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 SEGUNDA PARTE

 

DA AÇÃO DIVINA E DA MANEIRA COMO ELA TRABALHA SEM CESSAR NA SANTIFICAÇÃO DA ALMA

 

 

CAPÍTULO I - A ação divina está presente em toda a parte e sempre, ainda que não seja visível senão aos olhos da fé.

CAPÍTULO II - A ação divina é tanto mais visível aos olhos da fé, quanto são mais opostas as aparências sob as quais se esconde

CAPÍTULO III - A ação divina oferece-nos a cada instante bens infinitos, e da-no-los à medida da nossa fé e do nosso amor.

CAPÍTULO IV - Deus revela-se-nos nos acontecimentos mais comuns, de maneira tão misteriosa porém tão real e tão adorável como nos grandes acontecimentos da história e nas sagradas Escrituras

CAPÍTULO V - A ação divina continua nos corações a revelação começada nas, sagradas Escrituras; mas as letras de que se serve para a escrever, só no grande die da eternidade serão visíveis.

CAPÍTULO VI - O amor divino dá-se a nós por meio de todas as criaturas, as quais o comunicam, mas o ocultam, parecendo-se assim às espécies eucarísticas.

CAPÍTULO VII - A ação divina é tão Indignamente tratada por muitos cristãos, nesta manifestação de cada dia, como Jesus Cristo o foi pelos Judeus em sua própria carne.

CAPÍTULO VIII - A revelação do momento presente é-nos mais útil, porque se dirige diretamente a nós

CAPÍTULO IX - A revelação do momento presente é uma fonte perene de santidade

CAPÍTULO X - O momento presente é a manifestação do nome de Deus e o advento do seu reino

CAPÍTULO XI - A ação divina traz a todas as almas a santidade mais eminente; basta abandonar-se a ela, para se santificar

CAPÍTULO XII - Só a ação divina é que nos pode santificar, porque se regula pelo exemplar divino da nossa perfeição

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CAPITULO I

 

A ação divina está presente em toda a parte e sempre, ainda que não seja visível senão aos olhos de fé

 

Na mão de Deus todas as criaturas estão vivas; os sentidos não percebem senão a ação da criatura, mas a fé vê em tudo a ação divina. Ela cré que Jesus Cristo vive em tudo e opera em toda a extensão dos séculos; que o menor momento e o mais pequeno átomo encerram uma porção dessa vida escondida e dessa ação misteriosa. A ação das criaturas é um véu que cobre os profundos mistérios da ação divina. Jesus Cristo, depois da ressurreição, surpreendia os discípulos com as suas aparições; apresentava-se lhes sob figuras que o encobriam; e logo que se manifestava, desaparecia. Este mesmo Jesus, que está vivo e sempre operante, surpreende ainda as almas que não têm a fé bastante esclarecida.

 

Não há momento nenhum em que Deus não se apresente, sob a aparência de alguma obrigação ou de algum dever. Tudo o que se realiza em nós, à roda de nós, e por nós, encerra e cobre a sua ação divina que está presente dum modo real e certíssimo, mas com uma presença invisível; donde resulta que somos sempre surpreendidos e não conhecemos a sua operação senão quando ela já não subsiste.

 

Se nós rasgássemos o véu e estivéssemos vigilantes e atentos, Deus revelar-se-nos-ia sem cessar e gozaríamos da sua ação em tudo o que nos acontece. Em cada coisa diríamos: Dominus est! É o Senhor! E verificaríamos em todas as circunstâncias, que recebemos um dom de Deus; consideraríamos as criaturas como fracos instrumentos nas mãos dum artífice todo poderoso, e sem dificuldade reconheceríamos que nada nos falta, e que o cuidado contínuo de Deus O leva a distribuir-nos, a cada instante o que nos convém. Se tivéssemos fé, sentir-nos-íamos agradecidos a todas as criaturas; acariciá-las-íamos e estar-lhes-íamos reconhecidos no nosso interior, por nos servirem e se tornarem tão favoráveis à nossa perfeição, aplicada pela mão de Deus.

 

Se vivêssemos, sem interrupção, da vida da fé, estaríamos em um contínuo trato com Deus; falar-lhe-íamos face a face. O que é o ar para transmitir os nossos pensamentos e as nossas palavras, seria para as de Deus tudo o que nos acontece de fazer ou sofrer; seria o corpo de sua palavra, que em tudo se nos representaria no exterior; tudo para nós seria santo, tudo nos seria excelente. A glória estabelece um tal estado no céu; a fé estabelecê-lo-ia sobre a terra. A diferença não seria senão no modo de o realizar.

 

A fé é o intérprete de Deus. Sem os esclarecimentos que ela dá, não entendemos nada da linguagem das criaturas. É uma escrita em cifra, um aglomerado de números, onde só vemos confusão; é um montão de espinhos, do meio dos quais não supomos que Deus possa falar. Mas a fé mostra-nos como fazia a Moisés, o fogo da divina caridade ardendo no centro desses espinhos; dá-nos a chave desses números, e faz-nos descobrir nessa confusão as maravilhas da sabedoria do alto. A fé comunica a toda a terra uma face celeste; por ela é que o coração se sente transportado, arrebatado, para conversar no céu.

 

A fé é a luz do tempo, só ela atinge a verdade sem a ver; toca o que não sente; vê este mundo como se ele não existisse, vendo uma coisa muito diferente do que aparece. É a chave dos tesouros, a chave do abismo, a chave da ciência de Deus. A fé é que nos faz ver a verdadeira linguagem das criaturas; por ela é que Deus se revela e se manifesta em todas as coisas. Ela é que as diviniza, lhes tira o véu e descobre a verdade eterna.

 

Tudo o que nós vemos não é senão vaidade e mentira; a verdade das coisas está em Deus. Que diferença tão grande entre as ideias de Deus e as nossas ilusões. Como é que pode suceder que estando continuamente a ser advertidos de que o que se passa no mundo não é senão uma sombra, uma figura, mistério de fé, contudo nós procedamos sempre conforme ao sentido natural e humano das coisas, que não é senão um enigma? Caímos na armadilha como insensatos, em vez de levantarmos os olhos e de nos remontarmos ao princípio, à fonte, à origem das coisas, onde tudo tem outro nome e outras qualidades; onde tudo é sobrenatural, divino, santificante, onde tudo participa da plenitude de Jesus Cristo; onde tudo é pedra da Jerusalém celeste, em que tudo entra e faz entrar nesse edifício maravilhoso. Vivemos guiados pelos sentidos, e tornamos inútil essa luz da fé, que nos guiaria tão seguramente no labirinto de tantas trevas e figuras, no meio das quais nos perdemos como Insensatos. Pelo contrário, aquele a quem a fé serve de guia, nada quer senão a Deus e de Deus vive sempre, deixando para trás a figura e ultrapassando-a.

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CAPITULO II

 

A ação divina é tanto mais visível aos olhos da fé, quanto são mais opostas às aparências sob as quais se esconde.

 

A alma iluminada pela fé está bem longe de julgar das coisas como aqueles que as medem pelos sentidos, ignorando o tesouro inestimável que elas encerram. O que sabe que uma pessoa disfarçada é o rei, procede de modo bem diferente quando ela chega, do que aquele que vendo a figura dum homem vulgar, o trata segundo a aparência exterior. Do mesmo modo a alma que vê a vontade de Deus nas mais pequeninas coisas, nas mais desoladoras e angustiantes, recebe tudo com igual alegria, com igual reverência e júbilo; o que outros temem e fogem com horror, honra-se ela de o receber, abrindo-lhe de par em par as portas do coração. A bagagem é pequena, os sentidos desprezam-na; mas o coração, sob essa aparência vil, reverencia do mesmo modo a majestade real; e quanto mais ela se abate para vir em segredo e sem ruído, tanto mais o coração se sente penetrado de amor.

 

Não posso exprimir aqui o que sente o coração quando acolhe a divina vontade, tão pobre, tão abatida, tão diminuída. O como esta pobreza de Deus, este abatimento até habitar numa estrebaria, reclinado sobre um pouco de palha, chorando e tremendo de frio, penetra no belo Coração de Maria! Interrogai os habitantes de Belém, vede o que pensam deste menino. Se ele estivesse num palácio, rodeado de fausto como um príncipe, não faltariam a Lhe fazer corte. Mas perguntai a Maria, a José, aos Magos, aos pastores; e eles vos dirão que encontram nesta pobreza extrema uma coisa que não sabem definir mas pela qual Deus se lhes torna maior e mais amável. O que falta aos sentidos, realça-o, aumenta-o e enriquece-o a fé; quanto menos alimento há para os olhos, mais há para a alma.

 

Adorar a Jesus no Tabor, amar a vontade de Deus nas coisas extraordinárias, não é uma vida de fé em grau tão excelente como amar a vontade de Deus nas coisas comuns e adorar a Jesus sobre a Cruz; porque a fé não é excelentemente viva senão quando o aparente e o sensível a contradizem e se esforçam por destruí-la. Esta guerra dos sentidos torna a fé mais gloriosamente vitoriosa. Encontrar a Deus tão bom nas coisas mais pequenas e mais comuns como nas maiores, é ter uma fé invulgar, uma fé grande e extraordinária.

 

Contentar-se com o momento presente, é saborear e adorar a vontade divina em tudo o que temos de fazer e de sofrer, nas coisas que pela sua sucessão integram este momento atual. As almas assim dispostas adoram a Deus com redobrado amor e reverência, nos estados mais humildes; nada O esconde ao olhar perspicaz da fé. Quanto mais os sentidos teimam em afirmar «ai não está Deus», tanto mais essas almas abraçam e estreitam ao coração o ramalhete de mirra; nada as afasta nem as desvia.

 

Maria há de ver os Apóstolos abandonarem a Jesus; porém Ela permanecerá junto à cruz e reconhecerá o seu Filho, por mais que os escarros e as chagas o tenham desfigurado. Pelo contrário, essas chagas que O desfiguram tornam-no mais adorável e mais amável à ternura dos olhos da Mãe, e quanto mais blasfémias vomitarem os algozes contra Ele, mais crescerá o seu amor e veneração.

 

A vida da fé não é senão uma busca incessante de Deus através de tudo aquilo que O esconde, o desfigura e por assim dizer o destrói e aniquila. É verdadeiramente uma reprodução da vida de Maria, que desde o presépio ao Calvário se conserva unida a um Deus desconhecido, abandonado e perseguido de todos. De igual maneira as almas de fé passam além duma série continuada de mortes, de véus, de sombras e de aparências, que teimam em tornar irreconhecível a vontade de Deus, a qual elas buscam e amam até à morte da cruz. Sabem perfeitamente que é preciso deixar continuamente as sombras, para correr após este divino sol que, desde o seu nascimento até ao seu acaso mesmo encoberto por escuras e densas nuvens, de contínuo ilumina, aquece e abrasa os corações fiéis que o bendizem, louvam e contemplam em todos os pontos desse misterioso percurso.

 

Correi pois ó almas fiéis, alegres e infatigáveis, após este querido Esposo que faz o seu caminho a passos de gigante, dum extremo ao outro do céu, sem nada se poder ocultar a seus olhos. Caminha por sobre as ervinhas do prado do mesmo modo que por cima dos cedros das florestas. Sob os seus passos estão os grãos de areia da praia, como os dorsos das montanhas. Por toda a parte já Ele pousou os seus pés; é segui-Lo sem desfalecer, com a certeza de encontrá-Lo onde quer que vos acheis.

 

O que deliciosa paz desfruta a alma a quem a fé ensinou a ver assim a Deus através de todas as criaturas, como através de um véu diáfano.

 

Então as escuridões tornam-se luminosas, suaves as amarguras. A fé, mostra-nos as coisas na sua verdadeira luz, muda-lhes a fealdade em beleza e a malicia em bondade. A fé é a mãe da doçura, da confiança e da alegria; não pode usar senão de ternura e compaixão para com os seus inimigos, que tanto a enriquecem à própria custa. Quanto mais a ação da criatura é malévola, tanto mais a ação de Deus a torna proveitosa. Ao passo que o instrumento humano se esforça em prejudicar, o divino artífice, em cujas mãos está, serve-se dessa mesma malícia para desviar da alma aquilo que lhe pode fazer mal.

 

A vontade de Deus não tem senão doçuras, favores, tesouros, para as almas submissas; nunca será demais a confiança que ponhamos nela, nem a ela nos abandonaremos demasiadamente. Ela pode e quer sempre o que mais há de contribuir para a nossa perfeição, contanto que de nossa parte não ponhamos obstáculos à ação de Deus. A fé não duvida. Quanto mais os sentidos se mostram inseguros, revoltados, desesperados, tanto mais a fé nos diz: aí está Deus, tudo vai bem.

 

Não há coisa alguma que a fé não possa penetrar e dominar. Dissipa todas as trevas; e por mais esforço que as sombras façam, passa através delas, para chegar à verdade, abraça-a sempre com firmeza e jamais a abandona.

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CAPITULO III

 

A ação divina oferece-nos cada instante bens infinitos, e dano-los à medida de nossa fé e do nosso amor

 

Se nós soubermos considerar cada momento como a manifestação da vontade de Deus, ai encontraremos tudo o que o nosso coração pode desejar. Com efeito, que há de mais razoável, de mais perfeito, de mais divino, do que a vontade de Deus? O seu valor infinito pode porventura aumentar, com a diversidade de tempos, de lugares, de coisas? Dando-vos o segredo de a encontrar em tudo e a cada momento, tendes o que há de mais precioso e de mais digno dos vossos desejos. Que desejais pois, almas santas? Dai livre curso ao vosso fervor, estendei os vossos desejos para além de toda a medida e de todo o limite: tenho com que o encher. Não há momento em que vos não faça encontrar tudo quanto podeis desejar.

 

O momento presente está sempre cheio de tesouros infinitos, excedendo em muito a vossa capacidade receptiva. A fé e o amor são a vossa medida; quanto o vosso coração mais ama, tanto mais deseja, e quanto mais deseja mais encontra. A vontade de Deus apresenta-se-lhe a cada instante como um mar imenso, impossível de esgotar e do qual não recebe senão na medida em que se dilata pela fé, pela confiança e pelo amor. Todas as coisas criadas não podem saciar o vosso coração, pois ele tem uma capacidade que vai muito além de tudo o que não é Deus. As montanhas que enchem de espanto os olhos, são apenas átomos no coração.

 

A vontade divina é um abismo que o momento presente nos abre: mergulhai nesse abismo e encontrá-lo-eis muito mais extenso do que os vossos desejos. Não aduleis ninguém, não adoreis fantasmas que nada vos podem dar nem tirar. Só a vontade de Deus será a vossa plenitude, sem deixar vazio algum: Adorai-a, ide direito a ela, abandonando e ultrapassando todas as aparências. A morte dos sentidos, a sua destruição e o seu aniquilamento são o reino da fé. Os sentidos adoram as criaturas; a fé adora a vontade divina. Tirai os ídolos aos sentidos; choram como crianças desesperadas; mas a fé triunfa, porque não se lhe pode tirar a vontade de Deus. O momento que amedronta e aterra, reduz à fome, despoja e abate todos os sentidos, é o que alimenta, enriquece e vivifica a fé e se ri das perdas como o comandante duma fortaleza inexpugnável se ri dos ataques inúteis lançados pelo inimigo.

 

Quando a vontade de Deus se revela a uma alma, fazendo-lhe sentir que está disposta a dar-se-lhe toda inteira contanto que a alma por sua vez se dá também a ela, esta experimenta em todas as ocasiões um socorro poderoso; então goza por experiência a felicidade desta vinda de Deus, e tanto mais goza quanto melhor compreende na prática o abandono em que deve estar a todos os momentos, para com esta adorabilíssima vontade.

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CAPITULO IV

 

Deus revela-se-nos nos acontecimentos mais comuns, de maneira tão misteriosa porém tão real e tão adorável como nos grandes acontecimentos de história e nas sagradas Escrituras

 

A palavra de Deus escrita é cheia de mistério; mas não o é menos a sua palavra realizada nos acontecimentos do mundo. Estes dois livros são verdadeiramente livros selados, e a letra de ambos mata. Deus é o centro da fé; é um abismo de trevas, que deste fundo se espalham sobre todas as produções que saem dele. Todas essas palavras, todas essas obras não são, por assim dizer, senão raios escuros dum sol mais escuro ainda. Em vão abrimos os olhos de corpo para ver esse sol e os seus raios; os olhos da nossa alma, pelos quais veremos a Deus e as suas obras, são olhos que se mantém fechados. As trevas ocupam aqui o lugar da luz; o conhecimento é uma ignorância e vemos não vendo.

 

A Sagrada Escritura é a linguagem misteriosa dum Deus ainda mais misterioso; os acontecimentos da história são palavras escuras desse mesmo Deus escondido e desconhecido. São gotas do mar, mas dum mar de trevas. Todas as gotas, todos os regatos trazem a marca da sua origem. A queda dos Anjos, a queda de Adão, a impiedade e idolatria dos homens, antes e depois do dilúvio, do tempo em que viviam os Patriarcas, que sabiam e contavam a seus filhos a história da criação e da conservação, ainda muito recente; eis outras tantas palavras bem escuras da Sagrada Escritura.

 

Um punhado de homens preservados da idolatria na perda geral de todo o mundo, até à vinda do Messias; a impiedade sempre reinante, sempre poderosa; esse reduzido número de defensores da verdade, perseguidos sempre e maltratados; os atrozes tormentos infligidos a Jesus Cristo, as pragas do Apocalipse, são palavras misteriosas de Deus, que Ele mesmo revelou e Ele mesmo ditou! E os efeitos destes terríveis mistérios que continuam até ao fim dos séculos, são ainda a palavra viva que nos ensina a sua sabedoria, o seu poder, a sua bondade. Todos os acontecimentos que formam a história do mundo exprimem e glorificam estes diversos atributos. São, porém uma coisa que se deve crer; não se vê.

 

Que quer Deus dizer, por meio dos hereges, dos cismáticos, de todos os inimigos da sua Igreja? Todos são uma proclamação esplendorosa; todos significam as infinitas perfeições. Faraó e quantos ímpios vieram após ele e virão até ao fim dos séculos não têm outro destino. Certamente, se abrimos os olhos parecer-nos-á ver o contrário; mas temos de nos cegar e deixar de raciocinar, para nesses factos reconhecer mistérios divinos.

 

Falais, Senhor, a todos os homens em geral, pelos acontecimentos universais. As revoluções não são todas senão como vagas da vossa Providência, que desencadeiam tempestades nos raciocínios da gente curiosa. Falais em particular a todos os homens, pelo que lhes sucede de momento a momento. Mas em lugar de ouvir nisso a vossa voz, de respeitar a vossa palavra obscura e cheia de mistério, somente se considera a matéria, o acaso, o humor dos homens. A tudo temos que dizer, querendo acrescentar, diminuir, reformar; toma-se uma liberdade completa de cometer excessos, o menor dos quais seria um atentado inaudito, se se tratasse duma só vírgula das Escrituras Sagradas. Estas, porém respeitam-se, dizendo: é a palavra de Deus, tudo aí é santo, verdadeiro.

 

Se nada compreendemos, a nossa veneração é ainda maior; prestamos homenagem à profunda sabedoria de Deus. Tudo isso é bem justo. Mas o que Deus vos diz, caras almas, as palavras que pronuncia momento após momento, que têm como corpo não a tinta e o papel, mas o que vós sofreis, o que vós tendes a fazer de um momento ao outro, não merecerão nada da vossa parte? Porque não respeitais em tudo a verdade e a vontade de Deus? Não há nada que vos não desagrade; censurais tudo. Não reparais que medis pelos sentidos o que não se pode medir senão pela fé? E que lendo com os olhos da fé a palavra de Deus na Sagrada Escritura, procedeis de modo completamente errado se ledes com outros olhos as suas realizações?

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CAPÍTULO V

 

A ação divina continua nos corações a revelação começada nas sagradas Escritures; mesas letras de que se serve para a escrever, só no grande dia da eternidade serão visíveis

 

“Jesus Cristo, diz o Apóstolo, era ontem, é hoje e será até ao fim dos séculos”. Desde a origem do mundo, era como Deus o princípio da vida das almas justas; a sua humanidade, desde o primeiro instante da Encarnação, participou desta prerrogativa da sua divindade. Opera em nós todo o tempo da nossa vida: o tempo que há de decorrer até ao fim do mundo não é mais do que um dia, e este dia é um dia cheio de Jesus. Jesus Cristo viveu e vive ainda; começou em si mesmo e continua nos seus santos uma vida que não acabará nunca.

 

O vida de Jesus que se estende e sobreleva a todos os séculos; vida que em cada momento vai realizando novas atividades. Se o mundo todo não é capaz de compreender tudo o que se poderia escrever da vida de Jesus, do que fez e do que disse sobre a terra; se o evangelho não nos debuxa senão alguns pequenos traços dela; se a primeira hora é tão desconhecida e tão fecunda, quantos evangelhos haveriam de escrever-se para fazer a história de todos os momentos desta vida mística de Jesus Cristo, que multiplica ao infinito as maravilhas e as multiplica eternamente, pois todos os tempos, propriamente falando são apenas a história da ação divina?

 

O Espírito Santo fez notar, em caracteres infalíveis e incontestáveis, alguns momentos desta vasta duração, e recolheu na Sagrada Escritura algumas gotas deste mar. Ai vemos as maneiras secretas e ignoradas pelas quais fez aparecer Jesus Cristo no mundo e podemos seguir os canais e as veias que, na confusão dos filhos dos homens distinguem a origem, a raça, a genealogia deste primogênito.

 

Todo o Antigo Testamento não é senão um esboço das profundezas imutáveis desta obra divina; não há nele senão o que que é necessário para chegar a Jesus Cristo. O Espírito divino guardou tudo o resto escondido nos tesouros da sua sabedoria. E de todo esse oceano da ação divina, não faz senão aparecer um fiozinho de água, que chegando a Jesus se perdeu nos Apóstolos e se abismou no Apocalipse. E assim a história desta divina ação, que consiste em toda a vida que Jesus vive nas almas santas até ao fim dos séculos, não pode ser adivinhada senão pela nossa fé.

 

À manifestação da verdade de Deus pela palavra, sucedeu a manifestação da sua caridade pela ação. O Espírito Santo continua a obra do Salvador. Ao mesmo tempo que assiste a Igreja na pregação do Evangelho de Jesus Cristo, escreve ele mesmo o seu próprio evangelho e escreve-o nos corações: todas as ações, todos os momentos dos santos são o Evangelho do Espírito Santo. As almas santas são o papel, os seus sofrimentos e ações são a tinta. O Espírito Santo por meio da pena da sua ação escreve um evangelho vivo; mas não se poderá ler senão no dia da glória, em que depois de ter saído dos prelos desta vida será enfim publicado.

 

O história deliciosa! O livro encantador que o Espírito Santo está escrevendo atualmente! Está no prelo, ó almas santas! Não há dia em que se não vão compondo as letras, aplicando a tinta, imprimindo as folhas. Mas nós estamos na noite da fé, o papel é mais negro que a tinta, há confusão nos caracteres empregados, é uma língua do outro mundo, não compreendemos nada deste livro. Só no céu o poderemos ler. Se nos fosse dado ver a vida de Deus e considerar todas as criaturas não em si mesmas mas no seu principio; se pudéssemos ver a vida de Deus em todos os objetos; como a ação divina os move, os combina, os ajunta, os dirige todos para o mesmo fim, por opostos caminhos, reconheceríamos que tudo tem a sua razão de ser, a sua medida, as suas relações nesta divina obra.

 

Como, porém ler este livro, cujos caracteres nos são desconhecidos, inumeráveis, dispostos ao revés e cobertos de tinta? Se a mistura de vinte e quatro letras é incompreensível, de modo que elas bastam para compor uma série infinita de volumes diferentes e todos admiráveis no seu género, quem poderá exprimir o que Deus realiza no universo? Quem poderá ler e compreender o sentido de tão vasto livro, no qual não há uma letra que não tenha a sua figura particular e que na sua pequenez não encerre profundos mistérios! E os mistérios não se veem nem se sentem: São objeto da fé.

 

A fé não julga da sua verdade e da sua bondade senão pelo seu principio; porque em si mesmos são tão obscuros que todas as suas aparências não servem senão para os esconder, para cegar os que julgam só pela razão. Ó divino Espírito Santo ensinai-me a ler este livro! Quero tornar-me vosso discípulo, e com a simplicidade duma criancinha, crer o que não posso ver. Basta-me que o meu mestre fale. Ele diz isto, ele fala assim, ajunta as letras deste modo, faz-se ouvir desta maneira; isto me basta para eu crer que é tal qual como Ele disse. Não vejo a razão dessas coisas; mas Ele é a verdade infalivel, e tudo o que Ele diz e faz é verdadeiro. Ele quer que essas letras estejam colocadas juntas para formar uma palavra, e que um determinado número de letras forme outra. São três, são seis, isso basta e menos fariam um sentido falso; só Ele, que sabe os pensamentos, pode ajuntar as letras para os escrever.

 

Tudo tem significação, tudo tem sentido perfeito. Esta linha termina aqui, porque assim deve ser; não falta nem uma virgula, não há um ponto que seja inútil. Assim o creio presentemente; e quando o dia da glória me revelar tantos mistérios, então verei o que agora não compreendo senão confusamente; e o que me parece tão embrulhado, tão complicado, tão falto de sentido, tão falto de nexo, tão imaginário tudo isso me arrebatará, me encantará por toda a eternidade, com a beleza, a ordem, a sabedoria e as incom-preensíveis maravilhas que em tudo des cobrirei.

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CAPÍTULO VI

 

O amor divino dá-se a nós por meio de todas as criaturas, as quais o comunicam, mas o ocultam, parecendo-se assim às espécies eucarísticas

 

Quantas verdades tão grandes, se encontram escondidas, ainda mesmo aos olhos dos cristãos que se julgam mais ilustrados! Quão poucos, entre eles, compreendem que toda a cruz, toda a ação, toda a inclinação da ordem de Deus, nos dá a Deus de um modo que não pode explicar-se melhor senão comparando-o com o mais augusto mistério. E contudo, nada há mais certo. Tanto a razão como a fé, não nos revelam a presença real do amor divino em todas as criaturas e em todos os acontecimentos da vida, tão certo como a palavra de Jesus Cristo e da Igreja nos ensinam a presença da carne sagrada do Salvador sob as espécies eucarísticas?

 

Porventura não sabemos que, por meio de todas essas criaturas e de todos esses acontecimentos, deseja unir-se a nós o divino amor; e que não dispôs, ou ordenou e permitiu tudo o que nos rodeia e nos acontece senão em vista desta união, fim único de todos os seus desígnios; que para atingir este fim, se serve das criaturas tanto das piores como das melhores, e dos acontecimentos quer dos mais agradáveis quer dos mais desagradáveis; e que por isso mesmo a nossa união com ele é tanto mais meritória quanto os meios que nos servem para a conservar, mais repugnam à nossa natureza!

 

Mas se tudo isto é verdade, donde vem que cada um dos momentos da nossa vida seja uma espécie de comunhão com o divino amor, e que esta comunhão de todos os instantes, produza nas nossas almas tantos frutos como aquela em que recebemos o corpo e o sangue do Filho de Deus? Esta é certo que tem uma eficácia sacramental que a primeira não possui; mas por outra parte, aquela pode ser renovada muito mais frequentemente, e o seu mérito pode acrescentar-se pela perfeição das disposições com que é realizada! Ó como a vida de fé se ilumina e sublima desta maneira, na sua simplicidade e na sua baixeza aparente. O festim, ó banquete perpétuo! Um Deus sempre dado e sempre recebido, não no esplendor sublime e luminoso, mas em tudo o que na terra há de fraqueza, de loucura, de nada!

 

Deus escolhe o que o espírito natural reprova e tudo o que a prudência humana rejeita, realizando assim mistérios e sacramentos de amor; e pelo que parece mais deveria prejudicar as almas, dá-se a elas tanto quanto elas creem ai encontrá-Lo.

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CAPITULO VII

 

A ação divina é tão indignamente tratada por muitos cristãos, nesta manifestação de cada dia, como Jesus Cristo o foi pelos Judeus em sua própria carne.

 

O quantas infidelidades se encontram no mundo! O como se pensa indignamente de Deus, pois sem cessar temos a ousadia de observar à ação divina o que não faríamos com o mais pequeno artista na sua ante. Queremos reduzir a ação de Deus às regras e aos limites imaginados pela nossa débil razão. Queremos reformá-la! Tudo são queixas, tudo murmurações!

 

Surpreende-nos e desperta a nossa indignação o tratamento dado a Jesus pelos judeus. O divino amor! ó vontade adorável! Ó ação infalível! Como vos consideram! Por ventura a vontade divina pode proceder fora de propósito ou fora de razão? Mas eu tenho um negócio e falta-me tal coisa; tiram-me os meios necessários; este homem atravessa-se em tão santas obras: ora isto não é completamente absurdo? Esta doença apodera-se de mim, sendo que eu não posso absolutamente prescindir da saúde. E eu digo que a vontade de Deus é a única coisa necessária; e assim, tudo o que ela não dá é inútil.

 

Não, ó queridas almas, nada vos falta. Se vós soubésseis o que são essas coisas que chamais reveses, contratempos, contrariedades, onde não vedes senão sem razões e despropósitos experimentaríeis extrema confusão; repreender-vos-íeis a vós mesmas das vossas murmurações, como de verdadeiras blasfêmias; mas não pensais nisso. Porém tudo isso não é senão a vontade de Deus; e esta vontade adorável é blasfemada pelos seus queridos filhos, que a desconhecem!

 

O meu Jesus, quando vivíeis na terra os judeus trataram-vos de energúmeno, chamaram-vos samaritano; e hoje que viveis por todos os séculos, com que olhos é vista a vossa adorável vontade, sempre digna de bênçãos e de louvores! Passou porventura um só momento desde a criação do mundo até àquela em que vivemos, e passará algum até ao dia do juízo final, em que o santo nome de Deus não seja digno de louvores; esse nome que enche todos os séculos e tudo o que vai sucedendo em todos os tempos, nome que torna salutares todas as coisas? Pois quê? O que se chama vontade de Deus poderia ser-me nocivo? Haveria porventura de temer e de fugir do nome de Deus! E onde poderia encontrar alguma coisa de melhor, se receasse a ação divina sobre mim e rejeitasse o efeito da sua divina vontade!

 

Como é que devemos escutar a palavra que no fundo do nosso coração se nos vem repetindo a cada momento? Se os nossos sentidos e a nossa razão não compreendem e não penetram a amabilidade e a bondade desta palavra, não é isso devido a incapacidade para as verdades divinas? Devo admirar-me de que um mistério desconcerte a razão? Deus fala-me, é um mistério. É a morte para os meus sentidos e a minha razão, porque os mistérios são de natureza a imolá-los. O mistério é a vida do coração pela fé; tudo o resto é contradição. A ação divina mortifica e vivifica com um mesmo golpe; quanto o mistério é mais obscuro, maior luz encerra. É por isso que a alma simples. Nada encontra de mais divino do que aquilo que na aparência o é menos. A vida da fé está toda nesta luta contra os sentidos.

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CAPITULO VIII

 

A revelação do momento presente nos é mais útil, porque se dirige diretamente a nós.

 

As palavras que Deus pronuncia expressamente para nós, são as que propriamente falando, nos instruem bem. Não é pelos livros nem pela investigação curiosa das histórias, que nos tornamos sábios na ciência de Deus. Esses melos não produzem, por si mesmos, senão uma ciência vã e confusa, capaz somente de ensoberbecer. O que nos instrui é o que hora a hora, momento a momento, nos vai sucedendo; isso é o que forma em nós a ciência experimental, que Jesus Cristo quis adquirir antes de ensinar. Era de facto a única em que podia crescer, segundo a expressão do Evangelho, pois como Deus não há grau algum de ciência especulativa que Ele não possuísse. Mas se esta ciência foi útil ao próprio Verbo Encarnado, a nós é-nos absolutamente necessária para falarmos ao coração das pessoas que Deus manda ao nosso encontro.

 

Só conhecemos perfeitamente o que a experiência nos ensinou pela realidade do sofrimento. Essa é a verdadeira escola do Espírito Santo que ao coração fala palavras de vida; desta fonte deve brotar tudo aquilo que dizemos aos outros. O que lemos, o que vemos, não se torna ciência divina senão por esta fecundidade, esta virtude e esta luz que lhe dá o adquirido. Tudo isso não é senão como uma massa que necessita de fermento e deve ser condimentada pelo sal da experiência. E quando não há senão ideias vagas sem este sal, o homem é como um visionário que sabe todos os caminhos de todas as vilas e cidades, mas que se perde ao ir para a sua própria casa.

 

Portanto é preciso escutar a voz de Deus, momento a momento, para ser douto na teologia virtuosa, toda ela prática e experimental. Não te importe o que se diz aos outros. Ouve o que se diz para ti e a ti; e terás o bastante para exercitar a tua fé, pois esta linguagem interior de Deus exercita-a, purifica-a e aumenta a pela sua mesma obscuridade.

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CAPITULO IX

 

A revelação do momento presente é uma fonte perene de santidade.

 

O almas que vos abrasais em sede de santidade, sabei que não precisais de ir muito longe buscar a fonte das águas vivas, pois ela brota mesmo junto de vós, no momento presente; apressai-vos em correr para ela. Tendo tão perto a fonte, porque haveis de cansar-vos em correr para os regatos? Estes aumentam ainda mais a sede, não vos dando a água se-não com medida; só a fonte é inesgotável. Se quereis pensar, escrever e viver como os profetas, os apóstolos, os santos, abandonai-vos como eles à inspiração divina.

 

Ó amor desconhecido! parece que as vossas maravilhas já se acabaram e que não resta senão copiar as vossas antigas obras e citar os vossos discursos passados. E não se repara que a vossa ação inesgotável é fonte infinita de novos pensamentos, de novas realizações, de novos patriarcas, de novos profetas, de novos apóstolos, de novos santos, que não precisam de copiar nem a vida nem os escritos uns dos outros, mas de viver em perpétuo abandono às vossas secretas operações.

 

Ouve-se falar a cada passo, dos primeiros séculos como do tempo dos santos. Estranho modo de falar! Como se todos os tempos não fossem a sucessão dos efeitos da ação divina, que vai decorrendo por sobre todos os instantes, enchendo-os, santificando-os, sobre naturalizando-os todos. Por ventura houve jamais um modo antigo de se abandonar a esta operação divina, que não seja de completa atualidade? Ou tiveram os santos dos primeiros tempos, outros segredos que não fossem os de se tornarem, em cada momento, o que esta ação divina pretendia realizar neles? E esta ação deixará de espalhar até ao fim do mundo a sua graça sobre as almas que se abandonarem a ela sem reserva?

 

Ó sim, ó adorável e eterno amor, perenemente fecundo e sempre maravilhoso. O ação do meu Deus, vós sois o meu livro, a minha doutrina, a minha ciência; em vós estão os meus pensamentos, as minhas palavras, as minhas ações, a minha cruz. Não é consultando as outras obras vossas, que eu serei o que vós desejais fazer de mim, mas recebendo-vos em todas as coisas por este caminho real único e antigo, o caminho dos nossos pais. Como eles, portanto, pensarei, como eles serei esclarecido, como eles falarei; nisto os quero imitar a todos, citar a todos, copiar a todos.

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CAPITULO X

 

O momento presente é a manifestação do nome de Deus e o advento do seu reino.

 

O momento presente é sempre como um embaixador, que declara a ordem de Deus. O coração pronuncia sempre o fiat. A alma vai deslizando assim para o seu centro e para o seu termo; sem se deter jamais, vai levada de todos os ventos; todos os caminhos e todas as maneiras a fazem igualmente avançar para o largo, para o infinito. Para ela tudo é um meio e um instrumento de santidade, sem nenhuma diferença.

 

O que unicamente lhe é necessário encontra-o sempre no presente. Já não é a oração ou o silêncio, o retiro ou a conversação, o ler ou escrever, as reflexões ou a cessação de pensamentos, a fuga ou a procura dos bens espirituais, a abundância ou a miséria, a vida ou a morte; mas unicamente tudo o que cada momento lhe vai apresentando por disposição de Deus. Nisso é que consiste o desprendimento, a abnegação, a renúncia de tudo o criado para não ser nada por si nem para si, para estar em tudo na ordem de Deus e lhe agradar, tendo como única satisfação e contentamento viver o momento presente, como se nada mais tivesse de esperar neste mundo

 

Se tudo o que sucede à alma abandonada é o unicamente necessário, vê-se claramente que nada lhe falta, nem deve queixar-se jamais; e se o faz, mostra falta de fé, vive da razão e dos sentidos que, como não veem esta suficiência da graça nunca estão satisfeitos.

 

Santificar o nome de Deus, conforme a expressão da Sagrada Escritura, é reconhecer a santidade de Deus, amá-lo e adorá-lo em todas as coisas. Com efeito as coisas procedem dos lábios de Deus como palavras. O que Deus realiza em cada momento é um pensamento divino significado por uma coisa criada.

 

E por isso todas as coisas em que nos intima a sua vontade, são outros tantos nomes e palavras em que nos mostra o seu desejo. Esta vontade, em si mesma, é só uma, não tem senão um só nome desconhecido e inefável; mas é multiplicada até ao infinito nos seus efeitos, os quais são todos como outros tantos nomes que vai tomando.

 

Santificar o nome de Deus, é conhecer, adorar, amar o Ser inefável que este nome exprime; é conhecer, adorar e amar a sua adorável vontade a todos os momentos, em todos os seus efeitos, considerando-os a todos como véus, sombras, nomes desta vontade eternamente santa. Santa em todas as suas obras, santa em todas as suas palavras, santa em todas as maneiras de se manifestar, em todos os nomes que vai tomando.

 

Assim é que Jób bendizia o nome de Deus. A desolação universal que a vontade de Deus lhe significava, bendizia-a esse santo homem e chamava-a não uma ruina, mas um nome de Deus, protestando que tal vontade divina significada pelas aparências mais terríveis, era santa, qualquer que fosse a forma ou o nome que tomasse. David bendizia-a também, em todo o tempo e lugar. Por este incessante descobrimento, por esta manifestação e revelação da vontade divina em todas as coisas é que o seu reino está dentro de nós, que Deus faz na terra o que faz no céu, que nos alimenta sem cessar.

 

O abandono à divina vontade compreende e contém toda a substância da incomparável oração, ensinada pelo próprio Jesus Cristo. Recitamo-la vocalmente várias vezes ao dia, conforme a ordem de Deus e da Santa Igreja; mas pronunciamo-la a cada momento no fundo do coração, quando mostramos amor e desejo de sofrer e fazer o que essa divina vontade nos prescreve. O que os lábios não podem pronunciar senão por silabas, por palavras, em maior ou menor espaço de tempo, pronuncia-o realmente o coração em cada instante. É assim que as almas simples se aplicam a bendizer a Deus no fundo do seu ser. Gemem vendo-se impotentes para O bendizer quanto desejariam, pois é bem verdade que Deus dá a essas almas as suas graças e favores por meio daquilo mesmo que mais parece privação desses dons celestes. Mas é nisso que consiste o segredo da sabedoria divina: em empobrecer os sentidos enriquecendo o coração, e em encher a este tanto mais quanto aqueles experimentam um vácuo mais doloroso.

 

Aprendamos portanto a reconhecer o selo da vontade de Deus e do seu nome adorável, em tudo o que vai sucedendo em cada instante. Este nome é infinitamente santo. É pois justo bendizê-lo, tratá-lo como uma espécie de sacramento, que por sua própria virtude santifica as almas que lhe não põem obstáculos. Quem poderá ver o que em si contém este nome augusto, sem o estimar infinitamente? É um maná divino que desce do céu, para dar um crescimento contínuo na graça. É o pão dos Anjos, que se come na terra e no céu.

 

Nada há, portanto de pequeno nos nossos momentos, pois todos encerram tesouros de graça, um alimento angélico.

Venha pois, Senhor, esse reino ao meu coração, para o santificar, o nutrir, o purificar, e lhe dar a vitória sobre os meus inimigos. O momento precioso! Como és pequeno aos olhos do vulgo, mas como és grande para os que te veem iluminados pela fé. Como ter na conta de pequeno, aquilo que é grande aos olhos do meu Pai que reina nos céus? Tudo o que dai vem é excelente; tudo o que dai desce, traz ó divino carácter da sua origem.

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CAPITULO XI

 

A ação divina traz a todas as almas a santidade mais eminente; besta abandonar-se a ele, para se santificar

 

É por não saberem utilizar-se da ação divina, que tantos cristãos passam a vida correndo ansiosamente após uma multidão de meios, que podem ser úteis quando esta divina ação os ordena, mas que se tornam prejudiciais quando simplesmente impedem a união com ela. Toda essa multiplicidade não pode dar o que se encontra no principio de toda a vida, que sem cessar nos está presente e que imprime a cada instrumento um impulso original tornando incomparável a sua ação.

 

Jesus enviou-nos um mestre que nós não escutamos bastante. Fala a todos os corações, diz a cada um a palavra de vida, a palavra única; mas não se lhe prestam ouvidos! Quereríamos saber o que disse aos outros, e não escutamos o que nos diz a nós mesmos. Não olhamos suficientemente as coisas no ser sobrenatural que a ação divina lhes dá. Deve-se receber e deve-se lhe corresponder, conforme lhe é devido, com o coração aberto e uma atitude de plena confiança e generosidade, pois ela não pode fazer mal aos que assim a recebem.

 

A ação imensa que, desde o principio até ao fim dos séculos, em si é sempre a mesma vai passando por sobre todos os momentos; e na sua imensidade e na sua virtude, dá-se à alma simples que a adora, que a ama e que só com ela se goza.

Sentir-vos-eis felizes, dizeis, em encontrar uma ocasião de morrer por Deus; encantar-vos-ia uma ação desta força, uma vida desta maneira. Perder tudo, morrer abandonado, sacrificar-vos pelos outros, são ideias que vos seduzem.

 

Eu porém, Senhor rendo glória e toda a glória à vossa ação; nela encontro toda a felicidade do martírio, das austeridades, dos serviços prestados ao próximo. Esta ação me basta; de qualquer maneira que ela me faça viver e morrer, sou contente.

 

Agrada-me por ela mesma, por sobre todas as qualidades dos seus instrumentos e dos seus efeitos, pois se estende a tudo, tudo diviniza e tudo transforma em si. Tudo para mim é céu; todos os meus momentos são para mim ação divina toda pureza e quer na vida quer na morte quero alegrar-me com ela.

 

Sim, ó querido amor, não vos marcarei nem horas nem modos: sereis sempre bem-vindo. Parece-me ó ação divina, que rasgastes ante os meus olhos o véu da vossa imensidade. Já só no vosso seio infinito é que eu dou os meus passos. Tudo o que provém hoje de vós, proveio ontem. O vosso fundo é o leito duma torrente de graças que se difundem sem cessar; vós é que as mantendes e agitais. Não hei de pois buscar-vos nos limites estreitos dum livro, da vida de um santo, ou duma ideia por mais sublime que ela seja, pois são apenas como gotas desse mar que vejo espalhado sobre todas as criaturas. A todas inunda a ação divina. São átomos que desaparecem neste abismo. Não mais buscarei esta ação nos pensamentos das pessoas espirituais. Não irei mendigando o pão de porta em porta nem procurei o agrado das criaturas.

 

Ó Senhor quero viver de modo que vos faça honra, como filho dum verdadeiro pai infinitamente bom, sábio e poderoso. Quero viver em conformidade com aquilo que creio; e como esta ação divina se aplica constantemente e por todas as coisas à minha perfeição, quero viver desta grande e imensa riqueza; tesouro que não pode faltar, mas sempre presente e da maneira mais útil. Porventura haverá criatura cuja ação possa igualar a ação de Deus! E visto que essa mão incriada vai ela mesma dirigindo tudo o que me acontece, irei buscar socorro nas criaturas que são impotentes, ignorantes e sem afeição?

 

Iria morrer de sede, correndo de fonte em fonte, de ribeiro em ribeiro, tendo diante um mar que se espraia num dilúvio, encontrando-me rodeado de água por todas as partes!

 

Tudo se torna em pão para me alimentar, sabão para me branquear, fogo para me purificar; tesoura de jardineiro para em mim realizar figuras celestiais. Tudo é instrumento da graça para o que eu necessito; o que eu buscava em qualquer outra coisa, busca-me incessantemente e dá-se a mim por meio de todas as criaturas.

 

O divino amor! E tudo isto há de ser ignorado, haveis de por assim dizer lançar-vos à frente do mundo com todos os vossos favores, e vir a ser buscado por todos os cantos e recantos onde não sereis encontrado! Que loucura a de não respirar estando no meio do ar, de buscar onde pôr um pé estando em pleno campo; de não encontrar a água no dilúvio; de não encontrar a Deus, de não O saborear, de não receber a sua ação em todas as coisas!

 

Buscais os segredos de ser de Deus, ó queridas almas! Não há outros senão o de utilizar tudo o que Deus vos oferece. Tudo leva a esta união; tudo nos ajuda a aperfeiçoar-nos, exceto o que é pecado ou está fora da nossa obrigação: é só aceitar tudo e entregar-se à ação de Deus. Em tudo vos dirige, vos corrige e vos transporta. Tudo é mão de Deus. Tudo é terra, ar, água divina. A sua ação é mais extensa e mais presente que os elementos. Entra em vós por todos os vossos sentidos, desde que não useis deles senão conforme a ordem de Deus, pois é preciso fechá-los e resistir ao que não seja a sua vontade. Não há átomo que entrando em vós não vos faça penetrar esta divina ação até à medula dos OSSOS.

 

Tudo é dela e tudo por ela. Esse licor vital que vos corre nas veias, dela recebe o movimento. A diferença que existe nos vossos movimentos, a força ou a fraqueza, a languidez ou a vivacidade, a vida ou a morte, são instrumentos divinos a que ela imprime movimento para operar a vossa santificação. Sob a sua influência, todos os estados corporais se tornam operações da graça. Todos os vossos sentimentos e pensamentos donde quer que venham, partem dessa mão invisível. Não há coração nem espírito criado que possa ensinar-vos o que esta ação realizará; mas aprendê-lo-eis pela continuação da experiência. A vossa vida decorre sem cessar neste abismo desconhecido, onde não há senão que amar sempre e considerar como o melhor aquilo que nos é presente, por uma perfeita confiança nesta ação, que de si não pode fazer senão bem.

 

O divino amor, todas as almas chegariam a estados sobrenaturais, sublimes, admiráveis, inimagináveis, se todas aceitassem de boa vontade a vossa ação. Se soubéssemos deixar liberdade a esta divina mão, atingiríamos a perfeição mais eminente. A ela chegariam todas as almas, pois a todas é oferecida. É só abrir a boca, e ela entrará por si mesma, pois não há alma que não tenha em vós o seu modelo infinitamente perfeito e que a vossa ação não trabalhe sem descanso por fazê-la semelhante a esse modelo. Se elas lhe fossem fiéis, viveriam, agiriam e falariam divinamente; não teriam senão de copiar-se umas às outras; a ação divina singularizá-las-ia a todas pelas coisas mais comuns.

 

Por que meio, ó meu Deus, poderei fazer apreciar das criaturas o que eu afirmo? Tendo um tesouro tão grande, que pode tornar rico o mundo inteiro, hei de ver morrer as almas na indigência! Hei de vê-las secar-se como as plantas do deserto, quando lhes mostro a fonte das águas vivas!

 

Vinde ó almas simples, que nem ao menos tendes uns laivos de devoção; almas desprovidas de talento, que nem sequer possuís os primeiros elementos de instrução, que não entendeu nada da terminologia espiritual, e deslumbradas admirais a eloquência dos sábios; vinde e eu vos ensinarei um segredo que vos fará passar acima de todos esses altos espíritos; eu vos tornarei a perfeição tão acessível que a encontrareis sempre debaixo dos vossos pés, sobre a vossa cabeça e ao redor de vós; e eu vos unirei a Deus e vo-lo farei ter da mão desde o primeiro momento em que puserdes em prática o que vos disser. Vinde, não para saber o mapa do pais da espiritualidade mas para o possuir e para vos movimentardes nele à vontade, sem perigo de vos perderdes.

 

Vinde, não para estudar a teoria da divina graça; não para aprender o que ela tem realizado em todos os séculos, e ainda agora leva a cabo, mas simplesmente para a praticardes. Não precisais de saber as palavras que ela tem feito ouvir aos outros, para as recitardes engenhosamente; mas ela vos falará em linguagem acomodada à vossa condição.

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CAPITULO XII

 

Só a ação divina é que nos pode santificar, porque se regula pelo exemplar divino da nossa perfeição.

 

A ação divina realiza no decorrer dos tempos as ideias que a eterna Sabedoria formou de todas as coisas. Só Deus pode fazer conhecer a cada alma a ideia que está destinada a realizar. Ainda que conhecêsseis todas as que vos não dizem respeito, esse conhecimento em nada poderia dirigir-vos. A ação divina vê no Verbo tudo o que convém a cada alma santa. A Escritura compreende uma parte, e a operação do Espirito Santo no interior das almas acaba o resto, conforme os exemplares que o Verbo Lhe propõe.

 

Quem não vê que o único segredo de receber o carácter dessa ideia eterna é ser como matéria maleável entre as suas mãos e que nem os esforços nem as especulações do espírito podem contribuir em coisa alguma para isso? Não é manifesto que essa obra não se faz por meio de habilidade, de inteligência, de subtilidade de espirito; mas por via passiva, pela disposição em se deixar trabalhar, como o metal num molde, como uma tela sob a ação do pincel, ou um bloco de pedra sob a ação do escultor? Quem não vê que o conhecimento de todos estes mistérios divinos que a vontade de Deus opera e operará pelos séculos fora, não é o que nos torna conformes à imagem que o Verbo concebeu de nós; que a nossa semelhança ao tipo divino não nos pode vir senão da impressão deste selo misterioso, e que esta impressão não se faz no espírito por ideias, mas na vontade por abandono?

 

A sabedoria da alma simples consiste em se contentar com o que lhe é próprio, em confinar-se aos limites do seu caminho e não ir além da sua linha. Não tem curiosidade de saber os modos de agir de Deus; mas contenta-se com a ordem da divina vontade a respeito dela, não procurando adivinhá-la por meio de comparações ou conjecturas, não que rendo saber senão o que cada momento lhe revela; escutando a palavra do Verbo quando ela se lhe faz ouvir no fundo do coração; não se informando junto do divino Esposo do que Ele disse aos outros; contentando-se com o que recebe no fundo da alma, de modo que de um momento a outro tudo a diviniza sem que ela o saiba.

 

Desta maneira é que o Esposo fala à esposa, pelos efeitos realíssimos da sua ação, os quais a esposa não perscruta curiosamente mas aceita com amoroso reconhecimento. Assim a espiritualidade desta alma é simples, toda substancial, intimamente difundida em todo o seu ser. Não são as ideias nem as palavras tumultuosas que a levam a atuar, pois as palavras, desacompanhadas dos atos servem só para fomentar a soberba. Recorre-se muito ao espírito para a piedade; porém muitas vezes é nocivo. A alma não se deve guiar senão pelo que Deus dá a sofrer e a fazer; mas deixa-se esta substância divina para ocupar o espírito com as maravilhas históricas da obra divina, em vez de as aumentar pela própria fidelidade!

 

As maravilhas desta obra, que nos satisfazem a curiosidade nas nossas leituras, não servem muitas vezes senão para nos tirar o gosto destas coisas pequenas na aparência, pelas quais o amor divino realizaria em nós grandes maravilhas, se não as desprezássemos. Admiramos e bendizemos esta ação divina, nos escritos que narram a sua história; mas quando ela deseja continuá-la, escrevendo-a nos nossos corações, mantemos o papel em constante agitação e impedimo-la de escrever levados da curiosidade de ver o que ela vai realizando em nós e fora de nós.

 

Perdão, ó divino amor, porque eu não escrevo aqui senão os meus defeitos, e ainda não realizei o que seja entregar-me livremente e sem restrições à vossa ação. Não me deixei ainda lançar no molde. Percorri todas as vossas oficinas, admirei todas as vossas figuras, mas até agora não tive ainda o abandono necessário para receber os traços do vosso divino pincel.

 

Encontrei-vos, enfim, ó meu amado mestre e doutor, meu pai, meu querido amor! Quero ser vosso discípulo, não quero frequentar outra escola. Como o filho pródigo, volto morto de fome, desejoso do vosso pão. Deixo de lado as ideias que não tenderiam senão para satisfazer a curiosidade do meu espírito; Não mais quero correr após os mestres e os livros; Não mais usarei desses meios senão sob a dependência da ação divina, não para me satisfazer, mas para vos obedecer em todas as coisas que me apresentardes. Quero concentrar-me unicamente no momento atual, para vos amar, para me desempenhar das minhas obrigações e para dar inteira liberdade à vossa divina ação.