O GRANDE
DESCONHECIDO
A DIVINIZAÇÃO DO SOFRIMENTO.
Adolphe Alfred Tanquerey (1854 - 1932)
I. Os Sofrimentos de Jesus Anunciados pelos Profetas.
II. Os Sofrimentos de Jesus em sua Vida Oculta.
III. Os Sofrimentos De Jesus Durante A Sua Vida Pública.
IV. Os Sofrimentos de Jesus Durante a Sua Paixão.
V- Conclusão: de que Forma os Sofrimentos de Cristo Têm um Valor Realmente Divino.
CAPITULO PRIMEIRO:
JESUS, O HOMEM DAS DORES, DIVINIZA O SOFRIMENTO EM SUA PESSOA
Como dissemos na Introdução, o mistério do sofrimento não pode ser compreendido senão em relação com o mistério de Jesus e de sua cruz. Eis por que precisamos começar por uma breve exposição deste último.
Primeiramente, uma palavra sobre a universalidade e a intensidade das dores da divina vítima.
1º Sua universalidade. Ao falar da Paixão, São Tomás mostra que a dor nela experimentada por Jesus foi universal, não por ter ele suportado todos os sofrimentos possíveis, mas por ter suportado todos os tipos de sofrimento que vivenciamos nesta vida. Se consideramos as pessoas que o fizeram sofrer, não há um só grupo que não tenha contribuído para a sua Paixão: judeus e gentios, príncipes dos sacerdotes e simples israelitas, todos se encarniçam contra ele; entre seus apóstolos, Judas o trai, Pedro o nega, e todos, com exceção de João, o abandonam.
Se consideramos os bens de que foi privado, ele sofreu em sua reputação e em sua honra pelas calúnias, as injúrias, as blasfêmias, os escárnios de que foi vítima; sofreu em suas afeições ao ver-se abandonado por seus amigos mais queridos; em sua alma, triste e angustiada até à morte; em seu corpo, despojado de suas vestes, flagelado, coroado de espinhos, crucificado...
2º Sua intensidade. De acordo com o testemunho de São Tomás³, esses sofrimentos foram os maiores que se poderia suportar neste mundo. Dotado de uma sensibilidade aguçada, ele sentia mais intensamente que os outros homens todas as torturas físicas e morais que lhe foram infligidas. Além disso, como as suas dores íntimas vinham sobretudo dos pecados de todo o gênero humano, que ele carregou sobre si diante de seu Pai, não poderemos jamais compreender a sua intensidade; para tanto, seria preciso ter consciência, não somente do número e da gravidade desses pecados, mas também e sobretudo da grandeza de seu amor por Deus ultrajado por tantos crimes, e da grandeza do seu amor pelos homens.
Essa intensidade foi ainda agravada por não ter sido suavizada, em certos momentos, por nenhuma consideração da razão superior, nem por nenhuma distração: desejando beber até o fim o cálice da amargura, Jesus não permitiu que a sua razão temperasse sua tristeza mortal por nenhum pensamento consolador ou digressivo. Foi a dor pura, sem mistura. Ele quis até mesmo vivenciar aquele sentimento de abandono e de completo desamparo que o fez dizer, na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
- Digo em certos momentos, porque aprouve à bondade divina proporcionar-lhe algumas consolações, enviando-lhe, ao longo da via dolorosa e no Calvário, algumas almas compassivas que suavizaram um pouco a angústia de sua alma. E podemos dizer também que ele tinha presente que, ao longo dos tempos, milhões de almas iriam compadecer-se de seus sofrimentos, e essa visão antecipada consolava o seu coração. Mas ele previa também a ingratidão, a indiferença, o ódio de milhões de outras pessoas que continuariam a insultá-lo, a blasfemar, a tornar inútil para muitos o fruto de sua redenção. E essa previsão agravava ainda mais as angústias de sua Paixão.
Acrescentemos ainda que não foi somente no final de sua vida que ele precisou suportar todas essas dores; desde sua entrada no mundo ele as viu delinear-se claramente diante de si, e na realidade a sua vida inteira foi um longo martírio, como explicaremos logo adiante.
Mas, objetará alguém, a alma de Jesus desfrutava da visão beatífica, e consequentemente não sofria como a nossa. É verdade que Jesus, mesmo durante a Paixão, desfrutava da visão beatífica; mas, como explica com razão São Tomás de Aquino, essa visão, que iluminava o cimo de suas faculdades superiores, o cume da inteligência e da vontade, não se refletia sobre as regiões menos elevadas, que Nosso Senhor desejava livremente deixar entregues à dor. A alma santa do Salvador era, assim, como uma montanha cujo cimo permanece brilhantemente iluminado pelo sol, enquanto as regiões inferiores são assoladas pela tempestade. Havia, pois, nessa alma, beatitude perfeita no cume, e sofrimento intenso, não somente em sua sensibilidade, mas também nas regiões menos elevadas das faculdades superiores.
O que dizem os místicos sobre a distinção entre o cume da alma que desfruta da contemplação e o entendimento que sofre verdadeiras torturas, sobretudo durante a noite dos sentidos e a noite do espírito, projeta fortes luzes sobre esse problema misterioso, e mostra como a mesma alma, no mesmo momento, pode comprazer-se na vontade divina e sofrer um verdadeiro purgatório, não apenas na sensibilidade, mas até mesmo na inteligência. Por nada no mundo essas almas desejariam ver diminuir as suas angústias: elas repetem continuamente, como Santa Teresa: Sofrer ou morrer, mas de preferência sofrer; ou, como São João da Cruz: Sofrer e ser desprezado. Mais próxima de nós, Santa Teresa de Lisieux, dois meses antes de morrer, dizia: "Li uma bela passagem nas reflexões da Imitação: Nosso Senhor, no Jardim das Oliveiras, gozava das delícias da Trindade, mas nem por isso sua agonia era menos cruel. É um mistério; mas posso assegurar que o entendo um pouco por aquilo que eu mesma experimento."
Com efeito, a jovem santa sofria indizíveis tormentos físicos e morais, mas experimentava nisso grande prazer, pois nada a deixava mais feliz do que fazer a vontade de Deus!
Para expor de forma ordenada os principais sofrimentos de Nosso Senhor, descreveremos:
1º Os sofrimentos preditos pelos Profetas;
2º Os sofrimentos de sua vida oculta;
3º Os sofrimentos de sua vida pública,
4° Os sofrimentos de sua Paixão.
I. OS SOFRIMENTOS DE JESUS ANUNCIADOS PELOS PROFETAS
Para a descrição dos sofrimentos de Jesus, a principal fonte é certamente o Evangelho. Contudo, o Espírito Santo que, muito tempo antes, havia anunciado por meio dos Profetas a vinda do Messias e sua obra redentora, não poderia deixar de lado o coroamento de sua missão, ou seja, a sua dolorosa Paixão.
Com muitos séculos de antecedência, o profeta Isaías, em um capítulo que se tornaria célebre e que pode ser chamado a Paixão de Jesus segundo Isaías, descreveu, com um realismo impressionante, as dores do Homem-Deus, suas humilhações e sua morte, assim como os maravilhosos frutos de sua redenção.
No início, o próprio Deus, em traços rápidos, pinta o estado de humilhação e os sofrimentos do Messias: "Quem acreditará naquilo que ouvimos? E a quem se revelará o braço de Yahweh? Ele cresceu diante dele como um renovo, como raiz que brota de uma terra seca; Não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar. Era desprezado e abandonado pelos homens, um homem esmagado pela dor, familiarizado com o sofrimento, alguém diante de quem todos desviam o rosto; desprezado, não fazíamos nenhum caso dele."
Eis, pois, esse Messias transformado em homem de dores, um objeto de desprezo que se ignora e se deixa de lado como se não existisse, como se nada fosse! Que diferença do messias glorioso anunciado pelos outros profetas e pelo próprio Isaías, em outras passagens! Compreende-se que muitos judeus tenham deixado de lado esse messias sofredor. Caberia ao Evangelho mostrar-nos que o verdadeiro Messias é ao mesmo tempo glorioso e sofredor, dependendo do aspecto pelo qual o consideramos.
O profeta explica em seguida por que o Messias sofreu tanto: ele tomou sobre si o peso das nossas iniquidades, e foi castigado por causa de nossos pecados. Ele não é, portanto, culpado.
"No entanto, eram as nossas enfermidades que ele levava sobre si, e as nossas dores que ele carregava. Aos nossos olhos, parecia um condenado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi trespassado por causa dos nossos pecados, e esmagado em virtude das nossas iniquidades. O castigo que haveria de trazer-nos a paz, caiu sobre ele; sim, por suas feridas fomos curados. Todos nós, como ovelhas, andávamos errantes, seguindo cada um o seu próprio caminho; Mas Yahweh fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós."
Foi, pois, por um julgamento iníquo que ele foi condenado à morte, ele que era o justo por excelência.
"Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro; como a ovelha que permanece muda nas mãos dos tosquiadores, ele não abriu a boca. Por um julgamento iníquo ele foi preso, e quem pensou em defender sua causa quando ele foi arrancado da terra dos vivos, ferido pela transgressão do seu povo? Deram-lhe sepultura com os ímpios, ele morreu entre os malfeitores, embora não tivesse praticado nenhuma injustiça, nem tenha havido mentira em sua boca. Mas Yahweh quis feri-lo e esmagá-lo pelo sofrimento."
E então Deus intervém, como havia feito no início, para descrever os frutos dos sofrimentos e da morte do Messias:
"Se ele oferece sua vida em sacrifício pelo pecado, certamente terá uma descendência, multiplicará os seus dias, e por meio dele o desígnio de Deus há de triunfar. Após o trabalho fatigante de sua alma ele verá a luz e se fartará. O justo, meu Servo, glorificará a muitos e levará sobre si as suas transgressões. Eis por que lhe darei um quinhão entre as multidões; ele receberá multidões como sua parte nos despojos, Porque se entregou à morte e foi contado entre os malfeitores quando na verdade levava sobre si o pecado de muitos, e intercedia pelos pecadores."
Com que exatidão essa profecia se cumpriu na pessoa de Jesus e de seus discípulos! Sim, o Cristo sofreu; sim, ele se ofereceu a si mesmo em sacrifício para expiar nossos pecados.
Mas, por seus sofrimentos, gerou legiões de santos. Sua doutrina, aliada ao santo exemplo de sua vida, conquistou e não cessa de conquistar, por toda a terra, milhões de discípulos e seguidores. Ele tomou sobre si as nossas iniquidades e as expiou por sua morte no Calvário; mas, com isso, inspirou-nos tamanho horror ao pecado, que os verdadeiros cristãos sacrificam tudo, até a própria vida, para guardar intacta a pureza de sua alma: "Antes morrer que manchar nossa alma", tal era o grito dos mártires, tal é a divisa da consciência cristã. Dai-nos, ó divino Redentor, a graça de ser sempre fiéis a essa divisa.
Esse não é o único relato profético da Paixão do Salvador; há muitas outras passagens, sobretudo nos Salmos, que descrevem antecipadamente as angústias de sua alma. É assim que a Liturgia, a exemplo do próprio Evangelho, interpreta o salmo 21:
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Os meus gemidos estão longe de me salvar! Meu Deus, eu grito de dia e não me respondes, grito à noite, e nunca tenho descanso! Nossos pais confiaram em ti, confiaram e tu os salvaste; eles clamavam por ti e eram libertados, confiaram em ti e nunca foram envergonhados. Quanto a mim, sou um verme e não um homem, o opróbrio dos homens, desprezado pelo povo; todos os que me veem caçoam de mim, abrem a boca e meneiam a cabeça: "Confiou em Yahweh, que ele o liberte, que o salve, se é que o ama!" Sim, foste tu que me tiraste do seio materno, E me confiaste ao peito de minha mãe; fui consagrado a ti desde o meu nascimento, tu és o meu Deus desde o ventre materno. Não te afastes de mim, pois a angústia me cerca, e não há quem me socorra."
Quem não veria, nesses lamentos do Justo oprimido, como que um eco antecipado, um prelúdio dessa terrível agonia que torturou a alma humana do Salvador no Horto das Oliveiras e no Calvário? Obrigado a comparecer diante de seu Pai carregado com o fardo de nossos pecados, ele se vê como que abandonado por Deus na parte sensível de sua alma; sendo o representante dos pecadores, ele se vê tratado como o mais culpado deles. Donde esses gemidos lamentosos, expressão da angústia de sua alma triste até a morte. E Deus parece não o ouvir: Ele, que escuta a oração do pecador arrependido, parece fechar os ouvidos aos lamentos do Justo por excelência, precisamente porque ele carrega o peso e a responsabilidade de nossas iniquidades.
A essa atitude de Deus se acrescentam os insultos dos homens: arrastado perante os tribunais, ele é escarnecido, golpeado por reles serviçais, pisoteado como um verme, renegado pela multidão que a ele prefere Barrabás, um ladrão e assassino; flagelado, ridicularizado pela vil soldadesca, dele zombam os príncipes dos sacerdotes, que passam e repassam diante de sua cruz, meneando a cabeça e gritando-lhe que peça a Deus que o livre, se é de fato o seu Filho bem-amado. E o homem de dores se cala. E quando, após um longo silêncio, ele abre a boca, é para exprimir sua confiança em Deus somente, já que ninguém vem em seu socorro. Ao meditar nesses detalhes, não nos parece ler nesse salmo uma antecipação do relato evangélico? Sobretudo quando consideramos as seguintes palavras:
"Transpassaram meus pés e minhas mãos, Posso contar todos os meus ossos. As pessoas me observam, me contemplam; Repartiram entre si as minhas vestes, E sobre a minha túnica lançaram sorte."
O salmista, como o profeta Isaías, anuncia também o triunfo final do Salvador: sua oração acaba por ser atendida, ele louva a Deus, convida todos os filhos de Israel a louvá-lo com ele, e prediz a conversão dos gentios:
"Anunciarei o teu nome aos meus irmãos, no meio da assembleia eu te louvarei. Vós que temeis a Yahweh, louvai-o, vós todos, descendência de Jacó, glorificai-o, reverenciai-o, descendência de Israel! Não desdenhou o sofrimento do oprimido, nem ocultou dele a sua face, mas ouviu-o, quando a ele gritou. Pois ele não desprezou, Graças a ti, meu louvor ressoará na grande assembleia, cumprirei meus votos diante dos que o temem. Os pobres comerão e ficarão saciados. Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para Yahweh, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele."
Como podemos ver, trata-se, com algumas variações, do mesmo tema abordado por Isaías: é a Paixão do Salvador descrita com longo tempo de antecedência, com detalhes que completam o relato do profeta; é a humilhação e a angústia mais profunda, seguidas do triunfo final, a conversão de Israel e a dos Gentios.
Acompanhemos Jesus passo a passo nessas diversas etapas, desde o momento em que ele começa a oferecer o seu sacrifício no seio de sua mãe, até o momento em que o consuma no Gólgota. Tenhamos a coragem de sofrer com ele, para tomar parte no seu triunfo (Rm 8, 17).
O Novo Testamento irá nos mostrar como se realizou essa dupla profecia.
Os sofrimentos de Jesus, anunciados pelos profetas, são tão minuciosamente descritos nos quatro Evangelhos, que a sua vida inteira nos aparece como um longo e contínuo martírio, tota vita Christi crux fuit et martyrium.
Esse martírio começa no instante mesmo em que o Filho de Deus assume um corpo e uma alma no seio virginal de Maria; ele prossegue durante toda a sua vida mortal, e atinge o seu ponto culminante no Calvário.
II. OS SOFRIMENTOS DE JESUS EM SUA VIDA OCULTA
Vemos na Epístola aos Hebreus a indicação de que o martírio do homem de dores começou já no início de sua vida terrena: "Por isso, ao entrar no mundo, Cristo afirmou: Tu não quiseste sacrifício nem oferenda, mas me formaste um corpo. Nem holocaustos, nem sacrifícios pelo pecado foram do teu agrado. Por isso eu disse: Eis-me aqui... Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade.... É graças a essa vontade que somos santificados pela oferenda que Jesus Cristo fez de seu próprio corpo, uma vez por todas." (Hb 10, 5-10)
Quando se conhece a história dos sacrifícios do Antigo Testamento, o pensamento do Apóstolo se torna claro. Esses sacrifícios, embora instituídos por Deus, não tinham valor senão como figuras do grande sacrifício que seria um dia oferecido pelo Messias. Chegou o momento em que essas "hóstias" imperfeitas deviam ser deixadas de lado, para dar lugar à vítima sem mancha, à vítima perfeita, a única capaz de agradar a Deus; e esse momento foi o da Encarnação do Verbo. Então Jesus se apresenta ao Pai para substituir, com uma única oblação de valor infinito e eterno, todos os sacrifícios da Antiga Lei, incluindo o holocausto, no qual a vítima era não somente imolada, mas consumida nas chamas.
Assim, a realidade sucede às figuras. Graças, não somente à ciência infinita da sua natureza divina, mas também à ciência eminente que enchia sua alma humana desde o primeiro instante de sua existência, o Redentor vê distintamente todas as dores que lhe estão reservadas, em sua vida oculta como em sua vida pública, e sobretudo em sua dolorosa Paixão; e, abraçando com um único olhar todas essas humilhações e angústias, ele as aceita generosamente, pois quer fazer em tudo a vontade de seu Pai; e oferece-as antecipadamente, para que Deus seja glorificado e os homens sejam salvos. Eis porque o autor da Carta aos Hebreus pode realmente dizer que por essa vontade, por essa oblação voluntária, nós fomos santificados; nós já o somos de direito, à espera de que esses méritos nos sejam aplicados de fato pela oração e pelos Sacramentos.
Iniciado no dia da Encarnação, e oferecido por Jesus no altar puríssimo do Coração de Maria, esse sacrifício irá continuar durante toda a vida do Salvador. Chega o momento em que, depois de passar nove meses no seio virginal de Maria, ele deve manifestar-se ao mundo. Irá ele fazer isso com o esplendor que convém ao Rei dos reis e ao Senhor dos senhores? Pensar assim seria desconhecer o plano divino da Redenção. Dono de todas as riquezas do céu e da terra, o Filho de Deus poderia nascer em meio à púrpura.
Mas, sabendo o quanto as riquezas são um obstáculo à santidade, ele escolhe a mais completa pobreza; não há lugar para ele na hospedaria a cuja porta sua mãe bate, não há lugar para o Senhor do mundo! Ele nascerá em uma dessas grutas onde se refugiam os animais durante as noites frias: seu berço será uma dessas manjedouras onde eles comem; seus membros delicados repousarão sobre um pouco de palha, e ele não terá, para se aquecer nessa fria noite de dezembro, senão o hálito de dois animais, um boi e um burro. Pobres da terra, vós encontrastes um irmão ainda mais pobre do que vós, e esse irmão é o vosso Salvador, é o vosso Deus!
Ele abraça generosamente as privações e os sofrimentos da pobreza; apesar dos panos que o envolvem, ele sente frio nessa gruta aberta ao vento, e seu primeiro grito é um gemido doloroso, acompanhado, porém, de uma doce resignação à vontade do Pai, que ele cumpre nesse momento e cumprirá até o fim: "Eis que venho para fazer a vossa vontade".
Ele sofre ainda mais pela ingratidão dos homens; veio para salvá-los ao preço dos mais rudes trabalhos, e esse povo escolhido, que ele cumulara de benefícios durante séculos, somente se faz representar por alguns pobres pastores que os Anjos encontraram na campina vizinha: "Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor. Eis o que vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em panos e deitado numa manjedoura" (Lc 2, 11-12). Na simplicidade de sua fé, eles vêm, adoram o Menino-Deus e propagam à sua volta a grande notícia. Mas bem poucos respondem a esse apelo, e São João observa melancolicamente que os seus, aqueles mesmos que constituem o povo escolhido, não o receberam por causa de seus preconceitos: "In propria venit et sui eum non receperunt" (Jo 1,11).
Sem dúvida, alguns Magos do Oriente, representando a gentilidade, virão também adorar o recém-nascido; mas, o que é esse punhado de homens diante dos milhões de indiferentes que sequer pensam em seu Salvador, ou diante desses inimigos encarniçados que, por inveja ou por ambição, opõem-se ao seu reinado na terra? No Evangelho, eles são representados por esse Herodes que, receando por seu trono com a chegada do Messias, procura eliminá-lo ainda no berço, mandando massacrar todas as crianças de Belém e arredores.
Jesus somente escapa ao massacre fugindo para uma terra estrangeira; ele conhecerá então as dores do exílio, para que nada fique faltando às suas provações.
Assim, pois, em sua entrada no mundo ele abraça a pobreza, o sofrimento e a humilhação; assim começa a imolação que somente terminará com o Calvário.
Para dar maior solenidade ao seu sacrifício, ele se faz representar por Maria no templo de seu Pai, a fim de ratificar, por um ato público, a oferenda já feita com sua entrada na vida. A lei judaica prescrevia que todo primogênito do sexo masculino fosse consagrado a Deus, a quem tudo pertence. Jesus se oferece, pois, pelas mãos do sacerdote, se dá e se consagra oficialmente a Deus, e entrega-se assim à imolação, repetindo ainda: "Eis que venho, ó Senhor, para fazer a vossa vontade". Essa vontade, ele bem o sabe, é que ele sofra e morra: ele a aceita amorosamente, como já o fizera em sua entrada no mundo. O seu papel de vítima se afirma, assim, cada vez mais.
Ele será vítima em seu coração, tanto quanto em seu corpo; pois, como declara o santo ancião Simeão à sua mãe, "este menino foi posto no mundo para a queda e a ascensão de muitos em Israel, e para ser um sinal de contradição" (Lc 2, 34). Essa será para ele a mais dolorosa das provações. Se os seus sofrimentos e humilhações tivessem ao menos podido conquistar e salvar todas as almas, ele sofreria, de bom grado, mil vezes mais. Mas ele sabe que muitos irão responder ao seu amor com o ódio e a ingratidão: durante a sua vida mortal e em todos os tempos, ele se defrontará com a contradição; alguns crerão nele, e outros se recusarão a crer apesar de seus numerosos milagres; alguns o amarão a ponto de morrer por ele, e outros o perseguirão com o seu ódio, gritando: "Acabemos com esse infame!" Para o seu coração amoroso, essa é a dor suprema; mas ele a aceita para que os eleitos sejam salvos, e para que somente sejam condenados aqueles que o desejarem, recusando obstinadamente entregar-se ao seu amor.
Obrigado, Jesus, por tanto amor e tantos sacrifícios! Possam, ao menos, o reconhecimento e a simpatia das almas fervorosas consolar-vos da ingratidão das demais! Possam os seus trabalhos apostólicos diminuir o número dos condenados!
Há ainda outra dor que transpassa o Coração tão sensível do Salvador: é a que ele experimenta ao ver-se obrigado a associar aos seus sofrimentos as almas fiéis que desejam segui-lo no caminho da santidade e do apostolado. Temos um exemplo disso naquele misterioso desaparecimento do Menino-Deus, quando foi ao templo de Jerusalém com a idade de doze anos. Por ordem de seu Pai celeste, ele permanece em Jerusalém, sem prevenir seus pais, e entretém-se com os Doutores da Lei, espantados com a sabedoria de suas respostas. Como os homens e as mulheres viajavam em grupos separados, Maria pensou que o Menino estivesse com José, e este, que estivesse com sua mãe.
Mas, na primeira parada fora da cidade, eles descobrem o seu desaparecimento. Grande foi a sua preocupação e profunda a sua angústia, até o momento em que, de volta a Jerusalém, eles o encontram no templo entre os Doutores (Lc 2, 45-50). Maria, com doçura, revela-lhe sua extrema aflição, e Jesus lhe responde: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo cuidar das coisas de meu Pai? "Isso significava que o seu primeiro dever era fazer a vontade de seu Pai celeste, mesmo que o seu cumprimento devesse causar a seus pais dolorosas angústias. Maria e José não compreenderam quais eram "as coisas de seu Pai", já que os desígnios de Deus só lhes seriam revelados progressivamente. Foi uma nova aflição para o Coração de Jesus; mas ele a aceita, pois sabe que, no plano divino, os seus discípulos, membros do seu corpo místico, devem partilhar dos seus sofrimentos, tanto mais intensamente quanto maior for a parte que ocupam em sua missão redentora.
De resto, ele não tarda a consolá-los, descendo com eles para Nazaré, onde, durante longos anos, vive com eles na mais doce intimidade, partilhando seus labores, suas preces, e conversando com eles sobre as coisas do céu. Mas também aí ele quer ser vítima, e o faz pela prática da vida escondida e da obediência; pois esses longos anos podem resumir-se nesta breve palavra do Evangelho: "E era-lhes submisso" (Lc 2, 51). Submisso em quê? Na prática dos mais humildes deveres. Em criança, ele ajuda sua mãe nas tarefas do lar; quando adolescente, trabalha com José em sua modesta oficina, e a Igreja nascente ainda se lembrava dos arados que ele havia feito.
"Vejam escreveu Bossuet esse Divino carpinteiro servindo-se da serra e da plaina, calejando suas mãos delicadas no manejo de instrumentos tão grosseiros e rudes. Não é um hábil pincel que ele utiliza; prefere exercer um oficio mais humilde e mais necessário à vida; não é uma distinta pena com a qual poderia escrever belas obras; ele se ocupa, ganha sua vida, realiza, louva e bendiz a vontade de Deus em sua humilhação."
Assim, pois, trinta anos da vida do Salvador se passam no exercício dessas virtudes de pobreza, de mortificação, de obediência, de humildade que o mundo pagão não conhecia. Jesus bem sabe que, para a nossa natureza orgulhosa, essas virtudes são difíceis de praticar; eis porque ele nos dá o exemplo, sabendo que o testemunho vale mais que as mais sábias dissertações ou as mais calorosas exortações.
Durante os trinta anos de sua vida oculta Jesus foi, pois, vítima em seu corpo e em sua alma. Ele teve, sem dúvida, as suas alegrias, sobretudo nessa acolhedora casa de Nazaré onde, com Maria e José, dava glória ao seu Pai e preparava a Redenção; mas, no meio dessas alegrias, o Calvário projetava a sua sombra, e a clara visão das torturas físicas e morais que o esperavam conferia à sua fisionomia essa doce gravidade que tão bem convinha Aquele que, pelo sofrimento, iria abrir-nos as portas do céu.
Felizes as almas que compreendem essa lição e se oferecem também como vítimas ao Amor misericordioso, em união com Aquele que, desde o início de sua vida, ofereceu-se ao Pai como hóstia para substituir todos os sacrifícios da Antiga Lei! Não se trata de buscar sacrifícios extraordinários, mas de dizer, como Jesus: "Eis que venho, ó Pai, para fazer a vossa vontade". A humilde submissão à vontade de Deus nas menores coisas, o cumprimento fiel de nossos deveres de estado, o esforço sempre renovado para agradar a Deus em tudo, a aceitação cordial dos contratempos, dores e humilhações, sem queixas ou desculpas, eis o gládio que imolará a cada dia e a cada instante a nossa vontade e nos transformará em vítimas. Se oferecermos esses sacrifícios em união com Jesus e por suas intenções, eles terão parte no valor e na eficácia de seu próprio sacrifício e contribuirão para santificar-nos e para salvar outras almas.
III. OS SOFRIMENTOS DE JESUS DURANTE A SUA VIDA PÚBLICA
Depois de trinta anos de vida escondida, na prática das virtudes mais simples, mas mais mortificantes, Jesus vê chegar o momento em que, segundo a vontade do Pai, deve começar sua vida pública, sua vida de apostolado. Irá ele inaugurar seu ministério por algum evento espetacular, para chamar sobre si a atenção do povo e dos chefes da nação? Ele poderia, pela autoridade de suas palavras, de seus exemplos e sobretudo de seus milagres, conquistar as multidões e obrigar os próprios príncipes dos sacerdotes a inclinar-se diante de sua missão divina.
Mas não é esse o plano de Deus: o reino que o Salvador vem anunciar é um reino espiritual, no qual ele não deseja que se entre pela força, ou por milagres tão portentosos que fosse impossível resistir à sua evidência. Ele quer que se entre nesse reino livremente, por persuasão e por convicção; haverá, pois, luz suficiente para que as almas de boa vontade a reconheçam e a sigam, mas não uma claridade ofuscante que pudesse constranger os espíritos e perturbar a liberdade da fé. Jesus deseja que a salvação dos homens se faça sobretudo pelo sacrifício, e acolhe antecipadamente todos aqueles que o Pai lhe preparou.
Esses sacrifícios serão numerosos e dolorosos; mas, no início de sua vida pública, assim como ao entrar no mundo, Jesus repete: Pai, eis que venho para substituir as vítimas da Antiga Lei, e fazer a vossa vontade em todas as coisas, ecce venio ut faciam, Deus, voluntatem tuam.
1°) Seu primeiro sacrifício é oferecer-se como vítima pela expiação de nossos pecados. Ele vem, pois, juntamente com uma multidão de pecadores, receber o batismo de penitência às margens do Rio Jordão. Ele não precisava, é claro, de tal batismo, pois era a própria santidade. Mas, como chefe de um corpo místico composto de pecadores, ele assume sobre si o peso de nossas iniquidades, como havia anunciado Isaías, e irá expiá-las com os quarenta dias de penitência no deserto.
Assim, pois, apesar dos protestos de São João Batista, ele entra no Jordão e recebe o batismo de penitência. Logo depois, é impulsionado e como que banido para o deserto pelo Espírito de Deus, que lhe impõe a expiação de nossas faltas em conformidade com os desígnios do Pai (Lc 4, 1; Mc 1,12).
Esse deserto, segundo a Tradição, é uma colina inculta a oeste de Jericó. Jesus passou ali quarenta dias, convivendo com as feras selvagens (Mc 1, 13), na mais completa solidão, sob um inclemente sol de inverno, sem outro abrigo a não ser alguma caverna fria e úmida. Ali jejuou por quarenta dias e quarenta noites, e esse jejum prolongado, que o frio da estação tornava ainda mais difícil de suportar, não foi senão uma das numerosas e austeras mortificações que ele se impôs. Isso porque, conhecendo todas as faltas graves cometidas antes de sua vinda ao mundo e todas aquelas que seriam cometidas no futuro, ele sabia que nenhuma penitência seria demasiadamente dolorosa para expiar todos esses delitos.
Colocados diante da santidade de seu Pai, nossos pecados lhe apareciam em todo o seu horror, e ele aceitaria de bom grado sofrimentos ainda mais crucis para reparar o ultraje feito a Deus pelos nossos crimes. Quem poderá imaginar os vivos sentimentos de humilhação que ele terá experimentado em sua alma imaculada, ao ver-se carregado com todas as nossas faltas diante do Deus de toda santidade! Quem poderá, sobretudo, fazer uma ideia dos atos de amor penitente pelos quais ele implorou misericordiosamente o perdão para nós! Quando buscamos despertar em nós a contrição, e quando sentimos medo dos pequenos sacrifícios necessários para expiar nossas faltas, pensemos n'Aquele que, no deserto, quis fazer penitência por nós, e não tenhamos medo de unir algumas ligeiras mortificações às suas para reparar as nossas próprias iniquidades.
Sabendo que uma das mais temidas provas que enfrentamos é a tentação, ele quis submeter-se também a ela, para nos ajudar a vencê-la mais eficazmente. Como diz a Carta aos Hebreus, "não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós, com exceção do pecado" (Hb 4, 15).
Que prova foi essa, e em que consistiu exatamente essa tentação? Para melhor compreendê-lo, recordemos que os judeus tinham ideias errôneas sobre a obra messiânica. Eles esperavam um Messias temporal, que restabeleceria o reino de Israel e estenderia os seus limites até os confins da terra. Para melhor obter esse fim, ele multiplicaria os milagres a fim de proporcionar a si e ao seu povo todas as vantagens materiais.
Imaginavam que esse Messias se apresentaria de forma triunfal, em uma grande solenidade tal como a Páscoa, e que, lançando-se do mais alto pináculo do templo, desceria, rodeado de anjos, até o meio da assembleia dos judeus. Da cidade santa de Sião ele estenderia o seu cetro sobre todos os povos da terra.
O demônio, fazendo eco a essas ideias populares, vem precisamente propô-las a Jesus. Já que ele tem fome, por que não fazer um milagre, transformando em pães as pedras do deserto? A resposta do Mestre foi pronta e decisiva: "Está escrito: nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4, 4). O que é preciso buscar antes de tudo é o reino espiritual, a verdade, a justiça, o amor de Deus; para as necessidades do corpo, é preciso abandonar-se à Providência, e pedir com simplicidade o pão quotidiano, que nos será dado no momento oportuno. Ele não fará, pois, milagres inúteis, e se abandonará entre as mãos da Providência.
O demônio insiste: por que não aparecer miraculosamente no meio dos judeus, em plena cidade de Jerusalém, saltando do mais alto pináculo do templo diante do povo reunido no recinto sagrado? Também aqui Jesus contrapõe um preceito judaico: "Está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus" (Mt 4, 7). Não será por meio de prodígios extraordinários que ele estabelecerá o reino de seu Pai, mas sim transformando, por sua pregação e por seus exemplos, os espíritos e os corações, e orientando-os na direção do amor a Deus e ao próximo.
Uma última vez o tentador volta à carga. Já que foi prometido ao Messias o domínio universal, por que não associar-se ao espírito do mal, que detém o poder sobre todos os impérios, e, com a sua ajuda, excitar as paixões humanas para conquistar o mundo inteiro e estabelecer seu domínio sobre o universo? Jesus rejeita com horror essa tentação da ambição: "Vai-te, Satanás, pois está escrito: "Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele servirás!" (Mt 4, 10). Não será sobre os meios humanos que ele se apoiará para estabelecer o seu reino: ele quer conquistar as almas pela bondade, pela humildade, pelo sofrimento suportado com paciência, pela submissão à vontade divina, todas essas virtudes que ele em breve irá nomear no Sermão da montanha.
Seu ideal messiânico é, pois, inteiramente espiritual, e por isso mesmo opõe-se às ideias reinantes. Jesus prevê que terá de sofrer por parte de seus compatriotas para estabelecer o reino de Deus; mas será fiel à missão que lhe foi confiada, e aceitará de bom grado os sacrifícios mais dolorosos, incluindo a morte, para obedecer a seu Pai. Vencido, o demônio se retira, mas apenas por algum tempo (Lc 4, 13): o que nos mostra que, ao longo do ministério de Jesus, ele renovará mais de uma vez os seus ataques.
2°) Nosso Senhor não tarda a perceber que, ao rejeitar o ideal judeu, atrairá sobre si muitas perseguições. Uma delas vem de seus próprios compatriotas de Nazaré (Lc 4, 14-30). Saindo de Jerusalém, ele regressara ao pequeno povoado onde vivera por trinta anos, e, ao chegar o sábado, compareceu ao serviço religioso. Convidado pelo chefe da sinagoga a proclamar um trecho de Isaías, ele leu estas palavras proféticas: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção...". Terminada a leitura, ele fez o comentário do texto, declarando que naquele dia se cumpria aquela escritura. Sua palavra cheia de graça começou por causar espanto, mas não tardou a conquistar os corações.
Essa impressão favorável, porém, não durou muito. As pessoas tinham ouvido dizer que ele fizera milagres em Cafarnaum, e, numa outra reunião, alguém zombou dele exclamando: "Médico, cura-te a ti mesmo", isto é, por que não fazer em tua pátria as grandes obras realizadas em Cafarnaum?
Ele explica que ninguém é profeta em sua própria terra; que, outrora, Elias não fora enviado às filhas de Israel para aliviar seus males, mas a uma viúva de Sarepta; que Eliseu havia curado da lepra o Sírio Naaman, e não um israelita. Com isso, dizia-lhes implicitamente que, se não havia feito milagres entre eles, isso se devia à sua falta de fé e de confiança. Eles o compreenderam; mas, vendo-se comparados aos pagãos, ficaram irritados; uma onda de cólera levantou-se na assembleia, que se apoderou de Jesus e o levou ao alto do monte sobre o qual se erguia o povoado, para precipitá-lo dali para baixo. Sua hora, porém, ainda não havia chegado: uma força sobrenatural travou os braços que o prendiam, e Jesus passou incólume por entre eles, deixando para sempre a sua querida Nazaré.
Que tristeza para o seu coração tão sensível! Ele amava seus concidadãos, e desejava salvá-los; mas, como estes não tinham fé nele, ele deixa sua aldeia, lançando um olhar desolado sobre o vale aprazível onde passara sua juventude, onde trabalhara e sofrera como um pobre operário. Ele viera cheio de bondade para o meio dos seus, mas os seus não o reconheceram... Triste presságio dos sucessivos abandonos de que ele seria vítima!
Cafarnaum foi-lhe mais hospitaleira, ao menos durante bastante tempo; ele fez dela o seu quartel-general na Galileia, e ali fez muitos discípulos. Foi na sinagoga dessa cidade que ele previu, um ano antes de sua última Páscoa, a instituição da Eucaristia. Mas uma nova provação o esperava ali: quando declarou aos seus ouvintes que lhes daria seu corpo como alimento e seu sangue como bebida, para tornar-se dessa forma o alimento espiritual de suas almas, para permanecer neles e os conduzir à vida eterna (Jo 6, 48-59), eles interpretaram sua linguagem num sentido demasiadamente material e grosseiro, e exclamaram: Como pode este homem dar-nos sua carne a comer?
Em vão ele explicou que essa carne seria um princípio de vida espiritual, uma garantia da ressurreição gloriosa e da vida eterna; os habitantes de Cafarnaum, apesar de todos os prodígios operados pelo Mestre, recusaram-se a crer e separaram-se dele. Essa deserção atingiu também muitos de seus discípulos (Jo 6, 60-68): "Essa palavra é dura, disseram eles; quem pode escutá-la?" Jesus lhes recorda então que a fé é um dom de Deus que é preciso obter pela oração. Mas eles não quiseram saber de nada, e, "desde então, muitos de seus discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele".
Essa incredulidade causou grande desolação ao Coração de Jesus: era-lhe muito doloroso ver-se abandonado, no próprio momento em que lhes dava tão grande prova de amor, por aqueles que até então o haviam tão bem acolhido, e mesmo por alguns daqueles discípulos aos quais ele havia explicado os segredos do reino de Deus! Sem dúvida, as palavras de Pedro o consolam: "Senhor, a quem iríamos nós? Só tu tens palavras de vida eterna!" (Jo 6, 69). Mas não bastam para curar a ferida do seu Coração; ele não poderia esquecer os discípulos queridos que o deixaram, nem os habitantes de Cafarnaum, entre os quais habitara por quase dois anos e aos quais não deixara de amar; ele bem sabia que esse era apenas o prelúdio de outros abandonos e de outras ingratidões que se perpetuariam através dos séculos.
Que ao menos nós, que compreendemos a desolação do vosso Coração cheio de amor, possamos repetir-vos com frequência, mesmo em meio As dificuldades e às dúvidas que atravessam o nosso espírito, o protesto do discípulo fiel: "Senhor, a quem iríamos? Só tu tens palavras de vida eterna!". Se não conseguimos compreender isso, é porque somos limitados; mas Vós, eterna Sabedoria, o sabeis e compreendeis, e isso nos basta: nós cremos em vossa palavra, porque vos amamos e cremos em vosso amor: "Et nos credidimus caritati" (1Jo 4, 16).
Assim, não importa quantas sejam as deserções à nossa volta, não nos deixaremos desencorajar; rezaremos pelo retorno dos desgarrados; pelo ardor de nossa fé e de nosso amor, consolaremos o Coração amante de Jesus.
3°) Encontrará Jesus, ao menos na fidelidade dos Doze, uma compensação para a deserção de tantos discípulos? Esses doze, ele os escolheu com amor, depois de passar uma noite inteira em oração (Lc 6, 12-13). Vários dentre eles haviam sido, de resto, preparados para essa escolha definitiva por uma primeira eleição feita em particular: João e André, Simão, filho de Jonas, que iria chamar-se Pedro, Filipe e Natanael.
Desde o início, o Mestre se dedicara a transmitir-lhes uma ideia exata do Reino de Deus. No sermão da montanha, ao descrever as bem-aventuranças, mostrara-lhes que se tratava de um reino espiritual, no qual entrariam os pobres, os mansos e os humildes, os aflitos, os que têm fome e sede de justiça e de santidade, os misericordiosos, os corações puros e pacíficos, os que sofrem perseguição por causa da justiça e que não apenas sabem perdoar a seus inimigos, mas também os bendizem e rezam por eles.
Na sequência dessas conversas, ele lhes explicara que a santidade é antes de tudo interior, e que, para exercer a caridade, não bastava somente evitar o homicídio, mas também todo sentimento de ódio e todo julgamento temerário do próximo, esquecendo as próprias faltas; que, para ser puro, é preciso abster-se não somente das faltas exteriores, mas também dos olhares luxuriosos e dos maus desejos; não dar esmola ao som de trombetas, mas em segredo, de forma que nem nós mesmos nos lembremos do bem que fazemos; que, para rezar, é preciso fechar-se no "quarto" do coração e invocar com confiança o Pai amoroso e bondoso que não quer outra coisa senão atender-nos; que é preciso buscar antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça, sem preocupar-se excessivamente com os bens temporais, que nos serão dados pelo Pai do céu no tempo oportuno; que é necessário manifestar a fé não somente por belas palavras e orações, mas por obras de santidade.
Era um programa de vida interior bem diverso daquele dos Fariseus, que observavam estritamente a Lei e as múltiplas prescrições que lhe tinham sido acrescentadas, mas negligenciavam com frequência as virtudes interiores, que são as que contam aos olhos de Deus.
Quando ele enviou os Doze a pregar às ovelhas perdidas de Israel, completou esse programa com a exposição das virtudes apostólicas: o espírito de despojamento e de pobreza, a confiança em Deus, que é o único que pode converter as almas, a paciência e a serenidade nas perseguições, o zelo pelo anúncio da boa nova apesar das dificuldades, das lutas, das resistências, dos ataques dos ímpios.
Os Doze, certamente, escutavam avidamente o Mestre. Mas também eles estavam imbuídos de alguns dos preconceitos farisaicos, que conservaram até o dia em que o Espírito Santo iluminou suas mentes e transformou seus corações. Assim, Jesus teve de sofrer algumas vezes devido aos seus pontos de vista demasiadamente grosseiros e carnais. Eles aguardavam com ansiedade a restauração do reino de Israel, e às vezes disputavam entre si sobre quem deveria ocupar o primeiro lugar; uma vez os filhos de Zebedeu chegaram a pedir, por intermédio de sua mãe, para serem os primeiros-ministros do Messias (Mt 20, 20-28); e, na última Ceia, ao ouvir a previsão da tripla negação de Pedro, os apóstolos logo começaram a se perguntar a quem caberia o primado de que Simão já não era digno.
Nesse momento supremo, o Mestre precisou intervir para reprimir sua ambição, lembrando-lhes que, embora os reis da terra se coloquem como senhores, tal não deverá suceder com os líderes espirituais do seu reino: o maior se tornará o menor, e o primeiro se fará servidor de todos (Lc 22, 24-30).
Por vezes, alguns dos apóstolos cediam a um zelo indiscreto e violento, como os filhos de Zebedeu ou os filhos do trovão, que queriam invocar o fogo do céu sobre uma aldeia de samaritanos que os havia rejeitado.
Não podemos assinalar senão alguns exemplos; mas estes bastam para mostrar o quanto a alma tão delicada e ponderada de Jesus precisou sofrer com as múltiplas incompreensões, preconceitos e ideias ambiciosas de seus apóstolos. Ele teria podido, por um milagre de graça, transformar seus discípulos como fez depois o Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Mas era vontade do Pai reservar essa obra para o Espírito de Deus; o Verbo encarnado devia, até o final de sua vida terrestre, praticar a paciência, a humildade, a mansidão, a fim de ensinar aos seus representantes na terra que a obra divina da santificação das almas não se faz geralmente de forma espetacular, mas por um trabalho progressivo e doloroso, acompanhado de muitos Insucessos. Obrigado, ó Jesus, por nos ter dado essa grande lição, da qual precisávamos para não nos deixar desencorajar em nossos fracassos; os discípulos não devem esperar ser mais bem tratados que o Mestre, nem obter mais sucesso do que ele.
Uma dor ainda mais pungente estava reservada ao Coração de Jesus: um desses Doze que ele havia escolhido com tanto cuidado e cercado de tantas atenções, ao qual tinha confiado até mesmo uma função de confiança, iria traí-lo. E não foi por falta de advertências. Em especial, depois do discurso eucarístico em Cafarnaum, sabendo que Judas tinha tomado parte nas murmurações do povo, ele pronunciou diante dele estas palavras que deveriam fazê-lo refletir: "Não vos escolhi, eu, aos doze? No entanto, um de vós é um demônio..." (Jo 6, 70).
Ele o havia escolhido como aos outros e lhe havia testemunhado a mesma afeição, o mesmo devotamento; até o último momento, não deixará de tratá-lo como amigo. Mas ele era um dos que mais se preocupavam com o aspecto temporal do reino, e, sendo responsável pela bolsa comum, deixou que seu coração se apegasse ao dinheiro. Mais tarde, ele irá murmurar contra Maria de Betânia, que, em sua opinião, ao derramar perfume sobre os pés de Jesus, desperdiçava algo que poderia ser vendido em proveito dos pobres (Jo 12, 3-8).
Quantas vezes, no entanto, ao dirigir-se às multidões, o Mestre havia empregado expressões que deveriam ter servido de advertência ao traidor: "Não ajunteis tesouros na terra... Onde está teu tesouro, aí está teu coração... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!" (Mt 6, 19.21.24). Mas Judas não quis compreender, e, em sua oração sacerdotal, Jesus foi obrigado a dizer com tristeza: "Guardei os que me deste, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição” (Jo 17, 12).
Como é visível, nessas palavras, a dor profunda do Coração de Jesus, que teria desejado salvar o traidor! No momento mesmo da traição, ele o chama ainda pelo doce nome de amigo: era um último apelo, um último grito do coração para comover o traidor e convidá-lo ao arrependimento. Esforço inútil! O infeliz obstinou-se, e quando, algumas horas mais tarde, o remorso torturou sua alma, ao invés de ir lançar-se aos pés do Salvador que o teria perdoado, foi procurar os sacerdotes, seus cúmplices, atirou ao chão do santuário o preço de sua traição, e, desesperado, enforcou-se. Essa foi certamente uma das maiores tristezas d'Aquele que tinha vindo salvar os pecadores, e que entrevia na traição de Judas outras deserções, outras apostasias.
4º) Resta-nos ainda expor o que Jesus sofreu por parte dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas e dos fariseus. Desde sua primeira aparição em Jerusalém, na festa da Páscoa, ele despertou neles ciúme e desconfiança. O reino espiritual que ele pregava era tão diferente do seu próprio conceito, dessa dominação temporal e universal que eles aguardavam com tanta impaciência! Além disso, como zeladores da Lei, eles haviam caído em um formalismo estreito, haviam inventado prescrições minuciosas, em especial no que se referia à exatidão no pagamento dos dízimos, às abluções frequentes e, sobretudo, à observância do sábado. Jesus, ao contrário, insistia sobre as disposições interiores da alma, muito mais do que sobre a observância exterior.
Teve até mesmo a audácia de curar alguns doentes em dia de Sábado, o que, aos olhos dos fariseus, era um crime imperdoável. Decidiram então desembaraçar-se dele o quanto antes, e, até lá, embargar sua ação não somente na Judeia, mas também na Galileia. Emissários passaram a seguir os passos do novo Rabi, e esforçavam-se por minar sua influência e sua ação. Se ele lembrava ao povo o verdadeiro espírito da Lei, estava desprezando Moisés. Se fazia milagres, não podia ser em nome de Deus, uma vez que Violava o Sábado; se expulsava demônios, era em nome de Belzebu, o príncipe dos demônios, que o fazia; se, antes de curar um paralítico, perdoava-lhe os pecados, era um blasfemador, já que somente Deus pode perdoar pecados.
As vezes, fazem-lhe perguntas capciosas, para colocá-lo em contradição com Moisés: é com essa finalidade que lhe trazem a mulher adúltera, perguntando hipocritamente se deveriam apedrejá-la. Em outra circunstância, interrogam-no se era licito pagar o imposto a César, esperando com isso colocá-lo em embaraço diante do povo, caso respondesse afirmativamente, ou diante das autoridades romanas, caso respondesse pela negativa.
Essa oposição incessante e pérfida acaba por afastar do Mestre primeiramente a Judeia, e depois a própria Galileia, ao menos em parte, tanto que, no terceiro ano de seu ministério, ele precisou vaguear por algum tempo pelas terras pagas e as regiões além do Jordão. Também aí viu-se perseguido por seus inimigos de cidade em cidade e de deserto em deserto. Conservou, no entanto, calorosos partidários na Galileia, e reaparecia de tempos em tempos em Cafarnaum, que nunca alimentou por ele o ódio que lhe consagrava Jerusalém; e, mesmo na Judeia, tinha alguns discípulos que lhe permaneceram ainda mais devotados por o saberem perseguido pelo ódio de seus inimigos.
Alguns dos discípulos fiéis e dos apóstolos, educados na reverência aos doutores da Lei, ficaram assustados com essa oposição tenaz, sobretudo quando viram os fariseus aproximarem-se do Mestre e lhe dizerem brutalmente: "Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos e comem com mãos impuras?" (Mc 7,5) E então Jesus, que não podia permitir que esses hipócritas abusassem da simplicidade dos seus, levantou-se em sua defesa, atacando uma de suas tradições mais injustificadas: "E vós, por que transgredis a Lei de Deus a fim de seguir vossas tradições? Com efeito, Deus disse: Honra teu pai e tua mãe; vós, porém, dizeis: 'Aquele que disser ao pai ou à mãe 'Aquilo que eu poderia vos dar foi consagrado a Deus', esse não está obrigado a ajudar seu pai ou sua mãe.' E assim invalidais a palavra de Deus por causa de vossa tradição" (Mt 15, 2-7).
Essa resposta tão enérgica e tão bem fundamentada surtiu efeito, e, por um momento, seus inimigos se retiraram confundidos, mas mais irritados e mais cheios de ódio do que nunca.
Esse ódio aumentou ainda mais quando Jesus, acusado de ter curado em Jerusalém o paralítico da piscina de Betesda num dia de sábado, respondeu simplesmente: "Meu Pai continua trabalhando, e eu também trabalho" (Jo 5, 17). Isso equivalia a dizer que, assim como o Pai, também ele era senhor do sábado. Os judeus o compreenderam, e desde então procuravam com maior empenho levá-lo à morte, “pois, não contente de violar o sábado, ele ainda dizia que Deus era seu Pai, fazendo-se assim igual a Deus" (Jo 5, 18).
O ódio chegou ao seu ápice quando Jesus ressuscitou seu amigo Lázaro perto de Jerusalém; com efeito, muitos judeus que testemunharam esse milagre creram nele. Vendo isso, os chefes dos sacerdotes e os fariseus reuniram o Sinédrio e disseram: "Que faremos? Esse homem realiza muitos sinais. Se deixamos continuar, todos crerão nele, e os romanos virão destruir a nossa nação." (Jo 11, 47-48). Acatando a proposta de Caifás, eles o condenaram à morte, e buscaram os meios de executar essa sentença.
Assim, pois, o conflito entre Jesus e os chefes da nação, que havia começado em Jerusalém desde a primeira Páscoa prosseguira ao longo da Judeia e da Galileia, culminava na condenação brutal daquele que, no entanto, todos reconheciam como um taumaturgo. Isso prova que nada causa tanta cegueira quanto o ódio!
Como vimos, toda a vida pública do Salvador foi envenenada por essa oposição enciumada dos fariseus. E no entanto Jesus os amava como zeladores da Lei, e rezou por eles até o fim, tanto que um certo número deles converteu-se ao cristianismo depois de Pentecostes.
Podemos adivinhar o quanto Jesus sofreu com essa oposição tenaz e essa obstinação da maioria dos fariseus, pelas palavras de afetuosa reprovação que ele dirige à cidade culpada: "Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como uma galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas, e tu não o quiseste!" (Mt 23, 37). Sim, Jesus amou os seus, mesmo os seus inimigos, até o fim; amou-os a ponto de dar sua vida por eles; teria desejado reuni-los todos em seu coração, com ternura maior que a da galinha que reúne seus pintinhos sob as asas. Somente o ódio obstinado de seus inimigos impediu a realização desse desígnio misericordioso.
Assim, pois, a vida pública do Salvador foi um doloroso martírio. E não falamos de suas fadigas físicas, das noites passadas em oração depois dos rudes trabalhos apostólicos de cada dia; tudo isso é bem pouco, se comparado aos sofrimentos interiores que o Coração de Jesus suportou com tanta paciência.
Precisamos, porém, acrescentar que a perspectiva de sua dolorosa Paixão, que ele tinha incessantemente diante dos olhos, aumentou singularmente o seu doloroso martírio. Pois, mesmo no meio das consolações proporcionadas pelos amigos que permaneceram fiéis até o fim, ele via erguer-se diante de si a cruz do Calvário, com tudo o que ela significava para Aquele que possuía a ciência perfeita. No próprio momento da Transfiguração, ele se entretinha com Moisés e Elias a respeito de sua morte próxima (Lc 9, 30). Por três vezes, pelo menos, ele predisse aos seus apóstolos alguns dos detalhes dessa Paixão, mostrando assim que nunca deixava de a ter presente em seu espírito. O batismo com o qual ele desejava ser batizado era o batismo de sangue que deveria purificar as nossas almas.
Oh! Jesus, vós bem merecestes o nome de Salvador! Não foi somente na gruta da Agonia, não foi somente no Gólgota que o conquistastes, mas também ao longo de toda a vossa vida pública, assim como da vida escondida. Quisestes suportar a carga dos nossos pecados para expiá-los, inaugurar o vosso ministério pela penitência austera da santa quarentena, sofrer a tentação para nos ensinar a vencer as nossas, suportar com admirável paciência toda a oposição de vossos compatriotas e mesmo de alguns dos vossos discípulos, suportar os defeitos dos vossos apóstolos, expor-vos, por amor à justiça e à verdade, às perseguições sorrateiras e tenazes dos príncipes dos sacerdotes e dos fariseus.
Embora pudésseis, em vossa onipotência, confundir e aniquilar esses inimigos, consentistes em ser constantemente atormentado por eles, paralisado em vossa ação, excomungado e condenado à morte. E foi depois de nos ter dado esse exemplo de heroica abnegação que nos dissestes: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois aquele que quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a sua vida por causa de mim, esse a encontrará." (Mt 16, 24-25), Sim, ó Jesus, nós queremos seguir-vos, pois vós tendes aa palavras da vida eterna, queremos atender ao vosso convite.
Queremos, portanto, renunciar a nós mesmos, preferindo a Vontade de Deus à nossa, o dever ao prazer, organizando nossa vida inteira de forma a vos dar glória e salvar a nossa alma. Essa será a nossa forma de carregar a nossa cruz, a cruz de cada dia, aquela que vós quiserdes colocar sobre nossos ombros, a cruz das contrariedades, das misérias da vida, a cruz das contradições e dos insucessos, das humilhações e das calúnias, a cruz do cumprimento dos nossos deveres de estado, apesar de sua fatigante monotonia. Nós a carregaremos por amor a vós, seguindo-vos na via que nos traçastes. Mas, porque somos fracos, sede vós a nossa força, o nosso sustento; apoiados em vós, nós iremos até o fim; tudo sacrificaremos para salvar a nossa alma e a de nossos irmãos, apesar de todas as oposições, certos de triunfar com o vosso apoio.
IV. OS SOFRIMENTOS DE JESUS DURANTE A SUA PAIXÃO
O martírio de Jesus, que começou desde o primeiro instante de sua existência e continuou durante sua vida oculta e sua vida pública, atingiu seu ponto culminante no momento de sua Paixão. Nessa ocasião, com efeito, em poucas horas desabaram sobre ele todas as angústias, todos os sofrimentos físicos e morais, todas as humilhações, a ponto de ele poder dizer com o profeta Jeremias (Lam 1, 12):
"O vós todos que passais pelo caminho, Olhai e vede Se existe dor igual à dor que pesa sobre mim, Eu que fui golpeado por Deus no dia da sua ira ardente!"
Com efeito, veremos que ele sofreu, não somente da parte de seus inimigos, mais empenhados do que nunca em sua perda, mas também da parte daqueles que ele havia cumulado de seus benefícios, até mesmo os seus apóstolos, e mais ainda, da parte do Pai, que, vendo nele o representante dos pecadores, é obrigado a golpear a vítima inocente carregada com o peso de nossas iniquidades. Na impossibilidade de descrever em detalhe todos os sofrimentos do Salvador, descreveremos aqueles que resumem todos os outros: 1°) sua agonia no Jardim das Oliveiras; 2°) sua injusta condenação; 3°) sua crucifixão.
1°) A AGONIA DE JESUS.
Ao sair do Cenáculo, onde havia instituído a Eucaristia para perpetuar na terra a sua presença e seu sacrifício, ele desce até a torrente do Cedron, atravessa-a e entra em um jardim plantado com oliveiras, onde tinha o costume de se retirar. Deixando na entrada do jardim a maior parte de seus discípulos, toma consigo três dentre eles, os mesmos que haviam testemunhado sua transfiguração no Tabor: Pedro, Tiago e João, e os conduz até a parte mais escura do jardim.
Enquanto caminha com eles, a tristeza e o terror se estampam em seus traços: "Minha alma está triste até a morte", diz ele (isto é, triste a ponto de morrer); "ficai aqui e velai comigo" (Mt 26, 38).
Depois, tendo-se afastado à distância de uma pedrada cerca de trinta metros, ele se põe de joelhos e se prostra com a face por terra. E então, prevendo o futuro com toda a precisão, ele se representa antecipadamente, em seus detalhes, todos os sofrimentos, todas as humilhações, todas as torturas do dia seguinte. Ele estremece, tomado de terror, e, sendo homem como nós, dotado ainda de uma sensibilidade muito mais viva que a nossa, experimenta uma amargura profunda, uma angústia e um desgosto indizíveis. Como nós, ele receia o sofrimento e a morte; e ele, que antes a havia encarado e predito com intrepidez, agora permite que sua sensibilidade seja atingida e completamente abalada.
A essa imensa tristeza vem somar-se outra ainda mais pungente. Por sua ciência perfeita, ele prevê a ingratidão, a indiferença de um grande número de cristãos que, por sua resistência à graça e por seus numerosos pecados, contristam seu coração. Ele prevê a inutilidade dos seus sofrimentos para uma grande parte do gênero humano, e essa é uma dor ainda mais aguda: ele irá sofrer pela salvação de todos, mais do que qualquer homem jamais sofreu; por eles será flagelado, coroado de espinhos, crucificado; por eles irá morrer em uma cruz; e, apesar desse heroico sacrifício, haverá muitos entre os resgatados que, obstinando-se em seu pecado, morrerão na impenitência e serão condenados.
E mais ainda, haverá entre eles quem, a exemplo dos judeus, dos escribas e dos fariseus, terão por ele verdadeiro ódio e buscarão encarniçadamente roubar-lhe as almas pelas quais derramou o seu sangue, e exclamarão em seu ódio: Esmaguemos o infame!" Ele o sabe, e isso aflige profundamente o seu coração: para arrancar ao inferno esses endurecidos, ele consentiria em sofrer ainda mais, se preciso fosse.
Mas o que leva ao cúmulo a sua agonia é ver-se carregado de todos os pecados passados, presentes e futuros de todo o gênero humano: para expiá-los, ele consentiu em suportar o seu peso, em sentir a sua dor; ele, que sabe o que o pecado é, ele que é o Santo dos Santos, é obrigado a apresentar-se ao Pai como o representante de todos os pecadores, como que vestido com os nossos crimes mais ignóbeis. Que humilhação, que agonia! Ela foi tão intensa que gotas de sangue brotaram de seus membros e escorreram até o solo (Lc 22, 44). Foi preciso recorrer à sua onipotência, para que essa agonia não o levasse à morte!
Compreendo agora, ó Jesus, que vossa alma dolorida, humilhada, esmagada pelo sofrimento, tenha deixado escapar esta prece que revela a intensidade de vossa angústia: "Meu Pai, tudo é possível para ti; afasta de mim este cálice!" (Mc 14, 36). Era a natureza que falava, e vós quisestes, para nossa instrução e nossa consolação, passar por esta prova.
Mas logo vossa alma se recupera, e, depois de uma longa e ardente oração, vossos lábios deixam escapar este brado sublime de resignação: "Meu Pai, se é possível, que este cálice seja afastado de mim. Entretanto, não seja como eu quero, mas como tu queres!" (Mt 26, 39).
Alquebrado por tantas emoções, Jesus retorna para junto dos três apóstolos, em busca de algum alívio para sua dor. Eles, porém, ao invés de velarem e orarem, haviam adormecido, vencidos pelo cansaço. Dirigindo-se a Pedro, o chefe deles, Jesus faz esta paternal admoestação: "Simão, tu dormes! Não foste capaz de velar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação: pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." (Mt 26, 40-41). E de novo se afasta entristecido, prevendo que, ao longo dos tempos, muitos outros discípulos, depois de vivos protestos de amor, irão deixá-lo sozinho em seu tabernáculo e não serão capazes de sacrificar sequer uma hora para vir adorá-lo na santa Missa, consolá-lo e rezar com ele.
A agonia recomeça, e a vítima não pode senão repetir estas palavras de resignação: "Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, que a vossa vontade seja feita" (Mt 26, 42).
Mais uma vez ele volta até seus apóstolos, e, encontrando-os adormecidos, dirige-lhes esta censura temperada de ternura: "Dormi e repousai agora" (Mt 26, 44). Mas seus olhos estavam pesados de sono, e eles não souberam o que responder (Mc 14, 40-41).
Não encontrando nenhum consolo junto aos seus melhores amigos, ele se entrega à oração, e de seu coração escapa novamente esse brado doloroso, mas resignado: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice. Todavia, faça-se a tua vontade, e não a minha" (Lc 22, 42).
Deus não poderia ficar insensível a tal prece, e envia um anjo para confortá-lo; já que a terra não o pode consolar, o céu lhe vem em socorro.
Que lhe diz o Anjo consolador? O Evangelho se cala sobre este ponto. Mas podemos imaginar que ele lhe recordou que seus sofrimentos tão dolorosos iriam salvar um grande número de almas; que, ao lado dos ingratos que desprezariam o seu amor, haveria milhões de almas generosas que se compadeceriam de suas angústias e ambicionariam a honra de partilhá-las com ele, oferecendo-se como vítimas voluntárias para consolá-lo e colaborar com ele na salvação das almas, e que, um dia, esses milhões de almas partilhariam de sua glória e de sua felicidade eterna.
Ah! Sem dúvida, ele sabia disso, mas o ouvi-lo dizer por esse mensageiro divino era um consolo para o seu coração angustiado; e ele queria, além disso, mostrar-nos que aqueles que sofrem por Deus nunca estarão completamente abandonados, e que o Céu vem reconfortá-los e fortalecê-los no momento oportuno.
Jesus retorna uma terceira vez aos seus discípulos, ainda adormecidos; e, sabendo que Judas se aproximava, desperta-os e diz: "Chegou a hora em que o Filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores; levantai-vos, vamos, eis que chega aquele que irá me trair" (Mt 26, 45-46).
Com efeito, Judas chegava à frente de uma multidão armada de espadas e paus. Jesus vai ao seu encontro: "A quem procurais?", pergunta ele. "A Jesus de Nazaré", respondem eles, "Sou eu", diz o Salvador.
Aterrorizados, eles recuam e caem aos seus pés. Depois de atestar dessa forma o seu poder, para reconfortar seus discípulos, ele pede aos soldados que poupem a vida dos que o acompanham, esquecendo-se de si mesmo para pensar nos outros: "Se é a mim que buscais, deixai ir estes".
Mestre: "Amigo diz Jesus simplesmente -, é para isso que então que Judas dá o sinal convencionado, beijando o vens? Com um beijo entregas o Filho do Homem?"
Os soldados se aproximam e prendem Jesus. Pedro, sempre ardente, quer defender seu Mestre, e fere com a espada um servo do sumo sacerdote, chamado Malco, decepando-lhe a orelha direita. Mas Jesus, sempre caridoso, toca com as mãos a ferida do servo e o cura.
O tribuno, os soldados e os judeus precipitam-se sobre Jesus, amarram-no e o conduzem ao sumo sacerdote.
Eis a primeira parte desse drama trágico. Com ela, Jesus nos ensina a detestar nossos pecados, que são a causa de sua longa e dolorosa agonia.
Lembremo-nos disso na hora de nos preparar para a confissão. Acompanhemos Jesus ao horto das Oliveiras, contemplemo-lo prostrado com o rosto por terra, carregado com o peso das nossas iniquidades; escutemos as queixas, os gemidos do seu coração, recordemos sua tristeza mortal, a angústia de sua alma, o suor de sangue que escorreu de seus membros, e digamos com toda a sinceridade: "Fui eu que, por meus pecados, torturei assim esse amável Salvador! Fui eu que, por minhas ingratidões, magoei o seu Coração!"
Escutemos suas queixas amorosas, tão bem interpretadas por Pascal: "Eu pensava em ti em minha agonia, algumas gotas do meu suor de sangue foram por ti... Queres, acaso, continuar a custar o sangue de minha humanidade, sem dar-me tuas lágrimas? Se conhecesses os teus pecados, desfalecerias... À medida que os fores expiando, tu os conhecerás, e te será dito: eis os teus pecados que foram remidos. Faz penitência, pois, por teus pecados ocultos, e pela malícia oculta dos pecados que te são conhecidos."
E nós responderemos: "Sim, Senhor Jesus, muitas vezes vos ofendi, muitas vezes fiz transbordar esse cálice de amargura que vos inspirava tanto horror. Agora quero expiar, quero chorar com um coração contrito e humilhado os meus numerosos desvios; e, para repará-los, quero, no meio dos sofrimentos e humilhações que vos aprouver enviar-me, repetir convosco: 'Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, que a Vossa vontade seja feita!' É justo, com efeito, que depois de vos ter causado tantas dores, eu me una ao Anjo consolador para suavizá-las partilhando delas, que eu me una às almas vítimas que sofrem convosco e por vossas intenções, para que Deus seja glorificado, e para que um maior número de almas possam participar dos frutos de vossa redenção."
2º) A CONDENAÇÃO DE JESUS.
Em sua dolorosa agonia, Jesus nos ensina a detestar as nossas faltas; ao suportar, sem dizer palavra, uma injusta condenação à morte, ele nos ensina a confessar humildemente sinceramente os nossos pecados, infelizmente bem reais e muito numerosos.
Ao deixar o horto das Oliveiras, o Salvador foi arrastado, no meio da noite, por uma vil soldadesca que o insultava e maltratava, até o palácio onde residiam os dois sumos sacerdotes, Anás e Caifás. O primeiro era, aos olhos dos judeus, o único legitimo; mas ele havia sido deposto pelos Romanos, e Caifás era o sumo sacerdote oficial.
A sentença de condenação proferida pelo Sinédrio. Anás somente interrogou Jesus para dar tempo ao Sinédrio de reunir-se: esse tribunal era a suprema corte de justiça na Judeia, e, em suas reuniões plenárias, contava setenta e um membros.
Era uma irregularidade convocar o tribunal em plena noite mas os juízes estavam decididos a condenar a vítima, e, contrariando a lei, não lhe deram nenhum advogado de defesa, nem apresentaram nenhuma testemunha a seu favor.
Em vez disso, providenciaram testemunhas subornadas para o acusar; mas estas, sem terem podido colocar-se previamente de acordo, entraram em contradição. Foi impossível, portanto, condenar o acusado a partir desses testemunhos.
Desconcertado, Caifás impôs a Jesus o juramento solene: "Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos declares se tu és o Cristo, o Filho de Deus." (Mt 26, 63). "Eu o sou", respondeu Jesus (Mc 14, 62), e acrescentou: "Um dia vereis o Filho do homem sentado à direita de Deus e vindo sobre as nuvens do céu".
Ao declarar abertamente ser o Filho de Deus, armado de seu poder e autoridade judicial, ele proclamava oficialmente a sua divindade, e, com isso, assinava a sua sentença de morte. Por diversas vezes ele já havia afirmado a sua igualdade com o Pai, e os judeus haviam tentado apedrejá-lo. Em vão ele invocava as suas obras, isto é, os seus milagres; embora obrigados a reconhecer que ele fazia prodígios, e que, recentemente, havia ressuscitado Lázaro, eles não queriam crer, nem na divindade de sua missão, nem na divindade de sua pessoa. Eis porque ele lhes lança essa suprema advertência, dizendo-lhes que retornará na qualidade de juiz, e que os próprios membros do Sinédrio serão julgados por ele.
Advertência inútil! Caifás, que havia claramente afirmado, em uma conferência secreta, que o Cristo deveria morrer para que a nação judaica fosse salva, fechou os ouvidos a essa advertência; para protestar contra o que considerava uma blasfêmia, ele rasga suas vestes em sinal de indignação e exclama: "Ele blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Vós acabais de ouvir a blasfêmia. Que pensais?" Eles responderam: "Ele merece a morte!" (Mt 26, 57-66). A lei punia com a morte aquele que usurpasse falsamente o título e as prerrogativas da divindade. Os membros do Sinédrio estavam de tal forma convencidos de que Jesus havia afirmado sua divindade que, dentro de algumas horas, irão dizer a Pilatos: "Ele se fez Filho de Deus, e, segundo a nossa lei, ele deve morrer" (Jo 19, 7).
E então, acrescenta São Mateus, dentro do próprio Conselho, alguns dos magistrados "cuspiram-lhe no rosto, esbofetearam-no e lhe deram bordoadas" (Mt 26, 67); os servos imitaram-lhes o exemplo, e, cobrindo-lhe a face, batiam nele dizendo: "Faz uma profecia! Adivinha quem te bateu!" (Mc 14, 61) Eis, pois, o Salvador do mundo, o Filho eterno de Deus, que passara fazendo o bem, insultado, escarnecido, esbofeteado, golpeado pelos juízes supremos da nação e por seus servos! E Jesus se calava. Silenciosamente, amorosamente, ele aceitava esses ultrajes, e tantos outros que sabia estarem por vir. Ele aceitava tudo sem se queixar, e ficaria feliz se, com isso, pudesse ao menos tocar o coração de seus algozes e despertar em sua alma um pouco de arrependimento e de contrição. No próprio momento em que eles o insultam lhe batem, ele só deseja uma coisa: a sua salvação; e, como no Calvário, reza por sua conversão.
A negação de Pedro. Um sofrimento mais doloroso lhe estava reservado: aquele causado pela tripla negação de Pedro, que ele constituíra chefe dos Doze. Ele o havia prevenido na última ceia, repreendendo-o por sua presunção. Apesar dessa advertência, Pedro sucumbiu por fraqueza, por medo, por respeito humano.
Enquanto os apóstolos se dispersavam, abandonando o Mestre, Pedro e João o seguiram de longe, e, graças à influência deste último, puderam entrar no pátio do sumo-sacerdote. Mas, na porta, uma criada pergunta a Pedro se não seria um discípulo daquele homem; por medo, Pedro responde: "Não sou". Os criados, junto aos quais ele vai se aquecer, interpelam-no por sua vez: "Será que não és um de seus discípulos?" Ele nega. Um deles, entretanto, parente daquele Malco a quem ele havia cortado a orelha, insiste: "Parece que te vi com ele no horto..." Pedro nega pela terceira vez: "Não conheço esse homem de que falas"; e, amedrontado, reforça essa declaração por repetidos juramentos.
Nesse momento, o galo cantou. E Jesus, que estava ali perto, voltou-se para Pedro e lançou-lhe um profundo olhar, certamente cheio de reprovação, mas também cheio de amor. O pobre discípulo lembrou-se então da palavra do Mestre: "Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes." Humilhado, profundamente entristecido por ter ofendido Aquele que tanto amava, ele chorou amargamente. À vista dessa dor, o grupo se dispersou, e ele saiu; segundo uma piedosa tradição, ele foi chorar a sua covardia junto da Virgem imaculada, suplicando--lhe que implorasse para ele o perdão.
Jesus, que teria perdoado Judas se este tivesse mostrado arrependimento, perdoou imediatamente o seu amado discípulo. Contudo, que grande dor para o coração tão terno e tão cheio de amor do Salvador! Ele que tanto havia amado os seus, que acabara de dar-lhes uma última prova de amor ao instituir a Eucaristia para permanecer com eles, vê-se traído por Judas, abandonado pelos apóstolos e renegado pelo chefe do colégio apostólico!
E esse era apenas o prelúdio das traições, das deserções, das negações que lhe seriam feitas, através dos séculos, por tantos de seus discípulos! Não nos apressemos em condenar o pobre Pedro e os outros apóstolos. Perguntemo-nos, antes, quantas vezes não os imitamos, entristecendo o Sagrado Coração de nosso Salvador por fraqueza ou covardia, deixando de defendê-lo corajosamente perante os homens, ou adotando a linguagem do mundo, tão contrária aos ensinamentos do Evangelho, e renunciando assim à Verdade infalível para seguir os falsos caminhos do mundo!
Choremos, ao menos, a nossa covardia, como Pedro chorou a sua! Imploremos, por meio da Virgem Maria, um perdão que nos será concedido com liberalidade, contanto que estejamos decididos a, daí em diante, confessar Cristo diante de Deus e diante dos homens.
A condenação por Pilatos. Acompanhemos Jesus ao pretório de Pilatos, onde os membros do Sinédrio o conduziram para ratificar a condenação feita por eles. Com efeito, Roma reservava a si o direito de emitir sentenças capitais. Os dos sacerdotes esperavam que o governador romano ratificasse sua sentença sem discussão. Mas este tinha demasiado senso de justiça para submeter-se ao seu pedido sem conhecer suas razões: "Que acusação trazeis contra este homem?", perguntou-lhes.
Após um momento de embaraço, logo os membros do Sinédrio se recompuseram, e, para impressionar Pilatos, responderam: "Nós o encontramos subvertendo nossa nação, impedindo que se paguem os impostos a César e pretendendo ser o Cristo Rei." Três acusações tão graves quanto mentirosas. O governador romano, bem informado por seus oficiais, sabia muito bem que o acusado não era um revoltoso. Depois de o interrogar sobre esse título de "rei" que o intrigava, logo compreendeu que se tratava de uma realeza espiritual da qual Roma nada tinha a temer. "Não encontro neste homem nenhuma culpa que mereça a morte", disse ele aos judeus. Estes, que não queriam de forma alguma deixar escapar a sua presa, insistem: "Ele subleva o povo desde a Galileia até a Judeia."
A menção à Galileia pareceu a Pilatos um bom pretexto para livrar-se de um caso que o embaraçava. Uma vez que Jesus era Galileu, e portanto pertencia à jurisdição de Herodes, que se encontrava neste momento em Jerusalém por causa da Páscoa, enviou-o a ele. Este ouvira falar de Jesus como um grande taumaturgo, e mostrou-se pronto a libertá-lo em troca de alguns prodígios que satisfizessem a sua curiosidade. Mas o Salvador não iria prestar-se a esse capricho, e permaneceu em silêncio. Herodes o revestiu com uma túnica luxuosa como forma de escárnio por suas pretensões à realeza, e o mandou de volta a Pilatos.
Começa então, no pretório, a luta terrível entre o governador romano e os príncipes dos sacerdotes, que iria culminar na condenação da vítima inocente. Pilatos queria salvar Jesus, mas receava comprometer-se aos olhos de César. Mesmo assim, faz louváveis esforços: como havia o costume de soltar um prisioneiro na festa da Páscoa, ele coloca lado a lado Barrabás, um perigoso bandido, e esse Jesus cuja inocência ele não cessa de proclamar. A multidão, porém, excitada pelo Sinédrio, pede aos gritos que Barrabás seja solto e Jesus seja crucificado. Que mal fez ele? replica o governador. Crucifica-o! Crucifica-o! - insiste a multidão. Pilatos lava as mãos, e, por esse gesto como por suas palavras, declara-se inocente do sangue daquele justo. "Que o seu sangue recaia sobre nós e sobre os nossos filhos!", bradam os judeus.
Numa última tentativa de comover aquela multidão sedenta de sangue, Pilatos manda flagelar o acusado.
Sob os golpes dos chicotes de couro com pedacinhos de ossos ou bolinhas de chumbo amarrados nas pontas, a pele da vítima desprende-se em retalhos, o sangue corre e o corpo se torna, dos pés à cabeça, uma única chaga. O número de golpes foi deixado ao capricho dos carrascos, que só paravam quando enjoavam ou se cansavam. Essa foi uma das mais cruéis torturas do Salvador: e por isso, no correr dos séculos, surgirão multidões de almas fervorosas que se compadecerão dessas atrozes dores e se empenharão em oferecer, ao divino flagelado, tantos atos de amor quantas foram as feridas por ele sofridas.
Um novo suplício foi-lhe aplicado pelos soldados: cobrindo seus ombros com um manto de lã vermelha, eles o fazem assentar-se em um trono improvisado, tecem uma coroa de espinhos e a cravam em sua cabeça por meio de fortes pancadas, colocam-lhe nas mãos um cetro, e, inclinando-se ironicamente diante dele, cobrem-lhe o rosto de bofetadas e cusparadas.
É nesse estado que o devolvem a Pilatos, o qual, para despertar a piedade dos judeus, diz a estes: "Eis o homem, eu não encontro nele crime algum." - "Crucifica-o, crucifica-o". Essa crueldade irrita o governador, que, cedendo às instâncias de sua consciência, decide enfim libertá-lo. Mas, imediatamente, os judeus vociferam: "Se soltas esse homem, não és amigo de César!" Ora, esse César era Tibério, que, em seu refúgio de Capri, acolhia de bom grado os delatores. Pilatos teve medo, medo de ser denunciado, deposto, exilado, talvez condenado à morte. E, depois de uma última tentativa que fracassou como as demais, entregou a inocente vítima ao ódio do Sinédrio.
(16 Sabemos que a vista de uma estátua do Ecce homo teve uma grande influência na conversão definitiva de Santa Teresa (Livro da Vida, cap. IX): "Entrando um dia no oratório, vejo uma estátua que tinham feito vir para uma festa que iria ser celebrada no convento. Ela representava o Cristo todo coberto de feridas. A devoção que ela inspirava era tão grande que, ao vê-la, eu me senti completamente abalada, a tal ponto ela lembrava o que o Senhor havia sofrido por nós. Uma tal dor tomou conta de mim, ao considerar o quanto eu havia correspondido mal ao amor representado por aquelas feridas, que meu coração parecia partir-se. Prostrei-me aos pés do meu Salvador derramando uma torrente de lágrimas, e supliquei-lhe que me desse a força de não mais o ofender.")
Nós nos sentimos indignados, e com razão, contra o ódio dos judeus e a covardia de Pilatos. Mas não deveríamos, ao menos em parte, dirigir essa indignação contra nós mesmos? Quando, por egoísmo ou por covardia, preferimos uma satisfação sensual ou egoísta à vontade de Deus; quando, por medo, por respeito humano, ou para não contrariar nossos amigos, agimos contra a voz de nossa consciência, estaremos do lado de Jesus, ou do lado de seus acusadores? E se, em um momento de fraqueza, tivemos a infelicidade de ofender a Deus gravemente por sensualidade, por orgulho, por buscar o apreço dos homens, não preferimos nesse momento Barrabás a Jesus, infligindo ao seu divino Coração uma ferida tanto mais profunda e dolorosa quanto mais ele tinha o direito de esperar de nós amor e reconhecimento?
Quando vemos saltar em pedaços a carne ensanguentada do Salvador, digamos lealmente: eu também estava lá, flagelando-o com minha sensualidade. Quando, dolorosamente emocionados, contemplamos a coroação de espinhos, digamos ainda: foi para expiar os meus pecados interiores, meus pensamentos e imaginação desavergonhados, meus desejos inconfessáveis, as capitulações da minha vontade, as buscas da minha vaidade... que Jesus suportou esse suplício. Também nesse momento, pois, eu estava lá, do lado dos carrascos.
Oh! Senhor Jesus, nós não gostamos de fazer essas confissões humilhantes, e às vezes temos mesmo a tentação de as atenuar, de enganar a nós mesmos para melhor enganar nosso confessor, como se, no tribunal da penitência, ele não fosse o vosso representante, como se o perdão não fosse tanto mais garantido quanto mais completa e leal for a nossa confissão. Vós, a santidade em pessoa, quisestes suportar a mais ignominiosa, a mais injusta das condenações; e eu, que tenho tantos pecados, quisera escapar à vergonha de uma confissão de uma confissão que tem por finalidade obter, não a minha condenação, mas o meu perdão!
De agora em diante, ao me preparar para a confissão, terei diante de mim a cena do Ecce homo. Sim, eu contemplarei com amor esse homem de dores, coroado de espinhos, o corpo todo dilacerado, o rosto coberto de cusparadas, o coração tão dolorido pela ingratidão dos homens, e direi a mim mesmo: eis o homem no estado a que o pecado o reduziu - o meu pecado. É esse homem-Deus que eu irei encontrar no santo tribunal: ele espera a minha confissão, não para me condenar, mas para me absolver, e para me absolver tanto mais perfeitamente quanto mais a minha confissão for humilhante e dolorosa.
Senhor Jesus, injustamente condenado por mim, vós que merecestes para mim, por esse meio, a graça de uma verdadeira sinceridade, abri meu coração e meus lábios, recebei minha confissão, e, pela virtude do vosso sangue derramado, purificai cada vez mais a minha alma, para que eu possa amar-vos mais perfeitamente e compensar, pelo fervor da minha expiação, a ingratidão do meu coração culpado, mas arrependido17.
(17 Para estimular em nós o ardor na reparação de nossas faltas, meditemos nestas palavras que Jesus dirigiu a Santa Gertrudes: "Quando um homem prefere o bem de seus irmãos ao seu próprio interesse, ele me resgata do cativeiro que sofri na manhã de minha Paixão, quando fui preso, amarrado e cruelmente torturado pela salvação do mundo. Quando ele se reconhece humildemente culpado de alguma falta, ele me consola do julgamento a que fui submetido ao despontar do dia, quando fui acusado por falsas testemunhas e condenado à morte. Quando recusa aos seus sentidos os prazeres que estes reclamam, ele me liberta da flagelação que sofri por volta da hora terceira. Ao obedecer a um superior rigoroso, ele suaviza as dores de minha coroa de espinhos..." (Citado pelo Pe. W. Faber em Tudo por Jesus, p. 154).)
3°) A IMOLAÇÃO DE JESUS
Condenado por Pilatos, Jesus é entregue a um esquadrão de soldados romanos comandados por um centurião. Sobre seus ombros feridos é colocada uma pesada cruz, e o levam para fora da cidade, para conduzi-lo ao Calvário (Mt 27, 31).
Carregando a cruz
Tão pesada era essa cruz, e tão pesado o fardo das iniquidades que ela simbolizava, que o Salvador, já esgotado pela agonia, a flagelação e a coroa de espinhos, não tarda a sucumbir sob o seu peso. A golpes de lança, os soldados o forçam a levantar-se e recolocam sobre seus ombros o instrumento do suplício. Mas logo se dão conta de que ele não pode mais, e requisitam um judeu estrangeiro que passava por ali, Simão de Cirene (Mc 15, 21), para carregar a cruz de Jesus... Feliz Cireneu, que consentiu em aliviar a vítima e que, em troca, recebeu o dom da fé e o da santidade! Imagem dessas almas generosas que, no futuro, iriam carregar valorosamente e amorosamente as suas cruzes, no seguimento do Mestre, para participar de seus sofrimentos, e, por eles, de sua glória.
Ao longo da via dolorosa, outras pessoas se compadecem dos sofrimentos do condenado. Uma piedosa tradição conservou a lembrança de um episódio que não é consignado nos evangelhos, mas que é muito verossímil: uma mulher compassiva, chamada Verônica, vendo passar Jesus com o rosto inteiramente coberto de suor, de sangue e de cusparadas, adianta-se para enxugar-lhe o rosto; e o Salvador, para recompensá-la, deixa impressa em seu véu a imagem de seus traços. Ela iria ter mais tarde muitas imitadoras, que, movidas de compaixão por tão amável Redentor, viriam enxugar sua santa face, chorar seus pecados e os de seus irmãos, compensar, pelo fervor de sua adoração e de seu amor, as ofensas que ele não cessa de receber, e oferecer-se como vítimas para aliviar suas tristezas, participando delas. Nobres almas que, dessa forma, consolaram o Coração de Jesus! No próprio momento de sua paixão ele já previa esses atos de reparação e de amor, e se sentia muito reconfortado por sua terna compaixão!
Outro fato, contado por São Lucas (23, 27-29), nos mostra que, mesmo no meio de suas provações angustiantes, Jesus não se esquece daquelas que ameaçam o povo deicida. A vista do homem de dores conduzido ao suplício, um frêmito de piedade perpassa a multidão, e, de um grupo de mulheres próximas a Jesus, elevam-se lamentações: "Filhas de Jerusalém", diz o Salvador, "não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos." Ele via, com efeito, o terrível castigo que iria, alguns anos mais tarde, abater-se sobre a cidade culpada, e queria prepará-las para esses dolorosos acontecimentos.
Ainda hoje, o que mais entristece o divino Redentor é a visão de nossas faltas, de nossas ingratidões, de nossa impenitência que não podem deixar de atrair sobre nós os castigos divinos. Choremos, portanto, por Jesus, que não cessa de ser ofendido, mas choremos também, e sobretudo, por nossos pecados e pelos de nossos irmãos, por sua negligência, e supliquemos ao Deus das misericórdias que converta os corações endurecidos, para que possam escapar dos tormentos do inferno, dos quais a destruição de Jerusalém não passa de uma pálida imagem.
A crucifixão
Jesus chega enfim ao Calvário, completamente esgotado, e do alto dessa colina contempla a cidade culpada que acaba de rejeitá-lo, como também, além de seus muros, o mundo inteiro pelo qual ele vai morrer.
Os soldados o despojam de suas vestes, renovando assim todas as dores da flagelação: suas feridas se reabrem e seu sangue corre, para expiar nossa falta de modéstia e nossa sensualidade. Será que pensas nisso, ó cristão impenitente, que te permites tão facilmente tantas liberdades pecaminosas? Não vês o que elas custaram ao teu Salvador? És tu que, por tua falta de pudor, renovas as suas dores. E, para agradar aos demais, para satisfazer tua vaidade e tua sensualidade, não te envergonhas do que fazes! Contempla Jesus, a santidade mesma, escuta suas censuras, detesta teus pecados e promete expiá-los, tornando--te de agora em diante mais modesto e mais puro.
De resto, isso não é senão o prelúdio das torturas que ele irá suportar até o fim, para expiar nossos pecados.
Pois eis a crucifixão que começa com os seus horrores. Como mansa vítima, Jesus estende suas mãos e seus pés sobre a árvore da cruz: grossos cravos penetram em seus membros já tão sensíveis, sob os golpes repetidos do martelo que os faz penetrar à força através dos músculos, dos nervos, das veias. Suplício terrível que, ao prolongar-se, agrava ainda mais as dores do crucificado, alargando as perfurações dos pés e das mãos! E mais ainda no caso de Jesus, cuja cabeça, ainda coroada de espinhos, não podia apoiar-se sobre a cruz sem renovar tantas dores atrozes! E no entanto o Salvador, longe de maldizer seus algozes, reza por sua conversão: "Meu Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem!" (Lc 23, 34). Pois era o seu amor por nós que o pregava à cruz, muito mais do que os pregos cravados pelos soldados.
Assim, as dores mais agudas lhe vinham do ódio insaciável dos príncipes dos sacerdotes e dos membros do Sinédrio. Os criminosos geralmente recebem, em meio aos seus suplícios, algumas marcas de piedade e de respeito. Não foi assim com Jesus: encarniçados em sua perda, seus inimigos passavam e repassavam diante de sua cruz, insultando a vítima: "Se ele é o filho de Deus, que desça agora da cruz, e nós creremos nele... Salvou os outros, e não pode salvar a si mesmo!... Ele confiou em Deus: que Deus o livre agora, se é que o ama, já que ele se diz Filho de Deus!" (Mt 27, 41-43). Jesus teria podido descer da cruz para confundi-los. Mas seu amor por seu Pai, cuja vontade quer executar até o fim, e seu amor pelas almas que quer salvar a qualquer preço, o retêm na cruz; e ele repete em seu coração: "Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem!"
Essa oração iria ter um primeiro resultado: os dois ladrões crucificados ao lado de Jesus tinham começado por fazer eco aos insultos, e tinham gritado do alto de suas cruzes: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós! "Mas logo um deles, profundamente emocionado pela mansa resignação do divino Crucificado e por suas tocantes orações, volta-se para ele e, com confiança, dirige-lhe este pedido: "Senhor, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino." E o Salvador, embora não pudesse fazer um único movimento sem aumentar seus sofrimentos, volta-se por sua vez para o bom ladrão e responde-lhe: "Em verdade te digo, hoje mesmo estarás comigo no Paraíso" (Lc 23, 42-43). Palavra tocante, que bem nos mostra o quanto Jesus está sempre pronto a perdoar os pecadores arrependidos, desde que tenham confiança nele e desejem sinceramente reparar as suas faltas! 18
(18 Lendo as Meditações de Santo Anselmo, por exemplo a sexta (P. L., CLVIII. 42-43), vemos o quanto o pecador arrependido deve ter confiança no Salvador Jesus: "Ele se deixou crucificar, e até mesmo na cruz ele pedia ao Pai por seus carrascos... Qual seria o coração tão duro, o coração de pedra que não se deixaria tocar por tanto amor?... Que o pecador não se desespere, pois, mesmo quando sua alma se tiver prostituído com numerosos amantes; pois nenhuma falta pode esgotar essa fonte de misericórdia e de bondade que é Jesus Cristo... mas, sempre abundante e pura, ela está pronta a receber os doentes que a procuram e a purificá-los de suas manchas... Aceitai, pois, ó Senhor Jesus, que eu contemple vosso amor inefável e cante as vossas misericórdias. Quando olho para meus pecados, sinto-me perdido. Mas, quando considero a morte que sofrestes pela salvação dos pecadores, volto a ter esperança. Vejo-vos morrer para nossa redenção, vossas mãos e pés transpassados pelos cravos, vosso lado aberto pela lança: como poderia desesperar? Vós exigis apenas uma coisa, sem a qual nenhum pecador pode salvar-se: é que nos sintamos arrependidos de nossas faltas e tenhamos o cuidado de repará-las na medida do possível. Nessas condições, nada temos a temer.")
Entretanto, a natureza quis chorar a agonia e a morte de seu autor. Em pleno dia (era cerca de meio-dia), uma névoa sombria se eleva do solo e envolve a cruz como um véu fúnebre. O medo se apodera da multidão e a afugenta: logo já não há mais ninguém ao pé da cruz. É então que um pequeno grupo de amigos pode se aproximar: Maria, a mãe de Jesus, sua irmã, a esposa de Cléofas, Madalena, a pecadora, e João, o discípulo amado.
Com que amor o Salvador abaixa o olhar sobre esses amigos que lhe vêm dizer um último adeus, e sobretudo sobre sua mãe, cujo coração amoroso está transpassado pela espada de dor predita por Simeão! Não querendo deixá-la sozinha no mundo, ele a confia ao discípulo amado, dizendo: "Eis o teu filho!" E a João: "Eis a tua mãe!" Desde esse momento, o discípulo recebeu Maria em sua casa, e a considerou como sua mãe (Jo 19, 26-27).
Mas João representa, aqui, todos os discípulos do Salvador, todos os cristãos do futuro. Eles também gostarão de ter Maria como Mãe, de compadecer-se de suas dores e consolá-la por sua afeição filial, sofrendo com ela e por suas intenções.
Entretanto, as trevas se foram estendendo e envolvendo, como uma mortalha, a cidade de Jerusalém, a Judeia, o mundo inteiro (Mt 27, 45). Jesus quis permitir que as trevas invadissem também a sua santa alma; e, para que tudo fosse consumado, sofreu sobre a cruz uma nova agonia. Depois de a ter vivenciado longamente, um grito de angústia escapa de seus lábios e mais ainda de seu coração: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" (Mt 27, 46).
Palavras misteriosas, mas que muito nos dizem sobre as angústias do Salvador! Carregado com o peso de nossas iniquidades, de todos os crimes cometidos ou que ainda iriam ser cometidos sobre a terra, desde o assassinato de Abel até os últimos pecados que precederão o julgamento, tornado para nós e por nós "maldição, execração", segundo a enérgica expressão de São Paulo (Gl 3, 13), parece--lhe que Deus o abandona, que se retira dele para entregá-lo à justiça. Que angústia dilacerante para Aquele que, sendo a santidade em pessoa, tem um horror infinito ao pecado! Ele entrevê também os milhões de pessoas, membros de seu corpo místico, que não tirarão proveito dos frutos da redenção, e, diante dessa visão, queixa-se dolorosamente: "Meu Deus, por que me abandonais?"
E talvez seja isso que explique esse novo brado desolador: "Tenho sede." (Jo 19, 28-29). Sem dúvida, a sede era uma das mais pavorosas torturas da crucifixão; mas o Salvador tinha sobretudo sede de almas: por elas ele sofrera tanto, desde o primeiro instante de sua encarnação! Ele desejaria salvar todas, santificar todas, apresentar todas elas a seu Pai; e essa sede de almas era para ele muito mais cruciante do que aquela que ressecava sua língua.
Almas cristãs que contemplais Jesus na cruz, não esqueçais esse grito de angústia! O Salvador vos ama tanto que não quer renunciar a vós: seu maior desejo, sua sede insaciável é de vos santificar, de vos tornar puras, nobres, santas, dignas dele. E, para isso, espera somente a vossa cooperação; ele mereceu para vós todas as graças que vos são necessárias para atingir um alto grau de santificação. Iremos nós, por nossas resistências, nossas covardias e inconstâncias, frustrar suas esperanças e tornar inúteis, ao menos em parte, as torturas que ele suportou por amor a nós?
Ele tem sede do nosso amor, do nosso coração. Iremos nós regatear com ele, não respondendo senão com parcimônia ao seu desejo ardente de ser amado por nós? Pensai nisto: do alto da cruz, o Redentor tudo previu, as nossas covardias, nossas ingratidões, e isso feriu profundamente o seu coração amoroso. Mas ele viu também os atos de compaixão, de reconhecimento e de amor, e essa visão o reconfortou; ela temperou essa sede ardente que ele tinha de vossa santificação, e suavizou singularmente os seus últimos momentos.
Para o Salvador, com efeito, uma doce consolação sucede à angústia. Ele vê, ele abarca com o olhar as legiões de mártires, de virgens, de apóstolos, de pais e mães de família, de almas generosas de todos as condições, que, atraídas pela cruz, oferecem--se como vítimas para completar em seu corpo e em sua alma a Paixão que ele sofreu como cabeça do corpo místico. Essa visão lhe mostra que para muitos, ao menos, seus sofrimentos não foram inúteis. Ele se rejubila com isso, e do fundo do seu coração brotam as palavras: "Tudo está consumado!" (Jo 19, 30); sim, tudo, minha Paixão, minha vida, minha obra; meu Pai foi glorificado, e as almas que desejarem serão salvas.
Esse foi o seu adeus à terra. Voltando-se então para o céu, ele lança um grande grito: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!" (Lc 23, 46). Palavra de confiança e de abandono, palavra de amor filial, que muitos discípulos irão repetir antes de deixar esta terra para lançar-se nos braços do Pai celeste.
Crucificado por volta do meio-dia, Jesus expirou por volta das três horas da tarde. "Imediatamente, o véu do templo rasgou-se de alto a baixo, em duas partes; a terra tremeu, os rochedos se fenderam, os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos ressuscitaram" (Mt 27, 51-52).
Ao pé da cruz, o centurião, vendo a terra tremer sob seus pés, exclama: "Verdadeiramente este homem era um justo, era o Filho de Deus!" (Mt 27, 54; Lc 23, 47).
Para que o seu corpo e o dos dois outros supliciados não ficassem na cruz durante a Páscoa, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos condenados, a fim de que morressem por asfixia e pudessem ser retirados mais cedo. Foi o que fizeram aos dois ladrões.
Quando chegaram a Jesus, porém, este havia acabado de expirar; para assegurar-se de que estava morto, um dos soldados perfurou-lhe o lado direito com a lança. São João, que estava ao pé da cruz, viu correr de seu peito sangue e água (Jo 19, 34). Os Padres da Igreja assim explicam esse mistério: a água representava o batismo, e o sangue, a Eucaristia, esses dois grandes sacramentos dos quais o primeiro nos faz nascer para a vida da graça, e o segundo, depois de a ter alimentado, serve de viático ao cristão em sua passagem do tempo à eternidade.
Recolhamo-nos um momento diante do Salvador na cruz, antes que seu corpo seja depositado no sepulcro. A santa Liturgia nos convida a contemplar esse grande amor por nós que transparece em toda a sua fisionomia, e que nos convida a amá-lo por nossa vez. Sua cabeça, ainda coroada de espinhos, inclina-se para nós para perdoar nossas faltas e nos dar o beijo de paz e de reconciliação. Suas mãos, que por nossos pecados cravamos na cruz, estão à nossa espera para nos apertar contra o seu peito. Seu coração, que nossas ingratidões tantas vezes transpassaram, está aberto para nos convidar a buscar nele uma faísca desse fogo divino que não cessa de consumi-lo; por toda a sua atitude, ele nos diz: "Meu filho, dá-me teu coração!"
Iremos nós recusar-lho, esse pobre coração que tantas vezes se prendeu a afeições humanas, e que, ao invés de nelas encontrar as consolações desejadas, foi por elas machucado e talvez manchado? Recusaremos nosso coração Aquele que sofreu e morreu por nós?
Digamos, antes, com um piedoso autor da idade média, um discípulo de São Bernardo": "Eu te saúdo, Salvador do mundo, eu te saúdo, amado Jesus... Beijo com amor os pregos de teus pés, as feridas cruéis e as marcas dolorosas... Faz com que se gravem em meu coração as tuas rubras chagas e tuas feridas tão profundas... Manso Jesus, bom Deus, eu clamo a ti, eu, tão pecador. Mostra-te misericordioso para comigo, e, embora eu seja indigno, não me afastes de teus pés sagrados.
"Do alto dessa cruz, olha para mim aqui embaixo, ó meu bem-amado! Atraí-me para ti, dize-me claramente: eu te curo, eu te perdoo.
"Eis que, em meu amor por ti, eu te abraço corando... tu sabes por quê...
"Que minhas ações não te ofendam; sujo e doente como estou, gostaria que teu sangue, que corre por toda parte, me lavasse e me curasse, deixando-me sem mancha.
"Do fundo do meu coração eu clamo a ti, manso Coração, pois te amo; inclina-te para o meu coração, para que ele possa unir-se a ti, coração a coração."
É assim que podemos tentar responder ao amor de Jesus por nós. Mas não nos esqueçamos de que se, com sua agonia, ele nos ensina a detestar nossos pecados, e, com sua condenação, a confessá-los humildemente, com sua imolação ele nos mostra como devemos expiá-los e repará-los. Ao percorrer a via dolorosa que ele nos traçou, não receemos carregar com valentia a nossa cruz, essa cruz de cada dia que ele coloca em nossos ombros para associar-nos à sua expiação.
Estendamo-nos amorosamente sobre essa cruz, ao lado dele, e deixemo-nos crucificar no cumprimento do nosso dever, ao invés de buscar o prazer em todas as suas formas. Que o amor nos pregue à cruz como nela pregou nosso Salvador, o amor por Aquele que nos amou até a morte e morte de cruz; amor por nossos irmãos, mesmo aqueles que nos ofenderam e feriram, repetindo a oração do Salvador: "Pai, perdoai-lhes, pois não sabem o que fazem"; amor constante e generoso, que não recue diante dos sacrifícios necessários para a glória de Deus e a salvação das almas.
Sofrendo assim com Jesus e por amor a ele, teremos parte nos frutos de sua redenção e em sua glória.
V. CONCLUSÃO: DE QUE FORMA OS SOFRIMENTOS DE CRISTO TEM UM VALOR REALMENTE DIVINO
Segundo um princípio universalmente aceito, nossas ações têm um valor proporcional à dignidade da pessoa. Com efeito, a pessoa é o complemento final de um ser, aquilo que dá o acabamento à natureza, aquilo a que chamamos o "eu", porque constitui o nosso centro de unidade e de responsabilidade, o principio que age e que, agindo, dá à ação o seu verdadeiro valor.
Para melhor compreensão, lancemos um olhar sobre esse ser complexo que é o homem: ao mesmo tempo corporal e espiritual, ele reúne em sua pessoa o mundo dos corpos e o mundo dos espíritos. Ele traz em si as características de um vegetal, de um animal e de um espírito. Como o vegetal, ele vive, cresce, alimenta-se. Como o animal, ele é dotado de sensibilidade, experimenta o prazer e a dor; conhece as coisas sensíveis e individuais; experimenta emoções e paixões, amores e ódios.
E, por fim, ele é espírito, dotado de uma alma simples, espiritual e imortal; ele percebe o universo, é capaz de abstração, ele raciocina; conhece as verdades intelectuais e as verdades morais; tem uma consciência, uma vontade livre, e sabe escolher entre o bem e o mal. Numa palavra, ele é uma pessoa humana, tendo a seu serviço faculdades vegetativas, sensitivas e intelectuais.
Ora, quando ele age como homem, todas as suas ações, mesmo aquelas que procedem das faculdades inferiores, têm um valor humano. Quando ele come e bebe, não o faz como um animal, mas comunica a essas ações um valor, uma dignidade humana; ele sabe, por exemplo, que o alimento é um meio de reparar suas forças e não somente uma experiência prazerosa que satisfaz o seu paladar; e se, como deve, ele subordina o prazer a um motivo razoável, seu ato é moralmente bom.
Apliquemos esses princípios à pessoa de Nosso Senhor. Ele é verdadeiramente homem, mas também é verdadeiramente Deus, e, consequentemente, suas ações são ao mesmo tempo humanas e divinas. Pois só há nele uma única Pessoa, a pessoa do Verbo (não há em Jesus um "eu" humano, embora haja nele uma natureza humana); o Verbo que, possuindo desde toda a eternidade a natureza divina, quis, no tempo, unir-se pessoalmente ou hipostaticamente à natureza humana. Quando ele anda, quando se alimenta, quando sente alegria ou tristeza, quando conhece a verdade por ciência experimental, por ciência infusa ou pela visão beatífica, todas essas ações são ao mesmo tempo humanas e divinas: humanas porque são realizadas na e pela natureza humana; mas divinas, porque são realizadas, em última análise, pela pessoa do Verbo que possui essa natureza humana e que se serve dela para agir.
Eis porque todas essas ações têm um valor divino, já que é a pessoa do Filho de Deus que as realiza, que assume a responsabilidade por elas e lhes confere sua dignidade e seu valor moral. Quando Jesus andava e se fatigava nos caminhos da Judeia ou da Galileia, essas fadigas eram as fadigas de um Homem-Deus, e tinham uma dignidade, um valor moral infinito. Quando ele sentia frio no inverno ou sofria com a ingratidão dos homens, era um sofrimento divino.
Quando ele trabalhava na oficina de Nazaré, esse trabalho tinha um valor infinito e contribuía para a nossa redenção. Quando ele evangelizava as cidades e aldeias da Galileia e da Judeia, era uma pregação divina. Quando se retirava para um monte, à noite, para rezar, sua oração era infinitamente agradável ao Pai, e, como tal, era sempre atendida.
Pela mesma razão, todos os seus sofrimentos - e nós vimos que estes, no fundo, nunca deixaram de existir - tinham um valor infinito, e cada um deles, por si só, teria bastado para nos resgatar, se Deus não tivesse decidido que, para operar a nossa salvação, eles fossem coroados pela crucifixão e pela morte.
Quão abundante e superabundante foi, pois, a nossa redenção! E o que declara o Papa Clemente VI: "Ele nos resgatou, não a preço de ouro e prata, bens corruptíveis, mas com seu sangue precioso, o sangue do Cordeiro sem mancha. Esse sangue, ele o derramou consentindo em deixar-se imolar, embora inocente, sobre o altar da cruz; não derramou somente uma gota a qual teria, entretanto, bastado para nossa redenção em virtude da união hipostática com o Verbo, mas derramou-o todo inteiro, com uma santa prodigalidade." E acrescenta que, com isso, ele adquiriu um tesouro espiritual infinito.
Esse tesouro é infinito por causa da dignidade infinita da pessoa, que conferia a cada ação, a cada sofrimento do Salvador um valor infinito, de tal forma que cada um deles teria sido plenamente suficiente para resgatar o mundo inteiro. Se consideramos, pois, todo o conjunto de sua vida, e se não perdemos de vista que, em todas e em cada uma de suas ações, ele agia como Homem-Deus, podemos entrever até que ponto foi infinita a nossa redenção.
Acrescentemos ainda que Nosso Senhor tudo fazia com as mais perfeitas intenções, a glória de seu Pai e a salvação eterna das almas, e que agia com o mais perfeito fervor. Assim, suas ações, já infinitas por causa da dignidade da pessoa, recebiam ainda um acréscimo de valor, embora acessório.
Essa é uma doutrina muito reconfortante para nós. Essas ações e esses méritos nos pertencem, porque somos os membros de seu corpo místico. Temos, pois, o direito de nos apropriar desses méritos e de oferecê-los a Deus por nós e por nossos irmãos. Também ele se apropria de nossas boas obras e de nossos sofrimentos, e, fazendo-os seus, comunica-lhes um valor que, sem ser igual ao de suas próprias ações, ultrapassa em muito qualquer valor humano.
Nossos sofrimentos, unidos aos de Nosso Senhor, não são divinos, porque conservamos nossa personalidade humana, mas são divinizados, no sentido em que nossa alma é dita divinizada pela graça santificante.
É o que iremos expor, primeiramente em relação às dores de Maria, mãe e cooperadora de Jesus, e depois em relação às nossas dores, que também participam da virtude redentora dos sofrimentos de Jesus.