O GRANDE
DESCONHECIDO
A DIVINIZAÇÃO DO SOFRIMENTO.
Adolphe Alfred Tanquerey (1854 - 1932)
I. Considerações Gerais Sobre as Dores de Maria.
1°) Diferenças entre a Paixão de Jesus e a Compaixão da Santíssima Virgem.
2°) A imensidão das dores de Maria.
II. Primeira Dor de Maria: a Profecia de Simeão.
III. Segunda Dor de Maria: a Fuga Para o Egito.
IV. Terceira Dor de Maria: a Perda de Jesus.
V. Quarta Dor de Maria: Jesus Carregando a Cruz.
VI. Quinta Dor de Maria: a Crucifixão.
VII. Sexta Dor De Maria: a Descida da Cruz.
VIII. Sétima Dor de Maria: o Sepultamento de Jesus.
IX. Epílogo: Alegrias e Sofrimentos de Maria até Sua Morte.
X. Conclusão: Como são Divinizados os Sofrimentos de Maria.
CAPÍTULO SEGUNDO:
COMO SÃO DIVINIZADOS OS SOFRIMENTOS DE MARIA, A MÃE DAS DORES
Associada à obra redentora do Salvador, Maria devia partilhar de suas dores, já que foi pelo sofrimento e pela humilhação que Jesus, em obediência à vontade do Pai, quis salvar e santificar os membros pecadores de seu corpo místico. Assim, pois, como a vida de Jesus foi um longo martírio, também a vida de Maria foi, do berço ao túmulo, e sobretudo depois da profecia do santo ancião Simeão, uma longa série de provações e de dores, tanto assim que a Igreja celebra também a Compaixão da Virgem, além da Paixão do Salvador.
Nada melhor para nos fazer compreender esta grande verdade, a saber, que aqueles que desejam colaborar na salvação das almas devem carregar com generosidade as suas cruzes e unir seus sofrimentos aos do divino Redentor, para expiar não somente as suas faltas pessoais, mas também as de seus irmãos. Pois a Virgem imaculada, que jamais incorreu na menor falta, não sofreu por seus próprios pecados, mas pelos de seus filhos. Nós, que somos pecadores, temos de reparar nossas próprias faltas, assim como as de nossos irmãos: mais uma razão para aceitar ainda mais generosamente as cruzes que Deus nos envia, e mesmo para nos antecipar àquelas que ele nos prepara, para tornar nosso apostolado mais fecundo.
I. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE AS DORES DE MARIA
1°) DIFERENÇAS ENTRE A PAIXÃO DE JESUS E A COMPAIXÃO DA SANTÍSSIMA VIRGEM.
Importa primeiramente notar a diferença essencial entre a Paixão do Salvador e a Compaixão de Maria. No plano divino, a paixão de Nosso Senhor era necessária à nossa salvação: desejando Deus uma reparação do pecado igual à ofensa, e sendo a ofensa feita a Deus moralmente infinita, era preciso uma reparação de um valor moral infinito, que somente uma pessoa divina encarnada poderia oferecer em nome da humanidade culpada. Essa pessoa divina escolhida por Deus foi o Verbo encarnado, que foi constituído Senhor e cabeça da humanidade inteira, podendo assim merecer em favor de todos os homens. Ao mesmo tempo, foi decretado que nossa salvação seria conquistada pelo sacrifício sangrento do Calvário. Assim, a dolorosa paixão de Jesus era tão necessária, segundo os desígnios providenciais, que sem ela não nos poderíamos salvar.
Não é esse o caso da Compaixão de Maria: sendo mãe do Salvador, ela foi associada à obra redentora de seu Filho, mas de uma forma secundária e dependente da obra principal desse divino Filho. Desde o momento da Encarnação, Deus, que trata com o maior respeito a futura mãe do Verbo, pede seu consentimento para a obra da Encarnação e da Redenção; e é somente depois que a humilde Virgem dá livremente o seu fiat que o Verbo se encarna em seu seio virginal e associa sua mãe à obra de nossa salvação.
Era muito conveniente que assim fosse: era dela que lhe vinha esse corpo que ele iria imolar, esse sangue que ele iria derramar por nós; era justo que ela tivesse um papel importante em nossa santificação, mas era um papel secundário, já que somente Jesus Cristo fora constituído chefe espiritual da raça humana, e que somente ele podia, pela união hipostática, conferir um valor infinito a suas ações; e era também um papel subordinado, já que Maria somente poderia merecer e satisfazer em virtude de sua estreita união com seu Filho.
Mas, se o mérito de Maria é dependente daquele de seu Filho e é um mérito de conformidade (de congruência), já que ela não foi constituída chefe da raça humana, ainda assim é um mérito bem superior ao dos outros membros do corpo místico. Como observou o Papa Pio X, "para a obra da salvação de todos nós, Cristo uniu-se de tal forma à sua mãe, que ela nos merece de conformidade o que Ele nos merece de justiça, promeret nobis de congruo quæ Christus de condigno". "Em sua qualidade de mãe do Redentor, diz o Pe. R. Bernard, ela adquire uma certa participação, embora imperfeita, no papel de chefe da humanidade que pertence propriamente a seu Filho. Ela tem todas as graças relacionadas à sua missão... Mesmo na ordem da Redenção, ela não é uma pessoa como as outras e possui uma existência à parte...
Sendo a nova Eva totalmente voltada para a obra do novo Adão, ela realiza atos que interessam à raça humana como um todo e que são meritórios para a inumerável família do Filho de Deus feito homem. Ela contribui para nos salvar na mesma proporção em que nossa primeira mãe contribuiu para nos perder... Ela não se limita a nos aplicar, segundo os seus méritos, os frutos da Redenção: ela é Aquela por quem nos vieram a Encarnação e a Redenção. E é o Papa Bento XV quem afirma que podemos com justiça dizer que ela, em união com Cristo, redimiu o gênero humano". Eis porque ela é chamada corredentora, mas, como já dissemos, em um sentido restrito e secundário.
Podemos acrescentar que os seus sofrimentos foram, no fundo, os mesmos de Jesus; seu coração tão amoroso e tão compassivo sentiu vivamente todas as torturas físicas e morais infligidas a seu Filho, e cada uma delas cravava mais profundamente em sua alma a espada de dor.
Se Deus quis associar assim a mãe e o Filho na obra da redenção, foi para nos mostrar que todos os membros do corpo místico devem aceitar sofrer com seu Senhor por sua salvação e pela salvação de seus irmãos.
Ó Virgem compassiva, ajudai-nos, pois, a nos manter perto de vós ao pé da cruz para suportar, sem queixas, as dores que aprouver à divina bondade enviar-nos para nos associar à obra redentora.
2°) A IMENSIDÃO DAS DORES DE MARIA.
Segundo o testemunho dos Santos, não poderemos jamais compreender a imensidão e a profundidade dos sofrimentos de Maria, pois nunca poderemos compreender a grandeza do seu amor por Jesus, causa principal de suas dores. Esse é também o pensamento da Igreja, que, em sua liturgia, aplica à Virgem compassiva, como ao próprio Jesus, estas palavras do profeta Jeremias (Lm 1,12):
"Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede, Se há alguma dor igual à dor que pesa sobre mim!"
Para fazer uma ideia aproximada, pensemos em sua aguçada sensibilidade, em sua santidade, em seu amor por Jesus, e nas luzes que ela tinha sobre Deus e sobre o pecado.
1. Sua aguçada sensibilidade! Precisamente porque ela deveria ser a mãe do Homem-Deus, que, para ser uma vítima digna de ser oferecida à Trindade Santa, precisava ter uma imensa capacidade de sofrer, também ela devia ser dotada de uma capacidade semelhante, pois cabia-lhe a missão de cooperar, pela amplitude de seus sofrimentos, com a nossa redenção.
2. Sua eminente santidade! Segundo a Tradição, que a Encíclica de Pio IX sobre a Imaculada Conceição resume tão bem, essa santidade ultrapassa em muito a de todos os Santos e mesmo a dos Anjos mais perfeitos. Ora, neste mundo, a santidade não existe sem grandes sacrifícios, sem um verdadeiro martírio. São mártires não somente aqueles que derramaram seu sangue por Jesus Cristo, mas também os milhões de virgens, de anacoretas, de monges, de missionários, de padres e de fiéis que, para testemunhar seu amor a Deus, viveram num contínuo espírito de sacrifício, imolando sua vontade para abraçar a vontade de Deus.
São mártires, ainda hoje, aqueles que se oferecem como vítimas de holocausto, seja à justiça divina para reparar seus pecados e os de seus irmãos, seja ao amor infinitamente misericordioso, para que seu coração, consumido nas chamas da caridade, seja como uma hóstia viva consagrada ao serviço de Deus e das almas. E Maria, mais do que todos, sofreu esses diferentes tipos de martírio, porque devia ser mais santa do que todos, cooperar na santificação de todos e ser sua consoladora.
3. Seu amor por Jesus! Ninguém amou como ela; pois Deus, que não faz as coisas pela metade, ao dá-la como mãe a seu Filho, acendeu em seu coração virginal uma centelha desse amor divino que ele mesmo tem, desde toda a eternidade, por seu Filho; ela o ama com toda a sua alma como seu Deus, e o ama como seu filho, o mais belo, o mais amoroso, o mais amável de todos os filhos; e esse amor, já imenso no dia da encarnação, só foi aumentando cada vez mais, até o fim de sua vida. Ora, é esse amor a causa do seu suplício.
Como diz Bossuet, para fazer da Virgem uma mártir, "não é preciso acender o fogo, não é preciso colocar a arma na mão dos carrascos, nem incitar a ira dos perseguidores... basta uma mesma cruz para o seu bem-amado e para ela. Quereis, ó Pai eterno, que ela fique coberta de feridas? Fazei com que veja as de seu Filho, conduzi-a somente ao pé de sua cruz, e deixe então agir o seu amor... Se o corpo de Jesus é moído de pancadas, Maria sente todas essas dores; se sua cabeça é perfurada pelos espinhos, Maria é rasgada por todas as suas pontas; se lhe apresentam fel e vinagre, Maria bebe toda a sua amargura; se seu corpo é estendido sobre a cruz, Maria sofre a mesma violência.
Os mártires se consolavam de suas torturas lançando um olhar afetuoso ao divino Crucificado; Maria não tem esse consolo, pois olhar para Jesus é aumentar suas próprias dores, e ainda aumentar as de seu Filho, que não pode ver sofrer sua Mãe sem que seu coração seja profundamente ferido. Sim, Maria é verdadeiramente a rainha dos mártires, pois o amor por seu Filho foi a causa do seu martírio, e esse amor é incomensurável.
4. Suas luzes sobre Deus e o pecado! O que, no horto das Oliveiras, mergulhou Jesus numa agonia mortal, foi o seu pleno conhecimento da santidade de seu Pai e da ofensa que o pecado lhe causa. E Maria, mais do que ninguém, participa desse conhecimento. Desde o despertar de sua razão, seu primeiro olhar é para Deus que é a própria santidade, e ela tem de sua perfeição um conhecimento que não poderemos jamais compreender.
Ao mesmo tempo, ela recebe luzes sobre esse pecado do qual foi preservada, sobre sua feiura e sobre a ofensa que ele causa à divindade; e essa dupla luz aumentará ainda mais durante suas contemplações. É isso, precisamente, que agrava o seu martírio; pois ela sabe que a fonte profunda dos sofrimentos de Jesus é a visão da santidade do Pai e do horror dos pecados que ele deve carregar e expiar em sua carne inocente. Assim, seu coração, como o de seu Filho, sofre uma agonia mortal quando ela o vê sobrecarregado com os pecados do mundo inteiro.
Para qualquer lado que nos voltemos, a alma de Maria nos aparece como um oceano de dores cuja imensidão nos apavora. E, considerando que cada um de nós tem contribuído tanto para aumentar essas dores, não devemos apreciar meditá-las longamente e afetuosamente, para delas nos compadecer e reparar, assim, as feridas que infligimos ao Coração de Maria e ao Coração de Jesus?
A Igreja propõe à nossa meditação e à nossa imitação sete dores principais de Maria. Esse número não é exaustivo: além dessas sete dores, há certamente outras; mas essas são as principais, as mais características, de forma que as demais podem associar-se a elas; iremos, pois, percorrê-las delicadamente. São elas:
1. A profecia de Simeão declarando-lhe que uma espada de dor lhe transpassaria a alma; foi o início do seu martírio.
2. A fuga para o Egito com todas as provações do exílio e da permanência em terra estrangeira.
3. A perda de Jesus no templo quando, ao invés de acompanhar seus pais, ele permanece no templo de Jerusalém - dias tão dolorosos para o coração da Mãe.
4. O encontro com Jesus carregando a cruz, no caminho do Calvário.
5. A crucifixão do Salvador, da qual Maria acompanhou cada detalhe com um olhar profundamente entristecido.
6. A descida da cruz, que reavivou no coração da mãe todas as dores da crucifixão.
7. O sepultamento de Jesus, que privou Maria, por algum tempo, da visão d'Aquele que era a sua única felicidade.
Nossa Senhora das Dores, iluminai nosso espírito e aquecei nosso coração enquanto, ajoelhados a vossos pés, tentamos entrever a profundidade de vossos sofrimentos e dos de vosso Filho.
Para meditar nas dores de Maria, seremos obrigados a relembrar brevemente as dores de Jesus, que ela compartilhou; isso nos ajudará, de resto, a compreender melhor que a mãe e o Filho, tendo sofrido juntos, não devem ser separados em nossa devoção.
II. PRIMEIRA DOR DE MARIA: A PROFECIA DE SIMEÃO
Como já dissemos, se a vida de Maria foi, em seu conjunto, um longo martírio, ela teve também suas alegrias, que descreveremos brevemente.
Primeiro, foram as alegrias de sua infância, quando ela ouviu a voz de Deus falando-lhe ao coração, e pedindo-lhe que deixasse seus velhos pais para consagrar-se toda inteira ao seu serviço. Com que alegria ela fez esse sacrifício e se ofereceu como vítima, antecipando assim, sem o saber, a oferenda do Calvário! Como era feliz ao rezar, em união com os sacerdotes e com todos os verdadeiros israelitas, pela vinda próxima do Messias, que ela esperava poder ver antes de morrer!
Vieram em seguida as alegrias de sua juventude, de seu noivado tão puro com José: duas virgindades unidas para melhor se protegerem! Logo vieram as alegrias tão profundas da Anunciação, quando ela ouviu o arcanjo Gabriel declarar que ela iria conceber e dar à luz esse Messias, esse Filho de Deus, esse Salvador tão ardentemente esperado; as alegrias da Natividade, quando o Filho de Deus feito homem, saindo de seu seio virginal, veio colocar-se em seus braços, e ela o pôde contemplar com seus olhos, aconchegá-lo amorosamente junto ao seu coração e começar com ele essa vida de íntima união que a associaria para sempre à sua obra redentora; as alegrias desse longo tempo de convivência em Nazaré, das doces e familiares conversas com seu Filho, que deviam fundir, por assim dizer, esses dois corações em um só e imprimir na alma de Maria os sentimentos e as disposições interiores de Jesus.
Ah! sem dúvida, essas alegrias não eram sem nuvens: ela participou, desde o início, das tristezas e humilhações desse Filho tão mal acolhido por aqueles que ele vinha salvar; mas o fato de poder sofrer com ele e por ele não deixava de ser, para ela, uma imensa consolação.
Sua primeira grande dor foi a profecia de Simeão. Submetendo-se a uma lei que não se aplicava a ela, a lei da purificação (Ex 13, 2.13), Maria tinha vindo ao templo de Jerusalém para purificar-se de uma impureza que não tinha, e oferecer a Deus esse Filho que Deus lhe confiara. Com que amor ela apresentou publicamente ao Pai Aquele que tantas vezes já tinha oferecido no santuário do seu coração! Ela sabe que esse Filho pertence a Deus mais do que a ela, e, com um profundo sentimento de humildade e de gratidão, oferece-o em holocausto como vítima digna de resgatar o mundo.
Ela sabe o que o espera: o sofrimento e a morte. Mas, como o mundo não pode ser salvo sem uma vítima de valor infinito, ela consente voluntariamente na imolação de seu Filho, e se oferece a si mesma junto com ele, imolando pela espada da obediência todas as suas ações, e repetindo em seu coração seu humilde fiat: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).
Deus é assim glorificado publicamente como merece, de uma forma infinita; pois a vítima oferecida pela Virgem não é outra senão o Verbo encarnado infinitamente agradável ao Pai, graças à dignidade infinita de sua pessoa.
Desde esse momento, Maria entrevê a grandeza do sacrifício de seu Filho, e, consequentemente, do seu próprio. Mas, para aumentar o valor dessa imolação, Deus lhe revela, por seu servo Simeão, toda a extensão desse duplo sacrifício: "Este menino, disse ele, foi colocado para a queda e para a ascensão de muitos em Israel, e como um sinal de contradição; e a ti, uma espada transpassará a tua alma..." (Lc 2, 34-35).
Que dor intensa para o coração tão afetuoso de Maria! Esse Filho que ela acaba de oferecer tão heroicamente pela salvação dos homens, não os salvará a todos: mesmo entre os filhos de Israel, alguns irão resistir à graça e, apesar da efusão do sangue divino, perecerão em seu pecado. Dor atroz para o coração de Jesus, mas também para o coração de sua mãe! Pois aqueles que assim perecerão por sua própria culpa são membros do seu Filho, são seus filhos, e ela tem por eles uma ternura de mãe! Como ela teria, de bom grado, aumentado os seus próprios sofrimentos, se com isso pudesse salvá-los a todos!
Mas era preciso que os desígnios de Deus se cumprissem, e ela repete silenciosamente: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra." Sim, realmente, uma espada transpassa desde já e transpassará até o fim de sua vida terrena essa alma tão afetuosa. Doravante, já não haverá para ela alegria sem mistura: através dos sorrisos do Menino-Deus ela entrevê a dor profunda que lhe causam as ingratidões e o ódio de seus irmãos revoltados: seu amor não é reconhecido e sua divina majestade é ofendida; ele, que deveria ser amado e adorado por todos, é odiado e insultado por muitos. Como não ficaria profundamente ferido com isso o coração de sua mãe, a quem a glória de Jesus importava mais que a sua própria? Por isso mesmo ela procura, pela intensidade do seu amor, compensar a atrocidade dessas dores...
Ó Virgem santíssima e amabilíssima, ajudai-nos a compadecer-nos dos sofrimentos de Jesus como vós o fizestes; aumentai em nosso coração o horror ao pecado e o desejo da santidade, dai-nos um amor mais generoso por Jesus e por sua cruz, a fim de que, como vós, possamos compensar, pelo ardor de nosso amor compassivo, a profundidade de seus sofrimentos e de suas humilhações.
(7 Comentando as palavras de Simeão, Bossuet (op. cit., p. 481) ressalta assim a intensidade das dores de Maria: "Palavras assustadoras para uma mãe! É verdade que o bom velho não lhe disse nada de particular sobre as perseguições que aguardavam seu filho; mas não penseis, cristãos, que ele quisesse poupá-la da dor - oh, não, não o penseis! Essa imprecisão a aflige ainda mais, pois, nada lhe dizendo em particular, ele a obriga a tudo recear! Haverá algo de mais duro e penoso do que esse cruel suspense de uma alma ameaçada por algum grande mal que ela ignora qual seja? Ah! essa pobre alma, confusa, inquieta, que se vê ameaçada por todos os lados e que vê em toda parte espadas ameaçadoras pendendo-lhe sobre a cabeça, que não sabe por onde precaver-se, sofre a cada momento mil mortes... Santo Agostinho tem razão ao dizer que é incom paravelmente menos penoso sofrer uma única morte do que recear todas (Cidade de Deus, livro 1, cap. XI).")
III. SEGUNDA DOR DE MARIA: A FUGA PARA O EGITO
A Sagrada Família tinha acabado de voltar para a casa que lhe servia de abrigo, quando precisou deixá-la, trocando-a pelo caminho do exílio, pela terra do Egito. No meio da noite um anjo aparece a José, acorda-o e lhe diz: "Toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito".
O que se passara? Informado pelos Magos do nascimento do Messias, Herodes teme por seu trono, e, não sabendo ao certo quem era o Messias, envia os soldados para matar todas as criancinhas de Belém e arredores, de forma que o futuro Rei dos Judeus não pudesse escapar ao massacre. E um grito de desolação ressoa então nessas aldeias, grito agudo dos peque-nos inocentes imolados à inveja de Herodes, grito ainda mais doloroso das mães, cujo coração sangra ao ver seus filhos massacrados.
Assim se afirma essa lei do sofrimento, condição da nossa salvação. O próprio Jesus é submetido às contradições dos homens: é a ele que perseguem, é a ele que assassinam na pessoa dos pobres inocentes; para eles, esse martírio é a chave do céu: morrendo por Jesus, eles são coroados de glória para sempre. Suas desoladas mães são santificadas pela dor que as oprime, e o martírio que elas sofrem em sua alma torna-se instrumento de justificação.
Maria suporta um outro martírio: o martírio do exílio nessa terra do Egito que outrora perseguiu os israelitas, e que hoje permanece sendo a terra da idolatria, do culto aos animais, e, por isso mesmo, é causa de horror para os fiéis servidores do verdadeiro Deus. Ela não questiona se o Criador do céu e da terra não poderia salvar seu Filho de outra maneira mais digna dele: sem tentar perscrutar seus desígnios, ela se inclina perante a vontade divina: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."
Ah! sem dúvida o seu coração se aperta ao ver o verdadeiro Deus ignorado nessa terra idólatra, e vis animais adorados em seu lugar, em templos suntuosos. Mas isso lhe dá ocasião de adorar e amar ainda mais ardentemente Aquele que é o único a merecê-lo, e de oferecer-lhe tantos atos de adoração e de amor quantos são os ultrajes que ele ali recebe: "Minha alma glorifica o Senhor, e meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador" (Lc 1, 46-47). Com que ternura ela aperta ao coração esse Menino-Deus que vem destruir os ídolos e fazer reinar em toda a terra o Deus de Israel! Como se une a ele para adorar, em espírito e em verdade, o único Deus verdadeiro, para pedir que seu nome seja glorificado, que seu reino venha, que sua vontade seja feita na terra como no céu!
Inflamada de zelo apostólico, ela anseia ardentemente pelo dia bendito em que das solidões do Egito e da Tebaida se levantará um concerto harmonioso de louvores, de adorações, de mortificações e de sacrifícios que repararão a ofensa feita a Deus por tantos atos de idolatria; e, sobretudo, pelo grande dia em que já não haverá senão um só rebanho conduzido por um único Pastor. Assim, essa estadia em um país dominado pela idolatria serve-lhe de ocasião para exercer o apostolado em união com seu divino Filho.
É também uma ocasião para praticar a submissão à vontade de Deus em meio às contrariedades e tristezas do exílio. Obrigada a viver entre estrangeiros cuja língua e costumes desconhece, a trabalhar com José para prover ao sustento da família, magoada algumas vezes pelos sarcasmos e os sorrisos irônicos dos que a cercam, ela sofre pacientemente, amorosamente, todas essas provações, unindo-as às de seu Filho pela salvação desse povo no meio do qual vive.
Felizes as almas que sabem, assim, tirar proveito de tudo para glorificar a Deus e expandir o seu reino na terra! Esquecidas de si mesmas e de seus interesses, elas têm o coração cheio de caridade, rezam pelos que as perseguem e fazem o bem aos que as maldizem. E assim se mostram dignas do Pai celeste, que prodigaliza seus favores aos maus como aos bons.
Elas não se esquecem de que esta terra é uma terra de exílio, que sua pátria é o céu. Nele habitam, por antecipação, em espírito e de coração; todas as suas ações têm uma única finalidade: aproximá-las do céu e, portanto, de Deus, imitando suas perfeições e sobretudo sua bondade e misericórdia. Assim o exílio parece menos longo, e o sofrimento menos penoso: não é ele, com efeito, o caminho mais curto que abrevia o exílio, intensifica nossa amizade com Deus e nossa glória no céu?
Ó Virgem bendita, que soubestes tão bem aproveitar vossa permanência em terra estrangeira, ajudai-nos a bem aproveitar a nossa neste vale de lágrimas! Que, a vosso exemplo, ofereçamos constantemente os nossos trabalhos, nossas contrariedades, nossas dores, para que Jesus Cristo possa reinar mais profundamente em nossas almas e nas das pessoas que nos cercam.
IV. TERCEIRA DOR DE MARIA: A PERDA DE JESUS
Voltando do exílio, Maria foi para Nazaré, pequeno povoado da Galileia onde deveria passar longos anos em companhia de José e de Jesus. Que doce intimidade entre a Mãe e o Filho! Este crescia não somente em idade, mas em sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens, obedecendo em tudo a Maria e a José e conversando com eles sobre as coisas de Deus, sobretudo sobre o mistério da Redenção, cujo plano lhes revelava pouco a pouco, na medida que convinha à Sabedoria divina.
Quem poderia contar as inefáveis conversas dos serões em família, quando o Menino-Deus, para descansar seus pais dos rudes trabalhos do dia, falava-lhes afetuosamente do reino de Deus que ele vinha estabelecer na terra? Em silenciosa adoração eles escutavam, conservando e meditando em seu coração as palavras de vida que saíam de seu coração e de seus lábios. No máximo, Maria fazia de vez em quando alguma pergunta discreta, não para satisfazer sua curiosidade, mas para melhor compreender o pensamento de seu Filho e o colocar em prática.
Mas Jesus quis lembrar-lhe que o sofrimento nunca cessa de ser nossa partilha na terra, sobretudo quando queremos nos santificar e colaborar com Deus na salvação de nossos irmãos. Aos doze anos, ele foi com seus pais celebrar a Páscoa em Jerusalém, e aí permaneceu durante toda a oitava, comprazendo-se sobretudo em estar no templo, onde prestava homenagem a seu Pai. Escutava também os Doutores da Lei, que aproveitavam a afluência dos visitantes para responder às suas perguntas; ele os interrogou, e respondeu, por sua vez, com tanta sabedoria às perguntas que lhe fizeram, que os Doutores ficaram admirados.
Quando o grupo dos peregrinos galileus retomou o caminho rumo ao Norte, Jesus ficou no templo. Seus pais, pensando que ele estivesse com alguma família amiga, não se inquietaram. Mas, à noite, ao se reunirem para acampar, não puderam encontrar seu filho. Que dor angustiante para seu coração! Se Jesus havia desaparecido, não seria por serem eles indignos de viver em sua companhia?
Maria repassava silenciosamente em sua consciência o que teria podido motivar esse desaparecimento, e sua humildade, tanto mais profunda quanto maior era a sua santidade, sugeria-lhe sem dúvida várias razões que justificariam, a seus olhos, esse abandono. Isso só tornava a sua angústia maternal mais pungente e mais dolorosa. Logo ela retorna com José à cidade santa, em busca d'Aquele que perdera. Era noite, uma noite de desolação, de abatimento, de tristeza mortal, cuja profundidade não podemos conceber sem compreender toda a intensidade de seu amor por seu Filho.
No terceiro dia, depois de muitas buscas infrutíferas, ela o encontra enfim no Templo, entretendo-se com os Doutores maravilhados com a sabedoria de suas respostas. Ao abordá-lo, ela não pode impedir-se de lhe falar de sua extrema aflição, queixando-se docemente: "Meu filho, por que agiste assim conosco? Teu pai e eu te procurávamos, aflitos!" A resposta não fez senão confirmar a sua angústia: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?" (Lc 2, 48-49).
Eles não compreenderam o que ele dizia, pois os desígnios de Deus só lhes seriam revelados em tempo oportuno. Foi uma nova dor para o coração tão terno, tão afetuoso da Mãe; mas ela se submeteu humildemente, adorando em silêncio o que não compreendia, e renovando sua inteira submissão à vontade misteriosa de Deus: "Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra". No dizer de muitos santos, essa dor foi uma das mais pungentes que Maria sofreu.
Encontramos aí um ensinamento profundo. Na vida espiritual, às vezes Deus se compraz em desaparecer, em tornar-se invisível aos olhos interiores de nossa alma; ele não a abandona, mas nós não temos mais consciência de sua presença, e somos invadidos pela desolação e pela escuridão da noite. Culpados ou não, nosso primeiro dever é de partir, ansiosamente, humildemente, em busca d'Aquele cuja presença perdemos.
Nós, tão fracos, tão inclinados às imperfeições e às falhas, devemos sempre perguntar-nos se não seremos culpados por essa noite espiritual, e devemos buscar nosso Bem-Amado nos austeros exercícios de penitência e na humilde confissão de nossas faltas, alegrando-nos se, com isso, pudermos escutar no fundo do coração as consoladoras palavras: "Muito lhe foi perdoado, porque ele muito amou".
Se a culpa não for nossa, se se tratar de uma simples provação, nosso primeiro dever é aceitá-la amorosamente; e o segundo é procurar por Deus na simplicidade de nossa alma, redobrando de amor e de sacrifícios. Nós o encontraremos no momento que lhe aprouver: quanto mais a separação tiver sido longa e amorosamente aceita, mais nossa alma sairá dela purificada, santificada, e mais intensa será nossa alegria quando a voz do Bem-Amado se fizer novamente ouvir em nosso coração. Nossa alma, então, estremecerá de alegria e esquecerá todas as securas passadas.
V. QUARTA DOR DE MARIA: JESUS CARREGANDO A CRUZ
Entre a perda momentânea de Jesus e o caminho da cruz houve um longo intervalo, com suas alegrias e suas provações; mas o que dissemos das dores precedentes nos permite entrever quais foram essas provas. A Igreja nada nos diz a esse respeito; ela nos transporta imediatamente ao tempo da Paixão, da qual apenas nos mostra as cenas principais.
A paixão, propriamente falando, começa com a agonia no horto das Oliveiras. Segundo uma piedosa tradição, Maria assistiu em espírito à agonia, à flagelação, à coroação de espinhos; ela escutou os gritos selvagens da multidão reclamando a crucifixão de seu filho e a libertação de Barrabás. É impossível dizer quão profunda foi a sua dor: de acordo com o testemunho dos Santos, ela foi tão intensa que teria matado Maria, se Deus não tivesse, por milagre, sustentado as suas forças.
Como nossa Mãe, também nós devemos nos compadecer de Jesus em Sua agonia. Ouçamo-lo dizer: "Não pudestes velar uma hora comigo?" "E entretanto poderia ele acrescentar derramei esta gota de sangue por ti, por teus pecados; não receies, pois, fazer a vigília da hora santa para unir tuas orações e tuas lágrimas às minhas, e implorar o perdão para ti e para os pecadores que continuam a me ofender. Mas, sobretudo, vigia e ora para não sucumbir à tentação, para não agravar assim as angústias da minha alma".
Não nos esqueçamos também de compartilhar, com nossa Mãe, as dores da flagelação e da coroação de espinhos. Foi para expiar nossos pecados de sensualidade que essa carne inocente foi tão cruelmente torturada; quando as nossas feridas e enfermidades, ou as pequenas mortificações que nos impomos fazem gemer nossa carne, alegremo-nos por poder, com isso, aliviar os sofrimentos do Salvador e diminuir a força da concupiscência. E, considerando que a coroação de espinhos expia as nossas faltas interiores de orgulho ou de luxúria, façamos um esforço para resistir a elas e digamo-nos que o melhor meio de fazê-lo é ocupar nosso coração com pensamentos de humildade e de amor a Deus.
Com São João, Maria se dirige a uma pequena rua de onde poderá ver passar o fúnebre cortejo a caminho do Calvário.
Que cena emocionante! Ela está sozinha com João: os outros apóstolos tiveram medo e fugiram, e é um verdadeiro suplício para o seu coração maternal ver seu Filho assim abandonado pelos seus, depois de ter sido traído por um deles. Ela sabe que esse abandono é, para Jesus, uma das dores mais pungentes, e ela compartilha dessa dor.
Eis que aparece, enfim, o homem de dores: ele avança penosamente, carregando sobre os ombros feridos o pesado fardo da cruz. Seu rosto está coberto de sangue e de cusparadas. Em um gesto instintivo, a mãe estende os braços para seu Filho, como para apertá-lo sobre o coração uma última vez. Brutalmente afastada pelos soldados, ela pode apenas contemplar esse rosto desfigurado, mas ainda assim cheio de bondade e de heroica resignação. Jesus avista sua mãe e fixa nela um longo olhar de amor e de compaixão. Esse olhar não faz senão aumentar as dores da mãe e do Filho.
São dois sofrimentos que se intensificam ao se unirem. Ó vós todos que passais, vede se pode haver dor semelhante a esta! Heroicamente, um e outro aceitam e oferecem esse novo sacrifício para a glória de Deus e para nossa salvação. Não devemos, nós também, carregar nossa cruz, à imitação de Jesus e de Maria, e, dessa forma aliviar, como o Cireneu, o seu fardo? Não devemos, a exemplo de Verônica, consolar por esse meio Aquele que sofre por nossos pecados, e consolar também aquela cujo coração foi transpassado por esses mesmos pecados?
Abalado no mais fundo de seu ser, Jesus vacila sobre seus pés e cai pesadamente ao solo, esgotado de emoção, de dor e de fadiga; e, para ajudá-lo a levantar-se, não recebe senão pancadas e insultos. A essa visão, Maria vacila por sua vez, e teria caído morta sobre esse solo banhado pelo sangue de seu Filho, se Deus não a tivesse milagrosamente sustentado para novos combates.
Ó Mãe das dores, somos nós que, por nossas covardias e nossos crimes, somos a causa de todas essas angústias! Imprimi em nossos corações, com a imagem de Jesus crucificado, o horror ao pecado, o amor pela reparação e pela cruz, a fim de seguirmos vosso Filho até o Calvário, realizando em nossa carne o que falta à sua paixão dolorosa, para aumentar a sua influência sobre as almas.
VI. QUINTA DOR DE MARIA: A CRUCIFIXÃO
Para fazer uma ideia dos sofrimentos de Maria no momento da crucifixão, precisamos lembrar-nos de que todas as torturas físicas e morais do Salvador repercutiam no coração amoroso e compassivo de Maria. Santa Teresa nos ajuda a compreendê-lo quando, meditando nos sofrimentos de Jesus, escreve estas linhas inflamadas: "Estou prostrada de joelhos, em silêncio, mas todo o meu corpo estremece sob os tormentos do teu corpo; os espinhos de tua fronte penetram em minhas têmporas, os pregos de tuas mãos dilaceram as minhas mãos, a chaga de teu lado sangra sobre o meu coração! E, embora esteja aqui na poeira, confundo-me tão bem com meu Deus, que me sinto lá no alto, crucificada contigo!"
Se, depois de dezesseis séculos, uma alma compassiva sofreu em seu coração todas as dores de Jesus crucificado, quanto mais profundamente Maria, testemunha de todos esses sofrimentos e mil vezes mais amorosa que Teresa, não terá sentido todas as torturas físicas e morais desse Crucificado que era seu Filho! Assim, ao descrever brevemente as torturas do Filho, descreveremos ao mesmo tempo as de sua mãe, e bastará acrescentar algumas palavras para fazer compreender aos leitores alguns dos sentimentos que torturavam sua alma.
Totalmente alquebrado de dores, Jesus chega enfim ao Calvário onde irá consumar seu sacrifício.
A inocente vítima se deixa despojar de suas vestes. Novo suplício, muito doloroso e muito humilhante: ao arrancar-lhe a túnica sem costura, colada às suas chagas, os carrascos renovam as torturas da flagelação, e escarnecem do Rei dos Judeus transformado em objeto de zombaria. Como essa zombaria e esses insultos repercutem dolorosamente no coração tão terno da mãe! O mais belo dos filhos dos homens, o Salvador do mundo, é ridicularizado por aqueles que ele veio arrancar do inferno, e, por um instante, a obra redentora parece aniquilada, uma vez que aquele que era visto como Salvador vai ser pregado na cruz. Maria, porém, apesar de todas as aparências contrárias, conserva sua fé inabalável e sua invencível esperança, e, com isso, consola o coração de seu Filho entristecido pelo abandono e a incredulidade de tantos discípulos.
9 "É impossível conceber maior ato de fé do que o da Virgem no Calvário: nessa hora de obscuridade profunda, que foi chamada de "hora das trevas", quando a fé dos próprios apóstolos vacila, quando Jesus, humanamente falando, parece totalmente vencido e sua obra aniquilada para sempre, quando o próprio Céu parece não responder à súplica do Crucificado, Maria não cessa um só instante de crer que seu Filho é o Salvador da humanidade, e quando ele pronuncia suas últimas palavras: Consummatum est, a Virgem, na plenitude de sua fé, compreende que a obra da salvação é consumada pelo mais doloroso aniquilamento. Ela compreende que seu Filho agonizante é já o vencedor do pecado, e que, dentro de três dias, será o vencedor da morte, consequência do pecado. Esse é o seu maior ato de fé: ver o dedo de Deus, e mais ainda, a intervenção suprema de Deus, lá onde os melhores, os mais fiéis, só veem trevas e desolação." (P. R. Garrigou-Lagrange, L'amour de Dieu et la Croix de Jésus, t. 11. 1930, p. 820)
Entretanto, a crucifixão começa. A inocente vítima estende seus braços sobre a cruz, e, aos golpes sucessivos do martelo, grossos cravos penetram em suas mãos e em seus pés. Suplício pavoroso que lhe causa indizíveis torturas! E, contudo, estas nada são ao lado das torturas morais que sua alma experimenta å vista da ingratidão dos homens e da inutilidade, para tantos, do seu sangue derramado.
Ainda assim, longe de maldizer os culpados, o Salvador pede por sua conversão: "Pai, perdoai-lhes, pois eles não sabem o que fazem!" (Lc 23, 34).
Maria se une a essa prece: pois, misericordiosa como seu Filho, o que ela mais deseja é a conversão e a salvação desses extraviados. Mas, que dor para o seu coração maternal, ver que o sangue do Salvador, tão generosamente derramado por todos, será inútil para tão grande número! Ela reza e oferece suas dores para que muitos sejam convertidos em virtude do sangue de seu Filho, em particular aqueles que são seus piores inimigos, e que, passando e repassando diante dele, dizem ironicamente: "Se é o Filho de Deus, que desça agora da cruz, e nós creremos nele!"
Essas palavras ferem profundamente o seu coração de mãe; mas, tendo ela os mesmos sentimentos de seu Filho, implora a misericórdia divina para esses infelizes extraviados, e suas preces e seus sofrimentos, unidos aos de Jesus, obtêm a conversão de vários desses fariseus orgulhosos.
Quando, em nossos dias, vemos nosso doce Salvador insultado, escarnecido, perseguido em si mesmo e na pessoa de seus discípulos, não maldigamos esses inimigos, mas, com Jesus e Maria, rezemos por sua conversão: é a melhor forma de consolar o coração de nosso Senhor e de aumentar sua influência.
Menos cruel que os carrascos, a natureza quis chorar a última agonia de seu Criador. Por volta do meio-dia, uma escura neblina se eleva do solo e envolve a cruz como um véu fünebre. O terror toma conta da multidão e a dispersa. Logo já não há ninguém ao pé da cruz, e Maria pode aproximar-se do Crucificado, com um pequeno grupo. Com que amor o Salvador descansa seus olhos nesses amigos fiéis que vêm dizer-lhe um último adeus!
Ele olha com especial ternura para sua mãe, compadecendo-se de suas dores; e, não querendo deixá-la sozinha na terra, confia-a ao discípulo amado: "Eis o teu filho" (Jo 19, 26). Palavra consoladora, mas também dolorosa, cortante como uma espada! Esse filho que lhe é dado, por mais amoroso que seja, é apenas um homem, enquanto aquele que ela perde é Deus!
Se um filho lhe é dado, isso significa que ela estará, por muito tempo, separada do seu Jesus. E assim começa um novo martírio, talvez o mais doloroso, porque ela o suportará sem ser amparada pelo olhar compassivo d'Aquele que continua sendo o maior, e mesmo o único objeto de seu amor.
E, no entanto, ela aceita essa separação porque essa é a vontade de Deus, que quer prolongar seu exílio na terra para que, com suas palavras e seu exemplo, ela possa sustentar a Igreja nascente. Com heroico desapego ela sacrifica sua felicidade à da Igreja, esposa viva do Cristo.
Não deveremos nós, que fomos adotados juntamente com São João, amar Maria ao menos como a mais amável e a mais amorosa das Mães, e testemunhar-lhe esse amor evitando o que a possa magoar, sobretudo o pecado, que volta a pregar Jesus na cruz? Ouçamos Bossuet:
"Quando o mundo te atrai com suas volúpias, para desviar a imaginação desses prazeres perniciosos lembra-te das lágrimas de Maria, e nunca esqueças os gemidos dessa mãe tão caridosa... Nas tentações violentas, quando tuas forças estiverem quase no fim e os teus pés vacilarem no caminho reto; quando a ocasião, o mau exemplo ou o ardor da juventude te pressionarem, não esqueças os gemidos de tua mãe. Lembra-te do pranto de Maria, lembra-te das dores cruéis pelas quais dilaceraste seu Coração no Calvário, deixa-te tocar pelo grito de uma mãe.
Que queres tu, miserável? Desejas erguer uma nova cruz para nela pregar Jesus Cristo? Queres mostrar novamente a Maria o seu filho crucificado? Queres coroar sua cabeça de espinhos, calcar aos pés, diante dela, o sangue da Nova Aliança, e, com esse horrível espetáculo, reabrir todas as feridas do seu amor maternal?... Deixemo-nos comover pelo apelo de uma mãe. Meus filhos, diz ela, até aqui nada sofri, e considero como nada todas as dores que a cruz me causou: é o golpe que me aplicais com vossos crimes o que verdadeiramente me fere.
Vi morrer meu filho bem-amado; mas, como ele sofria para vossa salvação, eu o entreguei de boa vontade à imolação... Mas, quando vos vejo sacrificar vossas almas à fúria de Satanás, quando vos vejo tornar inútil o sangue de meu filho e a sua graça, fazer pouco caso de sua cruz pela profanação de seus sacramentos, ultrajar sua misericórdia ao abusar tanto de sua paciência; quando vejo que, à insolência, acrescentais o crime; que, em meio a tantos pecados, desprezais o remédio da penitência, ou o transformais em veneno por vossas recaídas contínuas... é então que me sinto mais cruelmente atingida; é isso, meus filhos, que me corta o coração, e me arranca as entranhas."
Se, ao contrário, desprezando os prazeres ilícitos, nós levamos, com lealdade, uma vida cristã exemplar, consolamos o coração de nossa Mãe, ao consolar seu Filho.
Foi o que fez um dos dois ladrões crucificados ao lado de Jesus: a princípio, ambos haviam insultado seu companheiro de infortúnio. Mas um deles, caindo em si antes de comparecer diante de Deus, reconheceu-se culpado, e, admirando a heroica paciência do Cristo, a qual seria inexplicável se ele não fosse o Messias, voltou-se para ele e murmurou suavemente: "Senhor, lembra-te de mim quando vieres com teu reino" (Lc 23, 39-43).
E o Salvador imediatamente respondeu: "Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso", isto é, entre os justos do Antigo Testamento, nesse limbo que era como que o vestíbulo do Céu. Que consolação para Maria escutar essas palavras de perdão! Esse ladrão é o símbolo dos pecadores arrependidos que, depois de terem ofendido a Deus, lançam-se enfim nos braços de sua infinita misericórdia. Ela ama esses pobres extraviados, que nunca deixam de ser seus filhos; para eles ela implora o perdão, e, através dos séculos, nunca deixará de ser o refúgio seguro dos pecadores, a advogada eloquente das causas mais desesperadas.
Nada lhe é mais doce do que reconduzir ao Salvador os criminosos mais endurecidos: foi também por eles que ele orou e sofreu, e, se ela aceitou a sua morte, não foi para dá-los à luz, entre dores, para a vida? Pecadores, por mais atrozes que sejam os vossos crimes, não desespereis jamais, e, se receais a justiça de Deus, lançai-vos aos pés da mais misericordiosa das mães, repetindo-lhe a oração tão eficaz de São Bernardo: Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenham recorrido à vossa proteção, implorado vossa assistência, reclamado vosso socorro, fosse por vós desamparado...
Antes de morrer, o divino Crucificado devia ainda suportar uma última provação. Por um momento se fez noite em sua alma, noite mais profunda que as trevas que, nesse momento, envolviam Jerusalém, e do seu coração oprimido saiu este grito angustiado: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Misteriosa angústia que nos é difícil compreender, vindo da parte d'Aquele que nunca deixou de ser o Filho amado do Pai.
Podemos, entretanto, entrever a explicação ao estudar o estado de alma desses místicos que, acreditando-se justamente condenados, aceitam heroicamente as penas do inferno, desde que ali possam continuar amando a Deus. Jesus, que quis carregar sobre si e aliviar todas as nossas aflições, iria recusar sofrer a mais angustiante de todas elas, esse sentimento de desamparo que tantos santos experimentaram? Ele foi semelhante a nós em tudo, menos no pecado, e esse sentimento não é um pecado.
Seja como for, esse grito doloroso teve sua repercussão no coração tão compassivo de Maria: ela o compreendeu tanto melhor porquanto não havia esquecido a dor aguda que lhe causara a perda momentânea de Jesus no templo, aos doze anos. A consciência de que seu Filho experimentava nesse momento um abandono ainda mais cruel tê-la-ia matado, se Deus não tivesse sustentado miraculosamente as suas forças.
Ela aceita esse novo golpe, essa nova morte, para poder mais eficazmente consolar os aflitos, e sobretudo as almas de elite que se acreditam condenadas.
Obrigado, ó divina consoladora! Em nossas grandes aflições, é a vossos pés que iremos depor nossas dores, venham de onde vierem, e buscar graças consoladoras, ou ao menos a força para suportar corajosamente as nossas provações.
Entretanto, Jesus recuperou-se: consciente de ter cumprido até o fim sua tarefa, a missão redentora imposta por Deus, ele exclama: "Tudo está consumado!" e, com voz forte, acrescenta: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito".
Tendo assim afirmado que dava livremente a sua vida, que entregava livremente o seu espírito a seu Pai, Jesus expirou. E Maria teria expirado com ele se Deus não tivesse operado um novo milagre, para o bem da Igreja nascente.
Obrigado, Jesus, por nos terdes merecido, por uma morte tão dura, a graça de uma boa morte, e por nos terdes dado, em meio às angústias mais excruciantes, o exemplo de uma filial submissão à vontade do Pai! Sim, vossa obra está consumada, e, doravante, se não formos salvos, se não formos santos, a culpa será nossa. Vós nos traçastes o caminho e nos merecestes a graça de percorrê-lo; cabe a nós carregar generosamente a nossa cruz, com os olhos fixos em vós; cabe a nós crucificar concupiscências da carne com os pregos das virtudes de humildade, de pobreza e de mortificação; cabe a nós mortificar e fazer morrer nossa vontade própria, para que um dia possamos repetir: Tudo está consumado... Completei, no que me diz respeito, a vossa dolorosa paixão: em vossas mãos, ó Salvador, eu entrego minha pobre alma, para que, lavada em vosso sangue, ela seja por vós introduzida em vosso reino.
Obrigado, ó Maria, que vivestes até o fim a vossa Compaixão. Ah! quanto a vós, vossa tarefa ainda não terminou: tendes outras dores a suportar, em particular a de precisar viver sem a presença sensível de Jesus; vós tendes também uma missão a cumprir, a de instruir, de edificar a Igreja nascente durante longos anos ainda. Sede eternamente bendita por terdes aceitado essa missão dolorosa, mas fecunda. Junto aos discípulos, continuareis a obra de educação começada por Ele; com eles, no Cenáculo, rezareis para que o Espírito Santo ilumine e transforme seu espírito e seu coração; e, por todos os tempos, sereis a educadora dos padres, dos clérigos, de todos os verdadeiros discípulos, neles formareis Jesus Cristo e obtereis para eles as virtudes e os dons do Espírito Santo. Assim, de forma escondida, mas bem real, permaneceis associada à obra redentora de vosso Filho. Ó Mãe, sede nossa advogada agora, e sobretudo na hora de nossa morte, no dia do julgamento: "Per te, Virgo, sim defensus in die judicii."
VII. SEXTA DOR DE MARIA: A DESCIDA DA CRUZ
Jesus havia consumado seu sacrifício. Sua alma, por um momento separada de seu corpo, desceu ao Limbo para aí consolar os santos do Antigo Testamento, e anunciar-lhes que estava próximo o momento em que iriam ver Deus face a face e gozar da felicidade perfeita pela qual há tanto tempo ansiavam.
O Salvador havia expirado por volta das três horas da tarde. Seus amigos, reunidos ao pé da cruz, quiseram dar-lhe uma sepultura digna dele. Para isso era preciso, primeiro, obter a permissão do governador romano. José de Arimatéia, que era discípulo do Mestre em segredo e membro do Sinédrio, profundamente tocado pelas palavras que o Cristo havia pronunciado diante de Caifás sobre a divindade de sua missão, apresentou-se corajosamente a Pilatos, e obteve a permissão de depositar o corpo do Mestre em um sepulcro aberto na rocha para sua própria sepultura, não longe do Calvário.
Soldados foram enviados para quebrar as pernas dos supliciados, a fim de assegurar-se de sua morte. Como Jesus já havia dado o último suspiro, o soldado Longino contentou-se com perfurar-lhe o lado com o ferro de sua lança.
Isso foi para Maria uma nova dor, mas também uma consolação. Uma dor, por ser mais um ultraje feito a seu Filho, e ao mesmo tempo um símbolo das ofensas que tantos homens lhe iriam infligir por suas ingratidões, seu desprezo, seus pecados. Pecado E uma consolação porque, esclarecida por uma luz do alto, ela compreendeu o simbolismo dessa ferida. Do lado aberto saíram sangue e água, figura desses dois sacramentos do batismo e da eucaristia, pelos quais somos especialmente incorporados a Cristo.
Foi, assim, dessa ferida que nasceu a Igreja, esposa de Cristo, que deveria dar continuidade à sua missão e gerar para ele milhões e milhões de filhos. Não podemos igualmente conjeturar que Maria foi a primeira a compreender o mistério do Coração de Jesus, que seria um dia a grande devoção da Igreja? Em um sublime arrebatamento, o seu pensamento se eleva da ferida do lado até o próprio Coração, esse Coração transbordante de amor por Deus e pelos homens; ela entrevê os atos de adoração, de amor e de reparação que tantas almas fervorosas renderão um dia a esse divino Coração, e as numerosas conversões obtidas pela visão desse Coração chamando a si todos os aflitos e todos os pecadores...
Essa visão extática era o que ela precisava para consolar--se das dores que ainda teria de suportar.
Com efeito, ela foi testemunha da descida da cruz. Os amigos de Jesus, sob a direção do discípulo amado, depõem piedosamente em seus braços o corpo inanimado do Salvador. Sentada em uma pedra, como a representaram tantos artistas cristãos, ela recebe sobre os joelhos esse corpo ensanguentado, contempla-o longamente com compaixão e amor, beija respeitosamente as suas chagas, e sente reavivarem-se nela todas as dores da Paixão. Eis aí a cabeça adorável que os espinhos perfuraram cruelmente: com ternura a mãe fecha essas feridas uma a uma; mas ela sabe muito bem que, infelizmente, elas serão reabertas por criminosos com suas blasfêmias odiosas, e mesmo por cristãos que acolhem com demasiada facilidade pensamentos de orgulho e de sensualidade.
Esses olhos, que respiravam a bondade e a misericórdia, e que, há poucos instantes, tinham pousado com tanto amor em sua mãe e no discípulo amado, estão agora fechados! Maria os contempla longamente, e suplica a seu filho que os dirija ainda aos discípulos, que têm tanta necessidade de ser sustentados pelo olhar do Mestre. Esse rosto, o mais belo, o mais amável e o mais amoroso que jamais apareceu na terra, está desfigurado pelas machucaduras; mas estas não conseguem apagar a expressão de bondade, de resignação e de caridade que seus últimos sofrimentos nele imprimiram profundamente; e Maria reza para que as gerações cristãs nunca se cansem de contemplar o divino Crucificado e lhe tenham tanto mais amor quanto mais ele sofreu por elas.
Ela pede insistentemente que os próprios pecadores contemplem essa cabeça que se inclina para eles para dar-lhes o beijo da reconciliação, que vejam esses braços misericordiosamente abertos para apertá-los contra seu peito, esse coração transpassado para purificá-los em seu sangue, esses pés pregados à cruz para expiar suas atitudes criminosas.
Ó Mãe, vossas preces foram atendidas! Graças a vossa toda poderosa intercessão, pecadores endurecidos converteram-se, almas fervorosas ofereceram-se como vítimas ao crucificado do Gólgota para partilhar de seus sofrimentos, consolar seu coração e expiar por elas mesmas e por seus irmãos.
Assim, a vossa dor foi fecunda, e numerosas gerações vos saudaram e vos saúdam ainda com esse piedoso nome de Nossa Senhora da Piedade. Vosso coração amoroso, formado segundo o modelo do Coração de Jesus, transborda de piedade para com os aflitos e os pecadores. Mães inconsoláveis por terem perdido seus filhos, amigos que choram a perda dos que lhes são caros, enfermos que gemem em seus sofrimentos, almas obcecadas por tentações ou que caíram no pecado; em uma palavra, todos aqueles que sofrem e choram neste vale de lágrimas ajoelham-se a vossos pés, misturam suas dores às vossas e esperam de vós uma palavra de consolo.
E vós lhes respondeis: "Filhos que sofreis, olhai e vede se há alguma dor comparável à minha. Ora, foi por vós que, em união com meu Filho, eu tanto sofri, para trabalhar por vossa salvação e para consolar-vos, misturando minhas lágrimas às vossas. Meus sofrimentos, os mais cruéis que jamais torturaram uma alma depois dos de Jesus, foram fecundos: fecundos para mim, que deles recebi um maravilhoso acréscimo de graça e de glória; fecundos para os homens, pois obtiveram para eles numerosas graças, que tanto me alegra poder distribuir-lhes.
Sim, minha eternidade se passa distribuindo a vós todas as graças merecidas por meu Filho e por mim mesma. Coragem, portanto, meus filhos! Não há nada mais apostólico, e no fundo nada mais consolador que o sofrimento generosamente aceito em união com meu Filho, por amor a ele e em suas intenções. Aceitai-o, pois, e eu o transformarei em uma chuva de bênçãos recaindo sobre vós."
VIII. SÉTIMA DOR DE MARIA: O SEPULTAMENTO DE JESUS
As sombras da noite caíam rapidamente, e, para Maria, era chegado o momento de confiar a outros o cuidado de transportar o corpo de seu Filho até o túmulo. Mãos piedosas o retiraram de sobre os joelhos de sua mãe e o levaram em silêncio para o jardim onde estava a sepultura. Maria os seguia, com o coração mais dolorido do que nunca, pois aproximava-se o momento da separação definitiva. No sepulcro, ela quis ainda presidir aos últimos preparativos.
Antes do embalsamamento, prostrou-se de joelhos para adorar esse corpo inanimado e lançar-lhe um longo e afetuoso olhar, o olhar de uma mãe que não quer separar-se de seu filho e prolonga até o limite máximo o seu mudo colóquio com ele... É preciso, entretanto, fechar e selar o túmulo; mas ela deixa nele o seu coração, e somente se afasta a contragosto.
Uma última vez ela saúda aquela cruz, ainda tinta do sangue de seu Filho, e nela cola seus lábios. Quando se levanta, seus lábios estão tingidos com esse sangue redentor.
Apoiada em São João, ela refaz em sentido inverso a via dolorosa e nela saúda e adora os traços de sangue que encontra, suplicando a Deus que esse sangue não tenha sido derramado inutilmente para a cidade culpada. Essa cidade se descortina agora a seus olhos envolta em trevas misteriosas, símbolo das trevas morais que a oprimem, ela que acaba de rejeitar a luz do mundo. Ah! não é com certeza esta Virgem misericordiosa quem pede que o sangue do Justo recaia sobre a cidade culpada; ela deseja, antes, que esse mesmo sangue a conduza à conversão e a poupe ao castigo. Muitos de seus habitantes se converterão, com efeito; mas a maioria permanecerá infiel, e nela se cumprirá a criminosa profecia dos Judeus: "Que o seu sangue recaia sobre nós e sobre os nossos filhos!"
IX. EPILOGO: ALEGRIAS E SOFRIMENTOS DE MARIA ATÉ SUA MORTE
O fim de sua vida. Maria, apoiada no discípulo amado, entra logo depois na humilde morada em que este habitava em Jerusalém.
Lá, encerra-se na solidão de seu coração para aí repassar os momentos dolorosos que viveu. À sua volta, seu filho adotivo e as santas mulheres esforçam-se por consolá-la; mas não há consolo que possa aliviar a mãe que perdeu seu único consolador!
Podemos, entretanto, supor que a mãe das misericórdias foi reconfortada pela visita dos apóstolos, que, caindo enfim em si, vieram chorar a seus pés a sua falta e implorar o seu perdão. Como ela se mostra boa e compassiva para com todos, e sobretudo para com esse pobre Pedro que, em um momento de fraqueza, havia renegado seu Mestre e não cessara, desde então, de chorar o seu pecado! A todos ela mostrou a sua fé viva na ressurreição e procurou reacender neles a esperança.
Diz uma piedosa tradição que Maria foi a primeira a receber a visita de seu Filho na manhã da Ressurreição, e que contemplou mesmo, em uma visão extática, o Pai chamando seu Filho do túmulo, o Verbo encarnado reunindo o corpo e a alma de sua santa humanidade e penetrando-os com uma vida imortal, o Cristo atravessando a pedra do sepulcro sem desfazer a argamassa com que a haviam selado, e os anjos vindo prestar-lhe adoração.
Durante os quarenta dias que se seguiram, seu Filho enfim reencontrado falou-lhe do reino de Deus, isto é, da Igreja nascente, e do papel muito íntimo que lhe cabia nela desempenhar, por suas conversas com os discípulos, seus exemplos, suas orações, seus sacrifícios.
No dia da Ascensão, ela estava no alto do Monte das Oliveiras, e com o coração seguiu seu Filho até o céu, feliz com o seu triunfo, sofrendo por dever separar-se dele ainda por um certo número de anos, mas docemente aplicada a essa vida de apostolado que deveria ser tão fecunda.
Esse apostolado, ela o exerce durante o retiro de dez dias em meio às cento e vinte pessoas que formavam então a Igreja nascente. Elas se reuniam no Cenáculo onde havia sido instituída a Eucaristia. Maria, mãe de Jesus, ensinava-lhes a perseverar unanimemente na oração (At 1, 14), e já exercia ali o papel de mediadora que lhe conferiram os seus sofrimentos unidos aos de seu Filho.
O Cristo havia anunciado a vinda do divino Paráclito, do Espírito Santo, que deveria completar a sua obra. O Pai nos havia dado seu Filho; com e por esse Filho ele nos dá, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo. Por suas orações, Maria obtém dele uma abundante efusão para si e para toda a assembleia. Os efeitos se fazem imediatamente sentir: desde a primeira pregação de Pedro, três mil pessoas se convertem, e esse é apenas o prelúdio das conquistas apostólicas que doravante acompanharão a pregação do Evangelho. O papel de Maria não é pregar, mas rezar para que essa pregação seja eficaz. Como ela se alegra ao ver crescer tão rapidamente a comunidade cristã!
Seu papel é também ajudar os Apóstolos com seus conselhos, quando eles julgam útil consultá-la. Cabe a eles, sem dúvida, o governo da Igreja, mas, na ausência do Mestre, é muito natural que eles venham aconselhar-se com aquela que tão bem soube penetrar os mais íntimos pensamentos de Jesus, e Maria se alegra por poder comunicá-los a eles.
Nesses tempos em que cada um comunicava livremente aquilo que o Espírito de Deus lhe inspirava, a humilde Virgem permitiu, sem dúvida, com toda a simplicidade, que transparecessem exteriormente algumas das luzes que ela recebia, alguma coisa dos piedosos sentimentos que a animavam, como havia feito outrora diante de sua prima Isabel, no sublime cântico do Magnificat. No grupo das santas mulheres, que aumentava a cada dia, havia muitas almas felizes por escutá-la e por unirem--se aos piedosos arrebatamentos da mãe de Cristo.
Entre os apóstolos, houve sobretudo um que tirou proveito dessa intimidade: o discípulo amado. Ele havia repousado sua cabeça no peito do Mestre e conhecia os segredos mais íntimos dessa virtude da caridade que resume todo o ensinamento cristão. Mas sua mãe havia recolhido as primeiras e as últimas pulsações desse Coração. Com a intuição de uma mãe muito amorosa e muito amada, ela havia penetrado mais longe que qualquer outro nos segredos de seu Filho, e João hauriu abundantemente nessa fonte. Assim, o seu Evangelho poderia ser chamado de Evangelho do Coração de Jesus, e somente no céu saberemos a parte que nele tomou a humilde virgem.
De resto, havia entre essas duas almas virginais uma atração, uma afinidade especial, que as fazia vibrar em uníssono. Não nos espantemos, pois, de que João tenha sido escolhido para ser, por assim dizer, o capelão da Virgem. É o que expõe muito bem M. Olier: "Como Maria, embora repleta do espírito sacerdotal, não podia, em razão de seu sexo, receber o caráter dos padres e exercer as suas funções, seu divino Filho lhe deu, na Cruz, o apóstolo São João para ser o seu suplemento, seu sacerdote e seu capelão, transmitindo ao coração da Igreja e de todos os fiéis os frutos preciosos de seu sangue e de sua morte, de que ela era portadora.
Assim a Santa Virgem se torna, pelo ministério do discípulo amado e em virtude do divino sacrifício por ele colocado em suas mãos, uma fonte fecunda de todo tipo de bens para a Igreja. Ela enche de vigor e de força todos os membros, mesmo os mais nobres, desse grande corpo. Se os apóstolos anunciam o Evangelho em todo o universo, se eles propagam as chamas do santo amor, se são vitoriosos sobre o mundo e o inferno, ela é a palavra que os torna eloquentes, a luz que os ilumina, o amor que os consome e o poder que lhes permite enfrentar os tiranos e os demônios. "13
13 Pensées choisies (Pensamentos escolhidos), por G. Letourneau, p. 137-138. Os leitores gostarão também de meditar estas palavras de BOSSUET, que descrevem as relações entre São João e Maria: "Se o amor que Jesus tem pela santa Virgem o obriga a deixar-lhe seu retrato ao retirar-se de sua vista, não deverá ele ter-lhe dado uma imagem viva e natural? O que deve ser então esse grande São João, destinado a permanecer na terra para nela ser a representação do Filho de Deus após a sua morte, e uma representação tão perfeita que possa acalmar a dor e iludir, se possível, o amor da santa mãe pela ingenuidade da semelhança! Aliás, que abundância de graças lhe vinha todos os dias do amor maternal de Maria e do desejo que ela tinha de nele formar Jesus Cristo! Como se inflamavam todos os dias os ardores de sua caridade pela casta comunicação daquelas chamas que ardiam no coração de Maria!" (Panégyrique de Saint Jean, op. cit., t. II, p. 548).
Era ainda São João que, no momento da comunhão, lhe dava esse Filho que continuava sendo o tudo de sua alma. E então ela vivia de novo, em seu coração, todos os mistérios de Jesus: via-o recém-nascido no berço, ajudante na oficina de Nazaré, apóstolo em sua vida pública, sofredor e agonizante como sacerdote e vítima, glorioso em sua vida celeste. Ela havia sido a primeira e continuou sendo sempre a mais perfeita adoradora de Jesus, e ensinou aos homens, por seus exemplos mais ainda que por suas palavras, o culto e a devoção à santa Eucaristia.
Tudo indica, também, que Maria manteve contato com os outros evangelistas. Para São Mateus, que era um dos doze, a coisa é clara: os relatos sobre a infância de Jesus foram, em grande parte, recebidos da humilde Virgem que havia vivenciado aqueles acontecimentos. O mesmo se pode dizer de São Lucas, que descreveu tão minuciosamente a infância do Salvador. São Marcos era filho de uma das santas mulheres, de nome Maria, que se contava entre as cristãs mais importantes de Jerusalém, e deve ter conhecido a mãe do Salvador.
Assim, os quatro evangelistas, antes de publicar seus relatos sobre a vida de Jesus, puderam conversar com sua mãe, e receber dela muitos dos fatos neles consignados. Não é, pois, sem motivo que ela é chamada rainha dos Evangelistas. Para nós, esta é uma razão a mais para amar os santos Evangelhos e fazer deles o alimento de nossa alma.
A influência de Maria foi grande, portanto, na Igreja nascente, durante os doze ou quinze anos que ela ainda viveu na terra, mesmo sem exercer nenhuma função pública.
A morte da Virgem. Chegou o momento em que aprouve a Deus fazer terminar o seu exílio. Desde a Ascensão, seu coração estava muito mais no céu do que na terra, e, embora perfeitamente submissa à vontade de Deus, ela não cessava de suspirar pelo feliz momento em que seria para sempre reunida a seu Filho, em que veria face a face às três divinas pessoas que, desde o primeiro instante de sua existência, haviam-se dignado habitar em sua alma e cobri-la de graças. Esses santos desejos se faziam sentir mais fortemente a cada vez que ela via partir para o céu um novo mártir ou um dos membros da comunidade cristã.
Enfim Jesus vem anunciar à sua mãe que sua libertação está próxima: "O inverno da vida terminou, as águas da tribulação já passaram; vinde, ó mãe bem-amada, vinde receber a coroa que vos foi preparada." Que alegria para a mãe, esta promessa de rever seu Filho sem nenhum receio de voltar a separar-se dele! Ó meu filho, responde ela, entrego minha alma em vossas mãos, como entregastes a vossa nas mãos do Pai. E, em um último arrebatamento do coração, ela consuma seu sacrifício e morre vítima de amor, num verdadeiro holocausto, o mais agradável que jamais foi oferecido a Deus, depois do de seu Filho.
À volta dela, os anjos que desceram com o Verbo encarnado para cortejar sua soberana, entoam hinos de gratidão; os piedosos fiéis de Jerusalém misturam seus cânticos aos dos anjos. O corpo da Virgem imaculada é deposto em um túmulo próximo ao Jardim das Oliveiras. Segundo uma piedosa tradição, Jesus aparece aos apóstolos e ressuscita sua mãe diante deles. Era justo que a Imaculada não experimentasse a corrupção do túmulo. Ei-la, pois, elevada ao céu, carregada pelos anjos.
O próprio Jesus a introduz em seu reino, em meio às fileiras pressurosas dos Santos da Antiga e da Nova Lei; é ele quem a apresenta ao Pai, que a saúda como sua filha bem-amada; e ao Espírito Santo, que a ama como sua esposa querida; é ele quem a faz assentar-se em um trono perto dele, e a proclama rainha do céu e da terra, mediadora universal de graças, e sobretudo mãe de misericórdia.
Os anjos e os santos lhe prestam grandes honras; na terra se reconhecem as suas grandezas, sua maternidade divina, e se começa a invocá-la com confiança. Do alto do céu ela exerce seu papel de advogada, intercede com eloquência por todos, sobretudo pelos pobres pecadores, e derrama sobre todos uma chuva de bênçãos celestiais. Ao longo dos séculos todas as gerações a proclamarão bem-aventurada, e a sua glória será tanto maior quanto mais escondida foi a sua vida, mais profundas as suas humilhações e mais intensos os seus sofrimentos.
Eis, pois, essa grande lei do sofrimento proclamada uma vez mais como condição para a santidade e a glorificação. É por isso que, humildemente prostrado aos pés da cruz onde partilhastes tão corajosamente dos sofrimentos de vosso Filho, ouso repetir-vos esta prece da santa Liturgia:
"O Mãe, fonte de amor, fazei-me experimentar a força da vossa dor, para que eu possa chorar convosco.
Fazei que o meu coração seja abrasado de amor pelo Cristo, meu Deus, a fim de que eu não pense senão em agradar-lhe.
Ó santa Mãe, eu vos peço, imprimi profundamente em meu coração as chagas do Crucificado.
Que vosso Filho, que se dignou sofrer e ser coberto de chagas por mim, conceda-me, por vosso intermédio, ser associado às suas dores. Concedei-me chorar piedosamente convosco, e compadecer-me dos sofrimentos de Jesus crucificado, todos os dias de minha vida.
Concedei-me guardar a lembrança da morte de Cristo, participar de sua paixão e venerar suas chagas.
Para que eu não seja presa das chamas eternas, ó Virgem poderosa, defendei-me Vós mesma no dia do julgamento."
X. CONCLUSÃO: COMO SÃO DIVINIZADOS OS SOFRIMENTOS DE MARIA
Os sofrimentos de Jesus foram, como dissemos, divinizados em sentido próprio, devido à dignidade infinita de sua pessoa. Os sofrimentos de Maria o foram somente por participação, em virtude de sua incorporação a Cristo. Todos os cristãos são membros do corpo místico do qual Jesus é a cabeça.
Em virtude dessa união, nossas ações são realizadas sob o comando e com o concurso d'Aquele que é nossa cabeça: quando rezamos, é ele quem reza em nós e conosco, e que dá às nossas orações um valor muito superior ao que têm por si mesmas; mais ainda, ele faz suas as nossas orações e as oferece ele mesmo a seu Pai; e nós, por nossa vez, temos o direito de nos apropriar das orações de Jesus, aquelas que ele faz em nosso nome, e de oferecê-las a Deus como se fossem nossas, pois tudo o que pertence à cabeça também pertence aos membros.
Basta-nos aplicar esses princípios a Maria e a seus sofrimentos, lembrando, porém, que ela ocupa no corpo místico um lugar de honra. Quando sua alma era torturada ao ver as grandes humilhações ou os sofrimentos físicos do Salvador, Jesus vinha sofrer nela, e assim conferia um valor incomparável aos seus sofrimentos.
Ao ler a história dos mártires, vemos que muitos deles declaram a seus carrascos que, se não temem o sofrimento e se permanecem alegres em meio às mais pavorosas torturas, é porque o Cristo vem sofrer neles. 16
16 Santa Felicidade, alguns dias antes de seu martírio, foi acometida pelas dores de parto e não pôde evitar alguns gemidos. Um dos carcereiros lhe disse: "Se não podes suportar o sofrimento agora, como será diante das feras? - Hoje, respondeu a mártir, sofro as minhas dores; mas, então, haverá em mim um outro que sofrerá por mim, porque cu também sofrerei por ele". (Allard, História das Perseguições, t. II. p. 125).
Maria é a rainha dos mártires; ela o é não somente porque sofreu mais e melhor que todos os mártires, mas também porque sofreu em virtude de uma missão especial, de sua missão de corredentora. Jesus, designando-lhe esse papel, continuou sendo a causa primeira de nossa redenção; para que Maria pudesse ser a causa secundária, era preciso que a causa principal viesse agir e sofrer nela, e a fizesse participar assim de sua eficácia. É o que explica o valor único da Compaixão de Maria: Jesus, sofrendo nela em virtude da missão especial que lhe confiava, conferia evidentemente um valor especial a cada um de seus sofrimentos e divinizava, por sua cooperação, as dores destinadas a completar a redenção.
Há ainda outra razão que vem aumentar essa eficácia. Ao sofrer, a mãe permanece intimamente unida ao Filho: ela o contempla sem cessar e não tem outras intenções senão as dele - a glória de Deus e a salvação das almas,- intenções altamente sobrenaturais e, de certa forma, divinas. Ora, como o valor principal de nossos atos depende do fim que nos propomos, o fim divino que animava o coração de Maria aumentava singularmente o valor de seus sofrimentos.
O mérito de nossas ações é ainda aumentado pela intensidade, pelo fervor com que as executamos, e esse fervor decorre do nosso grau de caridade e de amor. Ora, poderia haver jamais algum coração mais amoroso que o da Virgem imaculada? Esse coração, moldado expressamente para amar um Filho-Deus, tinha uma capacidade de amar que jamais chegaremos a compreender, de tal forma que os mais ardentes e mais puros arrebatamentos de amor que lemos na vida dos amantes do Cristo nada são em comparação com os da mais amorosa das virgens.
Esses atos de Maria tinham sido fervorosos desde o início de sua vida; e, como o seu amor se inflamava mais a cada instante, ele atingiu, no momento da Paixão, proporções que nem mesmo o olho do mais ardoroso dos Serafins poderá jamais sondar.
Encontramo-nos aqui em presença de atos meritórios a tal ponto excelentes, que podemos dizer que, sem serem divinos no sentido próprio, eles eram divinizados da forma mais perfeita possível.
O que é reconfortante para nós, é que esse mesmo Jesus, que veio sofrer em Maria e divinizar as suas dores, vem também viver e sofrer em nós, para sobrenaturalizar e divinizar as nossas. A nós cabe consentir generosamente em participar de seus sofrimentos, para ter parte em sua glória. É o que passaremos agora a expor.