O GRANDE
DESCONHECIDO
“QUANTO MAIS CONFIANÇA TIVERES NA PROVIDÊNCIA DIVINA, MAIS RECEBERÁS.” (São Padre Pio).
O ABANDONO À PROVIDÊNCIA DIVINA
(PADRE JOÃO PEDRO DE CAUSSADE, S. J.)
Estes Escritos deve-se à pena de um dos mais experimentados mestres de espírito da Companhia de Jesus na primeira metade do século XVIII, o P. João Pedro de Caussade (1675 -1750).
CAPÍTULO II - Os deveres de cada momento são sombras, sob as quais se oculta a ação divina.
CAPÍTULO III - Como a santidade se tornaria mais fácil, se fosse considerada deste ponto de vista
CAPÍTULO IV - A perfeição não consiste em conhecer qual é a ordem de Deus, mas em submeter-se a ela
CAPÍTULO VII - Não há paz estável senão só na submissão à ação divina
CAPÍTULO IX - Todas as riquezas da graça são fruto da pureza do coração e do perfeito abandono
NATUREZA E EXCELÊNCIA DA VIRTUDE DO ABANDONO
CAPITULO I
Toda a santidade dos justos de antiga lei, bem como a de S. José e a da própria Virgem Santíssima, consistiu na fidelidade à vontade de Deus
Deus fala, ainda hoje, como falava a nossos pais, quando não havia diretores nem métodos. A fidelidade à vontade de Deus era toda a espiritualidade; mas esta não se encontrava posta em arte que a explicasse de maneira tão sublime e tão pormenorizada, com tantos preceitos, tantas instruções e tantas máximas. As necessidades presentes exigem-no, sem dúvida; mas não era assim noutros tempos, em que havia mais retidão e simplicidade. Sabia-se que em cada momento temos um dever a cumprir com fidelidade, e isto bastava aos homens de então. Nele se ia concentrando sucessivamente a sua atenção, como o ponteiro do relógio que vai marcando as horas, e em cada minuto aponta o espaço que deve percorrer. O seu espírito movido sem cessar pelo impulso divino, encontrava-se insensivelmente voltado para o novo objeto que se lhes oferecia, segundo a disposição divina, em cada hora do dia.
Tais eram os segredos do proceder de Maria, a mais simples das criaturas e a mais entregue a Deus. A resposta que deu ao Anjo, quando se limitou a dizer-lhe: Faça-se em mim segundo a tua palavra, continha toda a teologia mística dos seus antepassados. Tudo aí se reduzia, como no presente, ao mais puro e ao mais singelo abandono da alma à vontade de Deus, qualquer que fosse a forma por que esta se apresentasse.
Tão digna e tão nobre disposição, que constituía todo o fundo da alma de Maria, brilha admiravelmente nessa palavra tão simples: Fiat mihi. Notemos que ela está perfeitamente de acordo com a que Nosso Senhor deseja que nós tenhamos, sem cessar, nos lábios e no coração: Fiat voluntas tua. É certo que aquilo que se exigia a Maria nesse momento de tamanha transcendência, era gloriosíssimo para ela. Mas não se dei xaria deslumbrar por todo o brilho dessa glória, se a vontade de Deus, o único objeto capaz de a impressionar, não tivesse detido o seu olhar.
Essa divina vontade é que a regia em tudo. Quer as suas ocupações fossem comuns ou elevadas, a seus olhos eram somente sombras, escuras umas vezes outras vezes resplandecentes, nas quais encontrava matéria para glorificar a Deus e reconhecer as obras do Todo Poderoso. O seu espírito, transportado de alegria, considerava tudo o que tinha de fazer ou de sofrer em cada momento, como um dom dAquele que sacia de bens os corações que só dEle se alimentam e não das espécies ou aparências criadas.
CAPITULO II
Os deveres de cada momento são sombras, sob as quais se oculta a ação divina
A virtude do Altíssimo cobrir-te-á com a sua sombra, disse o Anjo a Maria. Esta sombra, na qual se esconde a virtude de Deus para gerar Jesus Cristo nas almas, é o que cada momento traz em si de deveres, de gozos ou de cruz.
Com efeito, estes são apenas sombras à maneira daquelas a que damos este nome na ordem da natureza, e que se estendem sobre os objetos sensíveis como um véu que no-los encobre. Assim na ordem moral e sobrenatural, os deveres de cada momento, sob as suas obscuras aparências, encobrem a verdade da vontade divina, a única a merecer a nossa atenção. Assim as olhava Maria. E por isso essas sombras deslizando sobre as suas faculdades, longe de a perturbarem alimentavam a sua fé d'Aquele que é sempre o mesmo. Retirai-vos, ó Arcanjo, vós sois uma sombra; o vosso momento voa e vós desapareceis.
Maria ultrapassa-vos, vai avançando sempre; já vos encontrais longe dela; mas o Espirito Santo que dela se apoderou através desta missão sensível, jamais a abandonará. Há poucos rasgos extraordinários na vida exterior da Virgem Santíssima. Pelo menos a Sagrada Escritura não no-los faz notar. A vida de Maria apresenta-se-nos muito simples e comum, quanto ao exterior. Faz e sofre o que fazem e sofrem as pessoas da sua condição. Vai visitar sua prima Santa Isabel, como vão também os outros parentes. Recolhe-se a um estábulo; é uma consequência da sua pobreza. Volta a Nazaré, donde a perseguição de Herodes a havia afastado; Jesus e José ai viviam com ela do seu trabalho. Tal era para a Sagrada Família o pão de cada dia.
Mas de que pão se alimenta a fé de Maria e de José? Qual é o sacramento de todos os seus momentos sagrados? Que descobrem debaixo da aparência dos acontecimentos que vão enchendo esses momentos? O que neles há de visível é semelhante ao que sucede ao resto dos homens; mas o invisível, o que a fé aí entrevê e descobre, é nada menos que Deus realizando grandes coisas. O pão dos Anjos, ó maná celeste, pérola evangélica, sacramento do momento presente! A quem é que tu o dás? Esurientes reples bonis! Enches de bens os que têm fome de Deus. E Deus revela-se aos pequenos e aos humildes, ainda nas coisas mais pequenas; mas os grandes e soberbos, que não consideram senão as aparências, esses não O descobrem nem mesmo nas coisas grandes.
CAPITULO III
Como a santidade se tornaria mais fácil, se fosse considerada deste ponto de vista
Se à obra da nossa santificação nós oferece dificuldades tão insuperáveis na aparência, é porque não temos dela uma ideia exata. De facto, a santidade reduz-se toda a uma só coisa, a fidelidade à vontade de Deus. Ora esta fidelidade está ao alcance de todos, tanto na sua prática ativa como no seu exercício passivo.
A prática ativa da fidelidade consiste no cumprimento das obrigações que nos são impostas, quer pelas leis gerais de Deus e da Igreja, quer pelo estado particular que abraçamos. E o exercício passivo consiste na aceitação amorosa de tudo o que Deus nos envia a cada instante.
Destas duas partes da santidade, qual é a que está acima das nossas forças? Não é a fidelidade ativa, pois as obrigações que ela nos impõe cessam de ser obrigações desde que o seu cumprimento excede realmente as nossas forças. O estado de saúde em que vos encontrais não vos permite ir assistir à missa? Não estais obrigados a ouvi-la. E o mesmo se diga de todas as obrigações positivas, isto é daquelas que nos prescrevem o cumprimento de algum ato. Só as que nos proíbem de fazer coisas que são más em si mesmas, é que não sofrem exceção alguma, pois nunca é permitido fazer o mal.
Haverá portanto coisa mais fácil e mais razoável?... Que desculpa é que poderemos alegar?... Ora é precisamente isso o que Deus exige da alma, no trabalho da sua santificação. Exige-o aos grandes e aos pequenos, aos fortes e aos fracos: numa palavra, a todos, em todo o tempo e em todo o lugar. Por conseguinte, é muito verdade que não exige da nossa parte senão o que é possível e fácil, pois basta possuir este fundo tão simples, para chegar a uma santidade muito elevada.
Se para além dos mandamentos nos aponta os conselhos, como alvo mais perfeito para o qual havemos de tender, tem contudo o cuidado de acomodar a prática desses conselhos à nossa situação e ao nosso carácter. Como sinal principal da nossa vocação para os seguir, dá-nos os auxílios da graça que nos facilitam a sua prática. Nem chama a ninguém senão na medida das suas forças e no sentido das suas aptidões. Mais uma vez ainda: poderia imaginar-se alguma coisa mais razoável?
O vós todos que tendeis à perfeição e vos sentis tentados de desânimo à vista do que ledes nas vidas dos santos e do que certos livros de piedade vos prescrevem; ó almas que vos afligis a vós mesmas com as ideias terríveis que tendes da perfeição; é para vossa consolação que Deus quer que eu escreva estas palavras.
Aprendei pois o que pareceis ignorar. Este Deus de bondade tornou fáceis de adquirir todas as coisas necessárias e comuns na ordem natural, como o ar, a água e a terra. Nada mais necessário do que a respiração, o sono e o alimento; mas nada também mais fácil. O amor e a fidelidade não são menos necessários na ordem sobrenatural; por isso a dificuldade em os alcançar não deve ser tão grande como no-la representamos.
Reparai na nossa vida. De que é que se compõe? De uma série de ações de bem pouca monta. Ora destas coisas de tão mesquinha importância é que Deus se digna contentar-se. Essa é a parte que toca à alma no trabalho da perfeição. E para que não pudéssemos ter disso dúvida, quis explicar-no-lo bem claramente: «Temei a Deus e observai os seus mandamentos; isso é convosco». Quer dizer: eis tudo o que o homem deve fazer pela sua parte, eis em que consiste a sua fidelidade ativa. Cumpra o homem o que lhe toca, e Deus fará o resto. A graça divina reserva para si mesma a realização de maravilhas que ultrapassam toda a inteligência do homem. Porque nem os ouvidos ouviram, nem os olhos viram, nem o coração sentiu o que Deus concebe na sua ideia, resolve na sua vontade e executa pelo seu poder, nas almas que a Ele se abandonam.
A parte passiva da santidade é ainda muito mais fácil, pois não consiste senão em aceitar o que na grande maioria dos casos não se pode evitar; e em sofrer com amor, isto é com suavidade e consolação, o que tantas vezes se suporta com aborrecimento e desgosto.
Mais uma vez ainda: eis a santidade toda inteira. Eis o grão de mostarda, cujos frutos não recolhemos porque não sabemos reconhecê-lo na sua insignificância. Eis a dracma do Evangelho, o tesouro que não encontramos porque o supomos muito afastado para o ir buscar.
Nem me pergunteis qual é o segredo de encontrar este tesouro. Porque verdadeiramente não há segredo. Este tesouro está em toda a parte, e a todos se oferece em todo o lugar e em todo o tempo. As criaturas amigas e inimigas dão-no-lo a mãos cheias e fazem-no correr pelas faculdades do nosso corpo e alma, até ao mais fundo do nosso coração. Basta abrir a boca, e ficará repleta.
A ação divina inunda o universo, penetra todas as criaturas, sobrenada acima de todas, está em toda a parte onde elas estão; adianta-se a elas, acompanha-as, segue-as; não temos senão que deixar-nos levar pelas suas ondas. Prouvera a Deus que os reis e seus ministros, os príncipes da Igreja e do mundo, os sacerdotes, os soldados, os patrões e os operários, numa palavra todos os homens, conhecessem quanto é fácil atingir uma santidade eminente. Para eles não se trata senão de cumprir os simples deveres do cristianismo e do seu estado, e abraçar com submissão as cruzes que lhes estão inerentes, e submeter-se com fé e amor à vontade da Providência, em tudo o que se lhes apresenta para fazer ou sofrer, sem mesmo o buscarem.
Esta espiritualidade foi a que santificou os profetas, muito antes de que houvesse tantas regras e tantos mestres. E a espiritualidade de todas as idades e de todos os estados, que certamente não podem ser santificados de maneira mais elevada, mais extraordinária e mais ao nosso alcance, do que realizando simplesmente o que Deus, soberano diretor das almas, lhes dá em cada momento a fazer ou sofrer.
CAPITULO IV
A perfeição não consiste em conhecer qual é a ordem de Deus, mas em submeter-se a ela
A ordem de Deus, o beneplácito de Deus, a vontade de Deus, a ação de Deus, a graça, tudo isto, é uma e a mesma coisa nesta vida. É Deus trabalhando para tornar a alma semelhante a si mesmo. A perfeição não é outra coisa senão a cooperação fiel da alma a um trabalho de Deus. A graça produz-se em nossas almas, cresce, aumenta e tem a sua consumação em segredo e sem que a alma se dê conta.
A teologia está cheia de conceitos e expressões que explicam as maravilhas da graça em cada alma, em toda a sua extensão. Pode conhecer-se tudo o que esta especulação ensina, falar dela admiravelmente, escrever, instruir, dirigir as almas: porém quem não tiver no espirito senão este conhecimento teórico, é para as almas que recebem o termo da ordem de Deus e da sua divina vontade como se não soubesse toda a teoria com todas as suas partes e não pudesse falar dela.
A ordem de Deus, a sua divina vontade, recebida com simplicidade por uma alma fiel, realiza nela esse efeito divino, sem que ela o conheça; como um remédio tomado com submissão opera a saúde num doente que não sabe nem tem que se preocupar de saber medicina. Assim como o fogo é que produz o calor e não a filosofia nem o conhecimento deste elemento e dos seus efeitos, assim também é a ordem de Deus, é a sua santíssima vontade que opera a santidade nas nossas almas, e não a especulação curiosa deste princípio e deste objetivo.
Quando temos sede, para nos desse dentarmos o que devemos fazer é deixar os livros que explicam estas coisas, e beber. A curiosidade de saber não é capaz de dessedentar. Assim quando a alma tem sede de santidade, a curiosidade de saber não é capaz senão de a afastar. Deve-se deixar de lado a especulação, e beber com simplicidade tudo o que a ordem de Deus nos apresenta de ações e sofrimentos. O que nos sucede em cada momento, por ordem de Deus, é o que há de mais santo, de melhor, e de mais divino para nós.
CAPITULO V
As leituras e os outros exercícios de piedade não nos santificam senão enquanto são para nós como canais da ação de Deus
Toda a nossa ciência consiste em conhecer esta ordem do momento presente. Toda a leitura que se faz sem ser pela ordem de Deus, é prejudicial; é a vontade de Deus e a sua ordem que é graça e opera no fundo dos nossos corações, pelas nossas leituras como por todas as nossas obras boas. Sem ela, as leituras são apenas espécies ou aparências vãs, que destituídas a nosso respeito da virtude vivificante da ordem de Deus, não servem senão para deixar vazio o coração, precisamente pela plenitude que causam ao espírito.
Esta divina vontade penetrando na alma duma rapariga ignorante, por meio de alguns sofrimentos ou de quaisquer outras ações vulgares, opera no mais intimo do seu coração esse termo misterioso do ser sobrenatural, sem contudo encher o seu espírito de qualquer ideia capaz de a ensoberbecer; ao passo que o homem orgulhoso que estuda os livros espirituais levado somente da curiosidade, sem a vontade de Deus estar unida à sua leitura, não recebe senão a letra morta, sem o espirito que a vivifica, e vai-se tornando cada vez mais árido e seco.
A ordem de Deus, a sua divina vontade é a vida da alma, de qualquer modo que a alma a receba ou aplique a si mesma. Qualquer que seja a relação que esta divina vontade tenha para com o espírito, alimenta a alma e fá-la crescer continuamente, dando-lhe o que há de melhor em cada momento. O que produz tão divinos efeitos não é isto nem aquilo, mas o que pertence à ordem de Deus no momento atual. O que era o melhor no momento passado, já não o é, por não estar informado pela vontade de Deus, a qual se nos vai apresentando sob outras aparências, para fazer nascer a obrigação do momento presente; e esta obrigação, qualquer que seja a aparência que ela tome, é o que presentemente há de mais santificante para as nossas almas.
Se neste momento a divina vontade nos manda ler, a leitura realiza no fundo da alma esse efeito misterioso. Se a divina vontade nos manda deixar a leitura por um dever de contemplação atual, este dever opera no fundo do coração o homem novo, e a leitura seria então prejudicial e inútil. Se a divina vontade retira a alma da contemplação atual, para aplicá-la a uma ocupação exterior mesmo durante consideráveis espaços de tempo, o novo dever forma Jesus Cristo no fundo do coração, e toda a doçura da contemplação serviria apenas para o destruir.
A ordem de Deus é a plenitude de todos os nossos momentos. Vai revestindo mil aparências diferentes, as quais tornando-se sucessivamente o nosso dever atual, formam, fazem crescer e consumam em nós o homem novo, até à plenitude que a divina sabedoria nos destinou. Este misterioso crescimento da idade de Jesus Cristo nos nossos corações é o termo produzido pela ordem de Deus: é o fruto da sua graça e da sua divina vontade.
Este fruto, como dissemos, produz-se, cresce e alimenta-se pela sucessão dos nossos deveres presentes, que a própria vontade de Deus preenche. Cumprindo estes deveres, estamos sempre seguros de possuir a melhor parte; porque esta vontade santa é precisamente a melhor parte. Não há senão que deixá-la agir e abandonar-se cegamente, com uma confiança perfeita, à sua ação. Ela é infinitamente sábia, infinitamente poderosa, infinitamente benéfica para todas as almas que nela esperam totalmente e sem reserva, que só a ela amam e buscam, e creem com uma fé e com uma confiança inabalável que o melhor é o que ela faz em cada momento, sem buscar noutra parte o mais ou o menos, e sem se deter a considerar as relações que tudo o que é material tem com a ordem de Deus: o que não é senão um verdadeiro amor próprio buscando-se a si mesmo.
A vontade de Deus é o essencial, o real e a virtude de todas as coisas; ela é que as ajusta e as acomoda à alma; sem ela tudo é vão, tudo é nada, mentira, vaidade, letra, aparência exterior e morte. A vontade de Deus é a salvação da alma, qualquer que seja a aparência sob que se apresente o assunto a que se aplica.
Portanto não se deve olhar para as relações que as coisas têm com o espirito e com o corpo, para julgar da sua virtude, pois essas relações são de reduzida importância. A vontade de Deus é que dá às coisas, sejam elas quais forem, a eficácia para formar Jesus Cristo no fundo dos nossos corações. Portanto não se devem dar leis nem traçar limites a esta vontade, pois ela é omnipotente.
Tenha o espírito as ideias que lhe aprouver, sinta o corpo aquilo que puder, mesmo que para o espirito não fossem senão distrações e perturbações e para o corpo doenças e mortes, sem embargo, esta divina vontade é sempre, para o momento presente, a vida do corpo e da alma; porque enfim, um e a outra, em qualquer estado que estejam são por ela sempre sustentados e conservados. Sem ela, o pão é veneno; por ela, o veneno é remédio salutar. Os livros sem ela não fazem senão cegar, e por ela a perturbação torna-se luz. Ela é para todas as coisas, tudo o que nelas há de bondade e de verdade. Ela dá-nos Deus em tudo, e Deus é o ser infinito que tem o lugar de tudo na alma que o possui.
CAPITULO VI
O espírito e os outros meios humanos não são úteis senão enquanto servem de instrumento à ação divina
O espírito, com tudo o que dele depende, quer ocupar o primeiro lugar entre os meios divinos; mas é necessário relegá-lo para o último lugar, como um escravo perigoso. O coração simples, se o sabe utilizar, pode alcançar no seu uso grandes vantagens; mas também pode prejudicar muito, se não está dominado. Quando a alma anela pelos meios criados, a ação divina diz ao coração que Ela lhe basta; quando em má hora a ela quer renunciar, a ação divina diz-lhe que se trata de instrumentos que por si mesmos não se devem abraçar nem rejeitar, mas que se devem receber dela e amoldar com 'simplicidade à ordem de Deus, usando de tudo como se não se usasse, estando privado de tudo como se nada lhe faltasse.
A ação divina, como plenitude que é sem limites, não pode apoderar-se duma alma senão enquanto essa alma está vazia de toda a confiança na sua própria ação, porque esta confiança é uma plenitude encoberta que exclui a ação divina.
O obstáculo mais próprio para a deter é o que a alma encontra em si mesma; porque os obstáculos exteriores, esses sabe ela, quando lhe apraz, transformá-los em meios. Tudo lhe é igualmente próprio e tudo lhe é igualmente inútil. Sem ela, tudo é nada, e o nada é tudo por ela. Meditação, contemplação, orações vocais, silêncio interior, atos das potências, sensíveis ou distintos ou menos percebidos, retiro ou ação, sejam em si mesmos o que se quiser; o melhor de tudo isso para a alma, é o que Deus quer no momento presente; e tudo isso a alma deve olhar com uma perfeita indiferença, como não sendo absolutamente nada.
Assim, não vendo senão a Deus em todas as coisas, deve tomá-las e deixá-las todas ao divino arbítrio, para não viver nem se alimentar, nem esperar senão na sua ordem, e não nas coisas que só por Ele têm força e virtude. A cada momento e a respeito de todas as coisas, deve dizer como o Apóstolo S. Paulo: «Senhor, que quereis que eu faça?» E não isto, nem aquilo, mas simplesmente: «tudo o que Vós quiserdes». O espírito prefere isto, o corpo aquilo; mas eu Senhor não desejo se não a vossa santíssima vontade. Ação, contemplação, oração vocal ou mental, em atos ou em silêncio, em fé ou em luz, em distinção de espécies ou em graça geral: tudo isso, ó meu Deus, nada é, porque só a vossa vontade é que a tudo isso comunica virtude. Só ela é o ponto central da minha devoção, e não as outras coisas, por mais elevadas e sublimes que sejam, porque a perfeição do coração e não a do espírito é que é o termo da graça.
A presença de Deus que santifica as nossas almas é essa habitação da Santíssima Trindade que penetra no intimo dos nossos corações, quando eles se submetem à divina vontade: porque a presença de Deus, que se faz pelo ato de contemplação, não opera em nós essa união intima senão como as outras coisas que são da ordem de Deus. Portanto, ocupa o primeiro lugar entre elas, porque é o meio excelente de união a Deus, quando a divina vontade ordena que se lance mão dela.
Na estima e no amor que temos à contemplação e aos outros exercícios de piedade, nada há que não seja legítimo, contanto que essa estima e esse amor se eleve totalmente ao Deus infinitamente bom, que se digna de servir-se desses meios para dar-se às nossas almas. Recebemos a um príncipe, recebendo o seu séquito. E seria fazer-lhe injúria não demonstrar afeto algum aos seus oficiais, sob pretexto de o possuir só a ele.
CAPITULO VII
Não há paz estável senão só na submissão à ação divina
A alma que não adere exclusivamente à vontade de Deus, não encontrará nem satisfação nem santificação nos mais diversos meios e nos diversos exercícios de que possa lançar mão, por mais excelentes que eles sejam.
Se o que o próprio Deus escolhe para vós, não vos satisfaz, que outra mão que não seja a Sua poderá servir-vos à medida dos vossos desejos? Se mostrais desagrado do alimento que a própria vontade divina vos preparou, que outro manjar não será insipido a um paladar tão estragado?
Uma alma não pode verdadeiramente ser alimentada, fortalecida, purificada, enriquecida e santificada, senão por esta plenitude do momento presente. Que mais queres portanto? Se nele encontras todos os bens, porque buscá-los noutra parte? Ou é que tu entendes as coisas melhor do que Deus? Se Ele ordena que sejam assim, como desejar que fossem de outro modo? Porventura se engana a sua divina sabedoria e a sua divina bondade? E se a bondade e sabedoria de Deus dispõem uma coisa, não deves estar plenamente convencido de que é excelente? Ou é que pensas encontrar a paz, pondo-te em luta com o Omnipotente? Pelo contrário, não é verdade que esta luta que tantas vezes renovamos, sem quase o confessarmos a nós mesmos, é a verdadeira causa de todas as nossas agitações?
Com efeito, é justo que a alma que se não encontra satisfeita pela plenitude divina do momento presente, seja castigada com a incapacidade de encontrar contentamento em qualquer outra coisa. Se os livros, os exemplos dos santos e os tratados espirituais privam da paz; se enchem mas não saciam, é sinal de que nos desviamos do puro abandono à ação divina e a enchemos dessas coisas como se lhe pertencessem. A sua plenitude, nesse caso fecha a entrada a Deus, e é preciso despojar-se dela como de um obstáculo à graça.
Mas quando a ação divina ordena essas coisas, a alma recebe-as como o resto, isto é como ordem de Deus. Deixa-as tais quais são, não tomando delas senão simplesmente o uso, para se manter fiel; e desde que a hora dos pensamentos passou, abandona-os para se contentar com o momento seguinte. É que de facto, nada há de bom para mim, a não ser a ação emanada da ordem de Deus. Nem posso encontrar noutra parte meio algum, por melhor que seja em si mesmo, mais apropriado para a minha santificação e mais apto para me dar a paz.
CAPITULO VIII
A perfeição das almas e a excelência dos diversos estados medem-se pela fidelidade à ordem de Deus
A. ordem de Deus confere a todas as coisas, a respeito da alma que com ela se conforma, um valor sobrenatural e divino. Tudo o que essa ordem prescreve, tudo o que contém, todos os objetos aos quais ela se estende, tornam-se perfeição e santidade, porque a sua virtude não tem limites e diviniza todas as coisas em que toca.
Mas para não se desviar nem para a direita nem para a esquerda, a alma precisa de não seguir inspiração alguma que julgue recebida de Deus, antes de se ter certificado de que essa inspiração não se afasta dos deveres do seu estado. Estes deveres são a manifestação mais certa da ordem de Deus, e nada lhes deve ser anteposto; neste ponto nada há a temer, nada a excluir nem distinguir. Os momentos consagrados ao cumprimento dos próprios deveres são para a alma os mais preciosos e os mais salutares, por isso mesmo que lhe dão a segurança indubitável de que se conforma com o beneplácito de Deus.
Toda a virtude do que se chama santo reside nesta ordem de Deus; e assim nada se deve rejeitar sem procurar conhecê-la, mas antes abraçar tudo o que venha da sua parte, e nada sem ela. Os livros, os conselhos dos sábios, as orações vocais, os afetos interiores, se a ordem de Deus os prescreve, tudo isso instrui, tudo dirige e une. Erra o quietismo, ao desdenhar esses melos e tudo o que é sensível, porque há almas que Deus quer fazer seguir sempre por esse caminho, o qual os seus estados e as suas inclinações traçam claramente. Em vão se imaginam outras formas de abandono das quais esteja excluída toda a atividade própria; quando a ordem divina é que move a alma, está em ação a santidade.
Além dos deveres impostos a cada um pelo próprio estado, Deus pode ainda pedir certas ações que não estão contidas nesses deveres, conquanto não lhe sejam opostas. A inclinação é a inspiração são nesse caso o sinal da ordem divina; e o mais perfeito para as almas que Deus assim conduz é ajuntar às coisas prescritas as coisas inspiradas, mas com as precauções que a inspiração exige para não lesar os deveres de estado nem as coisas de pura Providência.
Deus forma os santos como bem lhe apraz; a sua ordem é que os faz a todos e todos devem ser sujeitos a esta ordem; esta sujeição é o verdadeiro abandono, é o que há de mais perfeito.
O cumprimento dos deveres de estado e a aceitação das disposições da Providência é o património comum de todos os santos. Vivem escondidos na obscuridade, para evitar os funestos escolhos do mundo; mas não é nisso que fazem consistir a própria santidade, a qual toda se resume na submissão à ordem de Deus. Quanto mais esta submissão se torna absoluta, tanto mais eles se santificam. Não se deve pensar que aqueles em quem Deus faz brilhar as virtudes por meio de ações singulares e extraordinárias, por inclinações e inspirações não suspeitas, vão por isso menos pelo caminho do abandono.
Uma vez que a ordem de Deus lhes impõe como um dever estas obras esplendorosas, eles não se abandonariam a Deus e à sua santíssima vontade, e esta não seria neles a senhora de todos os seus momentos e todos os seus momentos não seriam vontade de Deus, se se contentassem com os de veres do próprio estado e com as coisas de pura Providência. Têm de estender-se e medir-se pela extensão dos desígnios de Deus neste caminho que lhes é assinalado pela inclinação. A inspiração deve ser para eles um dever, ao qual têm de permanecer fiéis. E como há almas cujo dever é totalmente marcado por uma lei exterior, em que se devem encerrar porque a ordem de Deus as encerra nele, é necessário que as outras, além do dever exterior sejam também fiéis a essa lei interior que o Espírito Santo lhes grava no coração.
Mas quem são os mais santos? Querer sabê-lo é curiosidade vã. Cada um de nós deve seguir o caminho que lhe foi traçado. A perfeição consiste em submeter-se à ordem de Deus e em nada deixar escapar do que nela se encontra de mais perfeito. A comparação dos diversos estados considerados em si mesmos não nos ajuda nada a adiantar no caminho da perfeição, pois não é na quantidade nem na qualidade das coisas previstas, que se deve buscar a santidade. Se o amor próprio é o princípio das nossas ações, ou se não é retificado quando nos damos conta das suas investigações e curiosidades, seremos sempre pobres numa abundância que não é repleta pela ordem de Deus.
Contudo para de algum modo decidir a questão, penso que a santidade corres ponde ao amor que temos ao beneplácito de Deus; e que quanto mais esta vontade e esta ordem forem amadas, seja qual for a ação material que elas prescrevam, tanto mais santidade haverá. E' isto é o que vemos em Jesus, Maria e José, pois na sua vida particular há mais amor do que magnificência, e mais forma do que matéria; nem se escreve de pessoas tão santas, que tenham procurado a santidade das coisas, mas unicamente a santidade nas coisas.
Deve portanto concluir-se que não há caminho particular que seja o mais perfeito; mas que o mais perfeito, em geral, é a submissão à ordem de Deus quer no cumprimento dos deveres exteriores quer nas disposições interiores. Julgo que se as almas que tendem seriamente para a santidade fossem instruídas sobre este modo de proceder que devem observar, evitariam muitas dificuldades.
E isto digo, quer das pessoas do mundo quer das que abraçaram a vida religiosa. Se as primeiras soubessem o mérito escondido no que em cada instante têm entre mãos, isto é nas suas obrigações de cada dia, e nos deveres ordinários do próprio estado; se as segundas chegassem a persuadir-se que o fundo da santidade consiste nas coisas de que não fazem caso e que consideram mesmo como sendo-lhes estranhas; se estas duas classes de pessoas compreendessem que para se elevarem ao mais alto grau de perfeição, as cruzes providenciais que o próprio estado lhes proporciona a cada instante, lhes abrem um caminho bem mais seguro e mais breve do que os estados e as obras extraordinárias; e que a verdadeira pedra filosofal é a submissão à ordem de Deus, que transforma em oiro todas as suas ocupações, os seus desgostos e os seus sofrimentos, ó como seriam felizes.
Quanta consolação e quanta coragem tirariam deste pensamento, que para abraçar a amizade de Deus e todas as glórias do céu, não têm que fazer mais nada do que fazem nem sofrer mais nada do que sofrem; e o que deixam perder e têm em conta de nada, bastaria para conseguir uma santidade eminente!
Quanto eu desejaria, ó meu Deus, ser o arauto desta santa vontade, e ensinar a toda a classe de pessoas que não há nada tão fácil, nem tão comum, nem que esteja tanto à mão de toda a gente, como a santidade. O como eu desejaria fazer compreender bem, que assim como o bom e o mau ladrão não tinham coisas diferentes que fazer ou sofrer para ser santos, assim duas almas, uma das quais é mundana e a outra toda interior e espiritual, não têm que fazer ou sofrer mais uma do que a outra. A que se santifica adquire a eterna felicidade, fazendo com submissão à vossa vontade, aquilo mesmo que faz por fantasia aquela que se condena; e esta última condena-se sofrendo com amargura e murmuração o que suporta com resignação aquela que se salva. O que é diferente, portanto, é só o coração.
O queridas almas que ledes estas palavras, olhai que não vos há de custar mais fazer o que fazeis, sofrer o que sofreis; só tendes que mudar o coração.
E pelo coração entende-se a vontade, Esta mudança consiste, pois, em amar com a vontade aquilo que nos sucede por ordem de Deus. A santidade é simplesmente um fiat, uma disposição de vontade conforme à vontade de Deus; haverá coisa mais fácil? De facto, quem não pode amar uma vontade tão amável e tão boa? Amemo-la, pois; e este amor bastará para tudo em nós se tornar divino.
CAPITULO IX
Todas as riquezas da graça são fruto da pureza do coração e do perfeito abandono
Quem, pois, quer gozar da abundância de todos os bens, não tem senão que fazer uma coisa: purificar o coração, desapegar-se, das criaturas e abandonar--se inteiramente a Deus. Nesta pureza e neste abandono encontrará todas as coisas. Senhor, peçam-vos embora os outros toda a espécie de dons, multipliquem as palavras e as orações; quanto a mim, ó meu Deus, não vos peço senão uma só coisa, não tenho senão esta petição a fazer-vos: Dai-me um coração puro! Ó coração puro como sois feliz. Pela viveza da vossa fé, vedes a Deus em si mesmo.
Vede-lo em todas as coisas e a todo o momento, agindo dentro e fora de vós. Em tudo lhe estais sujeito e em tudo se serve de vós. A maior parte das vezes não pensais nisso; mas pensa Ele por vós. O que por Sua ordem vos acontece e deve acontecer-vos, basta que vós o desejeis, pois ele conhece perfeitamente a disposição da vossa alma. Em vão procurais descobrir em vós este desejo e não o conseguíeis. Mas Ele vê-o muito bem. Como sois demasiado simples! Acaso ignorais o que é um coração bem disposto? Não é outra coisa senão um coração onde Deus se encontra. Vendo nesse coração as suas próprias inclinações, Deus sabe muito bem que permanecerá sempre inteira mente submetido às suas ordens. Sabe ao mesmo tempo, que vós não conheceis aquilo que vos é útil; e por isso toma o cuidado de vo-lo dar.
Que importa se vos contraria? Vós pensáveis ir para o oriente, Ele conduz-vos para o ocidente. Vós ireis diretos contra os escolhos, Ele volta o leme e conduz-vos ao porto. Sem conhecimento nem de mapa nem de caminho, nem de vento nem de maré, as vossas viagens são sempre felizes. Se os piratas se aproximam de vós, um pé de vento inesperado leva-vos num instante para longe do seu alcance.
O boa vontade, ó coração puro! Como Jesus soube marcar o lugar que vos é próprio, ao colocar-vos entre os bem-aventurados. Que maior felicidade do que possuir a Deus e ser d'Ele reciprocamente possuído. Estado delicioso e cheio de encantos, em que a alma dorme sossegadamente, reclinada no seio da Providência; brincando, por assim dizer, inocentemente com a divina Sabedoria, sem preocupações a respeito da sua carreira, a qual não sofre interrupção de nenhum género e por entre cachopos e piratas e no meio de contínuas tempestades, vai decorrendo sempre com a maior felicidade do mundo!
Ó coração puro! Ó boa vontade! Vós sois o único fundamento de todos os estados espirituais! A vós é que foram dados e por vós é que à alma aproveitam os dons de pura fé, pura esperança, pura confiança e puro amor. No vosso tronco é que estão enxertadas as flores do deserto, isto é as graças preciosas que não se veem brilhar senão nessas almas inteiramente desprendidas, nas quais Deus como em lugar não habitado constitui a sua morada, com exclusão de qualquer outro objeto. Vós sois a fonte fecunda donde partem todos os arroios que vêm regar os canteiros do esposo e o jardim da esposa.
Vós tendes, com razão, o direito de dizer a todas as almas: «Fixai-vos bem em mim; eu é que produzo o belo amor, esse amor que sabe discernir o que há de melhor, para ai se fixar; eu é que faço nascer esse temor suave e eficaz, que produz o horror ao mal e o faz evitar sem perturbação; eu é que faço brotar esses conhecimentos belos e puros, que nos descobrem as grandezas de Deus e o valor da virtude que O honra; enfim, é de mim que se elevam os ardentes desejos, animados sem cessar por uma esperança a todas as luzes santa, que leva à prática constante do bem, esperando firmemente a posse desse divino objeto que um dia há de fazer, como agora, mas muito mais deliciosamente, a felicidade das almas fiéis».
Vós podeis convidá-las todas a que venham a vós, para se enriquecerem dos vossos inesgotáveis tesouros. A vós remontam todos os estados e todos os caminhos do espírito. De vós haurem o que têm de belo, de atraente, de encantador; das vossas profundezas o tiram. Os frutos maravilhosos de graças e de virtudes de toda a espécie que neles se veem brilhar de todas as partes, e de que a alma ai se alimenta, são produto dos vossos canteiros.
Ela pois, queridas almas, corramos, voemos a este mar de amor que chama por nós. Que esperamos? Ponhamo-nos a caminho sem demora; vamos perder-nos em Deus, no seu próprio Coração, para nos inebriarmos da sua caridade. Nesse Coração encontraremos a chave de todos os tesouros celestes. Tomemos depois o caminho do céu. Não haverá lugar, por mais secreto, onde não possamos penetrar; nada estará fechado para nós: nem o jardim, nem a dispensa, nem a vinha. Se pretendermos respirar o ar do campo, de nós dependerá dirigir para aí os nossos passos. Enfim, iremos e viremos, entraremos e ficaremos, a nosso belo prazer, com esta chave de David, esta chave da ciência, esta chave abismo em cujas profundezas se encontram escondidos todos os tesouros ocultos da Sabedoria divina.
Com esta chave divina se abrem as portas da morte mística e das suas trevas sagradas; por meio dela se desce aos lagos profundos e à caverna dos leões. Ela é que nos introduz nessa feliz mansão da inteligência e da luz, onde o Esposo descansa respirando o ar fresco do meio dia e revela às suas fiéis esposas os segredos do seu amor. O divinos segredos que não é permitido revelar e que lábios mortais não são capazes de exprimir.
Amemos, pois, ó almas queridas! É pelo amor que esperam todos os bens, para nos enriquecer. O amor dá a santidade e tudo o que a acompanha; está ao seu lado direito e ao seu lado esquerdo, para de todas as partes a fazer descer aos corações abertos a todas as efusões divinas. O divina semente de eternidade! Nunca seremos capazes de vos exaltar quanto devemos. Mas para que falar canto de vós? Mais vale possuir-vos em silêncio do que louvar-vos com simples palavras.
Mas que digo? Devemos louvar-nos, porém não o poderemos fazer senão na medida em que estivermos possuídos de vós. Porque em vós tomando posse dum coração, o ler, escrever, falar ou agir ou fazer o contrário, é para ele uma e a mesma coisa. Nada se busca e nada se rejeita; vive-se na solidão ou exerce-se o apostolado; goza-se de saúde ou sofre-se de doença; há simplicidade ou eloquência; numa palavra somos o que vós quiserdes que sejamos. O que vós sugeris ao coração, o coração como eco fiel repete-o às outras faculdades.
Neste composto material e espiritual que vós bondosamente considerais como vosso reino, é o coração que sob os vossos auspícios, reina e domina como senhor; e como não tem outros instintos senão os que vós lhe inspirais, todos os objetos lhe agradam sob o aspecto que lhes ofereceis. Os que a natureza ou o inimigo quereriam substituir em lugar deles, não servem senão para causar-lhe repulsa e horror; e se vós permitis que por vezes se encontre surpreendido neles, é unicamente para o fazer mais prudente e mais humilde; mas logo que reconhece a ilusão de que foi vitima, torna a vós com mais amor e une-se a vós com mais fidelidade.