Aquele que tanto amava; e foi para ele uma nova provação, não poder ir logo ao seu encontro.
Seguindo o exemplo dos Apóstolos, milhões de mártires deram sua vida pelo Cristo; ainda hoje, quando a perseguição grassa nos países de missão, os negros de Uganda rivalizam com seus irmãos europeus para renovar o heroísmo dos primeiros discípulos.
Sem dúvida, nem todos os cristãos são chamados a derramar seu sangue, mas todos devem carregar sua cruz, trabalhar e sofrer, e às vezes é mais difícil dar o sangue gota a gota do que derramá-lo todo de uma só vez.
Importa, pois, lançar primeiramente um olhar sobre os sofrimentos que somos chamados a encontrar, para que saibamos melhor como santificá-los concretamente. Veremos em seguida as diferentes formas pelas quais podemos acolhê-los, para que Jesus, vivendo e sofrendo em nós, lhes confira todo o valor moral que podem ter, e os divinize na medida em que podem sê-lo.
I. A DIVERSIDADE DOS NOSSOS SOFRIMENTOS
O sofrimento é, no fundo, a privação de um bem, real ou imaginário, que consideramos necessário ou ao menos útil à nossa felicidade, ou a imposição positiva de alguma pena.
Para começar, lembremo-nos de que o sofrimento não é um mal, mas, ao contrário, pode tornar-se, quando bem aceito, a fonte ou a ocasião dos maiores bens. No fundo, não há senão um mal, o mal moral ou o pecado que ofende a infinita majestade de Deus.
E mesmo esse mal, uma vez que dele nos arrependemos, pode tornar-se ocasião de grandes bens. Quando Saulo perseguia os cristãos, e, com isso, também a sua Cabeça, Cristo Jesus, isso era um pecado; mas quando, convertido na estrada de Damasco, reconheceu com toda a humildade que era um grande pecador, e reparou nobremente a sua falta ao aceitar, com alegria e heroísmo, todo tipo de perseguições, humilhações e torturas por amor a Jesus e à sua Igreja, essa falta foi, evidentemente, a ocasião de atos de virtude altamente perfeitos.
São numerosos, certamente, os sofrimentos que nos provam durante a nossa vida; eles não são iguais para todos, e parece mesmo que aos justos cabe uma parte maior que aos demais, pois Deus quer, sem dúvida, associá-los mais intensamente à paixão de seu Filho, para permitir-lhes fazer um bem maior na terra e receber maior recompensa no céu.
Sem ter a pretensão de classificar todas essas provações, enumeremos as mais comuns, para melhor considerar como as podemos santificar.
1. PRIVAÇÃO DOS BENS NATURAIS
1°) A POBREZA.
Algumas pessoas nascem na pobreza, e, apesar de trabalharem com afinco, nunca conseguem dela sair: vivendo, eles e seus filhos, em constante dificuldade, suportam numerosas privações e se sentem humilhados em seu fracasso. Outros, tendo nascido na riqueza e dela tendo usufruído por certo tempo. veem-se privados dela por revezes de fortuna, e isso os aflige e humilha ainda mais.
Foi para consolar esses pobres que Jesus quis nascer, viver e morrer na pobreza, ele que poderia ter sido rico de todos os bens da terra. Por isso ele pôde dizer: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5, 3). Com isso ele quis pregar a pobreza afetiva, ou o desapego das riquezas. Quanto à pobreza efetiva, podemos rezar a oração do Sábio (Provérbios 30, 8-9):
"Senhor, não me dês nem riqueza nem pobreza, concede-me o pão necessário; não seja eu saciado e te renegue, dizendo: 'Quem é o Senhor?"; não seja eu necessitado e roube e blasfeme o nome de meu Deus."
A Timóteo e aos demais líderes apostólicos, Paulo recomenda contentar-se com ter o que comer e o que vestir (1Tm 6, 7-8). Alguns santos, por inspiração da graça, foram mais longe e buscaram a indigência ou mesmo a pobreza abjeta. Que cada um pratique a pobreza segundo sua vocação, e considere-se feliz, em meio às privações e humilhações que tiver de suportar, por aproximar-se dos exemplos e dos ensinamentos do Mestre: "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado em acréscimo" (Mt 6, 33).
2°) A DOENÇA.
A saúde é um bem ainda mais estimado por nós do que a riqueza. É com certeza um favor do céu que apreciamos sempre, mas sobretudo quando o perdemos. E às vezes está nos desígnios de Deus enviar-nos a doença. Esta, quando santamente vivida, oferece as mais preciosas vantagens do ponto de vista sobrenatural. "Com frequência, em um dia de doença suportada como se deve, avançaremos mais na virtude, saldaremos mais débitos para com a justiça divina por nossos pecados passados, ajuntaremos mais tesouros, seremos mais agradáveis a Deus e lhe daremos maior glória do que em uma semana ou um mês de saúde."
A doença é a pedra de toque que mostra o valor da virtude de uma alma; se o doente a suporta sem queixa, sem inquietude, inteiramente resignado à vontade de Deus, é um sinal de que possui uma virtude bem fundamentada; mas, se ele se queixa daqueles que o cercam e dele cuidam, se perde a paciência, se murmura às vezes contra o próprio Deus, sua virtude está longe de ser sólida.
É certamente necessário cuidar razoavelmente da saúde, pois ela nos permite cumprir melhor os nossos deveres de estado para a glória de Deus. Mas, como faz notar Santa Tereza, há pessoas que se preocupam demasiadamente com ela, como essas religiosas que deixam de ir ao coro um dia porque estão com dor de cabeça, outro dia porque ali se sentiram mal, e, em dois ou três outros dias, por medo de se sentirem mal.
Ela mesma toma, a esse respeito, uma decisão heroica: "Enferma como estou, vejo-me sempre amarrada, incapaz do menor bem, até o momento em que tomo a resolução de não me importar com o corpo, nem com a saúde... Vejo claramente que, apesar das enfermidades reais, em muitas circunstâncias eu cedia à tentação do espírito das trevas ou à minha própria covardia. O fato é que, desde que passei a me tratar com menos cuidados e menos delicadeza, sinto-me muito melhor."
Essa foi, em geral, a conduta dos santos, e alguns chegaram mesmo a desejar a doença com mais ardor do que os mundanos empregam na busca da saúde. Santa Teresa do Menino Jesus tinha por princípio que é preciso ir até o fim das próprias forças antes de se queixar. Quantas vezes ela participou das Matinas com vertigens ou violentas dores de cabeça! "Se ainda posso andar, dizia ela, então devo cumprir meu dever." E, graças a essa energia, ela praticava com simplicidade atos heroicos. Assim, sentindo frio durante a noite ao ponto de não conseguir dormir, deixou de solicitar um alívio que lhe teria sido concedido, por considerar que se está no Carmelo para preparar-se para a morte.
Apressemo-nos em acrescentar que essa atitude heroica não se justifica senão por uma graça especial, e que a regra geral é cuidar prudentemente da própria saúde. Essa é a regra traçada por São Francisco de Sales: "Quando algum mal vos acometer, combatei-o com os remédios possíveis e segundo Deus, pois não o fazer seria tentar a divina Majestade; mas, tendo feito isso, esperai com inteira resignação pelo efeito que Deus permitir. Se ele quiser que os remédios vençam o mal, vós lhe agradecereis com humildade; mas, se lhe aprouver que o mal suplante os remédios, bendizei-o com paciência."
E mais adiante ele acrescenta: "Quando estiverdes doente, oferecei todas as vossas dores, incômodos e fraquezas a Nosso Senhor, suplicando-lhe que os una aos tormentos que ele suportou por vós. Obedecei aos médicos, tomai os remédios e segui a dieta prescrita por amor a Deus, lembrando-vos do fel que ele tomou por amor a nós. Desejai a cura para prestar-lhe serviço; mas não recuseis a doença em obediência a ele, e disponde-vos a morrer, se ele assim o quiser, para louvá-lo e desfrutar dele."
Em certos casos, a maior provação está nas circunstâncias relacionadas à doença: a duração prolongada do mal, a impotência a que ele nos reduz, a dependência à qual nos força, o incômodo que resulta da solidão, a impossibilidade de cumprir os deveres de estado para um padre, por exemplo, dar andamento às obras apostólicas; para um religioso, observar a regra; para uma mãe de família, ocupar-se de seus filhos.
Todas essas situações são angustiantes e penosas à natureza. Ainda assim, depois de nos ter servido de todos os meios que a prudência nos sugere para recuperar a saúde, é preciso repetir, com os santos: "Meu Deus, eu aceito todas essas circunstâncias: tudo o que quiserdes, quando quiserdes e da maneira como quiserdes. Dai-me somente a força para suportar tudo o que mandais, e mandai o que quiserdes. A vós recomendo todas as pessoas e as obras das quais já não posso me ocupar. Estendido sobre a cruz em união com Jesus, ofereço minhas enfermidades por todos aqueles que estavam a meus cuidados, convencido de que o apostolado do sofrimento é, de todos, o mais fecundo."
3°) A MORTE.
Pela mesma razão, é preciso resignar-se a deixar este mundo quando Deus o quiser. Podemos, nesse caso, repetir a oração de São Martinho: Meu Deus, se quiserdes que eu per-maneça ainda algum tempo na terra, não recuso o trabalho, non recuso laborem; mas tenho consciência de ser um servidor inútil, e de que encontrareis outros mais dóceis do que eu e mais aptos a fazer o bem; faça-se em mim segundo a vossa vontade, fiat mihi secundum verbum tuum.
Sem dúvida, a morte inspira sempre um certo receio: receamos o julgamento de Deus, o purgatório, a incerteza sobre a sorte que nos está reservada. Mas, como já dissemos, Jesus mereceu para nós a graça de uma boa morte. Entreguemos nossa alma em suas mãos; ele, mais do que nós, deseja a nossa salvação, e sua infinita misericórdia completará nossa purificação, para que possamos ouvir estas doces palavras: "Muito bem, servo bom e fiel, porque foste fiel no pouco, eu te constituirei sobre muito; entra na alegria do teu Senhor!" (Mt 25, 21). Como diz São Paulo: "Pois nossas tribulações momentâneas são leves em comparação com o peso eterno de glória que elas nos preparam, para além de toda medida." (2Cor 4, 17).
4°) A PERDA DA REPUTAÇÃO.
Às vezes, estimamos nossa reputação ainda mais do que a saúde e os bens temporais. É certamente um dever zelar por ela, nada fazendo que a possa destruir ou diminuir: a estima dos outros é um bem que nos é útil, não somente por nós mesmos, mas para exercer uma legítima influência em nosso meio. Entretanto, Deus permite em certos casos que, sem nenhuma culpa de nossa parte, percamos essa reputação. Nosso Senhor quis passar por essa prova: "Terá havido jamais - diz São Fran cisco de Sales - uma reputação mais dilacerada que a de Jesus Cristo? Com quantas injúrias ele foi atacado! De quantas calúnias foi vitima! E no entanto o Pai lhe deu um nome acima de todo nome, e o exaltou tanto mais quanto mais o rebaixaram! E os Apóstolos não saíam felizes das assembleias onde haviam recebido afrontas por causa do nome de Jesus?"
A razão disso é que a humildade é uma das mais excelentes virtudes e o fundamento de nosso edifício espiritual, sobretudo quando a praticamos por amor a Deus. Eis por que os Santos consentiram em perder sua reputação, e, quando se viam caluniados, respondiam como São Francisco de Sales: "É só isso o que dizem? Oh, realmente, eles não sabem tudo; estão me adulando, me poupando; bem vejo que me consideram melhor do que sou. Deus seja bendito!
Sempre precisamos nos corrigir; se não mereço reprovação nisto, mereço-a em muitas outras coisas; é por misericórdia de Deus que estou sendo corrigido com tanta benignidade." No entanto, o santo acrescenta: "Abro exceção para certos crimes, tão atrozes e infames que ninguém deve aceitar esse tipo de calúnias, quando puder com justiça defender-se; e também para certas pessoas, de cuja boa reputação depende a edificação de muitos. Nesse caso, é preciso proceder, com tranquilidade, à reparação da injustiça feita." Tal foi a conduta do santo: ele queria que a dignidade episcopal fosse respeitada em sua pessoa, e justificou-se de certas calúnias que poderiam comprometer o seu ministério. Mas, fora isso, nunca procurava desculpar-se ou justificar-se.
Para melhor o conseguir, ele suportava todas as humilhações ou afrontas por amor a Jesus, e a ele confiava a proteção de sua reputação: "Tenhamos sempre os olhos em Jesus crucificado, disse ele; trabalhemos em seu serviço com confiança e simplicidade, mas com sabedoria e discrição: ele será o protetor da nossa reputação, e, se permitir que ela nos seja roubada, será para nos dar outra melhor, ou para que cresçamos na santa humildade, da qual uma única gota vale mais do que toneladas de honra."
5°) AS PERSEGUIÇÕES.
É esse mesmo amor que nos faz suportar as perseguições, não somente aquelas que vêm dos maus, mas também as que vêm das pessoas de bem, dos amigos, dos parentes, dos confrades, e que são certamente as mais dolorosas. "Todos os santos escreveu Santo Afonso de Ligório - passaram pela perseguição neste mundo. Vede São Basílio, acusado de heresia perante o Papa São Dâmaso; São Cirilo, condenado como herético por um concílio de quarenta bispos e, em seguida, vergonhosamente deposto; Santo Atanásio perseguido sob acusação de feitiçaria, e São João Crisostomo, de maus costumes."
O próprio Santo Afonso é um exemplo marcante dessas injustas perseguições heroicamente suportadas: condenado a partir de falsas acusações e rejeitado pela Congregação que havia fundado, não se queixou, mas submeteu-se humildemente: "Há seis meses faço esta oração: Senhor, o que tu queres, eu também quero"; e aceitou viver como proscrito até a morte. Não somente ele perdoou a seu perseguidor, que o havia sucedido como superior da Congregação, mas não cessou de rezar por ele.
Outros santos se comportaram da mesma forma, entre eles São João da Cruz, que, sob a inspiração e com o apoio de Santa Teresa, havia fundado os Carmelitas Descalços. Aprisionado pelos confrades que não queriam a reforma em um estreito cubículo, onde recebia apenas o alimento suficiente para não morrer de fome, cruelmente flagelado até o sangue e coberto de feridas agravadas pelo grosseiro burel que vestia; privado de luz em sua cela e obrigado a aproximar-se de uma pequena claraboia para rezar seu breviário e para escrever, compôs neste cárcere o admirável Cântico espiritual, que contém o resumo de toda a sua doutrina e proclama amorosamente as infinitas misericórdias de Deus.
Lembremos entretanto que, se os santos buscaram as humilhações sem preocupar-se com sua reputação, a regra geral que devemos guardar, excetuando o caso de uma graça especial, é aquela que nos deu São Francisco de Sales, acima citada.
6°) A INFERIORIDADE EM RELAÇÃO AOS DONS NATURAIS.
Entre as humilhações que enfrentamos, algumas decorrem da comparação dos nossos dons naturais com os das outras pessoas. Muitos se entristecem por ter menos beleza, força ou aptidões que outros, menos memória, inteligência, espírito ou discernimento, menos facilidade de trabalho, menos espírito organizador, e são tentados a invejar aqueles que são mais bem dotados que eles. Isso não é nada razoável.
Se tivéssemos recebido maiores dons naturais, sobretudo aqueles que atraem a atenção, como a beleza, a inteligência ou a eloquência, será que saberíamos fazer bom uso deles? Quantos devem a sua perda a esses dons brilhantes, que seduzem os corações e expõem a tantas tentações! Também aqui é preciso saber contentar-se com aquilo que se tem e disso fazer bom uso.
Deus não é igualitário: para que haja, entre os homens como entre as outras criaturas, a harmonia e a beleza que resultam da unidade na diversidade, ele dá a uns dez talentos, a outros cinco, a outros dois ou um só; mas manda que cada um utilize bem aquilo que recebeu. Ele nos recompensa, não segundo os dons naturais ou sobrenaturais que nos couberam, mas segundo o bom uso que fazemos deles, pois "ele retribuirá a cada um segundo as suas obras, reddet unicuique secundum opera ejus" (Mt 16, 27; Rm 2, 6).
Não digamos que, se tivéssemos recebido mais talentos, faríamos maior bem, pois não o podemos saber. "Crede-me, dizia São Francisco de Sales, Deus é um ótimo operário: com pobres ferramentas, sabe fazer excelentes obras. Ele escolhe geralmente o que é fraco para confundir o que é forte, a ignorância para confundir a ciência, e o que nada é para destruir o que parece ser alguma coisa." É a mesma observação que São Paulo já tinha feito, a fim de melhor ressaltar a onipotência de Deus que, com os instrumentos mais fracos e às vezes os mais vis, sabe operar maravilhas (1Cor 1, 28).
O importante é que esses instrumentos tenham consciência de sua incapacidade e creditem a Deus toda a glória que lhe cabe, ao invés de atribuir-se a si mesmos a glória do sucesso. Muitas vezes, as humildes preces de uma pobre velhinha ou de um simples frade são mais eficazes para converter ou santificar as almas do que toda a eloquência de um grande pregador. Que ninguém jamais esqueça que o que toca as almas é a graça interior dada por Deus, e que a pregação ou as obras não são senão instrumentos de que o divino Espírito se serve para agir sobre os corações.
7°) INFERIORIDADE NAS FUNÇÕES.
É preciso também saber aceitar as situações e as funções que nos são confiadas pelos representantes de Deus, na ordem civil ou na ordem espiritual. Há quem pense que algumas funções estão abaixo de suas aptidões; com o pretexto de prestar serviço em maior escala, ambicionam colocações superiores. Quando se trata da esfera civil, certamente não é proibido aspirar a uma situação melhor no interesse da sociedade, da família ou mesmo no interesse pessoal, desde que não se cultive ilusões sobre o próprio valor e que somente se empregue, para conseguir esses fins, meios leais e honestos.
Mas, em se tratando da ordem espiritual, lembremo-nos de que a humilde aceitação do que nos é oferecido ainda é o melhor meio de ter sucesso. Se acreditamos poder fazer melhor, é bem possível que haja aí mais ambição e presunção do que zelo. Em todo caso, Deus, que abençoa a obediência, conferirá tal eficácia à nossa submissão, que faremos maior bem no posto inferior que nos é designado do que em outro mais elevado e mais conforme aos nossos desejos.
Estejamos bem convencidos de que não passamos de instrumentos nas mãos de Deus, que é ele quem se digna servir-se de nós para fazer o bem, e que a principal qualidade de um instrumento é a flexibilidade e a docilidade. Como explica muito bem o Pe. Rodriguez, não é a importância do papel que nos cabe que Deus recompensa, e sim a maneira pela qual o desempenhamos: "Se o porteiro exerce melhor o seu cargo do que o Superior, ele será mais agradável a Deus e receberá maior recompensa e maior glória."
Outros acreditam que a função que lhes é oferecida ultrapassa suas aptidões. Temos o direito de o dizer francamente a nosso Superior; mas, se ele persiste em sua opinião apesar de nossas razões, só nos resta submetermo-nos humildemente: Deus, que sabe servir-se dos instrumentos mais fracos e mais incapazes, estará conosco; e, de qualquer forma, ele não nos pede o sucesso, mas a boa vontade: do resto ele se encarrega.
Algumas vezes somos tentados a recusar uma função devido aos perigos a que ela nos expõe. Também aqui é um direito e, com frequência, um dever abrir-nos sobre isso com nosso Superior; mas se, apesar de tudo, ele mantém a sua decisão, podemos contar com a graça de estado para triunfar das tentações: "Deus, que é fiel, não permitirá que sejais tentados além de vossas forças" (1Cor 10, 13).
Outras vezes, desejaríamos dispor de maior tranquilidade para estar mais disponíveis para a vida interior e a oração. Esse é, sem dúvida, um desejo louvável em si; mas precisamos lembrar-nos de que a melhor forma de servir a Deus é aquela que ele nos indica pela voz de nossos Superiores; a mais bela oração, a mais alta contemplação não valem um ato de obediência à vontade divina, e disso dão testemunho os maiores místicos, como Santa Teresa e São João da Cruz: na Igreja são necessárias as Martas, tanto quanto as Marias, e a ação tanto quanto a contemplação; cabe a Deus indicar, por meio dos Superiores, o caminho que cada um deve seguir.
Além disso, não há nenhuma incompatibilidade entre uma coisa e outra: disso é testemunha Santa Teresa, que nunca foi elevada a tão altas contemplações do que quando precisava, para fundar novos conventos, viajar através de regiões difíceis e sustentar processos contra os que colocavam obstáculos a essas fundações." A perfeita conformidade à vontade de Deus lhe permitia gozar, em meio a esses obstáculos, de uma paz inalterável, e progredir de forma admirável na vida mística.
2. PRIVAÇÃO DE CERTOS BENS ESPIRITUAIS
Às vezes sofremos pela privação de certos bens espirituais que muito desejamos.
Distinção Importante: Para que os conselhos dados sejam mais apropriados às necessidades das almas, é preciso, em primeiro lugar, estabelecer uma distinção entre os bens essenciais e aqueles que não o são, aos quais chamamos variedades da vida espiritual.
Os bens essenciais, que devemos constantemente desejar e buscar, são aqueles necessários à salvação: a graça nesta vida e a glória na outra. É um dever para nós buscar esses bens com ardor, uma vez que, sem eles, não poderíamos cumprir a finalidade para a qual fomos criados. Por isso a Igreja condenou os erros do quietismo, segundo o qual a perfeição exigiria a indiferença em relação a esses bens. Sem dúvida, alguns santos sofreram a tentação da desesperança, e, considerando-se indignos do céu, aceitaram ir para o inferno se Deus assim o quisesse, contanto que pudessem, ali, continuar a amar a Deus. Essa é uma das provações raras sobre as quais falaremos mais adiante.
Além desses bens essenciais, há aquilo a que chamamos variedades da vida espiritual, como as consolações e as securas, as tentações, os escrúpulos, as vias comuns e as vias místicas. A regra em todas essas modalidades é deixar-se guiar por uma perfeita conformidade à vontade divina; é o único meio de evitar muitos sofrimentos morais e de tirar proveito daqueles que não pudermos evitar, para progredir na vida espiritual.
Para poder ser útil às almas, é necessário entrar em alguns detalhes.
A privação de certos meios de santificação nos causa, às vezes, grandes sofrimentos morais.
1°) PERDA DO DIRETOR.
Tínhamos encontrado um bom diretor espiritual, ou amigos cujos exemplos e conselhos nos faziam muito bem, e eis que deles somos separados pela morte ou por um longo afastamento. Isso é certamente muito doloroso. Mas seria ofender a Deus imaginar que temos necessidade absoluta de tal diretor ou de tal amigo para nos santificar. Os homens não passam de instrumentos nas mãos de Deus: ele saberá enviar-nos outros, ou mesmo, em certos casos, substituí-los por sua graça. Podemos, sem dúvida, pedir-lhe humildemente outros sustentos, mas sempre com a convicção profunda de que só Deus basta. Algumas vezes nos é mesmo útil que aqueles que pareciam necessários ao nosso progresso espiritual nos sejam tirados, para que nos desapeguemos de todo apoio humano e nos lancemos com mais confiança nos braços de Deus.
Sobretudo, é importante que os próprios diretores espirituais evitem, se não quiserem paralisar seu ministério, considerar-se indispensáveis ao bem de tais almas, e a elas ligar-se por promessas ou votos: isso seria usurpar um papel que cabe somente ao Espírito Santo. Como é importante meditar com frequência nestas palavras de São Paulo, que, vendo que os coríntios apegavam-se a determinado pregador de preferência a outro, disse-lhes: "Quem é, pois, Apolo, e quem é Paulo?
Apenas servidores pelos quais fostes levados à fé, cada um deles segundo os dons que o Senhor lhe concedeu. Eu plantei; Apolo regou; mas era Deus quem fazia crescer. Assim, pois, aquele que planta nada é, aquele que rega nada é, mas importa tão somente Deus, que dá o crescimento." (1Cor 3, 5-7)! É evidente, com efeito, que somente a graça de Deus pode tocar as almas; nós somos apenas seus ministros, seus instrumentos; devemos sentir-nos muito honrados por termos sido escolhidos, e bem felizes se, por nossa indignidade ou nossa incapacidade, não colocarmos demasiados obstáculos à sua ação nas almas.
2°) IMPOSSIBILIDADE DE PRATICAR CERTOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Sofremos também pela privação de certas práticas de piedade, que se nos tornam impossíveis durante algum tempo devido a doenças ou outros obstáculos. Lembremo-nos então do que Deus disse um dia, interiormente, a um santo religioso, o Pe. Balthazar Alvarez: "Minha glória não se encontra nesta ou naquela obra, mas no cumprimento da minha vontade. Ora, quem pode saber melhor do que eu o que convém à minha glória?" Isso vale para os melhores exercícios, como a Santa Missa, a comunhão, a visita ao Santíssimo Sacramento.
Santo Afonso de Ligório nos dá, a esse respeito, um magnífico exemplo: por causa de seus êxtases diante do Santíssimo Sacramento, seu superior o havia confinado em sua cela. Ele obedeceu, mas, às vezes, cedendo a uma atração irresistível, arrastava-se até a escada que conduzia à capela; e então, lembrando-se da proibição, voltava para sua cela cheio de confusão, dizendo: "É verdade, ó bom Jesus, mais vale afastar-se de vós por obediência do que estar a vossos pés por desobediência." Ele sofria também por não poder celebrar a Santa Missa, que lhe proporcionara outrora tantas consolações; mas aceitava generosamente esse sacrifício: "Vós não quereis mais, ó Jesus, que eu celebre a Missa; fiat, que vossa adorável vontade seja feita."
3°) AS TENTAÇÕES.
As tentações são provações ainda mais cruéis. Quando temos os olhos voltados para o céu e um grande desejo de perfeição, é certamente uma pesada cruz ver-nos assaltados por tentações frequentes, graves e insidiosas, que colocam em perigo a salvação de nossa alma. No entanto, as almas mais santas passam por essa prova, e se algumas, por exceção, escapam às humilhantes tentações da carne, outras, em maior número, precisam enfrentá-las: assim São Paulo, Santa Francisca Romana, Santa Ângela de Foligno, Santa Catarina de Sena, Santo Afonso de Ligório e tantos outros. Além disso, as tentações do orgulho, que podem ser ainda mais perigosas, não poupam ninguém.
Todos esses ataques têm sua razão de ser. Submetidos como estamos à tripla concupiscência, tendo de lutar contra o demônio e o mundo até o fim de nossa vida, seria preciso um milagre para nos imunizar contra isso, e Deus só o faz em caráter excepcional.
Existem, de resto, muitas vantagens na tentação. Ela é um meio de purificação. Pode ser que em nossa vida passada nos tenha faltado vigilância e energia, e tenhamos sucumbido. A tentação nos recorda nossas imprudências, nossas covardias e nossas quedas, e nos incita a reparar essas faltas por atos de contrição, de confusão e de humilhação; e ao mesmo tempo nos obriga a fazer esforços mais enérgicos e mais perseverantes para não sucumbir novamente. Tudo isso purifica nossa alma e a torna mais agradável a Deus.
É também um meio de progresso espiritual, como uma chicotada que nos desperta no momento em que íamos adormecer, e nos faz compreender a necessidade de progredir na perfeição para afastar com mais segurança todo perigo. É ainda uma escola de humildade: compreendemos melhor nossa fraqueza e fragilidade, quando nos vemos tão perto de sucumbir; e uma escola de amor a Deus: sentindo vivamente a nossa impotência, lançamo-nos com um amor confiante nos braços de Deus, para aí buscar força e proteção.
Assim, a tentação é uma ocasião de adquirir méritos, e, com isso, aumentar nossa glória no céu. Depois de ter, como São Paulo, combatido até o fim, receberemos a coroa de glória, que será proporcional à nossa bravura no combate. Assim como um bom soldado fica mais contente quando pode mostrar sua coragem no campo de batalha, assim também nós, soldados de Cristo, devemos nos alegrar quando ele nos concede a honra de nos chamar ao combate e à coroa que é a sua recompensa.
Não receemos ser derrotados: sob o comando de um chefe como Jesus Cristo, podemos ter a certeza da vitória, contanto que permaneçamos unidos a ele e depositemos nele toda a nossa confiança. Digamos com Santa Teresa, tão frequentemente tentada pelo demônio: "Se o Senhor é todo-poderoso, e se os demônios a ele se submetem, por que não teria eu a força, com a sua graça, de combater contra todo o inferno? Eu tomava uma cruz nas mãos, e sentia que, com essa cruz, venceria facilmente todos os demônios reunidos. Eles me apareceram algumas vezes, mas não me inspiravam quase nenhum receio; antes, eram eles que pareciam ter medo de mim.
Considero-os muito covardes; quando lhes mostramos desprezo, eles perdem toda a coragem. Mas, se lhes damos voluntariamente poder sobre nós por nosso apego às honras, aos bens, aos prazeres, colocamos as armas em suas mãos." A Santa Joana de Chantal, muito tentada contra a fé, São Francisco de Sales dava estes sábios conselhos: "Vós amais a fé, e não gostaríeis de ter um único pensamento contra ela; parece-vos que tudo a prejudica. Não, não; não penseis que esse farfalhar de folhas seja o ruído das armas.
Nosso inimigo gosta de fazer barulho; não vos inquieteis com isso. Ele sempre vociferou em volta dos santos... Não tenhais medo do seu alarido. Ele não poderia fazer-nos nenhum mal, e por isso tenta, ao menos, nos amedrontar, para que o medo nos inquiete, e a inquietude nos canse, e o cansaço nos faça sucumbir. Não devemos temer senão a Deus, e mesmo esse temor deve ser amoroso. "
Lembremo-nos sobretudo de que as tentações, por mais violentas que sejam, não são um mal a não ser quando nelas consentimos; de que as impressões, as imaginações, mesmo muito vivas, somente são pecados quando nelas consentimos deliberadamente; de que, quando elas nos desagradam, isso é um sinal de que não há consentimento da vontade; de que o próprio prazer não é culposo senão quando o buscamos livremente ou o aceitamos.
Ora, quando se ama a Deus habitualmente e se detesta o pecado, não se pode consentir de forma deliberada no mal sem o perceber claramente; no máximo, pode-se dizer que se receia, pela violência da tentação, ter-lhe dado algum meio--consentimento em um momento de surpresa; e, se temos dúvida se consentimos ou não, devemos interpretar essa dúvida em nosso favor, e acreditar que não houve falta grave.
4°) AS QUEDAS.
Mas, enfim, suponhamos que, por mais impossível que seja, tenhamos cometido um pecado mortal; é preciso lamentá-lo, sem dúvida, mas não devemos nos desencorajar. Repitamos as palavras tão confiantes de Santa Teresa do Menino Jesus: "Ah, eu o sinto, mesmo que me pesassem na consciência todos os crimes que se podem cometer, eu não perderia minha confiança: iria, com o coração partido pelo arrependimento, lançar-me nos braços do meu Salvador.
Sei que ele ama o filho pródigo, ouvi suas palavras a Santa Madalena, à mulher adúltera, à Samaritana. Não, ninguém poderia assustar-me, pois conheço bem o seu amor e a sua misericórdia. Sei que todas essas numerosas ofensas seriam apagadas em um piscar de olhos, como uma gota d'água lançada em um braseiro ardente."
Palavras bem consoladoras, certamente, para as pessoas que cometeram faltas graves! Com uma confiança filial na misericórdia divina e a firme vontade de tudo reparar, elas aprenderão a tirar proveito de suas faltas para se tornarem mais humildes, mais prudentes e mais fervorosas: "Ex casu humiliores, cautiores, ferventiores"
5°) OS TEMORES.
São também um sofrimento, todos esses temores que vêm perturbar a nossa paz. Temos medo dos homens que podem nos prejudicar, nos fazer mal, nos perseguir. Lancemos todas essas inquietações no coração de Deus: ele saberá proteger aqueles que o amam.
Também temos medo de ofender a Deus: somos tão fracos, tão impotentes! É verdade, mas também aqui basta que nos abandonemos em suas mãos: ele, mais do que nós, deseja nossa perseverança no bem, e, apoiados nele, podemos ter a certeza de não o ofender.
6°) OS ESCRÚPULOS.
Quando esses temores perturbam constantemente a consciência e a fazem recear, pelos motivos mais insignificantes, ter ofendido a Deus, eles se chamam escrúpulos. Então as faltas mais leves são vistas como crimes; as melhores ações parecem viciadas por todo tipo de más intenções. Quando não se come-te atos de pecado, acredita-se ter constantemente pensamentos contra a caridade ou a pureza; receia-se fazer confissões e comunhões sacrílegas, e acredita-se mesmo ser muitas vezes culpado de blasfêmias.
Tudo isso denota um julgamento mais ou menos falseado por temores exagerados. Tem-se falsas ideias sobre Deus, que é visto como um juiz severo e impiedoso, e sobre o consentimento, que é confundido com as impressões da sensibilidade.
No entanto, algumas vezes Deus permite que sejamos obcecados pelos escrúpulos, para nos provar, nos desapegar das consolações, nos fazer expiar nossas faltas e nos conduzir, assim, ao puro amor.
Seja qual for a causa de nossos escrúpulos, existem dois remédios: uma filial confiança em Deus e uma obediência absoluta ao seu representante na terra, nosso confessor.
Confiança em Deus. Não temos razão para considerá-lo como um juiz impiedoso. Ele é antes de tudo um Pai, muito amoroso e muito misericordioso, sempre pronto a perdoar ao pecador arrependido. Nós somos miseráveis, é verdade; mas, quanto maior é a nossa miséria, mais ela atrai a sua misericórdia; e, como esta é infinita, ultrapassará sempre o tamanho de nossas faltas. Portanto, quanto mais culpados formos, mais deve aumentar a nossa confiança nele.
Obediência. Essa bondade é comunicada por ele a seus ministros. Eis porque precisamos, com total franqueza, expor nossos escrúpulos ao nosso confessor e obedecer inteiramente aos seus conselhos e orientações.
Sendo incapazes de nos governar a nós mesmos, precisamente porque nosso julgamento está falseado, o único remédio eficaz é submetermo-nos cegamente ao julgamento de nosso diretor. Ele possui a graça de estado para nos conduzir, e, ainda que se enganasse, podemos estar certos de não nos enganarmos ao obedecer-lhe, pois Deus ratifica para nós as suas decisões.
7°) AS SECURAS.
Outro sofrimento que nos aflige às vezes é a perda das consolações, a secura persistente e mesmo a repugnância até pelos exercícios de piedade mais santificantes. É uma grande dor para as almas fervorosas, que se acreditam assim abandonadas por Deus! Escutemos a esse respeito às queixas dos santos: "Experimento tal secura, diz Santo Afonso, uma tão grande desolação espiritual, que não encontro mais Deus na oração, nem na santa comunhão. A Paixão de Nosso Senhor, a divina Eucaristia, nada me toca.
Tornei-me insensível a toda devoção. Parece-me que sou uma alma sem amor, sem esperança, sem fé... numa palavra, abandonada por Deus. " E quantas almas santas repetem os mesmos gemidos! Que elas escutem, pois, a resposta do mesmo santo: "Jesus, minha esperança, meu amor, único amor de minha alma! Eu não mereço que me deis consolações e doçuras... Sei que delas sou indigno, eu que tanto vos ofendi! Eis tudo o que desejo: ó meu Deus, fazei que eu vos ame, fazei que eu cumpra a vossa vontade durante toda a minha vida, e, então, disponde de mim como vos aprouver.
Ah! Infeliz de mim, eu mereceria sofrer muito mais trevas, muito mais terrores, muito mais abando-nos para expiar as injúrias que vos fiz; mereci o inferno, onde, separado de vós e rejeitado por todos, deveria chorar eternamente, sem poder nunca mais amar-vos. Ah! Jesus, afasta de mim essa desgraça, e aceito tudo o mais." Assim falava Santo Afonso, que, como todos os santos, exagerava demais os seus erros.
Mais perto de nós, Santa Teresa de Lisieux escrevia a uma de suas irmãs: "Agradeço ao meu Jesus por fazer-me caminhar nas trevas; aí permaneço em profunda paz. Consinto de bom grado em passar toda a minha vida religiosa nesse subterrâneo escuro ao qual ele me conduziu; desejo somente que as minhas trevas obtenham a luz para os pecadores. Sou feliz, sim, bem feliz por não ter nenhuma consolação."
Os santos têm razão: quando Jesus se esconde, é para fazer-se desejar, fazer-se buscar. É então uma prova do seu amor por nós, e para que o amemos com um amor mais puro: purificado no cadinho do sofrimento, nosso coração ama com mais ardor Aquele que não pode unir-se perfeitamente senão a corações purificados e desapegados de tudo.
Ora, nada nos despoja mais do que a cruz, nada é mais unitivo, mais transformador. E então dizemos com o Pe. Chardon: "Já não recebemos as cruzes como fontes de aflição, mas como a presença do Deus vivo, tanto mais íntima, mais penetrante, mais unitiva e mais transformadora quanto menos mistura e mais pureza tiver. Os exercícios de piedade somente nos contentam por serem uma busca de Deus, e essa busca, feita com retidão de intenção, faz com que os próprios exercícios passem despercebidos, com suas circunstâncias de doçura ou de amargura, de prazer ou de desagrado."
8°) PRIVAÇÃO DAS GRAÇAS MÍSTICAS.
Há almas que sofrem por se verem privadas dessas graças místicas que Deus concede a algumas pessoas. Certamente não é proibido desejá-las, já que elas são um poderoso meio de perfeição, dão-nos mais luz e amor que as graças comuns e nos levam a glorificar a Deus mais perfeitamente. Mas esse desejo deve ser humilde, porque somos incapazes de merecer tais graças; e condicional, no sentido em que deve subordinar-se em tudo à vontade de Deus, que as dá a quem quer, quando quer, da maneira e com a intensidade que quer; elas não são, com efeito, necessárias à perfeição, embora sejam muito úteis, e há almas não contemplativas que atingem um grau de união com Deus mais elevado do que outras que desfrutam da contemplação.
O que podemos fazer é preparar-nos para elas pela prática assídua das virtudes morais e teologais, e pelo cultivo dos dons do Espírito Santo. Assim estaremos na disposição de alma requerida para aproveitar bem a contemplação, se aprouver à divina bondade elevar-nos gratuitamente a ela. É o que diz São Bernardo: "Vós também desejais, talvez, esse repouso da contemplação, e fazeis bem; apenas, não vos esqueçais das flores que devem adornar o leito da esposa. O exercício das virtudes deve preceder o santo repouso, como a flor deve preceder o fruto."
Esse é também o ensinamento de Santa Teresa nos capítulos XIX e XX do Caminho de Perfeição: "Embora todas as irmãs deste mosteiro (S. José de Ávila, mosteiro reformado) sejam dedicadas à oração, isso não significa necessariamente que todas devam ser contemplativas. É impossível. Seria uma grande tristeza para aquela que não o fosse, se ela não pudesse compreender esta verdade: que tal estado é um puro dom de Deus, e não é necessário para a salvação... Ela poderá, sem esse dom, ser muito perfeita, caso cumpra aquilo que eu disse (a prática das virtudes morais, sobretudo a pobreza, a humildade, a conformidade à vontade de Deus). Talvez mesmo ela tenha maior mérito, já que trabalha com seu próprio esforço.
O Senhor a trata como uma alma forte e lhe reserva para dar-lhe no céu, de uma só vez, todas as consolações de que foi privada na terra. Assim, ela não deve desencorajar-se, nem abandonar a oração, nem deixar de fazer como as outras. Às vezes o Senhor demora a vir, mas, quando vem, paga bem e nos dá tanto em uma única visita quanto havia dado a outras pouco a pouco, durante vários anos. Quanto a mim, fiquei mais de quatorze anos sem conseguir sequer meditar, a não ser com a ajuda de um livro, e sem dúvida isso acontece com muitas pessoas."2% Por isso ela conclui, com razão: "Deixai agir o Senhor da casa.
Sábio e poderoso como é, ele sabe o que vos convém e o que lhe convém. Fazei o que depende de vós, disponde-vos à contemplação com toda a perfeição de que falamos, e, estejais certas, ele não deixará, creio eu, de conceder-vos esse dom, se fordes realmente desapegadas e humildes. E, se não vo-lo conceder, é porque vos reserva toda essa alegria para o céu."
Assim, pois, as almas fervorosas podem desejar a contemplação, preparar-se para ela pela prática constante das virtudes e esperar que a terão um dia, aqui na terra ou no céu. A paz está no santo abandono.
Depois de ter descrito os diversos sofrimentos da ordem temporal ou espiritual, e indicado brevemente o que as pessoas por eles atingidas devem fazer em cada caso, iremos agora expor as etapas ou graus pelos quais podemos elevar-nos da simples resignação até o amor à cruz.
II. AS ETAPAS OU GRAUS NA ACEITAÇÃO DO SOFRIMENTO
Há muitas maneiras de sofrer. Não falamos aqui dos revoltados, dos que maldizem a dor e culpam Deus por todas as tribulações pelas quais passam. Já dissemos o bastante sobre a origem e as vantagens do sofrimento para mostrar o quanto essas queixas são injustas, e como não fazem senão agravar os sofrimentos e incômodos que experimentamos. Trata-se aqui da atitude do cristão em relação à dor.
Há diferentes maneiras de carregar a nossa cruz. São Bernardo distingue três, que correspondem aos três graus da perfeição cristã: "O iniciante, movido pelo temor, suporta a cruz de Cristo com paciência; o adiantado, movido pela esperança, a carrega com uma certa alegria; e o perfeito, consumado na caridade, a abraça com ardor." Seguimos de bom grado essa divisão, pois ela corresponde às três grandes etapas da vida cristã.
1°) Os iniciantes, sustentados pelo temor de Deus, não amam o sofrimento e procuram evitá-lo; mas preferem sofrer a ofender a Deus, e, mesmo gemendo sob o peso da cruz, suportam-na com paciência: são os resignados.
2°) Os adiantados, sustentados pela esperança e pelo desejo dos bens celestes, e sabendo que cada sofrimento tem para nós um peso eterno de glória, ainda não buscam a cruz, mas a carregam de bom grado e com uma certa alegria, a exemplo dos cativos que, tendo semeado em lágrimas, recolhem com alegria (SI 125, 6).
3°) Os perfeitos, guiados pelo amor, vão mais longe: para glorificar a Deus a quem amam, para conformar-se mais perfeitamente a Jesus Cristo, eles antecipam-se às cruzes, desejam-nas e as abraçam com ardor, não porque elas sejam atraentes em si mesmas, mas porque são um meio de testemunhar nosso amor a Deus e a Jesus Cristo. Como os apóstolos, eles se rejubilam por terem sido julgados dignos de sofrer ultrajes pelo nome de Jesus (At 5, 41); como São Paulo, eles exultam de alegria em meio às tribulações (2Cor 7, 4). 31 Às vezes, eles se oferecem como vítimas.
Esse último grau é chamado o amor à cruz, ou mesmo a loucura da cruz, o amor vitimal.
1. O PRIMEIRO GRAU OU A RESIGNAÇÃO CRISTA
De forma natural nós não amamos o sofrimento, temos mesmo por ele uma repugnância instintiva. É somente à luz da fé que o aceitamos pacientemente. Essa luz nos mostra que somos pecadores, e que, como tais, merecemos um castigo, uma penalidade para reparar as faltas que cometemos. Se essas faltas são graves, precisamos confessar que merecemos o inferno, e que devemos aceitar com gratidão as penas temporais que Deus nos envia para permitir-nos escapar aos tormentos eternos que merecemos, ou mesmo às angústias do Purgatório que teremos de enfrentar mais tarde, se não expiarmos durante esta vida.
Além disso, temos em nós inclinações que nos incitam ao mal, e a ele nos conduziriam infalivelmente se não tivéssemos o cuidado de nos mortificar: mais uma razão para car regar, sem nos queixarmos, as pequenas cruzes que encontramos em nosso caminho; ao nos incomodar, ao fazer-nos sofrer, elas nos ensinam a mortificar esse amor ao prazer que é a fonte de nossas más tendências, e fortificam nossa vontade na luta contra o mal.
Elas nos permitem ainda adquirir méritos para o céu: cada sofrimento pacientemente suportado, por submissão à vontade divina, aumenta nossa recompensa no céu. Ora, se temos tanto interesse em aumentar, neste mundo, os nossos recursos materiais, quanto mais devemos entesourar para o céu, onde se goza da única felicidade verdadeira, a felicidade eterna!
Esses pensamentos de fé certamente suavizam nossas dores e as tornam mais suportáveis. Mas não as eliminam, e às vezes as sentimos tão vivamente que somos tentados a considerá-las demasiadamente duras e a nos queixar. Para nos aliviar, e para facilitar a submissão à vontade divina, dois remédios podem ser propostos, um negativo e o outro positivo. O primeiro é não as agravar por uma falsa tática: há quem colecione seus males passados, presentes e futuros, reunindo-os em um imenso bloco que lhes parece insuportável. O que precisamos fazer é o contrário: a cada dia basta a sua pena (Mt 6, 34).
Ao invés de reavivar as feridas do passado, já cicatrizadas, é preciso não pensar mais nelas, ou nelas pensar somente para contemplar as vantagens que nos trouxeram: os méritos adquiridos, o progresso na virtude produzido pela paciência, a familiarização com o sofrimento, etc. Dessa forma a dor é atenuada: pois um mal somente nos afeta quando lhe prestamos atenção; uma maledicência, uma calúnia, um insulto só nos magoam quando os ruminamos com amargura.
Quanto ao futuro, é loucura preocuparmo-nos com ele. Sem dúvida, é sábio prevê-lo para nos preparar para ele, na medida do possível; mas pensar antecipadamente nos males que podem nos acontecer e sofrer por causa disso é pura perda de tempo e desperdício de energia. Esses males podem não acontecer; caso aconteçam, naquela hora os suportaremos com a ajuda da graça que então nos será dada para os suavizar; mas neste momento ainda não temos essa graça, e, entregues às nossas próprias forças, só podemos sucumbir sob o peso do fardo que nós mesmos nos impomos. Não é mais sábio abandonarmo-nos nas mãos do nosso Pai celeste, e banir sem piedade, como coisa má e prejudicial, os pensamentos ou imagens que nos representam os sofrimentos passados ou futuros?
O remédio positivo é pensar, quando sofremos, nas grandes vantagens do sofrimento. O sofrimento é educativo, isto é, uma fonte de luz e de força: ele nos lembra que somos exilados neste mundo, a caminho da pátria, e que não devemos distrair-nos colhendo as flores das consolações, já que a verdadeira felicidade se encontra somente no céu. Ou, como diz o poeta: "Quando o exílio é agradável demais, fazemos dele a nossa pátria!"
É também uma força: o hábito do prazer enfraquece a atividade, abate a coragem e leva a vergonhosas capitulações; o sofrimento, ao contrário, não por si mesmo, mas pela reação que provoca, ativa e aumenta nossas energias, tornando-nos aptos para as virtudes mais viris, como se viu durante a grande guerra, quando as privações, os perigos, as feridas e as ameaças contínuas de morte suscitaram uma coragem e mesmo um heroísmo dignos dos mais belos tempos de nossa história.
2. O SEGUNDO GRAU OU A ACEITAÇÃO CRISTÃ DO SOFRIMENTO
Os adiantados, sustentados pela esperança e por um certo amor a Deus, vão mais longe que os resignados e carregam sua cruz com mais alegria.
1º) Sendo a sua fé mais viva, eles pensam mais frequentemente nos bens do céu, e esse pensamento lhes dá mais coragem para suportar com amor as dores do exílio. Eles gostam de lembrar-se de que, sendo incorporados a Cristo e filhos de Deus, são herdeiros do Pai e co-herdeiros de Cristo, e que, tendo parte em seus sofrimentos, terão parte em sua glória. Consideram que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória futura (Rm 8, 17-18). "Pois nossas tribulações momentâneas são leves em relação ao peso eterno de glória que elas nos preparam para além de toda medida. Eis por que não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno" (2Cor 4, 17-18).
2°) A consideração desses pensamentos nos desapega pouco a pouco dos bens terrenos. Somos atraídos pelos prazeres sensíveis, pelas satisfações do orgulho e a fascinação da riqueza, e também pelas alegrias naturais, bem mais puras, da mente e do coração. Ora, a esperança, apoiada por uma fé viva, mostra-nos que todas essas alegrias terrenas são desprovidas de dois elementos essenciais à felicidade: a perfeição e a duração.
Nenhum desses bens é bastante perfeito para nos satisfazer: depois de nos proporcionar alguns momentos de prazer, eles logo produzem a saciedade e o fastio. Nosso coração é grande demais e tem aspirações demasiadamente vastas e elevadas para contentar-se com os bens materiais, que não passam de meios para nos conduzir a um fim mais nobre.
Os bens naturais da mente e do coração tampouco nos bastam: nossa inteligência não pode satisfazer-se senão pelo conhecimento da causa primeira; e nosso coração, que busca um amigo perfeito, não o encontra senão em Deus: somente ele é a plenitude do ser, plenitude de beleza, de bondade, de poder; Ele, que se basta plenamente a si mesmo, também basta, evidentemente, à nossa felicidade. Tudo consiste em alcançá-lo; mas precisamente a esperança no-lo mostra inclinando-se até nós para dar-se a nós; e, quando o compreendemos, nosso coração se desapega dos bens terrenos para lançar-se nele, assim como o ferro é atraído para o imã.
Ainda que os bens da terra nos bastassem, eles são finitos, e logo nos escapam. Nós o sabemos, e essa certeza perturba nossa alegria, mesmo quando os possuímos. Deus, ao contrário, permanece para sempre, e a morte, que nos separa de tudo o mais, só nos une mais perfeitamente a Ele; e por isso, apesar do horror natural que ela nos inspira, é com confiança que a vemos aproximar-se, graças à esperança que temos de ser para sempre unidos Aquele que nos pode fazer felizes.
3°) É ainda a esperança que, unida à humildade, dá eficácia às nossas orações e nos obtém, assim, todas as graças necessárias para nos fazer desejar com ardor a eterna posse de Deus, o único que pode nos fazer felizes. Ora, o desejo provoca na alma o impulso, o movimento, o ardor necessários para alcançar o bem que almejamos, e sustenta nossos esforços até que tenhamos atingido a meta.
1 - Ela aumenta nossas energias pela perspectiva de uma recompensa que ultrapassará em muito os nossos esforços. Se as pessoas mundanas trabalham com tanto afinco para adquirir riquezas perecíveis, se os atletas se submetem a exercícios de treinamento tão árduos, se fazem esforços desesperados para ganhar uma coroa perecível, quanto mais não devemos nós trabalhar e suportar para conquistar uma coroa imortal! É o que São Paulo lembrava aos coríntios, descrevendo-lhes os rudes exercícios dos atletas: "Os atletas se abstêm de tudo para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível" (1Cor 9, 25).
2- Ela nos dá essa coragem, essa resistência que provém da certeza do sucesso. Se não há nada mais desencorajador do que lutar sem esperança de chegar à vitória, por outro lado não há nada que nos dê tanta força quanto a garantia de triunfar. Ora, a esperança nos dá essa certeza. Nós mesmos somos fracos, mas temos poderosos aliados: Deus, Jesus Cristo, a Santíssima Virgem e os Santos. Ora, "se Deus é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8, 31).
Se Jesus, que venceu o mundo e o demônio, vive em nós e nos comunica sua força divina, não temos, com ele, a certeza de triunfar? Se a Virgem imaculada, que esmagou a serpente infernal, nos sustenta com sua poderosa intercessão, não obteremos todo o auxílio necessário? Se os amigos de Deus pedem por nós, será que tantas súplicas não nos proporcionariam uma absoluta segurança? E, se estamos certos da vitória, poderíamos recuar diante de alguns esforços necessários para conquistar a eterna posse de Deus?
Tão grande é a nossa confiança, apoiada na bondade de Deus e nos méritos de Jesus Cristo, que mesmo em meio às adversidades nós repetimos a palavra do salmista: "Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois estás comigo" (S1 22, 4). E realmente Nosso Senhor, vivendo em nós, vem reconfortar-nos, dizendo-nos como outrora aos apóstolos: "A paz esteja convosco, não temais, sou eu!" (Lc 24, 36-39).
Se são as intrigas e as perseguições que os atingem, eles se lembram do que dizia São Vicente de Paulo aos seus: "Ainda que a terra inteira se levante contra nós, somente acontecerá aquilo que aprouver a Deus, em quem colocamos nossa esperança." Se são perdas temporais, eles dizem, com o mesmo santo: "Tudo o que Deus faz é para o nosso bem, e por isso devemos acreditar que essa perda nos será proveitosa, já que vem de Deus." Se são os sofrimentos físicos ou morais, nós os vemos como bênçãos divinas destinadas a nos garantir o céu em troca de algumas dores passageiras.
4°) Por essa confiança, escapamos ao jugo dos prazeres e dos êxitos, ainda mais perigoso que o do sofrimento. "Quando a vida parece sorrir às nossas esperanças terrenas, é difícil desprezar essas promessas aduladoras que nos tentam por nosso lado sensível; é difícil livrar-se dos laços do prazer, e dizer à felicidade que se nos oferece: tu não me bastas."35 Mas o cristão se lembra de que as alegrias mundanas são enganadoras, e que bloqueiam o impulso em direção a Deus; para escapar ao seu jugo, ele pratica mortificações positivas, e sobretudo busca, por uma amizade mais íntima com Nosso Senhor, alegrias mais puras e mais santas: "Esse cum Jesu dulcis paradisus".
Se é o sentimento de suas misérias e imperfeições que os inquieta, eles meditam nestas palavras de São Vicente de Paulo: "Vós me apresentais vossas misérias. Mas quem não as tem? O que importa é conhecê-las e amá-las, como o fazeis, sem delas ocupar-se senão para aí estabelecer firmemente o fundamento da confiança em Deus; pois assim a casa será construída sobre a rocha, e permanecerá firme quando a tempestade vier. " Nossas misérias atraem, com efeito, a misericórdia divina, quando a invocamos com humildade, e nos deixam na melhor disposição para receber as graças divinas.
Assim, pois, encontramos em nossa esperança, em nossa confiança em Deus, as convicções e as graças necessárias para aceitar nossas cruzes.
3. O TERCEIRO GRAU OU O AMOR À CRUZ
Para amar a cruz, é preciso mais do que a esperança: é preciso o amor, o amor a Deus e o amor aos irmãos por causa de Deus. O sofrimento, com efeito, não é amável em si mesmo; para suportá-lo já precisamos, como vimos, da motivação dos bens superiores que ele nos proporciona: a esperança, iluminada pela fé, eleva nosso espírito à consideração desses bens superiores.
Mas, quando se trata de amar a cruz, de desejá-la, de buscá-la, de preferi-la às alegrias e consolações legítimas, é preciso um arrebatamento, um fervor, uma constância que somente o amor pode dar. E isso é ainda mais verdadeiro quando se ama a cruz até a loucura, como fizeram os santos, conforme veremos adiante.
É portanto o amor que nos leva a amar a cruz: o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor a Deus e o amor aos irmãos.
1°) O amor ao divino Crucificado nos leva a amar a sua cruz: quando o amamos de fato, como não amar a sua obra redentora, como não amar essa cruz que é o instrumento da nossa salvação, e, em consequência, as cruzes providenciais que nos permitem associar-nos a essa redenção? O amor pelo Crucificado é, pois, para muitas almas, o segredo do seu amor à cruz.
1- Precedidos pela caridade daquele que nos amou primeiro, quando éramos ainda pecadores (Rm 5, 8), sentimo-nos cheios de amor por ele, e queremos retribuir-lhe amor com amor.
Assim, pensamos nele com frequência; gostamos de ler, de meditar sua vida e seus mistérios, mas sobretudo esse grande mistério da Paixão, na qual o seu amor por nós se manifesta de forma tão impressionante. Os amigos de Jesus gostam de acompanhá-lo na via dolorosa por ele percorrida desde a manjedoura até o Calvário, como fizemos no primeiro capítulo deste livro; eles o admiram, louvam-no e amam-no em todos esses momentos dolorosos que ele viveu: o despojamento que se impôs em sua entrada neste mundo, sua resignação na humilde manjedoura que lhe serve de berço, e na qual sofre muito mais pela ingratidão dos homens do que pelo frio da estação; os sofrimentos do exílio; os obscuros trabalhos da vida oculta; os labores, as fadigas e as humilhações da vida pública; mas, sobretudo, os sofrimentos físicos e morais de sua longa e dolorosa paixão.
Armados com o pensamento de que Cristo sofreu por eles (1Pd 4, 1), sentem-se mais corajosos diante da dor ou da tristeza; estendem-se amorosamente sobre a cruz ao lado de Jesus e por amor a ele: "Fui crucificado junto com Cristo" (Gl 2, 19); quando sofrem muito, lançam a ele um olhar compadecido e amoroso, e se lembram das palavras da Imitação: "Jesus carregou a sua cruz antes de ti, e morreu por ti na cruz, para que tenhas a coragem de carregar a tua cruz e de morrer com ele na cruz: se morreres com ele, com ele viverás; se partilhas de seus sofrimentos, partilharás de sua glória."
2- Encontramos nele, portanto, um modelo, e um modelo tanto mais atraente porquanto foi por nós que ele sofreu; pois se ele, que era inocente, sofreu por carregar sobre si o peso de nossas iniquidades, não é justo que os culpados sofram como ele e mesmo mais do que ele?
3- Quanto mais o amamos, mais desejamos sofrer. A verdadeira amizade, baseada na estima da pessoa amada, leva-nos a imitá-la: se a amamos por suas qualidades, desejamos assemelhar-nos a ela tanto quanto possível, e reproduzir em nós as virtudes que nos atraem; daí o axioma: amicitia æquales accipit aut facit, a amizade supõe uma certa igualdade, ou ao menos a produz.
Assim, ao ver nosso Salvador pregado à cruz, queremos também nela ser pregados com ele, para mais nos assemelharmos a ele; dizemos, com São Bernardo, que não convém que vivam nos prazeres os seguidores de um chefe coroado de espinhos: "Pudeat sub spinato capite membrum fieri delicatum. "
4- A esse motivo acrescenta-se outro: desejamos consolar o Amigo que tanto sofreu por nós. Durante sua Paixão ele já previa os testemunhos de simpatia que iria receber através dos tempos, e esse pensamento lhe era um consolo. Quando, pois, carregamos hoje a nossa cruz com ele, sabemos que com isso suavizamos suas dores. Não é essa uma grande consolação para as almas amorosas?
5- Por fim, sabemos que, ao sofrer por nós, ele nos mereceu a graça de sofrer por ele, e isso é para nós um precioso encorajamento. Pois ele não deseja outra coisa senão comunicar-nos essa graça, em tão ampla medida quanto a desejarmos. Seu mais ardente desejo é acender em nossos corações essa chama de amor e de sacrifício que consome o seu próprio coração, e, se correspondemos por pouco que seja a esse desejo, nosso coração será em breve um braseiro de amor, que consumirá pouco a pouco as escórias acumuladas por nossas faltas, e fará de nós vítimas de expiação, felizes por adquirir, ao preço de alguns sofrimentos, uma maior pureza, uma união mais estreita com o Bem-Amado, e felizes também por completar em nossa pessoa a paixão do Salvador, pelo bem da Igreja e das almas (Cl 1, 24).
Pode-se, portanto, dizer com São Francisco de Sales que "o Monte Calvário é o monte dos amantes: todo amor que não tem sua origem na paixão do Salvador é frívolo e perigoso... O amor e a morte estão de tal forma unidos na paixão do Salvador, que não se pode ter um sem a outra. No Calvário, não se pode ter a vida sem o amor, nem o amor sem a morte do Redentor." É, pois, aos pés do divino Crucificado que iremos pedir o amor à cruz; é lá que compreenderemos que, neste mundo, não se pode amar sem sofrer, mas que o sofrimento é doce para quem sabe amar.
2°) A esse amor pelo divino Crucificado vem somar-se o amor a Deus em si mesmo, ao Deus da Trindade. A fé nos ensina que o Pai nos amou primeiro, desde toda a eternidade; amou-nos de tal forma que não hesitou em dar-nos seu próprio Filho para nos resgatar, e, ao nos dar seu Filho, deu-nos tudo (Jo 3, 16; Rm 8, 32).
Esse mesmo Filho se deu a nós por inteiro ao nos dar sua vida, seu sangue: o que é, evidentemente, a maior prova de amor (Jo 15, 13). Para perpetuar sua presença entre nós ele instituiu o sacramento da Eucaristia, esse sacramento de amor, que lhe permite renovar o dom de si mesmo todos os dias na santa comunhão. O Pai e o Filho se unem para nos dar o Espírito Santo: a terceira pessoa da Santíssima Trindade vem, pois, habitar em nós como as duas outras, e difunde em nossas almas a divina caridade (Rm 5, 5).
Para responder a tanto amor, sentimo-nos fortemente impelidos a amar, com toda a nossa alma, essas três pessoas divinas. Ora, esse amor, se é sincero, nos leva ao sacrifício. Pois não podemos amar a Deus sem renunciar ao nosso egoísmo e a todas essas inclinações viciosas que são um obstáculo ao seu amor. Assim, o amor a Deus nos leva a essa renúncia, a essa atitude de carregar a cruz, sem a qual nenhum amor verdadeiro é possível.
É o que compreenderemos melhor ao examinar as principais formas pelas quais se manifesta o amor a Deus.
1°) O AMOR PENITENTE.
Para nós, que somos pecadores, o amor assume inicialmente a forma da penitência. Aos olhos da fé, o pecado é o grande mal, é na verdade o único mal, que precisamos detestar e evitar a todo custo, pois ofende a infinita bondade de Deus. Isso é verdade sobretudo em relação ao pecado mortal, que, sendo uma revolta contra Deus, é como um crime de lesa-majestade divina: ao cometê-lo deliberadamente, ousamos preferir a nossa vontade, o nosso capricho, à santa vontade de Deus e ao seu beneplácito; com isso nos desviamos d'Aquele que é nosso fim último, e que tem todo o direito a que nossa vida inteira seja orientada para ele, para dar-lhe glória. É, pois, uma injustiça flagrante, uma espécie de idolatria que erige, no templo de nosso coração, um ídolo ao lado do verdadeiro Deus: injustiça que, para ser devidamente reparada, exigiria uma expiação eterna.
E mesmo esta ainda seria insuficiente, pois não pode ser senão finita, ao passo que a ofensa feita a Deus pelo pecado mortal é infinita." Assim, as almas que tiveram a infelicidade de ofender a Deus gravemente, quando reconhecem a extensão de sua iniquidade, confessam, com toda a sinceridade, que nunca poderiam sofrer o suficiente para expiar suas faltas: por amor Aquele que amam com toda a sua alma, elas abraçam então, com alegria, todas as cruzes que a Providência lhes envia, como meios de reparar a ofensa feita à divina bondade. E mais ainda, elas desejam, elas buscam novas cruzes para poder testemunhar a Deus mais arrependimento e mais amor.
E como se alegram quando, do coração misericordioso d'Aquele que ofenderam, brotam estas palavras que outrora consolaram Madalena: "Muitos pecados lhe foram perdoados, porque ela mostrou muito amor" (Lc 7, 47). Momento delicioso aquele em que nos vemos reconciliados com Deus, consolados, acariciados por ele; para viver esse momento, nenhum sacrifício ou lágrimas nos pareceriam demasiados, tamanha é a doçura e a paz que ele nos traz.
Depois disso, não importa que venham as tribulações, as angústias, as securas, as perseguições, as calúnias, os sofrimentos de todo tipo! O amor penitente, o amor reparador aceita tudo com alegria, feliz por poder compensar, com o fervor de sua contrição, os ultrajes outrora cometidos contra Deus, e recuperar, por esse meio, essa pureza perfeita que é necessária à união íntima com ele.
É, com efeito, a essa união que a alma fervorosa aspira, e, como ela supõe uma pureza perfeita, a alma está pronta a todos os sacrifícios necessários para recuperar e aperfeiçoar essa pureza. Assim como o doente que quer curar-se não recua diante do amargor dos remédios, assim também a alma penitente, sedenta de união com Deus, não julga nunca demasiadamente amargos os remédios que lhe são prescritos.
O sofrimento amorosamente aceito é o melhor meio de satisfazer a justiça divina, de saldar as dívidas espirituais, de purificar o que o pecado manchou, de livrar a alma dos apegos criados pelo amor desordenado ao prazer, de restaurar as forças enfraquecidas pelo pecado e de prevenir possíveis recaídas: bendito seja o sofrimento, seja qual for a forma como se apresente!
Para tirar maior proveito dessas provações, a alma penitente quer ser ativa no sofrimento: ela as acolhe com sentimentos de profunda humildade, dizendo a si mesma que as merece, e merece ainda muitas mais; com sentimentos de fé e de esperança, sabendo que elas contribuem para sua purificação, para seu embelezamento; mas, sobretudo, com sentimentos de amor a Deus, a quem deseja amar cada dia mais, e de amor ao próximo, por quem oferece suas tribulações.
Disse um filósofo cristão, com razão, que a dor conduz o pecador às portas da graça, acrescentando que "como na natureza ela faz o homem, no homem ela faz o santo". Assim, pois, a dor cristãmente aceita conduz à conversão; em seguida, forma o homem e o cristão, levando à prática das virtudes viris e sobrenaturais; e chega então o momento em que ela forma o santo, pelo cultivo das virtudes heroicas.
Não é somente o horror ao pecado mortal que produz esses felizes efeitos, é também o horror ao pecado venial deliberado. Esse pecado, pelo qual preferimos voluntariamente a nossa vontade ou melhor, o nosso capricho à vontade divina sempre boa, sábia e santificante, é um grande obstáculo à perfeição. Para melhor explicá-lo às suas monjas, Santa Teresa observa: "É como se disséssemos: 'Senhor, embora esta ação vos desagrade, não deixarei de cometê-la.
Não ignoro que vós a vedes, e sei perfeitamente que não a aprovais; mas prefiro seguir minha fantasia e minha atração do que a vossa vontade.' Não me parece que seja pouca coisa agir assim! Para mim, por mais leve que a falta seja em si mesma, parece-me, ao contrário, que é grave, muito grave!" A santa tem razão: uma falta venial pode ser leve em si mesma, mas traz muitas vezes consequências desastrosas: uma diminuição do fervor, desse entusiasmo que é necessário para amar a Deus perfeitamente; um declive perigoso que pouco a pouco nos conduz ao pecado mortal; um certo torpor e desânimo espiritual que é inimigo de toda devoção.
Por isso, quando uma alma que ama sinceramente a Deus percebe que vai deslizando em direção ao abismo, experimenta verdadeiro horror por esses pecados que lhe pareciam a princípio tão leves, e que agora revelam tão graves consequências. Ela adquire um vivo horror a eles, e, para melhor evitá-los, está pronta a todos os sacrifícios.
É assim que o amor penitente nos faz amar a cruz como um meio de purificar e fortificar nossa alma.
2°) O AMOR DE COMPLACÊNCIA
Aperfeiçoa ainda mais o amor à cruz, tornando-o mais profundo e mais ativo. Considerando, à luz da fé, as infinitas perfeições de Deus, alegramo-nos por ver que ele é infinitamente rico em todos os bens, e manifestamos nossa alegria por atos de admiração, de aprovação e de congratulação. E, como desejamos ter em nós aquilo que aprovamos e amamos, atraímos o próprio Deus ao nosso coração, dando-nos a ele como ele se dá a nós.
"Por esse santo amor de complacência, diz São Francisco de Sales, desfrutamos dos bens que estão em Deus como se fossem nossos; mas, como as perfeições divinas são superiores ao nosso espírito, elas o possuem reciprocamente ao entrar nele; de forma que não dizemos somente que Deus é nosso por essa complacência, mas também que nós somos dele."
Assim, a alma exclama perpetuamente em seu silêncio sagrado: "Basta-me que Deus seja Deus, que sua bondade seja infinita, que sua perfeição seja imensa; pouco me importa que eu morra ou que eu viva, uma vez que meu Bem-Amado vive eternamente uma vida toda triunfante... É bastante, para a alma que ama, que aquele a quem ela ama mais que a si mesma seja repleto dos bens eternos, pois ela vive mais naquele que ela ama do que naquele que ela anima."
Ora, a alma fervorosa compreende que, para pertencer a Deus como Deus se dá a ela, é necessário praticar a renúncia num grau muito perfeito. Em primeiro lugar, é evidente que, para agradar-lhe em tudo, é preciso aceitar generosamente e amorosamente todas as cruzes, provações, tribulações que ele se dignar enviar-nos. Que importa que tenhamos de sofrer, contanto que ele seja contentado e glorificado, que suas infinitas perfeições sejam mais conhecidas e amadas!
Além disso, mais preocupados com a glória de Deus do que com a nossa, sofremos vivamente por vê-lo desprezado e ofendido à nossa volta, e de bom grado nos oferecemos a ele para reparar esses ultrajes, glorificando-o e amando-o por aqueles que desprezam seu amor. Assim, nosso amor à cruz se torna mais ativo, mais generoso, mais universal. Como Simão de Cirene, queremos carregar a cruz do Salvador para aliviar o seu fardo; como Verônica, enxugamos sua face ensanguentada para consolar seu coração; como Madalena, ajoelhamo-nos aos pés da cruz, implorando humildemente perdão para nós e para nossos irmãos pecadores; como Maria, nossa Mãe, consentimos em sofrer em nosso coração tudo o que o divino Crucificado sofre em seu corpo e em sua alma, a fim de que os frutos da redenção alcancem maior número de pessoas.
3°) O AMOR DE BENEPLÁCITO
Completa e aperfeiçoa o amor de complacência. Ele consiste em um desejo ardente de glorificar e de fazer glorificar aquele que amamos. Em se tratando de Deus, essa glória que lhe damos é apenas exterior, pois sua perfeição interior, sendo infinita, em nada pode ser aumentada. Mas a sua glória exterior pode crescer, e nesse sentido podemos dar livre curso à nossa iniciativa. Por outro lado, quanto mais amamos a Deus, mais nos sentimos impotentes para glorificá-lo.
E então nos unimos ao Verbo encarnado, o grande religioso do Pai, que, sendo Deus e homem, oferece à Santíssima Trindade louvores infinitos. Nós fazemos nossos esses louvores e essa adoração, e com ele suplicamos que nosso Deus seja conhecido, amado e glorificado em toda a terra. Ele mesmo nos deixou a bela fórmula do Pai-Nosso, que exprime tão bem todas as intenções que podemos formular para a propagação do reino de Deus na terra.
Sabendo que o Verbo encarnado é constantemente imolado no Santo Sacrifício em todos os cantos do mundo, com que confiança e com que amor nos unimos à prece que, de cada altar, ele dirige ao Pai: "Pai nosso... santificado seja o teu nome, venha o teu reino, seja feita a tua vontade assim na terra como no céu." Por mais impotentes que sejamos por nós mesmos, temos a doce confiança de que a nossa pobre voz, unida ao coro de todo o Corpo Místico, e sobretudo à poderosa voz do Verbo encarnado, obtém um acréscimo de glória para o santo nome de Deus, uma expansão de seu reino na terra, uma execução tão perfeita quanto possível de sua santa vontade.
Mas ao mesmo tempo é fácil compreender que todos esses votos que formulamos, se são sinceros, supõem muitos sacrifícios de nossa parte, e sobretudo muita humildade para renunciar ao nosso egoísmo, muita generosidade para colaborar com todas as obras católicas do mundo - sobretudo as obras missionárias, muito amor pelas pobres almas, ainda tão numerosas, que não conhecem seu Deus e seu Salvador.
Assim, somos sempre chamados ao sacrifício, e a um sacrifício tanto mais intenso quanto melhor compreendemos as exigências do apostolado, como as descreve Santa Teresa de Lisieux:
"Gostaria de esclarecer as almas como os profetas, os doutores. Desejaria percorrer a terra, pregar o vosso Nome e plantar no solo infiel a vossa cruz gloriosa, ó meu Bem-Amado! Mas uma única missão não me bastaria; eu quisera anunciar o Evangelho ao mesmo tempo em todas as partes do mundo, até nas ilhas mais remotas... Oh! acima de tudo eu desejaria o martírio, mas esta é outra loucura, pois não desejo somente um único tipo de suplício; para me satisfazer, seriam necessários todos...
Como vós, meu esposo adorado, queria ser flagelada, crucificada. Desejaria morrer esfolada como são Bartolomeu; como São João, queria ser mergulhada no óleo fervente; como Santo Inácio de Antioquia, queria ser moída pelos dentes das feras, a fim de tornar-me um pão digno de Deus; como Santa Inês e Santa Cecília, quisera apresentar meu pescoço à espada do carrasco, e, como Joana d'Arc, murmurar na fogueira ardente o nome de Jesus... Abri, meu Jesus, vosso livro da vida, onde estão consignadas as ações de todos os santos: todas essas ações eu desejaria realizar por Vós!”
Essas declarações dos santos não são palavras vazias: quando eles não podem realizar seus desejos de martírio, acolhem com alegria esse martírio cotidiano que consiste no cumprimento perfeito dos deveres de estado mais minuciosos, e em suportar amorosamente os sofrimentos mais humilhantes.
4°) O AMOR DE AMIZADE
Tão doce ao coração, ele exige sacrifícios ainda mais generosos. Essa amizade comporta, além da benevolência e do zelo pela glória de Deus, a reciprocidade ou o dom mútuo dos dois amigos; é a amizade que existe entre Deus e nós. Com efeito, como disse São Francisco de Sales, "ela é recíproca, pois Deus ama eternamente quem quer que o tenha amado, que o ame ou que vá amá-lo no tempo; ela é declarada e reconhecida mutuamente, considerando que Deus não pode ignorar o amor que temos por ele, já que é ele mesmo quem no-lo dá, nem nós tampouco podemos ignorar o que ele tem por nós, já que ele o declarou tão abertamente... e, por fim, estamos em perpétua comunicação com ele, que não cessa de falar ao nosso coração por inspirações, atrações e moções sagradas." E ele acrescenta: "Essa não é uma simples amizade, mas uma amizade de dileção, pela qual elegemos Deus para o amar com um amor particular.
Essa amizade consiste no dom que Deus nos faz de si mes-mo e no dom que lhe fazemos de nossa pessoa. Vejamos, pois, o que é o amor de Deus por nós, para compreender qual deve ser o nosso amor por ele.
a) Seu amor por nós é:
1) eterno: "in caritate perpetuâ dilexi te" (Jr 31, 3);
2) desinteressado, pois, bastando-se plenamente a si mesmo, ele nos ama somente para o nosso bem;
3) generoso: pois ele se dá todo inteiro, vindo ele mesmo habitar como amigo em nossa alma;
4) obsequioso: pois não somente ele é o primeiro a amar, mas solicita, mendiga nosso amor, como se tivesse necessidade de nós: "Meu encanto é estar com os filhos dos homens... meu filho, dá-me teu coração!" (Pv 8, 31; 23, 26). Poderíamos jamais sonhar com tal delicadeza de sentimentos?
b) Devemos, portanto, responder a esse amor com um amor tão perfeito quanto possível: "Sic nos amantem quis non redamaret?" Quem não amaria em retorno a quem nos ama assim?
1) Esse amor deverá crescer continuamente; não tendo podido amar a Deus desde toda a eternidade, e não podendo nunca amá-lo tanto quanto merece, devemos ao menos amá-lo cada dia mais, não colocando nenhum limite à nossa afeição por ele, nem recusando-lhe nenhum dos sacrifícios que nos pede, e buscando sempre agradar-lhe: "quæ placita sunt ei facio semper" (Jo 8, 29).
2) Ele será generoso, traduzindo-se por piedosas manifestações de afeto, frequentes orações jaculatórias, simples palavras de amor (ex: Eu vos amo de todo o meu coração!); mas também por atos, e sobretudo pelo dom total de nós mesmos. É preciso que Deus seja o centro de todo o nosso ser: de nossa inteligência, ao voltarmos frequentemente o pensamento para ele; de nossa vontade, pela humilde submissão aos seus mínimos desejos; de nossa sensibilidade, não permitindo que nosso coração se distraia com afeições que seriam um obstáculo ao nosso amor por Deus; de todas as nossas ações, esforçando-nos por executá-las para agradar-lhe.
3) Ele será desinteressado: nós o amaremos por si mesmo, muito mais do que por seus dons; e é por isso que o amaremos na secura, tanto quanto na consolação, repetindo-lhe com frequência que desejamos amá-lo, e amá-lo por ele mesmo. É assim que tentaremos, apesar de nossa impotência, responder à sua amizade.
Ora, quem não vê o quanto esse amor exige de sacrifícios, a cada instante de nossa vida? Para dar-se, é preciso possuir-se, e essa é uma luta de todos os instantes: pois as tendências egoístas de nossa natureza decaída nunca desaparecem completamente. Mesmo tendo já sido vencidas pela graça, elas voltam a assaltar-nos, sobretudo nos momentos de provação, e só podemos triunfar delas por uma vigilância e uma luta contínuas.
Sem dúvida, o autor da Imitação descreveu, em termos líricos, os maravilhosos efeitos do amor divino: ele alivia nossas dores e nossos fardos: "nam omus sine onere portat et omne amarum dulce ac sapidum efficit"; ele nos eleva até Deus, porque nasceu de Deus: "quia amor ex Deo natus est, nec potestnisi in Deo... quiescere"; ele nos dá asas para voar com alegria até os atos mais perfeitos, até o dom total de nós mesmos: "amans volat, currit et lætatur... dat omnia pro omnibus"; ele nos impele, também, a fazer grandes coisas e a visar à maior perfeição: "amor Jesu nobilis ad magna operanda impellit, et ad desideranda semper perfectiora excitat"; ele está sempre vigilante, nunca se queixa de suas fadigas, nem se deixa abater pelo temor; mas, como uma chama viva, eleva-se cada vez mais alto e atravessa em segurança todas as dificuldades: "amor vigilat... fatigatus non lassatur, territus non conturbatur, sed sicut vivax flamma... sursum erumpit secureque pertransit".
Ele produz também uma grande alegria e dilatação da alma: é, com efeito, o começo da posse do Soberano Bem, inchoatio vitæ æternæ in nobis; e essa posse enche nossa alma de alegria: "dans vera cordis gaudia"
Assim, continua a Imitação, não há nada mais doce, nada mais agradável, nada melhor no céu e na terra: "Nihil dulcius est amore... nihil jucundius, nihil plenius nec melius in cælo et in terra".
A principal causa dessa alegria é que começamos a tomar consciência, de forma mais viva, da presença de Jesus e da presença de Deus em nós: "Esse cum Jesu dulcis paradisus...". "Te siquidem præsente, jucunda sunt omnia, te autem absente fastidiunt cuncta".
A essa alegria se segue uma paz profunda: quando temos a convicção de que Deus está em nós e exerce sobre nós uma ação, uma solicitude paternal, abandonamo-nos a ele com uma doce confiança, confiamos-lhe com segurança o cuidado de todos os nossos interesses, e assim desfrutamos de uma paz, de uma serenidade perfeita: "Tu facis cor tranquillum et pacem magnam lætitiamque festivam".
Mas o autor acrescenta, no fim do mesmo capítulo: "Quem não está pronto a tudo sofrer e a abandonar-se inteiramente à vontade de seu bem-amado, não sabe o que é amar. É preciso que aquele que ama abrace com alegria tudo o que há de mais duro e mais amargo por seu bem-amado, e que nada o possa desviar dele."
No capítulo seguinte, ele descreve algumas das provações do verdadeiro amor:
"Aquele que ama intensamente permanece firme na tentação e não cede nunca às sugestões artificiosas do inimigo. Tanto nos maus quanto nos bons momentos, seu coração é igualmente meu... Sabei que o antigo inimigo se esforça para sufocar vossos bons desejos e para vos afastar dos exercícios piedosos, do culto dos Santos, da meditação das minhas dores e da minha morte, da lembrança tão útil dos vossos pecados, da atenção em vigiar vosso coração e do firme propósito de progredir na virtude." E ele conclui assim: "Combatei como soldado generoso; e se algumas vezes sucumbirdes por fragilidade, recomeçai com coragem ainda maior e guardai-vos, sobretudo, da vã complacência e do orgulho...".
A amizade com Deus tem, pois, suas santas exigências, e quanto mais progredimos nas vias do amor, mais devemos estar prontos para sacrifícios cada vez mais duros. O prelúdio da união transformadora é essa noite do espírito, tão bem descrita por São João da Cruz e por Santa Teresa, e, para subir os dez degraus do amor divino, é preciso uma coragem heroica, sustentada por graças tão abundantes quanto eficazes.
Os santos, de resto, não se assustam com essas provações, e se oferecem mesmo como vítimas à justiça de Deus ou ao seu amor misericordioso, como passaremos a expor.
5°) A LOUCURA DA CRUZ
Quando o amor à cruz atinge, nos Santos, um tal grau de magnanimidade que os leva a desejar toda a sorte de sofrimentos interiores e exteriores, para mais se identificarem com o divino Crucificado e para o ajudarem mais eficazmente em sua obra redentora, quando ele os leva a oferecer-se como vítimas à justiça ou à misericórdia divina, e a gloriar-se nas tribulações, nós o chamamos a loucura da cruz.
Aos olhos do mundo, com efeito, não é verdadeira loucura buscar assim as delícias da cruz? E no entanto muitos santos, desde São Paulo até nossos dias, foram atingidos por essa loucura. Escutemos o Apóstolo relatar-nos, com uma espécie de exultação, alguns dos seus sofrimentos: "Muitas vezes vi a morte de perto; cinco vezes recebi dos Judeus as quarenta chicotadas menos uma. Três vezes fui flagelado. Uma vez, apedrejado.
Três vezes naufraguei. Passei um dia e uma noite em alto-mar. Em minhas numerosas viagens, sofri perigos nos rios, perigos por parte dos ladrões, perigos por parte dos meus irmãos de raça, perigos por parte dos gentios, perigos nas cidades, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos! E mais ainda, fadigas e duros trabalhos, numerosas vigílias, fome e sede, múltiplos jejuns, frio e nudez! E isto sem contar a minha preocupação cotidiana, a solicitude que tenho por todas as Igrejas! Quem fraqueja, sem que eu também me sinta fraco? Quem cai, sem que um fogo me devore? Se é preciso gloriar-se, é da minha fraqueza que me gloriarei" (2Cor 11, 23-30).
Não se diria que essas numerosas tribulações são para ele como um título de glória? Irá ele vangloriar-se delas? Não, certamente; mas ele quer servir-se delas para glorificar a Cristo: "Prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. Eis porque me alegro nas fraquezas, nos opróbrios, nas perseguições, nas necessidades, nas angústias por causa de Cristo; pois, quando sou fraco, é então que sou forte" (2Cor 12, 9-10). O segredo desse amor ardente pela cruz é o seu amor por Jesus: ele ama tudo aquilo que o une mais intimamente ao Mestre, tudo o que possa aumentar a fecundidade do seu apostolado.
Assim acontece com os mártires. Santo André exulta à vista da cruz que lhe está sendo preparada: "Eu te saúdo, ó Cruz consagrada pelo corpo do Cristo!... Venho a ti, recebe-me na alegria e no triunfo. Ó cruz bem-aventurada, tão ardentemente amada, tão constantemente desejada, por teu intermédio quero ser recebido por meu Redentor."
Santo Inácio de Antioquia, na carta que dirige aos Romanos, exprime com não menor ardor o seu desejo de ser devorado pelas feras para tornar-se uma vítima digna de Cristo: "Deixai-me ser o alimento das feras, pelas quais me será concedido gozar de Deus. Sou o trigo de Deus: é preciso que eu seja moído pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo." Receando que seus amigos interviessem para obter sua libertação, ele lhes suplica que não o façam, para não retardar sua união com Deus.
Encontramos esse mesmo tom inflamado nos mártires dos três primeiros séculos, como em todas as épocas da Igreja. E não são somente os mártires que têm fome e sede de imolação, mas também os Padres do deserto, que rivalizam largamente em seu ardor por sacrificarem-se por Deus; também as virgens que, para se assemelharem aos mártires, consagram sua virgindade ao seu celeste Esposo e se imolam na prática das maiores austeridades e humilhações, a fim de melhor conservar sua pureza; também as comunidades monásticas que se consagram a Deus pela prática dos três votos de pobreza, castidade e obediência; e, fora dessas comunidades, também as almas fervorosas que, vivendo no mundo e cumprindo fielmente os seus deveres de estado, oferecem-se igualmente como vítimas e se antecipam a todas as provações que Deus haja por bem enviar-lhes.
Parece mesmo que, atualmente, o número dessas vítimas tem aumentado. Desde a grande guerra, a indiferença religiosa e a imoralidade se disseminaram entre as massas. Mas, por outro lado, em todas as classes da sociedade, no claustro e no mundo, Deus escolhe almas de elite que desejam, pela generosidade de sua imolação, consolar o coração de Deus e cooperar ativamente na conversão de seus irmãos.
A) Temos, em primeiro lugar, as grandes vítimas: são aquelas que o próprio Deus escolhe, que ele adverte antecipadamente sobre os sofrimentos que lhes irá impor, e com as quais firma um contrato.
1. É Deus quem as escolhe: nós mesmos podemos sofrer com humildade e com um vivo sentimento de nossa impotência; mas é Deus que faz sua escolha, segundo a finalidade que quer atingir. Essa escolha é uma grande honra, uma espécie de extensão do sacerdócio cristão: pois, como diz a Carta aos Hebreus, a função do sacerdote é oferecer sacrifícios pelos pecados (Hb 5,1); em consequência, as vítimas participam de alguma forma do sacerdócio cristão.
Encontramos um exemplo dessa escolha especial em uma carta de Santa Margarida Maria ao Pe. Croiset: "Eu vos direi, portanto, que esse Soberano, apresentando-se um dia à sua indigna escrava, disse-me: 'Procuro uma vítima para meu Coração, que queira sacrificar-se como hóstia de imolação ao cumprimento dos meus desígnios'. E então, sentindo-me inteiramente penetrada pela grandeza da soberana Majestade, e tendo-me prostrado, apresentei-lhe várias almas santas que corresponderiam fielmente aos seus desígnios. 'Mas eu não desejo ninguém além de ti, e quero que consintas no meu desejo'.
2. Após alguma hesitação, ela consente, e então Nosso Senhor a faz assinar um contrato, dizendo-lhe: "Eis-te enfim toda minha e toda para mim, para fazer o que me agradar, como minha filha, minha esposa, minha escrava, minha vítima, joguete da vontade do meu Coração...
Esse Coração será a tua garantia, será quem responderá e pagará por ti; ele será o reparador de todos os teus defeitos e te proporcionará o cumprimento de todos os teus deveres e obrigações, e não te faltará o socorro enquanto não lhe faltar o poder. E como te entregaste inteiramente e te sacrificaste ao amor da sua vontade, não deves mais aplicar-te nem ocupar-te com mais nada senão amá-lo e deixar-te sacrificar e imolar. "
É evidente que não se pode assumir por si mesmo esse papel de vítima: com efeito, para cumprir suas obrigações são necessárias graças muito especiais, que Deus não dá senão às almas por ele escolhidas. 58
(58 Lemos, com efeito, na vida de Thérèse Durnerin, por Hamez, p. 414: "Quando alguém se oferece a Jesus como vítima, é sempre tomado ao pé da letra. Não podemos imaginar antecipadamente a que excessos podem conduzir-nos esses oferecimentos voluntários. Seu efeito sempre nos atinge em nossa parte mais sensível. Vemo-nos subitamente como uma vítima degolada por seu sacrificador. E então não devemos mais olhar a criatura que degola, mas o divino sacerdote que nos aniquila. Nós o pedimos, e nos tornamos sua hóstia. Ele não nos poupa, e se serve de nós com toda a liberdade. E então uma missa se renova em nossa alma, e nosso coração é o altar sobre o qual Jesus oferece continuamente esse misterioso sacrificio.")
Em certos casos, entretanto, o fato de entrar, depois de um cuidadoso discernimento vocacional, em uma congregação de vítimas, equivale a um chamado divino: trata-se, por assim dizer, de um apelo coletivo. Assim, quando Julie-Adèle de Gé-rin-Ricard fundou em Marselha a Congregação das Vítimas do Sagrado Coração, ela fez com suas companheiras esta consagração a Deus: "Nós nos consagramos inteiramente a Deus, e nos devotamos sem reservas a tudo o que ele quiser de nós, em sua misericórdia como em sua justiça... consentindo em ser vítimas por nossos pecados e pelos de toda a França, em união com Jesus Cristo na Cruz, consentindo em sofrer por ele todos os sofrimentos que lhe aprouver enviar-nos, desejando mesmo ser escolhidas como holocausto em expiação pelos crimes da França, se a Deus aprouver acolher nossas preces."
É evidente que as pessoas verdadeiramente vocacionadas a uma Congregação deste gênero são ao mesmo tempo chamadas à missão de vítimas.
B) Ao lado dessas grandes vítimas, há outras que, nos passos de Santa Teresa do Menino Jesus, entram no que chamamos a pequena via da infância espiritual, e se oferecem como vítimas ao Amor misericordioso de Deus.
Foi na festa da Santíssima Trindade, em 9 de junho de 1895, dois anos antes de morrer, que nossa santa teve a ideia de consagrar-se como vítima de holocausto ao amor misericordioso. Durante a santa Missa, ela disse a si mesma que, se havia muitas almas que se ofereciam como vítimas à justiça de Deus, era preciso que houvesse também outras que se oferecessem em holocausto ao seu amor misericordioso.
Pediu então à sua superiora, que era então Madre Inês de Jesus (sua irmā Paulina), a permissão para oferecer-se como vítima, e redigiu esta bela fórmula que iremos transcrever, e que, desde então, ela trouxe sempre, dia e noite, sobre o coração, dentro do seu Evangelho: "Ato de oferenda de mim mesma como vítima de holocausto ao Amor Misericordioso de Deus.
Ó meu Deus! Trindade bem-aventurada, desejo amar-Vos e fazer amar-Vos, trabalhar pela glorificação da Santa Igreja, salvando as almas que estão na terra e libertando as que sofrem no purgatório. Desejo cumprir perfeitamente a vossa vontade e chegar ao grau de glória que me preparastes em vosso reino; numa palavra, desejo ser santa, mas sinto a minha impotência e peço-vos, ó meu Deus! que sejais vós mesmo a minha santidade.
Visto que me amastes a ponto de me dar Vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo, os tesouros infinitos dos seus méritos me pertencem; eu vo-los ofereço com alegria, suplicando-vos que não olheis para mim senão através da Face de Jesus e dentro do seu Coração abrasado de Amor.
Ofereço-Vos ainda todos os méritos dos Santos que estão no céu e na terra, os seus atos de Amor e os dos Santos Anjos; enfim, ofereço-Vos, ó Trindade bem-aventurada, o amor e os méritos da Santíssima Virgem, minha Mãe querida; é a ela que eu confio minha oferenda, rogando-lhe que vo-la apresente.
Seu Divino Filho, meu esposo bem-amado, nos dias de sua vida mortal, disse-nos: "Tudo o que pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele vo-lo dará". Estou, pois, certa de que atendereis aos meus desejos... Eu o sei, ó meu Deus, quanto mais quereis dar, mais fazeis desejar.
Sinto em meu coração desejos imensos, e é com confiança que vos peço que venhais tomar posse da minha alma. Ah! não posso receber a Sagrada Comunhão com tanta frequência quanto desejo, mas, Senhor, não sois Vós Todo-Poderoso? Permanecei em mim como no Tabernáculo, não vos afasteis nunca da vossa hostiazinha.
Gostaria de consolar-vos pela ingratidão dos maus, e suplico-Vos que me tireis a liberdade de vos desagradar. Se por fraqueza eu cair algumas vezes, que logo o vosso divino olhar purifique a minha alma, consumindo todas as minhas imperfeições, como o fogo que transforma todas as coisas em si mesmo.
Agradeço-vos, ó meu Deus, por todas as graças que me concedestes, em particular a de me terdes feito passar pelo cadinho do sofrimento. Será com alegria que vos contemplarei no último dia, portando o cetro da cruz; visto que vos dignastes dar-me em partilha essa cruz tão preciosa, espero no céu assemelhar-me a vós e ver brilhar em meu corpo glorioso os sagrados estigmas da vossa paixão.
Depois do exílio da terra, espero ir gozar de vós na Pátria; mas não quero armazenar méritos para o céu, quero trabalhar só por vosso amor, com o único propósito de vos agradar, de consolar o vosso sagrado Coração e de salvar almas que vos amarão eternamente.
No entardecer desta vida comparecerei diante de vós com as mãos vazias; pois não vos peço, Senhor, que conteis as minhas obras... Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos! Quero, pois, revestir-me de vossa própria Justiça e receber de vosso amor a posse eterna de vós mesmo. Não quero outro trono nem outra coroa senão vós, ó meu Bem-Amado!...
Aos vossos olhos, o tempo não é nada; um só dia é como mil anos. Vós podeis, portanto, num instante preparar-me para comparecer diante de Vós.
A fim de viver num ato de perfeito Amor, ofereço-me como vítima de Holocausto ao vosso Amor Misericordioso, suplicando-vos que me consumais continuamente, deixando transbordar para minha alma as ondas de ternura infinita que estão encerradas em vós, e que assim eu me torne Mártir do vosso amor, ó meu Deus!
Que este martírio, depois de me ter preparado para comparecer diante de Vós, me faça enfim morrer, e que minha alma se lance sem demora no eterno abraço do vosso misericordioso Amor! Quero, ó meu Bem-Amado, a cada batida do meu coração, renovar-vos esta oferenda um número infinito de vezes, até que, tendo-se dissipado as sombras, eu possa repetir-vos o meu amor em um face a face eterno!.... 63
(63 Indulgencias anexas permanentemente à recitação do Ato de Oferenda composte por Santa Teresa do Menino Jesus. 1º) Uma indulgência parcial de trezentos dias, toda vez que os fiéis recitarem, com coração contrito e com devoção, a oferenda acima, ao menos a partir das palavras: "A fim de viver em um ato de perfeito amor..." até o fim. 2º) Uma indulgência plenária por mês, nas condições ordinárias, a quem tiver recitado esse ato em todos os dias do mês. Dado em Roma, na Sagrada Penitenciaria, em 31 de julho de 1923.)
Festa da Santíssima Trindade, 9 de junho do ano da graça de 1895.
Pouco tempo depois dessa consagração, a santa recebeu a resposta de Deus: "Alguns dias depois de minha oferenda ao Amor misericordioso, eu começava no coro o exercício da Via Sacra, quando me senti de repente invadida por um fogo tão ardente, que pensei que fosse morrer. Não sei como explicar o que me aconteceu. Não há comparação que possa explicar a intensidade dessa chama. Parecia-me que uma força invisível mergulhava-me toda inteira no fogo. Oh! que fogo, que doçura!"
Desde esse momento, a vida da santa foi um verdadeiro martírio, marcado por sofrimentos exteriores e interiores muito penosos e muito humilhantes. Mas ela nunca se arrependeu de sua consagração, e, antes de morrer, disse às suas irmãs: "Tudo o que escrevi sobre os meus desejos de sofrimento, oh! é bem verdade! Eu não me arrependo de me ter entregue ao Amor!"
Quisemos lembrar essas circunstâncias para mostrar às almas fervorosas que entram na pequena via da infância espiritual que o amor não se vive sem grandes sacrifícios, mas é acompanhado por graças de força e de paciência que transformam esses sacrifícios em atos de amor e fazem com que, não apenas não lamentemos a nossa entrega ao amor misericordioso, mas nos rejubilemos nela, apesar de todas as repugnâncias da natureza.
4. OS PRINCIPAIS ATOS DO AMOR VITIMAL. 66
(66 P. Plus, La folie de la Croix, 1926, p. 14-16, julga que esses três atos correspondem a três períodos históricos: na Idade Média havia sobretudo a compaixão para com os sofrimentos de Cristo; a partir de Santa Margarida-Maria, passou-se a buscar compensá-los, nos tempos modernos se busca completá-los. Podemos aceitar essa divisão em suas grandes linhas, desde que nos lembremos de que esses diversos atos, longe de serem exclusivos, encontram-se frequentemente reunidos nos mesmos períodos e nas mesmas pessoas.)
As almas vítimas exprimem seu amor ao divino Crucificado por três atos principais: elas se compadecem de seus sofrimentos, elas tentam compensá-los por seu fervor, e completá-los ao unir seus próprios sofrimentos aos dele.
1°) Compadecer. Amando Jesus e vendo-o sofrer, elas querem compadecer, partilhar de seus sofrimentos.
1. Elas sabem que foi por causa delas que ele sofreu, e querem sofrer com ele para expiar seus pecados; com Santo Anselmo, elas repetem: "Que crime cometestes, ó tão doce Jesus, para serdes tratado assim? Sou eu o instrumento de vossa paixão e de vossas torturas... O minha alma, olha, olha, infeliz, teu horrível crime, e excita em ti o temor e a dor".
2. São Bernardo e seus discípulos, vendo que o Salvador tanto sofreu por eles, querem sofrer com ele para mais se assemelharem interiormente a ele: não convém que vivam folgadamente os membros de uma cabeça coroada de espinhos. "Jesus tem o corpo destroçado, saibamos também destroçar nosso corpo: isso só tornará a alma mais bela. à semelhança de Jesus tão belo".
3. Santa Gertrudes comprazia-se em partilhar das dores de Jesus para o consolar. Para mostrar-lhe o quanto isso lhe era agradável, Jesus lhe disse: "As angústias, os sofrimentos, as amarguras que, durante minha vida mortal, eu suportava em meu corpo por amor aos homens, experimentei-as hoje em teu coração, que, à lembrança de minhas dores, foi movido de tal compaixão. Em recompensa e para aumentar a tua bem--aventurança eterna, eu te concedo todo o fruto de minha santa Paixão e de minha preciosa morte. "
4. Mas o santo que, na Idade Média, mais se destaca por sua terna compaixão para com o divino Crucificado é São Francisco de Assis. Ele não consegue pensar na Paixão sem chorar; a um passante que lhe pergunta a razão de seus soluços, responde: "Choro pela Paixão de meu Senhor Jesus Cristo". Assim, o Salvador quis recompensá-lo fazendo dele o primeiro dos estigmatizados. Ao final de um longo retiro nas encostas escarpadas do Monte Alverne, ele viu aparecer diante de si, no dia 15 de setembro, dia da Exaltação da Santa Cruz, um serafim com seis asas brilhantes, representando Jesus crucificado.
Esse espetáculo encheu a alma do santo de um duplo sentimento: o de alegria por ver o seu Salvador, e o de tristeza e compaixão por vê-lo crucificado. Mas o Salvador, falando ao seu coração, disse que, se assim se manifestava a ele, era porque desejava transformar sua alma em uma imagem viva do divino Crucificado, sendo os estigmas a manifestação exterior. Quando a visão desapareceu, os companheiros do Santo, entre os quais estava Frei Leão, viram suas mãos e seus pés transpassados por pregos: as cabeças desses pregos estavam dentro das mãos e acima dos pés; do lado direito havia uma ferida vermelha, como se ele tivesse sido perfurado por uma lança, e desse corte às vezes saía sangue que empapava sua túnica.
Desde então, São Francisco, que, desde a sua conversão, não cessara de contemplar com amor o divino Crucificado, tornou-se mais do que nunca uma cópia viva dele, reproduzindo em sua alma todas as virtudes d'Aquele que ele amava tão apaixonadamente, e suportando um verdadeiro martírio com a mansidão de um cordeiro que, ao invés de se queixar, procura esconder seus sofrimentos. São Boaventura e Santa Clara seguem as pegadas de seu bem-aventurado Fundador, e generosamente, alegremente, compartilham dos sofrimentos do Salvador para se assemelharem a ele.
Essa foi também a conduta de Santa Teresa e de São João da Cruz. "Ou sofrer ou morrer, mas, de preferência, sofrer", era a divisa de Teresa, de tal forma estava persuadida de que era preciso, neste mundo, partilhar dos sofrimentos de Jesus para assemelhar--se interiormente a ele. São João da Cruz, caluniado e perseguido pelos seus, escuta uma noite, na igreja do convento de Segóvia, uma doce voz que lhe diz: "João, que pedes tu em recompensa por todos esses sofrimentos?" - "Sofrer, Senhor, e ser desprezado por causa de ti!" Ele foi atendido: destituído de suas funções, vai para o mosteiro de Ubeda, onde, muito mal recebido pelo Prior, passa três meses no abandono, no sofrimento e na humilhação, e morre exclamando: "Glória a Deus!" A semelhança com o Mestre foi tão completa quanto possível.
A Escola francesa do século XVII, que havia aprendido o amor à cruz por um frequente contato com os discípulos de santa Teresa e de São João da Cruz, recomenda sem cessar essa doutrina. Para melhor inculcá-la, M. Olier pede que os solitários (noviços de Saint Sulpice) examinem-se todos os dias sobre os seguintes pontos:
"Se faltaram contra o amor à cruz; contra o amor à pobreza, ao sofrimento, ao desprezo; contra o ódio a si mesmos, buscando a si próprios no que fizeram, ao invés de renunciar a toda satisfação e a todo interesse pessoal; se faltaram contra o amor aos inimigos, contra a religião interior, não reportando suas obras a Deus ou a N. Sr. Jesus Cristo; se andaram o dia todo na presença de Jesus Cristo Nosso Senhor, tendo em toda parte o pensamento voltado para o seu interior, para adorá-lo e formá-lo neles..., se viveram em espírito de serviço para com Jesus Cristo e seus membros... em espírito de hóstias (vitimas)."
São João Eudes, que sofreu tantas perseguições, fazia ao Salvador esta tocante oração: "Eu me entrego ao espírito de vossa cruz, e, nesse espírito..., abraço de todo o meu coração, por amor a vós, todas as cruzes corporais e espirituais que me vierem. Declaro que toda a minha glória, meu tesouro e minha alegria estão em vossa cruz, isto é, nas humilhações, privações e sofrimentos, e digo como São Paulo: "Que eu não me glorie senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo..." (Gl 6,14). Quanto a mim, professo solenemente não desejar outro paraíso neste mundo senão a cruz de meu Senhor Jesus Cristo. "
É esse mesmo espírito que anima o bem-aventurado Grignion de Montfort, sobretudo em sua Carta circular aos amigos da cruz: "Vós sois membros de Jesus Cristo: que honra! Mas, como tais, tendes necessidade de sofrer! A саbeça é coroada de espinhos, e os membros seriam coroados de rosas? A cabeça é insultada e coberta de lama no caminho do Calvário, e os membros poderiam cobrir-se de perfume, sentados em um trono? A cabeça não tem uma pedra onde repousar, e os membros iriam deitar-se sobre plumas? Tal corpo seria uma monstruosidade nunca vista!"
Assim, pois, para todos os discípulos da Escola Francesa, a regra é compadecer dos sofrimentos do Mestre, mas deve ser uma compaixão eficaz, na qual abraçamos a cruz junto com ele.
2°) Compensar. Um dos melhores meios de nos compadecermos dos sofrimentos de Jesus é compensar, pelo fervor de nossa vida e de nossas reparações, a dor causada ao seu Coração pelas ingratidões, friezas e negligências de tantos cristãos e almas consagradas a Deus. Por isso, esse divino Coração pede uma compensação às almas mais fiéis.
É assim que ele age com Santa Margarida Maria. Depois de lhe mostrar as maravilhas do seu amor pelos homens, queixa-se de suas ingratidões:
"Essa ingratidão me dói mais do que tudo o que sofri em minha paixão, de tal forma que, se recebesse deles algum retorno ao meu amor, consideraria pouco tudo o que fiz por eles, e gostaria, se fosse possível, de fazer ainda mais; mas eles não respondem senão com frieza e rejeição a toda a minha solicitude em fazer--lhes bem. Tu, ao menos, dá-me esse prazer de suprir suas ingratidões tanto quanto fores capaz."
Quando lhe recordei a minha impotência, ele respondeu: "Eis aqui com que suprir tudo o que te falta." E, ao mesmo tempo, abriu-se o seu divino Coração e dele saiu uma chama tão ardente que pensei que me consumiria; pois fui totalmente tomada por ela, e, não podendo mais suportá-la, pedi-lhe que tivesse piedade de minha fraqueza: "Eu serei a tua força, disse-me ele, nada temas, mas fica atenta à minha voz e àquilo que te peço, para te dispores ao cumprimento dos meus desígnios.
Em primeiro lugar, tu me receberás no Santíssimo Sacramento com tanta frequência quanto te permitir a obediência. Além disso, comungarás em todas as primeiras sextas-feiras de cada mês; e em todas as noites de quinta para sexta-feira, eu te farei participar daquela tristeza mortal que eu quis sentir no Jardim das Oliveiras; essa tristeza te conduzirá, sem que a possas compreender, a uma agonia mais dura de suportar do que a morte.
E, para me acompanhar na humilde oração que então elevei ao meu Pai em meio a todas as angústias, tu te levantarás entre as onze horas e a meia-noite e te prostrarás durante uma hora comigo, com o rosto em terra, tanto para apaziguar a cólera divina, pedindo misericórdia para os pecadores, como para suavizar, em certa medida, a amargura que senti pelo abandono dos meus apóstolos..."
Ela deverá também compensar a ingratidão dos homens: "Quero que supras, com os méritos do meu Sagrado Coração, a ingratidão deles. Quero dar-te o meu Coração; mas, antes, é preciso que te tornes sua vítima de imolação, para que, por seu intermédio, afastes os castigos que a divina Justiça de meu Pai, cheio de cólera, quer aplicar contra uma comunidade religiosa que ele irá repreender e corrigir em sua justa ira."
Assim, pois, implorar o perdão pelas indignidades com que Jesus é ofendido, repará-las por um redobramento de fervor e de sacrifício, e especialmente pela prática da hora santa, e, por fim, suplementar os atos de adoração e de amor que lhe são recusados por almas que deveriam ser fervorosas, tais são os principais meios de compensar os ultrajes dos quais se queixa, com razão, o Coração de Jesus.
3°) Completar. Nos tempos modernos, desde o século dezoito até nossos dias, o sentimento que parece predominar sobre os demais, sem os excluir, é o desejo de completar a paixão do Salvador, como fazia São Paulo (Cl 1, 24), pelo bem da Igreja e das almas. Compreende-se melhor, ao que parece, a solidariedade que une todos os cristãos entre si, ou seja, a comunhão dos Santos, e deseja-se sofrer como vítima para obter a conversão dos pecadores ou um acréscimo de graça para as almas boas, sobretudo as almas sacerdotais.
Esse movimento é esboçado na "Jornada dos Doentes" do abade Perreyve: "Jamais penseis que vossas dores sejam perdidas, e que o combate silencioso de vosso amor paciente permaneça estéril no mundo. Vossos sofrimentos são o tesouro comum de todas as almas, e o dia das revelações vos mostrará este ou aquele irmão desconhecido para o qual adquiristes, sem o saber, a conversão e a bem-aventurança."
Ele se acentua ainda mais na obra do Pe. Lyonnard, O Apostolado do Sofrimento, onde o autor explica muito claramente o texto: "Adimpleo ea quæ desunt..." ("Completo o que falta..."). Apoiando-se em Santo Agostinho, ele escreve: "Os sofrimentos de Jesus são, pois, completos. Sim, mas somente na cabeça. Ainda ficam faltando os sofrimentos de Jesus em seu corpo, em seus membros. Vós sois, com efeito, o corpo e os membros de Jesus Cristo...
Esse tesouro (das satisfações de Cristo) está certamente completo quanto aos méritos do Salvador Jesus; mas está incompleto no que se refere aos méritos dos santos; é desse déficit que fala São Paulo quando diz de si mesmo, e em consequência também dos outros fiéis, que ele o completa por seus sofrimentos. De tudo isso decorre uma explicação consoladora: nossos sofrimentos, unidos aos de Jesus, nossa Cabeça, não somente têm uma eficácia divina para nós, mas também uma eficácia divina para os outros, para os quais podemos, por esse meio, obter a conversão se forem pecadores, e em seguida a graça de expiarem por seus pecados e de se santificarem cada vez mais. Sendo assim, quem não estimaria o sofrimento e não se resignaria de bom grado a sofrer pelos outros com Jesus Cristo?"
Inspirando-se nessa doutrina, Mons. Gay escreve: "Ó queridas almas sofredoras, olhai antes de tudo para Jesus Cristo: é vosso direito, vosso dever, vossa força; mas também, na simplicidade de vossa fé e no vigor de vossa confiança, dizei a vós mesmas que, por vossa parte e em união com Jesus, vós carregais o mundo, vós o salvais, vós o resgatais!"
Logo se fundam Congregações inteiras para serem vítimas com Jesus, com Maria, para completar a Paixão do Salvador e aplicar seus efeitos aos pecadores, aos justos, aos padres. Fora do claustro, almas fervorosas, querendo rivalizar em zelo com os Religiosos e as Religiosas, entram para a Associação das Almas Vítimas, fundada pelas Filhas do Coração de Jesus, ou, mesmo sem a ela filiar-se, vivem o seu espírito e não cessam de oferecer-se em holocausto para completar o que falta à Paixão de Cristo e assegurar sua fecundidade.
Essas almas vítimas se encontram em todas as classes da sociedade: há generais como De Sonis, ou simples soldados, como se viu tantos durante a Grande Guerra e também depois; há pecadores convertidos como Huysmans ou F. Coppée, mães de família como Ana Maria Taigi, inicialmente infiel à graça, mas depois profundamente convertida; simples aprendizes ou operários, todos consentem generosamente em oferecer seus sofrimentos pela salvação de seus irmãos.
Entre os padres das cidades e do campo, numerosos são os que, como o Santo Cura d'Ars ou o venerável Pe. Chevrier, deixam-se devorar como pão, e mesmo oferecem-se generosamente como vítimas, para que seus paroquianos sejam salvos e santificados. Assim, por vezes, uma paróquia quase inteira se converte após a morte de um pároco que ofereceu a vida por seu povo.
Não foi sem emoção que ouvimos, um dia, um diretor de patronato nos contar como um jovem aprendiz, ferido de morte, sofria alegremente, recusando a injeção de morfina que lhe aliviaria as dores. Mas por quê? - perguntavam-lhe. Eu quero, disse ele, sofrer até o fim pelos meus colegas. E esse não é um caso isolado: muitos diretores e diretoras de instituições poderiam relatar numerosos casos semelhantes.
CONCLUSÃO
Todos nós somos chamados a sofrer, mas nem todos no mesmo grau, nem da mesma forma: cada um deve seguir, quanto a isso, a sua vocação, a ela respondendo generosamente. O sofrimento, que é tão desagradável do ponto de vista humano, torna-se fonte de santificação e de apostolado quando sabemos aceitá-lo amorosamente, em união com Jesus agonizante e crucificado.
1º) Uma fonte de santificação: foi pela cruz que Jesus nos salvou e santificou; é, pois, pela cruz que podemos nos salvar e aumentar nossa santidade. Sobre esse assunto, não há nada mais eloquente que a Imitação:
"Na Cruz está a salvação, na Cruz está a vida, na Cruz a proteção contra nossos inimigos. É dela que nos vêm as doçuras celestes; é nela que encontramos a força da alma, a alegria do espírito, a consumação da virtude, a perfeição da santidade. Não há salvação para a alma, nem esperança na vida eterna a não ser na Cruz...
Ide onde quiserdes, buscai tudo o que quiserdes, e não encontrareis caminho mais elevado, nem mais seguro que o da Santa Cruz...
Elevai-vos, abaixai-vos, saí de vós mesmos e retornai: sempre encontrareis a Cruz, e em toda parte é preciso ter paciência, se quereis possuir a paz interior e merecer a coroa imortal.
Se carregais de bom grado a Cruz, ela vos carregará e vos conduzirá ao termo desejado, onde cessareis de sofrer; se a carregais de má vontade, aumentais o seu peso e tornais mais duro o vosso fardo, mas nem por isso podeis deixar de carregá-la...
Não é da natureza humana carregar a Cruz, amar a Cruz, castigar o corpo e reduzi-lo à servidão, fugir das honras, suportar de bom grado os ultrajes, desprezar-se a si mesmo e desejar ser desprezado, suportar as aflições e as perdas e não desejar nenhuma prosperidade neste mundo.
Se olhais somente para vós mesmos, não podeis fazer nada disso. Mas, se vos confiais ao Senhor, a força vos será dada do alto..."!
Eis o grande segredo das almas aflitas: rezar, rezar sem cessar para obter a graça de suportar valorosamente o que não podemos suportar por nós mesmos. Era o segredo de Agostinho: "Da, Domine, quod jubes, et jube quod vis" ("Dá-me, Senhor, o que pedes, e pede o que quiseres"); e é o que a Igreja nos entrega, servindo-se de sua fórmula. Repetir essa oração é assegurar a salvação e o progresso espiritual.
2°) É também um meio de apostolado. Recordamos acima os numerosos testemunhos e exemplos dos santos. De resto, isso é evidente no ensinamento e na vida do Mestre. Foi pelo sofrimento que ele nos salvou, derramando o seu sangue. Quando quis associar Maria à Redenção, e, com ela, os apóstolos e os santos ao longo dos tempos, apresentou-lhes sua Cruz como o grande meio de apostolado. Recordemos a observação de São João: "Se Ele deu a vida por nós, nós também devemos dar a vida pelos irmãos" (1Jo 3, 16). Demo-la, pois, generosamente, gota a gota, pela aceitação cotidiana das cruzes providenciais e pelo cumprimento integral do nosso dever.
Mas, sobretudo, carreguemos nossa cruz e façamos nosso dever em união com o divino Salvador. Nossos sofrimentos, por si mesmos, não têm valor redentor; eles só o adquirem por nossa união intima e habitual com Jesus, fonte meritória da graça. Quanto mais essa união for humilde e profunda, mais a nossa Cabeça, o único que pode salvar as almas, vem agir, orar e sofrer em nós e conosco, para dar fecundidade ao nosso apostolado.
"Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto." (Jo 15,5)
UM EXEMPLO RECENTE DE AMOR VITIMAL
Para nos ajudar a compreender a eficácia do sofrimento para nossa santificação e a de nossos irmãos, citaremos alguns trechos da obra de J. d'Arnoux, tenente aviador ferido mortalmente em um combate aéreo, mas que, entretanto, conseguiu sobreviver graças à sua invencível energia:
"Nós somos seres resgatados. O martírio de um Deus foi o preço de nosso resgate, e, desde então, o sofrimento alegremente aceito completa a salvação do mundo. Chamados a seguir as pegadas de um Redentor crucificado, somente valemos por nosso potencial de redenção, e o tamanho da nossa cruz é a medida da nossa grandeza.
"O supremo testemunho de amor por Deus e pelos homens é o sacrifício, e a magnificência de nossos dons cresce com a alegria de nossa vontade. Estamos sofrendo? Um segundo de amor ardente vale mais que uma eternidade de paciência... Tudo está na intensidade da vontade... Um pequeno sacrifício inflamado de amor dilui mais pecados, consome mais escórias que vários dias de fornalha no purgatório...
Exultemos quando, sobre nossas impurezas, são ateadas as chamas expiatórias. Essa alegria voluntária lhes confere uma virtude miraculosa; não somente uma virtude purificadora, mas também, se quisermos, virtude redentora. Pela reversibilidade dos méritos, o sofrimento pode tornar-se, a todo momento, um dom excelente.
"Falta-te alegria no sofrimento. As dores são joias que Deus te dá para salvar teus irmãos, e lhe devolves cascalho... Para manter o preço infinito desses diamantes, não basta apenas a resignação... Aproveitemos essas maravilhosas oportunidades para doar aos pobres as nossas dores. Não percas sequer uma lantejoula. Dá tudo. Sê magnânimo...
"Irei buscar a sede de sofrimentos na paixão de Cristo. Mas é preciso que seja uma paixão viva, autêntica. Eu a encontrarei nas marcas do Santo Sudário de Turim: o Salvador com a carne dilacerada pelas pontas de chumbo, os olhos intumescidos de sangue..."
Na véspera de deixar o hospital, ele não está curado, mas é sustentado por sua fé na ressurreição:
"Não estou curado. Curar-me-ei um dia? Sim, eu me curarei, serei curado quando o Filho do homem aparecer sobre as nuvens do céu, e o anjo exclamar: “Não há mais tempo." Não quero senão uma coisa, ó meu Deus: a vossa santa vontade. Nela encontrarei força, felicidade, vitória, sempre. Bendito sejais por essas provações, ó meu Senhor, bendito sejais por ter armado minha fraqueza com esta couraça de arame. Se amanhã ela pode tornar-se ainda uma armadura, não a retireis de mim quando eu lutar à sombra de nossa cruz. Eu que não possuo nem heroísmo, nem santidade, nem dignidade sacerdotal, como poderia triunfar se arrancásseis de meus membros a verdade de vossa Paixão?"
Era, pois, na Paixão do Salvador que este oficial, condenado à morte pelos médicos, ia buscar essa energia selvagem, essa coragem heroica que lhe permitiu não somente viver, mas crescer em santidade e transformar seus sofrimentos em obra sacerdotal pela salvação de seus irmãos, a exemplo de São Paulo.
Possa ele encontrar muitos imitadores!!!