O GRANDE
DESCONHECIDO
TERCEIRA PARTE
DA ASSISTÊNCIA PATERNAL COM QUE DEUS ENVOLVE AS ALMAS QUE SE ABANDONAM INTEIRAMENTE A ELE
CAPÍTULO I - Deus torna-se o guia das almas que se abandonam inteiramente a ele.
CAPÍTULO IX - O amor ocupa o lugar de tudo, para as almas que seguem este caminho
CAPITULO I
Deus torna-se o guia das almas que se abandonem Inteiramente a ele
«Sacrificate sacrificium justitiae et sperate in Domino: Sacrificai, diz o profeta, um sacrifício de justiça, e esperai no Senhora. Isto é, o grande e sólido fundamento da vida espiritual é dar-nos a Deus, para sermos o objeto da sua vontade, em tudo, no interior e no exterior; e depois esquecer-nos tão perfeitamente de nós, que nos consideremos como uma coisa vendida e entregada, à qual já não há direito algum; de tal sorte que o bel-prazer de Deus constitui a nossa alegria; e a sua felicidade, a sua glória e o seu ser, o nosso único bem.
Posto este fundamento, a única ocupação da alma não é já senão alegrar-se de que Deus é Deus, abandonando-se de tal modo à divina vontade que experimente igual contentamento em fazer isto ou aquilo, ou o contrário, não fazendo reflexão alguma sobre as disposições da mesma divina vontade.
Abandonar-se! Tal é, pois o grande dever que nos resta para cumprir, depois de desempenhadas fielmente as obrigações do próprio estado. A perfeição em realizar este dever será a medida da santidade.
Uma alma santa não é senão uma alma submetida livremente à vontade divina, com o auxílio da graça. Tudo o que se segue à completa entrega é obra de Deus e não do homem. Recebendo-o cegamente e num abandono e indiferença universal, Deus não pede à alma senão esta disposição; o resto determina-o e escolhe-o Ele, segundo os seus desígnios, como um arquiteto escolhe e marca as pedras do edifício que se propõe construir.
É preciso portanto amar a Deus e a ordem de Deus em tudo; e amá-lo tal como se apresenta, sem nada mais desejar. Que tais ou tais objetos sejam oferecidos, é coisa que não diz respeito à alma senão a Deus; e o que Deus dá é sempre o melhor.
Que grande síntese de espiritualidade se contém nesta máxima, neste abandono puro e completo à ordem de Deus! Neste contínuo esquecimento de si mesmo, ocupando-se eternamente em amá-lo e em obedecer-lhe, sem esses temores, essas reflexões, essas preocupações e inquietações, que provém por vezes do cuidado da própria salvação e perfeição! Uma vez que Deus se nos oferece para zelar os nossos interesses, entreguemo-los confiadamente e para sempre à sua infinita sabedoria e não nos preocupemos senão de Deus e do que a Deus diz respeito.
Vamos pois, ó alma, de cabeça bem levantada acima de tudo o que se passa fora e dentro de nós, contentes sempre com o que Deus faz de nós e o que dispõe que nós façamos. Estejamos atentos para não enveredarmos imprudentemente por essa multidão de reflexões inquietantes que, como atalhos perdidos, se oferecem ao nosso espírito para o desviar do caminho e o levar, com pura perda, a dar passos sem fim. Atravessemos este labirinto do nosso amor próprio, saltando-lhe por cima, sem nos metermos nos seus meandros intermináveis.
Vamos, ó alma, através da languidez, da doença, da secura, da desigualdade de humores, das fraquezas do espírito, das ciladas do demónio e dos homens, das suas desconfianças, ideias sinistras, invejas e preconceitos.
Como águias pairemos acima de todas essas nuvens, de olhar sempre fixo no divino sol e nas nossas obrigações que são os seus raios. Sintamos tudo isso; ser insensíveis não depende de nós. Mas lembremo-nos que a nossa vida não é uma vida de sentimento. Vivamos na região superior da alma, onde Deus e a sua vontade operam uma eternidade sempre igual, sempre uniforme, sempre imutável. Nesta mansão toda espiritual, onde o incriado, o indistinto, o inefável conserva a alma infinitamente afastada de tudo o que são sombras e átomos criados, reina a calma e tranquilidade, mesmo que os sentidos se vejam batidos pelas tempestades.
Adquiriu-se a independência dos sentidos; e as suas agi tações e inquietudes, idas e vindas e anumeráveis metamorfoses não perturbam mais do que as nuvens que escurecem um momento o céu e desaparecem. Deus e a sua vontade, eis o eterno objeto que encantando o coração no estado de fé, como no estado de glória, fará a sua verdadeira felicidade. Por mais terríveis que sejam os monstros que venham atacá-lo, a ação divina dá ao coração um bem estar todo celeste e nada poderá arrebatar-lho.
A alma de fé conhecedora do segredo de Deus, permanece completamente em paz; e tudo o que nela se passa, em vez de perturbá-la, serve para dar-lhe confiança e tranquilidade. Intimamente persuadida de que é Deus que a conduz, tudo aceita como uma graça, e vivendo completamente esquecida da matéria sobre que Deus trabalha, não pensa senão na obra encomendada aos seus cuidados. O amor anima-a sem cessar a cumprir com fidelidade e exatidão as próprias obrigações. Tudo o que é elevado na alma abandonada a Deus, é ação da graça, exceto as faltas que são nela mais leves e que esta mesma ação torna em bem. Chamo «elevado» tudo aquilo que a alma sensível recebe de impressões aflitivas ou consoladoras, pelos objetos aos quais a vontade divina a aplica sem cessar para seu bem; e chamo-o «distinto» porque é o que a alma distingue melhor, de tudo o que se passa nela. Encontrar a Deus sob todas essas aparências, é a grande arte da fé; servir-se de tudo para se unir a Deus, é o seu exercício.
CAPITULO II
Deus conduz tanto mais seguramente a alma que a Ele se abandona, quanto mais parece tirar-lhe a vista.
E sobretudo a respeito das almas que se abandonam completamente a Deus, que se realiza a palavra de S. João: Não precisais de que vos instruam, mas a unção divina vos instrui de tudo. Para saber o que Deus deseja delas, não têm senão que consultar esta unção, sondar o próprio coração e ouvir o que ele diz, pois é o intérprete da vontade de Deus segundo as diversas ocorrências. A ação divina, apesar de oculta, revela-lhe os seus desígnios, não por ideia mas por instinto. Descobre-los, ou por necessidade não lhe permitindo tomar outro partido senão o que se apresenta; ou por um primeiro movimento e uma espécie de arrebatamento sobrenatural, que o leva a proceder sem reflexão; ou enfim por uma impressão de inclinação ou afastamento, que lhe conserva toda a liberdade mas nem por isso deixa de o levar a aproximar-se ou afastar-se dos objetos.
Se nos atemos às aparências, o deixar-se levar assim para o incerto é sem dúvida uma grande carência de virtude. Se julgamos conforme as regras ordinárias, nada há de fixo, de uniforme nem de concertado, no modo de proceder; não obstante, nisso está precisamente o ponto mais elevado da virtude, e ordinariamente não se atinge senão depois de prolongado exercício. A virtude deste estado é a virtude em toda a sua pureza; é a própria perfeição.
Somos como um maestro que a um longo exercício ajuntasse um perfeito conhecimento da música; estaria tão penetrado da sua arte que, sem pensar, tudo o que fizesse para a estender, teria a plenitude da per feição. Examinadas depois as suas com posições, verificar-se-ia uma conformidade perfeita com o que prescrevem as regras da arte e adquirir-se da a convicção de que nunca seria maior o êxito do que quando, desembaraçado das regras que encadeiam o génio se observadas escrupulosamente, procede sem constrangimento; e os seus improvisos, como outras tantas obras primas seriam a admiração dos entendidos.
Assim a alma, longamente exercitada na ciência e na prática da perfeição, sob o império do raciocínio e dos métodos de que se foi ajudando para secundar a graça, adquire insensivelmente o hábito de em tudo tender instintivamente para Deus. Parece então que nada melhor pode fazer do que o que primeiro se apresenta, sem essa série de raciocínios de que antes necessitava. Não lhe resta senão proceder à ventura, sem possibilidade de entregar-se senão ao génio da graça, que não a pode desencaminhar. O que nesse estado de simplicidade ela realiza, não oferece nada que não seja maravilhoso, aos olhos esclarecidos e aos espíritos inteligentes. Carece de regra, e nada há de mais exato; de medida, e nada mais bem concertado; de reflexão, e nada há mais profundo; de indústrias, e nada mais bem ordenado; de esforços, e nada mais eficaz; de previdência, e nada se acomoda melhor aos acontecimentos que sobrevêm.
A leitura espiritual, pela ação divina dá muitas vezes a inteligência que os autores jamais tiveram. Deus serve-se das palavras e das ações dos outros, para inspirar verdades até então encobertas. Se quer esclarecer por estes meios, é próprio do abandono servir-se deles; e todo o meio aplicado pela ação divina tem uma eficácia que sobrepuja sempre a sua virtude natural e aparente. É carácter próprio do abandono levar sempre uma vida misteriosa e receber de Deus os dons extraordinários e miraculosos pelo uso das cousas comuns, naturais, fortuitas, de acaso e onde nada aparece que não seja o curso ordinário dos elementos do mundo. E assim, os sermões mais singelos, as conversas mais comuns e os livros menos elevados tornam-se para essas almas, pela virtude da ação de Deus, fontes de inteligência e de sabedoria. Por isso recolhem com tanto cuidado as migalhas que os espíritos fortes calcam aos pés. Para elas tudo é precioso, tudo serve para as enriquecer; estão numa indiferença inexprimível para com todas as coisas e não descuidam nenhuma, respeitando-as e utilizando-as ao mesmo tempo.
Quando Deus está em todas as coisas, o uso que se faz delas por sua ordem não é uso das criaturas, mas aproveitamento e gozo da ação divina, que transmite os seus dons por meio destes canais.
Não santificam por si mesmas mas somente como instrumentos da ação divina, que pode comunicar e com frequência comunica as suas graças às almas simples, tomando como instrumento coisas que poderiam parecer opostas ao fim que ela pretende. Ilumina com o lodo como com a matéria mais subtil, e o instrumento de que se quer servir é sempre dotado de eficácia. Tudo lhe é igual. A fé crê sempre que não lhe falta nada: não se queixa da privação dos meios que julga úteis para o seu adiantamento, porque o artista que os maneja supre eficazmente com a sua vontade. Desta vontade santa é que provém toda a virtude das criaturas.
CAPITULO III
As desolações que Deus fez experimentar a essa alma são amorosos artifícios, dos quais ela um die se há de regozijar.
As almas que caminham na luz cantam cânticos de luz; as que caminham nas trevas cantam o cântico das trevas. Deixai cantar a umas e às outras, até ao fim, a parte e o motete que Deus lhes destina. Quando é Deus a encher a alma nada temos nós que ajuntar, mas deixar correr todas as gotas desse fel das amarguras divinas. Assim faziam os profetas Jeremias e Ezequiel: todas as suas palavras não eram senão gemidos e suspiros, só encontrando a consolação nesses continuados lamentos. Quem tivesse detido o curso dessas lágrimas, ter-nos-ia privado de alguns dos trechos mais belos da Sagrada Escritura. Só o espírito que produz a desolação é capaz de dar a consolação: são águas diferentes, mas que brotam da mesma nascente divina.
Quando Deus atemoriza uma alma, ela treme; quando a ameaça, ela sente-se tomada de pavor. Deixai desenvolver-se a operação divina, que em toda a sua extensão traz consigo o mal e o remédio. Chorai, queridas almas, tremei na vossa inquietação e agonia; não façais esforços para mudar esses divinos temores e esses celestes gemidos. No fundo do vosso ser recebei os arroios desse mar que inundou a alma santa de Jesus. Ide sempre para diante, semeando lágrimas, enquanto o sopro da graça as fizer correr; e insensivelmente o mesmo divino sopro as fará secar. As nuvens dissipar-se-ão, o sol voltará a espalhar a sua luz, a primavera cobrir-vos-á de flores, e na sequência do vosso abandono encontrareis a admirável variedade, produzida pela ação divina em toda a sua extensão.
Verdadeiramente, o homem perturba-se em vão! Tudo o que por ele passa é semelhante a um sonho. Vem uma sombra e faz desaparecer a outra. Nos que dormem, as imaginações vão-se sucedendo: umas afligem, outras consolam. A alma é joguete destas aparências, que umas às outras se destroem. O despertar faz ver como todas eram igualmente vãs; dissipa todas as impressões, e o homem não liga importância nem aos perigos nem às felicidades que passou durante o sono.
Senhor, não poderei eu em verdade dizer que tendes adormecidos a todos os vossos filhos no vosso seio, durante a noite da fé, e que vos comprazeis de fazer perpassar pelas suas almas uma infinita variedade de sentimentos, que no fundo são apenas santos e misteriosos sonhos? No estado a que a noite e o sono os reduzem, experimentam neles verdadeiros e dolorosos temores, angústias e aflições, que Vós no dia da glória dissipareis e convertereis em verdadeiras e sólidas alegrias.
É neste despertar, e como consequência dele, que as almas santas, tornadas a elas mesmas e à plena liberdade de apreciação, não poderão cansar-se de admirar as indústrias, as invenções, as delicadezas e os enganos amorosos do Esposo; e compreenderão quanto são impenetráveis os seus caminhos, como era impossível adivinhar os seus enigmas, surpreendê-lo nos seus disfarces, sem admitir consolação alguma quando Ele queria espalhar o temor e o alarme. Neste despertar, verão os Jeremias e os Davids como o que em Deus e nos anjos era motivo de alegria, a eles os desolava inconsolavelmente.
Espíritos fortes, indústrias e ações humanas, não desperteis a esposa; deixai-a gemer, tremer, correr, buscar, mas deixai-a dormir. É verdade que o Esposo a engana e se disfarça: ela sonha, mas as suas penas são as da noite e do sonho; deixai o Esposo trabalhar esta alma querida e representar nela o que só Ele sabe pintar e exprimir, deixai-o desenvolver toda a sequência dessa aparência: quando for tempo, Ele a despertará. José faz chorar Benjamim: Criado de José, não reveleis o seu segredo a esse irmão querido. José engana-o; mas o engano vem demonstrar toda a sua penetração e toda a sua indústria. Benjamim e seus irmãos veem-se submersos em uma dor irremediável. Não é senão um jogo de José; os pobres irmãos não veem nisso senão um mal sem remédio. Não digais nada; ele tudo remediará; ele mesmo os despertará e admirarão a sua sabedoria, fazendo-lhes reconhecer em tantos males e desesperos, o motivo mais real de alegria que jamais houve para eles no mundo.
CAPÍTULO IV
Deus dá tanto mais generosamente à alma que a Ele se abandona, quanto mais parece despojá-la de tudo.
Mas procuremos aprofundar no conhecimento da ação divina e dos seus amorosos enganos. O que ao parecer tira à boa vontade, dá-lo sem a alma o conhecer. Não deixa que lhe falte nada; como se alguém sustentasse um amigo com generosidades de que deixasse parecer que era o autor, e depois, para o bem desse mesmo amigo, procedesse como quem não o quer obrigar, não cessando de lhe prestar sempre auxílio da mesma maneira, porém sem se dar a conhecer.
O amigo, não suspeitando deste dissimulado mistério de amor, sentir-se-ia picado. Quantas reflexões, quantos raciocínios sobre o procedimento do seu benfeitor! Mas em o mistério começando a revelar-se, Deus sabe os variados sentimentos que simultaneamente se elevariam nessa alma: alegria, ternura, agradecimento, amor, confusão, admiração! Não redobraria de zelo e de ardor para com o amigo? Esta prova não o firmaria ainda mais na dedicação para com ele, procurando ao diante estar mais prevenido contra semelhantes surpresas?
A aplicação salta à vista. Quanto mais parecemos perder com Deus, mais ganhamos; quanto mais nos corta do natural, mais dá de sobrenatural. Amávamo-Lo pelos seus dons; mas não os vendo agora, acabamos por amá-Lo somente por si mesmo. É pela aparente privação desses dons sensíveis, que Deus prepara esse grande dom, o mais precioso e dilatado de todos, pois a todos contém. As almas que uma vez se submeteram totalmente à sua ação, de vem interpretar sempre tudo favoravelmente: tudo, ainda mesmo a perda dos mais excelentes diretores, ou a desconfiança que involuntariamente sentiriam para com os que se oferecem mais do que se deseja. Porque, em geral, essa casta de guias que por sua conta se me-bem a correr atrás das almas, bem merecem que se desconfie deles. Os que verdadeiramente estão animados do espirito de Deus, não mostram, de lei ordinária, tanta pressa e tanta suficiência; em vez de se fazerem chamados, as almas é que os chamam; e mesmo então, nota-se sempre nos seus passos uma certa hesitação e enleio.
A alma que se entregou totalmente a Deus deve pois atravessar sem temor todas estas provas, não deixando que lhe seja arrebatada a sua liberdade. Desde que permaneça fiel à ação divina, esta ação omnipotente saberá operar maravilhas nela, apesar de todos os obstáculos. Deus e a alma realizam em comum uma obra, cujo êxito ainda que dependa totalmente do divino artífice, só pode ser comprometido pela infidelidade da alma.
Quando a alma vai bem, tudo vai bem; pois o que pertence a Deus, isto é a parte e a ação divina, é por assim dizer o reflexo ou a repercussão da fidelidade da alma. É o lado belo da obra, a qual se executa ao modo das soberbas obras de tapeçaria que se trabalham ponto por ponto e do lado do avesso. O operário que nelas se emprega não vê senão o seu ponto e a sua agulha; e todos esses pontos sucessivamente cheios fazem figuras magníficas, que não aparecem senão quando, concluídas todas as partes se expõe à vista o lado direito dessa obra de arte. Mas durante o tempo da elaboração, toda essa maravilhosa beleza está na obscuridade.
É o que sucede com a alma abandonada; não vê senão a Deus e ao seu dever. O cumprimento deste dever não é, em cada momento, senão como um ponto imperceptível, que se vai ajuntando à obra. E contudo é com estes pontos que Deus opera as suas maravilhas, das quais por vezes temos um pressentimento no tempo, mas que não serão bem conhecidas senão à luz da eternidade.
Ó como o procedimento de Deus é cheio de bondade e de sabedoria. De tal modo reservou exclusivamente para a sua graça e para a sua ação tudo o que há de sublime, de elevado, de grande e de admirável na perfeição e na santidade; e de tal maneira deixou às nossas almas, ajudadas do socorro da graça, o que é pequeno, claro e fácil, que não há ninguém no mundo que não possa atingir a perfeição mais eminente, cumprindo com amor os deveres mais comuns e obscuros.
CAPITULO V
Deus defende tanto mais poderosamente a alma que se abandona a Ele, quanto esta é menos capaz de se defender.
O movimento constante e infalível da ação divina dirige sempre a propósito a alma simples, a qual discretamente corresponde em tudo a essa intima direção, aceitando tudo o que lhe sucede e tudo quanto sente, nela e fora dela, menos o pecado. Muitas vezes isso dá-se com conhecimento, outras vezes sem ele, quando a alma é levada por instintos obscuros a dizer, a fazer ou a deixar as coisas, sem ter outras razões.
Outras vezes a ocasião e a razão que a determinam são apenas de ordem natural: a alma simples não vê aí mistério algum, antes um puro acaso, uma necessidade, uma conveniência, um nada, aos seus olhos e aos dos outros. E contudo a ação divina, que é a inteligência, a sabedoria e o conselho dos seus amigos, serve-se, em favor deles, de coisas tão simples. Faz suas essas coisas e opõe-as tão destramente a todos os que fazem projetos de os prejudicar, que se lhes torna impossível conseguirem os seus intentos.
A ação divina livra a alma e isenta-a de todos esses meios baixos e inquietos, tão necessários à prudência humana. São bons para Herodes e para os fariseus; mas aos Magos basta-lhes simplesmente seguir em paz a estrela; e ao Menino repousar nos braços de sua mãe. Os inimigos põem em jogo as suas indústrias, mas sem lhe poderem fazer mal; quanto mais se esforçam por surpreendendo e atravessar-se lhe no caminho, tanto mais tranquila e livremente ele procede.
Não procurará o seu trato, não os adulará indignamente para evitar os seus golpes, as suas invejas e os seus atos de desconfiança. As suas perseguições são-lhe necessárias. Jesus Cristo vivia assim na Judeia e vive da mesma forma nas almas simples; é generoso, suave, livre, pacífico, sem temor, sem necessidade de ninguém, vendo todas as criaturas nas mãos do Pai, pressurosas de o servirem, umas pelas suas paixões criminosas, outras por suas santas ações, estas pela falta de sujeição, aquelas pela obediência e submissão. A ação divina ajusta maravilhosamente todos esses elementos, sem que nada haja de menos nem de mais; bem e mal, há o que é necessário haver.
A ordem de Deus vai em cada momento aplicando o instrumento apropriado; e a alma simples, elevada pela fé, tudo acha bem, e não quer nem mais nem menos do que aquilo que tem. Em todo o tempo bendiz essa divina mão que sabe ministrar-lhe tão a propósito os meios e livrá-la dos obstáculos; recebe amigos e inimigos com a mesma doçura, pois essa é a maneira com que Jesus acolhe a todos, como instrumento divino. Não há necessidade de ninguém, e não obstante há necessidade de todos: A ação divina torna tudo necessário; e tudo se deve receber da sua parte, tomando cada coisa segundo a sua qualidade e segundo a sua natureza, corres podendo-lhe com doçura e humildade, tratando os simples com simplicidade e os grosseiros com bondade. E o que ensinou S. Paulo e o que melhor ainda praticava Jesus Cristo.
Só a graça pode imprimir esse ar sobrenatural que se adapta e apropria tão maravilhosamente à natureza de cada pessoa. É coisa que não se aprende nos livros, é um verdadeiro espírito profético e efeito duma revelação intima. É um ensinamento do Espírito Santo; e para o conceber é necessário ter chegado ao último grau do abandono, o desprendimento mais perfeito de todo o desígnio e de todo o interesse próprio por mais santo que seja. É necessário ter sempre diante dos olhos o único negócio deste mundo, isto é a entrega dócil e rendida à ação divina, para cumprir as obrigações do próprio estado, deixando plena liberdade no interior ao Espírito Santo, sem estar a olhar ou a fixar-se na sua ação, satisfeitos mesmo sem a conhecerem. Então há segurança; porque tudo o que sucede no mundo não é senão para o bem das almas perfeitamente submetidas à vontade de Deus.
CAPITULO VI
A alma que se abandona a Deus, em vez de resistir aos seus inimigos, encontra neles uns preciosos auxiliares.
Mais temo a minha própria ação e a dos meus amigos, do que a dos meus inimigos. Não há prudência igual à de não resistir aos inimigos, e de não lhes opor senão o simples abandono; é como navegar de vento em popa; basta conservar-se em paz. São como condenados às galés que levam o navio para o porto com toda a força dos remos. Nada há que mais seguramente possa opor-se à prudência da carne, do que a simplicidade, a qual se desvia admiravelmente de todas as trapaças do inimigo, sem as conhecer, sem mesmo pensar nelas. Ter de tratar com uma alma simples é em certo modo ter de tratar com Deus.
Que medidas tomar contra o Todo Poderoso, cujos caminhos são inescrutáveis? Deus toma na sua mão a causa da alma simples; não é necessário que ela estude as vossas intrigas, opondo inquietação a inquietação e espiando cautelosamente todos os vossos passos. O Esposo alivia-a de todos esses cuidados e ela descansa cheia de paz e de segurança. A ação divina inspira-lhe e faz lhe tomar medidas tão justas que ela chega a surpreender os que pretendem colhê-la de improviso. Aproveitando-se dos esforços do inimigo, eleva-se por onde a querem abater.
As contrariedades tornam-se lhe todas em bem; não se preocupando com a oposição dos inimigos, tira daí um esforço de serviço tão continuado e tão útil que tudo o que ela tem a temer é pôr-se a trabalhar numa obra da qual Deus quer ser o principio, mas os seus inimigos são os instrumentos, e onde ela nada tem a fazer senão contemplar pacificamente a ação de Deus e seguir com simplicidade as inclinações que Deus lhe põe no coração.
A prudência sobrenatural do Espirito divino, princípio dessas inclinações, atinge infalivelmente o ponto e as circunstâncias intimas de cada coisa, e a esse trabalho aplica a alma, sem que ela o saiba mas de modo tão apropriado que tudo o que a ela se opõe acaba por ser destruído.
CAPITULO VII
A alma que se abandona a Deus pode abster-se de dizer ou fazer qualquer coisa para a sua justificação; a ação divina é que o justifica.
Esta ordem da bondade divina que se apresenta incessantemente oculta sob o véu das cruzes e das ações mais vulgares, é a pedra firme sobre a qual a alma repousa confiadamente, ao abrigo das flutuações e das tempestades. Nesta sombra é que Deus esconde a sua divina mão, para apoiar e guiar os que a Ele se abandonam. Estabelecida firmemente neste perfeito abandono, encontra-se defendida da contradição das línguas, pois nada mais precisa de fazer ou de dizer, para sua defesa. Sendo de Deus a obra, escusado é buscar em outra parte a justificação. Os efeitos e as consequências justificá-la-ão plenamente. E deixá-la desenvolver. Dies diei eructat verbum.
Quando não são as próprias ideias a dirigir a ação, não é preciso buscar palavras para a defender. As nossas palavras só podem exprimir as nossa ideias; onde se não supõem ideias, sobram as palavras. De facto para que serviriam? Para dar razão do que se faz? Mas essa razão é desconhecida; está escondida no principio que leva à ação e do qual somente se experimentou a impressão, dum modo inefável.
Deve pois deixar-se às consequências o cuidado de justificar os seus princípios. Tudo se ampara neste encadeamento divino; tudo nele está sólido e firme, e a razão do que precede está como efeito no que se segue. Já não é uma vida de pensamentos, de imaginações, de palavras multiplicadas; nada disso ocupa a alma, nem a alimenta ou mantém. Já não vê por onde caminha nem se preocupa por onde seguir; não se auxilia com reflexões para animar-se a aturar a fadiga e a suportar as incomodidades do caminho; tudo se passa no sentimento mais intimo da sua fraqueza.
O caminho abre-se lhe diante dos pés; mete-se a ele e vai por ele sem hesitar. É pura, simples e verdadeira; avança na linha reta dos mandamentos de Deus, docemente reclinada no próprio Deus, que sem cessar encontra em todos os pontos dessa linha. E esse Deus a quem ela unicamente procura, encarrega-se de manifestar a sua presença, vingando-a dos injustos detratores.
CAPITULO VIII
Deus vivifica a alma que se abandona a Ele, pelos meios que mais parecem apropriados a dar-lhe a morte.
Há um tempo em que Deus quer ser para a alma a sua vida, realizando por si mesmo a sua perfeição de maneira secreta e desconhecida. Então todas as ideias próprias, luzes, indústrias, pesquisas e raciocínios são uma fonte de ilusões. E quando a alma, depois de ter experimentado muitas vezes as tristes consequências às quais a conduziu a propriedade de si mesma, reconhece enfim quanto ela lhe é inútil, descobre que Deus escondeu e confundiu todos os canais, para que só n'Ele mesmo encontrasse a vida. Então, convencida do seu nada e de que tudo quanto pode haurir do fundo de si mesma só lhe é prejudicial, abandona-se a Deus, para nada ter senão a Ele.
Deus torna-se portanto para a alma uma fonte de vida, não por ideia, por iluminação ou reflexões (tudo isso nela é unicamente uma fonte de ilusão), mas pela realidade das suas graças, escondidas sob as aparências mais estranhas. Como a alma não conhece a operação divina, recebe dela a virtude e a substância por mil espécies de circunstâncias que julga serem a sua ruína. Para semelhante escuridão, não há remédio, é deixar-se afundar nela. Deus dá-se nela e consigo dá todas as coisas, em obscuridade de fé; a alma está então como cega; ou para assim dizer, é semelhante a um doente que ignora a eficácia do remédio e só lhe sente o amargor. Imagina muitas vezes que lhe querem dar a morte; as crises e debilidades que lhe sobrevêm, parecem justificar os seus temores; e contudo é sob esta aparência de morte que recebe a saúde, tomando-os confiado na palavra do médico que lhes receita.
Deste modo as almas abandonadas vivem sem preocupação alguma das suas enfermidades, exceto das doenças que saltam à vista as quais por sua natureza obrigam à cama e a tomar os remédios convenientes. Os desfalecimentos e impotências das almas de abandono não passam de ilusões e aparências, as quais devem afrontar confiadamente. É Deus que lhes envia e permite para lhes excitar a fé e o abandono no qual para elas está o verdadeiro remédio.
Sem lhes dar sequer atenção, devem continuar o seu caminho generosamente, mas ações e sofrimentos da ordem de Deus, empregando as suas forças no serviço de Deus sem receio e sem temor, banindo para longe tudo o que sejam concessões e fraquezas que prejudicam o vigor do espírito. Esta energia do espirito tem uma virtude oculta e desconhecida para dar forças a um corpo débil; e um ano de vida assim nobre e generosa vale muito mais do que um século de cuidados e receios.
É necessário manter habitualmente um ar e uma atitude de boa disposição e de boa vontade. Conduzidos, amparados e protegidos pela fortaleza divina, os seus filhos não devem mostrar senão heroísmo em todo o exterior. Os objetos temerosos que ela lhes apresenta, não são nada. Se lhes acena com eles, não é senão para tornar-lhes mais bela a vida pelo exercício de ações mais gloriosas. Mete-os em embaraços de toda a espécie, nos quais a prudência da carne, não vendo a possibilidade de nenhuma saída, tem a sensação da sua completa fraqueza e se considera diminuída e confundida.
É então que a fortaleza divina aparece em todo o seu esplendor, libertando-os mais maravilhosamente do que os historiadores fabulosos ajudados por uma fecunda imaginação destrinçam as intrigas e os perigos dos seus heróis imaginários, que terminam sempre por chegar com felicidade ao fim das suas aventuras. Com uma destreza muito mais admirável dirige-as mais felizmente por entre os perigos de morte, de monstros e infernais, de demónios e suas ciladas.
Eleva estas almas até ao céu; e todas são objeto real destas histórias místicas, muito mais belas e mais encantadoras e curiosas do que todas quantas inventou a imaginação humana.
Coragem, pois ó alma, conduzida e dirigida e sustentada pela mão segura, invisível, toda poderosa e infalível da divina Providência. Em paz e alegria caminhemos para a nossa meta, e de tudo o que se nos apresenta sirvamo-nos como de objeto para as nossas vitórias. Para combater e para vencer é que nós marchamos e militamos debaixo das suas bandeiras. Exivit vincens ut vinceret. Quantos passos dermos sob estes auspícios, tantos serão os triunfos. O espírito de Deus segura na mão a pena e mantém aberto o livro onde se continua a escrever a história sagrada, que não está ainda concluída e cuja matéria se não esgotará até ao fim do mundo. Esta história não é senão a narração da ação e dos desígnios de Deus sobre os homens. De nós depende o figurar nesta história e continuar a sua trama pela união dos nossos sofrimentos e das nossas ações com a ação e a direção de Deus.
Não, não, tudo o que se nos apresenta quer para realizar quer para sofrer, não é para a nossa perdição. É a Providência que nos vai levando pela mão, para nos fornecer a matéria desta Escritura Sagrada que todos os dias se vai acrescentando.
CAPITULO IX
O amor ocupe o lugar de tudo, para as almas que seguem este caminho.
Despojando de tudo as almas que se lhe entregam sem reserva, Deus dá-lhes uma coisa que para elas tem o lugar de tudo, de luz, de sabedoria, de vida e de força: é o seu amor. Nestas almas, o amor divino é como um instinto sobrenatural. Cada coisa na natureza tem o que é conveniente à sua espécie: cada flor seu encanto, cada animal seu instinto, cada criatura sua perfeição. Assim também nos diversos estados da graça cada um tem sua graça específica, e há sua recompensa para cada um daqueles cuja boa vontade se conforma com o estado em que o colocou a Providência.
Uma alma lança-se na ação divina desde que no seu coração se encontra formada a boa vontade; e esta ação tem sobre ela mais ou menos influência, segundo se abandona mais ou me nos. A arte do abandono não é senão a arte de amar. O amor divino concede tudo a quem lhe não recusa nada. E como ele é que inspira todos os desejos duma alma que só vive dele, não pode deixar de os ouvir: porventura pode o amor não querer aquilo que quer?
A ação divina não olha senão à boa vontade; não a atrai a capacidade das outras faculdades, como nem a incapacidade a afasta. Encontrando um coração bom, puro, reto, simples, submisso, filial e respeitoso, é quanto lhe basta. Apodera-se desse coração, toma posse de todas as suas faculdades, e dispõe tão admiravelmente todas as coisas para o seu maior bem, que em todas encontrará modo de se santificar. Se nela entra o que dá a morte às outras almas, o contraveneno da sua boa vontade não deixará de atalhar os seus efeitos. Se chegar à borda do precipício, a ação divina afastá-la-á; se ai a deixar, impedi-la-á de cair; e se caiu, retirá-la-á. Tudo bem considerado, as faltas destas almas são apenas faltas provenientes da fragilidade. O amor sabe tirar delas sempre vantagem. Por insinuações secretas, faz-lhes compreender o que têm a dizer ou a fazer, segundo as circunstâncias.
Recebem em si mesmas como que uns fulgores da inteligência divina: Intellectus bonus omnibus facientibus eum. Esta inteligência divina acompanha-as em todos os seus caminhos, tira-as de todos os maus passos nos quais porventura a sua simplicidade as fez entrar. E se talvez se lançaram em algum compromisso que lhes seja prejudicial, a Providência proporciona-lhes soluções felizes que tudo reparam. Por mais que contra. ela se formem e se multipliquem as intrigas, a Providência desfaz todos os nós, confunde os seus autores, os quais tomados dum espírito de vertigem vêm a cair nas ciladas que eles mesmos prepararam. Conduzidas pela Providência, as almas às quais se destinavam essas ciladas, realizam, sem pensar nisso, certo número de coisas talvez inúteis na aparência, mas que servem para as libertar sem demora de todos os embaraços e dificuldades em que a sua retidão, aproveitada pela malicia dos inimigos as tinha precipitado!
Oh! Como esta boa vontade é avisado procedimento! Quanta prudência não há na sua simplicidade, quanta destreza na sua inocência e na sua franqueza, quantos mistérios e segredos na sua retidão! Vede o jovem Tobias. Não passa duma criança; mas Rafael está ao seu lado. Com tal guia, caminha seguro; nada lhe mete medo e nada lhe falta. Os próprios monstros que lhe saem ao caminho, são os que lhe fornecem alimento e remédios; e ele não se ocupa senão de bodas e festins, pois esse é, na ordem da Providência, o seu objeto presente.
Não é que não tenha outros negócios, mas todos estão confiados a essa inteligência encarregada de o assistir; e tão bem resolvidos se encontram, que nunca teve semelhante êxito, pois só vê prosperidades e bênçãos. Contudo a mãe chora, mergulhada na mais amarga tristeza; mas o pai está cheio de fé. E o filho tão amargamente chorado volta cheio de gozo e com toda a sua família entra a desfrutar da maior alegria.
O divino amor é, pois, para as almas que a ele se entregam em cheio, o princípio de todos os bens. E para adquirir este bem inestimável, basta desejá-lo verdadeiramente.
De fato, queridas almas, Deus não exige senão o vosso coração; se buscais este tesouro, este reino onde só Deus reine, encontrá-lo-eis. Se o vosso coração está completamente entregue a Deus, é desde logo esse tesouro, esse próprio reino que desejais e buscais. Desde que queremos a Deus e a sua vontade santíssima, gozamos de Deus e da sua vontade, e este gozo é proporcional ao nosso desejo. Amar a Deus é desejar sinceramente amá-lo; porque o amamos, queremos ser instrumentos da sua ação, para que o seu amor se exercite em nós e por meio de nós.
A ação divina não corresponde à destreza da alma simples e santa; mas à pureza da intenção, e não às medidas que se empregam ou aos projetos que se formam, nem aos modos que se excogitam ou aos meios que se escolhem. Em tudo isso a alma pode enganar-se, nem é raro que tal suceda; porém a sua retidão e a bondade da sua intenção, essas não a enganam nunca. Desde o momento que Deus encontra esta boa disposição, desconta-lhe tudo o resto e considera como feito o que ela realizaria infalivelmente se vistas mais seguras secundassem a sua boa vontade.
A boa vontade nada tem, portanto, que temer; se cai, não pode cair senão debaixo da mão omnipotente que lhe serve de guia e a ampara e a vai reconduzindo ao bom caminho, do qual porventura se desviou. Nela a alma encontra o remédio nas desordens em que a lança o esforço e a cegueira das faculdades que a desviam; faz-lhes sentir quanto deve desprezá-las, para não contar senão com ela e se abandonar totalmente à sua direcção infalível. Os erros em que caem as almas boas terminam portanto no abandono, e jamais um coração bom pode ser encontrado desprevenido, pois é dogma de fé que tudo coopera para o seu bem.
CAPÍTULO X
A alma que se abandona a Deus encontra mais luz e mais força na submissão à ação divina, do que têm todos os orgulhosos que lhe resistem
De que servem as ilustrações mais sublimes, e até as divinas revelações, quando não há amor à vontade de Deus? Foi assim que Lúcifer se perdeu; a ação divina descobrindo lhe o mistério da Encarnação, serviu só para fazer brotar nele sentimentos de inveja. Pelo contrário, uma alma simples e ilustrada unicamente pelas luzes da fé, não se pode cansar de admirar, louvar e amar a ordem de Deus; de O encontrar não somente nas criaturas santas, mas ainda mesmo na confusão e desordem das mais desconcertadas. Um raio de fé pura ilumina mais uma alma santa, do que Lúcifer foi iluminado por suas próprias luzes, apesar de tão sublimes.
A ciência da alma fiel às próprias obrigações, tranquilamente submissa às ordens intimas da graça, doce e humilde para todos, é de maior valor do que a mais profunda penetração dos mistérios. Se soubéssemos ver a ação divina em todo este orgulho e dureza da ação das criaturas, recebê-las-íamos sempre com doçura e respeito. As suas desordens não nos fariam deixar a ordem, por mais que nos fosse desagradável a sua maneira de proceder.
Deve-se ver nelas a ação divina que trazem consigo e comunicam, quando somos fiéis em praticar a doçura e a humildade. Não se há de olhar para o caminho que elas seguem, mas avançar sempre com firmeza no próprio caminho; deste modo, dobrando-os sua veemente é que se quebram os cedros e se derrubam as rochas.
Que há no mundo que seja capaz de resistir à força duma alma fiel, doce e humilde? Se queremos derrotar infalivelmente todos os nossos adversários, não devemos opor-lhes outra espécie de armas. Jesus Cristo entregou-no-las para nossa defesa; quem as sabe manejar, não tem nada que temer. É preciso não ser cobarde mas decidido, como convém a instrumentos divinos. Tudo quanto vem de Deus, é maravilhoso e sublime; e jamais a ação que faz guerra a Deus, poderá resistir a quem está unido à ação divina pela doçura e pela humildade.
O que é Lúcifer? Um belo espírito, o mais brilhante e esclarecido de todos os espíritos, mas um descontente de Deus e da ordem divina. O mistério da iniquidade não é senão a extensão deste des. contentamento manifestando-se de todas as maneiras possíveis. Lúcifer, enquanto dele depende, nada quereria deixar subsistir na ordem por Deus estabelecida. Em toda a parte onde Lúcifer se introduz, aparece logo desfigurada a obra de Deus. Quanto mais o homem é dotado de luzes, de ciência e de capacidade, tanto mais há que recear se lhe falta o fundamento da piedade que consiste em viver na alegria de Deus e da sua santa vontade. E por um coração bem regulado que se dá a união à ação divina; sem ele, não temos senão a pura natureza que, infelizmente, de ordinário não é senão pura oposição à ordem de Deus. Este divino e omnipotente artífice não reconhece como seus instrumentos senão os humildes; e os soberbos que se opõem condena-os a servirem como de vis escravos no cumprimento dos seus amorosos desígnios.
Quando vejo uma alma para quem o seu tudo é Deus e a submissão às ordens de Deus, ainda que seja desprovida de outros dotes e qualidades, não posso deixar de exclamar: Eis uma alma dotada de grandes talentos para servir a Deus. Isto era o que na Santíssima Virgem e em S. José aparecia ao exterior. O resto, sem esta disposição da alma, infunde-me grave preocupação e temor, fazendo-me recear a ação de Lúcifer. Por isso, mantendo-me numa prudente reserva, mais firmemente me apoio no meu fundo de simplicidade, para o opor a toda a essa sensibilidade espetaculosa, que bem considerada em si mesma, não é senão como vidro frágil.
CAPÍTULO XI
A alma que se abandona a Deus sabe vê-lo mesmo no soberbo que luta contra a divina ação Todas as criaturas, quer sejam boas quer sejam más, lhe manifestam.
A ordem de Deus é toda a prática da alma simples, que sabe reconhecê-lo e reverenciá-lo, nas arbitrariedades e caprichos com que o soberbo pretende tirar-lhe a paz. O soberbo despreza uma alma, que nele e em todas as suas ações não vê senão a Deus. Muitas vezes o 50-berbo pensa que a modéstia dessa alma é um sinal de assentimento, quando é apenas temor amoroso de Deus e da vontade divina que lhe é presente no soberbo.
Não, pobre insensato, a alma simples não tem medo de ti. Pelo contrário, tu despertas nela um sentimento de compaixão; é a Deus que ela res ponde, quando tu pensas que fala para ti; é com Deus que ela trata, e a ti não te olha senão como a um dos seus escravos, ou antes como a uma sombra sob a qual Deus se oculta. E por isso quanto mais alto é o tom em que falas, mais baixo ela te responde; e quando julgas tê-la apanhado de surpresa, afinal é ela que te surpreende a ti. As tuas atenções e as tuas violências não às considera senão como favores da Providência. O soberbo é um enigma que a alma simples, iluminada pela fé, resolve com a maior clareza.
Este hábito de encontrar a Deus em tudo o que vai sucedendo a cada momento em nós e ao redor de nós, é a verdadeira ciência das coisas; é uma revelação continua da verdade; é uma comunicação com Deus, renovada incessantemente; é o gozo do Esposo, não às escondidas, às ocultas, na cela e na vinha, mas a descoberto e em público, sem temor de criatura alguma. É um fundo de paz, de amor e de alegria em Deus, vivendo e operando sempre o mais perfeito, em tudo o que se apresenta. É o paraíso eterno, que em verdade não é presentemente senão conhecido e saboreado em coisas informes e envolvidas de trevas; mas o Espírito de Deus, que nesta vida vai dispondo todos os elementos desse paraíso por meio desta continuada e fecunda presença da sua ação, dirá no dia da morte: Faça-se a luz - Fiat lux; e então veremos claramente os tesouros encerrados nesse abismo de paz e de contentamento de Deus, que os olhos da fé sabiam descobrir de continuo, em cada ação e em cada sofrimento.
Quando Deus se dá assim, as coisas mais comuns tornam-se extraordinárias, apesar de não o parecerem. É que este caminho é já, por si mesmo, extraordinário; e por conseguinte não precisa ser adornado de maravilhas que lhe não são próprias. É um milagre, uma revelação, um gozo continuado, com pequenas interrupções; mas em si mesmo, o seu carácter é não ter nada de sensível nem de maravilhoso, mas tornar maravilhosas todas as coisas comuns e sensíveis.
CAPITULO XII
Deus assegura às almas que lhe são fiéis uma gloriosa vitória sobre as potências do mundo e do inferno
Se neste mundo a ação divina se esconde sob exteriores de fraqueza e debilidade, é para aumentar o mérito das almas que lhe são fiéis; mas o seu triunfo nem por isso deixa de estar menos assegurado. A história do universo não é se não a história da luta que as potências do mundo e do inferno movem, desde o principio, às almas humildemente consagradas à ação divina. Nesta luta, as vantagens parecem estar todas do lado do orgulho; mas a humildade é que finalmente sai sempre vitoriosa.
A figura do mundo é-nos representada sob a forma duma estátua de oiro, de bronze, de ferro ou de barro. Este mistério de iniquidade, mostrado em sonhos a Nabucodonosor, não é senão um conjunto confuso de todas as ações interiores e exteriores dos filhos das trevas. Estes são ainda figurados pela besta irrompendo do abismo desde o alvorecer dos séculos, para guerrear o homem interior e espiritual; os acontecimentos dos nossos dias são apenas a continuação dessa guerra. Os monstros vão-se sucedendo uns após outros; o abismo devora-os e devolve-os incessantemente, em novas e cada vez mais ferozes arremetidas.
O combate começado no céu entre Lúcifer e S. Miguel, dura ainda. O coração desse anjo soberbo e invejoso tornou-se um abismo inesgotável de toda a sorte de males. Ateia a revolta dos anjos uns contra os outros no céu; e desde a criação do mundo, o seu esforço consiste em suscitar de continuo, entre os homens, novos celerados que vão tomando o lugar daqueles que o abismo devorou. Lúcifer é o chefe dos que recusam obediência ao Omnipotente; este mistério de iniquidade não é senão a inversão ou antes a subversão da ordem de Deus. É a ordem ou mais exatamente, a desordem do demónio. Tal desordem é um mistério, pois esconde sob aparências belas, infinitos e irremediáveis males.
Desde Caim até aos que hoje assolam o universo, todos os ímpios que declararam guerra a Deus foram, na aparência, grandes e poderosos do mundo, que levantaram grande ruído e a quem os homens adoraram. Mas esta pomposa aparência é ainda um mistério. São bestas que do abismo subiram umas após outras, para derrubar a ordem de Deus; mas esta ordem, que é outro mistério, opôs-lhes sempre homens verdadeiramente grandes e poderosos, que desferiram o golpe mortal a esses monstros. E à medida que outros foram vomitados pelo inferno, o céu fez nascer também novos heróis para lhes dar batalha. A história antiga, sagrada e profana, é a história destes combates.
A ordem de Deus ficou para sempre vitoriosa; os seus heróis são felizes por toda a eternidade. A injustiça jamais pôde proteger os desertores; pagou-lhes com a morte e morte eterna.
O ímpio, no paroxismo da sua loucura, julga-se sempre invencível. O meu Deus! Que meio haverá de vos resistir? Quando uma só alma tivesse o inferno e o mundo contra ela, nada teria a temer encontrando-se no partido do abandono à ordem de Deus. Essa exibição monstruosa da impiedade, armada de tamanho poder, essa cabeça de ouro, esse corpo de prata, de bronze e de ferro, tudo isso não passa dum fantasma de poeira deslumbrante. Basta uma pedra para o fazer joguete dos ventos.
Como é admirável o Espírito Santo em representar a todos os séculos! Tantas revoluções surpreendendo dolorosamente a humanidade; tantos heróis, aureolados de brilho deslumbrante, rolando como astros de fulgor sem igual pelo céu da história; santos acontecimentos extraordinários; tudo isso não passa dum sonho que Nabucodonosor, ao despertar vê desaparecer da sua memória, deixando-lhe gravadas no espirito as mais profundas impressões.
Todos esses monstros aparecem ao mundo unicamente para excitar a coragem dos filhos de Deus; e quando estes já estão bastante exercitados, Deus concede-lhes a glória de matar o monstro, e chama novos atletas para o campo da batalha. E assim esta vida é um continuo espetáculo, que dá alegria ao céu, anima ao combate os santos da terra e lança a confusão nas hostes do inferno.
Deste modo, tudo o que se opõe à ordem de Deus não serve senão para a tornar mais adorável. Os servidores da iniquidade tornam-se escravos da justiça, e a ação divina edifica a Jerusalém celeste com as ruínas de Babilônia.
ATO DE ABANDONO
O meu Deus, eu não sei o que hoje me há de suceder; ignoro-o por completo; mas sei certamente que nada poderá acontecer-me que Vós não tenhais previsto, regulado e ordenado de toda a eternidade: E isto me basta. Adoro os vossos desígnios impenetráveis e eternos e a eles me submeto de todo o coração. Quero tudo, aceito tudo e uno o meu sacrifício ao de Jesus Cristo meu divino Salvador. Peço-Vos, em seu nome e pelos seus merecimentos infinitos, paciência nas minhas penas e submissão perfeita e inteira a tudo o que me suceder segundo o vosso divino beneplácito. Assim seja.
IMPRIMATUR
Bracarae, 8 Novembris 1955
Canonicus Emmanuel Peixoto - Vicarius Generalis.
IMPRIMI POTEST.
Olisipone 25 julil 1955
Josephus Craveiro, S. J.